Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Internacional - Obesidade estabiliza e até diminui em vários países, aponta estudo epidemiológico global

Análise mundial desde 1980 - que conta com a participação de investigadores da Universidade de Coimbra - revela desaceleração histórica na Europa Ocidental, incluindo Portugal, mas alerta para o aumento do problema em regiões desfavorecidas


Um estudo internacional publicado na revista Nature, que conta com o contributo de investigadores da Universidade de Coimbra (UC), revela que a evolução da obesidade a nível global mostra sinais de estabilização e até de possível inversão em vários países de elevado rendimento, após décadas de crescimento acelerado.

A investigação, liderada pelo NCD Risk Factor Collaboration (NCD-RisC) em parceria com a Imperial College London, analisou a evolução da obesidade em 200 países e territórios entre 1980 e 2024, com base numa das mais abrangentes bases de dados epidemiológicos alguma vez reunidas nesta área, integrando informação proveniente de milhares de estudos populacionais e de centenas de milhões de participantes.

Os resultados mostram que, após um aumento rápido e sustentado da prevalência da obesidade ao longo das últimas décadas do século XX, observa-se um abrandamento claro desse crescimento na maioria dos países de elevado rendimento. Em diversos contextos, verifica-se mesmo uma estabilização das taxas e, em alguns casos, sinais de diminuição, particularmente entre crianças e adolescentes, com reflexos posteriores nas populações adultas. Entre os países onde estas tendências são mais evidentes incluem-se alguns exemplos da Europa Ocidental, como Portugal, França e Itália.

Segundo os autores, estes padrões sugerem que a ideia de uma “epidemia global de obesidade” pode ser uma simplificação excessiva, na medida em que esconde trajetórias muito distintas entre países e regiões, influenciadas por fatores sociais, económicos e, em particular, pela disponibilidade e acessibilidade a alimentos saudáveis.

Apesar destes sinais encorajadores em alguns contextos, o estudo sublinha que a obesidade continua a aumentar de forma consistente em muitos países de baixo e médio rendimento, com especial incidência em várias regiões de África, Ásia, América Latina e em ilhas do Pacífico e das Caraíbas, evidenciando uma forte desigualdade global na evolução deste problema de saúde pública.

Para o professor Majid Ezzati, coordenador do estudo no Imperial College London, os resultados demonstram que “o aumento da obesidade não é inevitável e pode ser travado, ou mesmo invertido, através de políticas adequadas”. Ainda assim, o investigador alerta que os níveis atuais permanecem elevados e que as desigualdades entre regiões continuam a ser muito significativas.

Na mesma linha, Aristides Machado-Rodrigues, co-autor do estudo e investigador do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e docente da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da UC, sublinha que “analisar não apenas a prevalência, mas também a velocidade de mudança da obesidade ao longo do tempo, permite identificar com maior precisão os contextos onde são necessárias intervenções mais urgentes, nomeadamente através de políticas públicas robustas nas áreas da saúde e da alimentação, capazes de acompanhar as transições económicas, tecnológicas e nutricionais em curso”.

O trabalho contou ainda com a participação de outros docentes e investigadores da UC, nomeadamente Cristina Padez e Daniela Rodrigues, da FCTUC, Helena Nogueira, da Faculdade de Letras, e Luísa Macieira, Lélita Santos e Anabela Mota-Pinto, da Faculdade de Medicina. Universidade de Coimbra - Portugal


quarta-feira, 1 de abril de 2026

Índia - Vai combater a obesidade com injecções genéricas e baratas

Uma onda de medicamentos para emagrecer está prestes a transformar a luta global contra a obesidade, com a Índia a preparar-se para lançar versões genéricas de baixo custo de injecções como o Ozempic. A medida irá alargar drasticamente o acesso a tratamentos que há muito são considerados um luxo, especialmente nos países de rendimento médio, onde a crescente procura destes medicamentos choca com os preços elevados.


Nas clínicas de toda a cidade de Bombaim, os médicos notam um aumento do número de pacientes. Mais de 50 pessoas procuram o consultório do endocrinologista Nadeem Rais todas as semanas em busca de injecções para emagrecer.

“Temos cerca de 70 a 80 doentes em tratamento activo neste momento. Quando os genéricos forem lançados e os preços descerem, este número poderá facilmente chegar aos 200”, disse.

Segundo a sua colega, a Dra. Sunera Ghai, a procura é “muito elevada”, mas muitos “provavelmente não estão a consumir porque, neste momento, é realmente um artigo de luxo”.

A descoberta surge após a expiração da patente da semaglutida – princípio activo de medicamentos como o Ozempic e o Wegovy – na Índia, maior fornecedor mundial de medicamentos genéricos. Até ao final de 2026, as principais patentes da semaglutida expirarão em 10 países que representam 48% da carga global de obesidade, de acordo com um estudo publicado no início de Março por investigadores. Estes países incluem Brasil, China, África do Sul, Turquia e Canadá.

Para os gigantes farmacêuticos indianos, isto marca o início de uma nova e agressiva corrida. Pelo menos quatro grandes empresas já prepararam injecções genéricas de semaglutida, de acordo com os registos regulamentares e os documentos de conformidade.

Algumas, incluindo a Zydus Lifesciences, anunciaram lançamentos “no primeiro dia”, sugerindo que as versões genéricas poderão estar disponíveis já esta semana na Índia.

A empresa de estudos Pharmarack estima que o mercado indiano será em breve inundado de opções. “Mais de 50 marcas serão lançadas no mercado e mais de 40 empresas estarão a lançar estes medicamentos”, disse Sheetal Sapale, vice-presidente da Pharmarack.

O momento coincide com a mudança do panorama da saúde na Índia. Embora, segundo a Organização Mundial de Saúde, o país ainda represente um terço da subnutrição mundial, o aumento dos rendimentos e o estilo de vida urbano impulsionaram drasticamente as taxas de obesidade. Dados governamentais divulgados em Março de 2025 mostram que 24% das mulheres e 23% dos homens têm excesso de peso ou são obesos na Índia.

“Quando uma pessoa começa a ganhar dinheiro, torna-se mais sedentária”, disse o cirurgião Sanjay Borude, assinalando que “em contraste, no Primeiro Mundo, quando as pessoas ganham mais dinheiro, tornam-se mais activas e também dedicam mais tempo à saúde”.

Esta inversão da dinâmica económica tem sido muito benéfica para grandes empresas farmacêuticas como a Eli Lilly e a Novo Nordisk, que têm lucrado bastante com o mercado.

As vendas de medicamentos para emagrecer na Índia cresceram 10 vezes em cinco anos, atingindo 153 milhões de dólares em 2026, e a projecção é de que ultrapassem os 500 mil milhões até 2030.

Mas o uso destes medicamentos pode causar efeitos secundários, incluindo náuseas e problemas gastrointestinais. O Mounjaro, da Eli Lilly, tornou-se o medicamento mais vendido na Índia em 2025, ultrapassando mesmo os antibióticos comuns.

Ainda assim, os preços elevados – frequentemente entre 15.000 e 22.000 rupias (1300 a 1900 patacas) por mês – limitam o acesso, afirma a Dra. Swati Pradhan, que gere uma clínica de emagrecimento em Bombaim e que prevê um aumento do número de doentes quando os genéricos reduzirem o custo do tratamento para perto de 5000 rupias por mês.

O impacto internacional pode ser ainda mais profundo. A Índia fornece mais de metade dos medicamentos genéricos de África, e a semaglutida mais barata pode tornar-se uma tábua de salvação para os países onde a obesidade está a aumentar rapidamente.

“A semaglutida a um custo mais baixo pode expandir significativamente o acesso a um tratamento eficaz, particularmente nos países de rendimento médio, onde o preço tem sido uma grande barreira”, afirmou Simon Barquera, presidente da Federação Mundial da Obesidade, observando que “os medicamentos genéricos são um passo importante para quebrar a barreira de acesso, agora que a barreira científica foi ultrapassada”.

As empresas indianas serão uma força motriz fundamental, com a Reddy’s Laboratories a planear lançar a sua versão da semaglutida no Canadá até Maio de 2026.

Para doentes como Sukant Mangal, de 46 anos, que perdeu quase 14 kg em oito meses, um acesso mais alargado ao medicamento não podia chegar em melhor altura. Muitas pessoas que ele conhece simplesmente abandonaram o tratamento a meio quando perceberam que teriam de gastar 20.000 rupias por mês durante sete a oito meses.

“Se fosse mais barato, teria sido muito mais fácil obter o medicamento”, concluiu à agência AFP. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “AFP”


segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

América - Número de diabéticos triplica em 30 anos, aponta novo relatório da Opas

Crescimento está associado ao aumento dos fatores de risco, como a obesidade, segundo a organização internacional

O número de diabéticos triplicou nos últimos 30 anos na América, mostra um novo relatório da Organização Panamericana da Saúde (Opas). Segundo o documento, o aumento está relacionado ao crescimento dos fatores de risco, como altas taxas de obesidade, falta de atividade física e uma maior aderência a dietas poucos saudáveis.

"Nossa preocupação é o crescimento da doença não só entre adultos, mas também nos jovens, algo que antes era raro", diz o médico Levimar Araújo, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes. Atualmente, dois terços dos adultos no continente estão com sobrepeso ou são obesos. Além disso, cerca de 40% não segue uma rotina de atividade física. Entre os jovens, 30% estão acima do peso.

"Observamos que as pessoas estão mais sedentárias, com uma alimentação menos regrada. Acho que há muito desconhecimento sobre esses riscos", afirma o especialista. O documento da Opas reafirma a necessidade de prevenção e promoção de um estilo de vida saudável, além de um diagnóstico precoce e um controle da doença para prevenir complicações.

Ao contrário do diabetes tipo 1, que não pode ser prevenido pois há uma falha do pâncreas em produzir insulina, no diabetes tipo 2 os hábitos de vida têm grande impacto no desenvolvimento da doença. O corpo se torna resistente a esse hormônio, ou não produz em quantidade suficiente. Daí a importância de manter uma dieta saudável, peso adequado e praticar atividade física.

Doença subdiagnosticada

Hoje, há cerca de 62 milhões de diabéticos nas Américas. No entanto, a estimativa é que o número seja ainda maior, pois 40% desconhecem o diagnóstico.

Muitos países do continente não possuem em seu serviço público de saúde equipamentos básicos, como os utilizados para medir a glicemia ou diagnosticar corretamente as complicações. A doença é a sexta causa de morte nas Américas e a segunda causa de problemas como cegueira, amputações e doença crônica renal. Além disso, o diabetes triplica o risco de morte por doença cardiovascular. Gabriela Cupani – Brasil in “247” com “Agência Einstein”


segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Portugal - Projeto da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto sobre cancro de mama e obesidade vence bolsa de investigação

Projeto distinguido pela LPCC e pela Ausonia pretende alcançar estratégias terapêuticas específicas para doentes obesos com cancro de mama


Um projeto sobre as alterações metabólicas no cancro de mama no doente obeso, que está a ser liderado por Carla Luís, investigadora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), foi recentemente distinguido com uma bolsa de investigação no valor de 13500 euros pela Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) e a Ausonia.

Focado na identificação das diferenças metabólicas existentes em pacientes com cancro de mama obesos e com peso normal, este projeto está a ser realizado no âmbito da colaboração entre um grupo de investigadores da FMUP e o Instituto Português de Oncologia do Porto Francisco Gentil, EPE (IPO-Porto).

“O nosso grupo analisou mais de 2 mil doentes com cancro de mama diagnosticados no IPO-Porto e os resultados preliminares demonstraram diferenças significativas em doentes com diferentes índices de massa corporal”, revela Carla Luís, estudante do Programa Doutoral em Metabolismo – Clínica e Experimentação da FMUP, a desenvolver a sua investigação no grupo «Metabesity» do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da U.Porto.

Os dados mostram, por exemplo, que os doentes com cancro de mama e obesidade são diagnosticados numa idade mais tardia e que têm frequentemente menos história familiar de cancro. Observam-se também diferenças no estádio do tumor, na incidência de cancro bilateral, no tipo de cirurgias, entre outras.

Identificar terapias específicas

De acordo com os autores, o cancro e a obesidade são duas patologias intimamente ligadas, sendo o cancro de mama um dos tipos de cancro mais influenciado pela obesidade.

Face ao aumento da obesidade e da incidência crescente do cancro de mama, “é necessária uma abordagem mais incisiva acerca dos efeitos da obesidade neste tipo de cancro por parte da comunidade científica”, constata Carla Luís, que é também licenciada em Biologia pela Faculdade de Ciências (FCUP) e mestre em Medicina e Oncologia Molecular pela FMUP.

Com este projeto, os investigadores acreditam que poderão ser identificados mecanismos metabólicos que caracterizem os doentes de cancro de mama com excesso de peso e obesidade, “podendo estes beneficiar de estratégias terapêuticas específicas dirigidas às alterações metabólicas, e distintas dos doentes com peso normal”.

Para além de Carla Luís, integram ainda esta equipa de investigação os cientistas Raquel Soares (FMUP/ i3S), Rúben Fernandes (Universidade Fernando Pessoa), Deolinda Sousa Pereira (IPO-Porto) e Rute Fernandes (IPO Porto).

No âmbito da 4.ª edição das Bolsas de Investigação Médica LPCC/Ausonia – Cancro da Mama, esta iniciativa atribuiu ainda uma outra bolsa de investigação a um projeto do i3S sobre cancro da mama que visa melhorar o diagnóstico, tratamento e prevenção da doença metastática. Universidade do Porto - Portugal


terça-feira, 9 de março de 2021

Portugal - Combater a obesidade e o excesso de peso com a ajuda do telemóvel

Uma equipa de investigadores do Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitivo-Comportamental (CINEICC) da Universidade de Coimbra (UC), liderada por José Pinto Gouveia, desenvolveu uma aplicação móvel (app) para ajudar no combate à obesidade e excesso de peso.

A app foi desenvolvida no âmbito do projeto eBEfree, que tem como grande objetivo fornecer ferramentas e estratégias de regulação emocional que permitam às pessoas com obesidade ou excesso de peso eliminar ou reduzir significativamente os episódios de ingestão alimentar compulsiva, e aumentar a sua saúde mental e qualidade de vida.

No atual contexto da pandemia Covid-19, «especialmente com o confinamento geral no nosso país, vários estudos sugerem que o isolamento vem acompanhado de uma redução na saúde mental das pessoas. Neste sentido, o projeto eBEfree, nomeadamente pelo seu formato digital, pretende ser um contributo especialmente apropriado à situação atual», explica a equipa do projeto, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

A app eBEfree é constituída por 12 módulos, disponibilizado um por semana, que abordam diversas perspetivas do problema. «Os conteúdos para o tratamento da ingestão alimentar compulsiva, como estratégias de regulação emocional através de exercícios comportamentais e de meditação, foram desenvolvidos com recurso a vídeos de animação explicativos, exercícios áudio e vídeos de psicólogos/as da nossa equipa a abordar os temas relevantes», detalha José Pinto Gouveia, acrescentando que a aplicação inclui também um fórum de discussão, «onde os utilizadores podem colocar questões aos terapeutas (haverá sempre um terapeuta a acompanhar o funcionamento da app)».

Para testar e validar a eficácia da aplicação, a equipa está a solicitar a colaboração de pessoas de todo o país, com idades compreendidas entre os 18 e 55 anos, com excesso de peso e ingestão alimentar compulsiva, e que possuam um smartphone ou tablet com acesso à internet. Os voluntários que pretendam participar no estudo devem contactar a equipa de investigação através do endereço eletrónico: ebefree@uc.pt.

A participação no estudo envolverá uma entrevista inicial, via zoom, para avaliar os critérios de elegibilidade, o preenchimento de uma bateria de questionários online e a utilização da aplicação móvel.

O eBEfree resulta de um estudo anterior cujos resultados evidenciaram que «estas ferramentas de regulação emocional e promoção de saúde mental são eficazes quando implementadas presencialmente em formato grupal. O que pretendemos com o eBEfree é alargar esse estudo para chegar a todo o território nacional, com todas as vantagens de uma aplicação móvel», conclui José Pinto Gouveia.

Mais informação sobre o projeto está disponível em: https://ebefree.uc.pt/. Universidade de Coimbra - Portugal

 

terça-feira, 2 de junho de 2020

Portugal - Utilização de subprodutos da couve-brócolo para combater a obesidade

O projeto VALORIZEBYPRODUCTS está a aliar a exploração de subprodutos dos brócolos aos benefícios da saúde humana. O objetivo é valorizar os subprodutos de Brássicas (couve-galega, couve-brócolo, couve-flor) e explorá-los na forma de suplemento alimentar para a prevenção ou tratamento da obesidade e, ainda, reduzir a quantidade e custos de produção de resíduos derivados destas culturas.

Os brócolos são reconhecidos como uma “fonte de nutrientes saudáveis”, pelo que este projeto pretende valorizar os subprodutos na forma de suplementos dietéticos.

“Neste estudo serão feitos ensaios preliminares em culturas de células para testar e perceber quais os componentes dos subprodutos dos brócolos que melhor podem ajudar no combate à obesidade. O componente que considerarmos mais promissor será inserido numa ração que será testada num modelo animal de obesidade”, explica Eduardo Rosa, Investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e Coordenador do projeto.

Acrescenta ainda que os subprodutos resultantes da colheita de plantas do género Brássica podem ser uma boa fonte de compostos bioativos, pelo que acredita que estes podem ser explorados e utilizados como um “extrato com potencial atividade biológica para prevenir ou retardar o início dos diversos processos patológicos associados à obesidade e respetivas comorbidades”.

O investigador refere também que estudos pré-clínicos mostram que estes compostos têm efeitos benéficos no tratamento de outras doenças, incluindo a diabetes e o cancro, pelo que querem agora testar os mesmos para o combate à obesidade.

Esta investigação tem ainda um segundo objetivo que passa pelo estímulo da economia circular, já que os subprodutos resultantes da indústria agroalimentar são tratados como resíduos industriais, os quais têm “impacto económico e ambiental negativos”. Por esse motivo, nos últimos anos, a investigação tem-se focado na “transformação de subprodutos gerados no processamento de frutas e vegetais em vários produtos de valor acrescentado”, sublinha o responsável.

Em 2018, mais de 4,6 milhões de toneladas de Brássicas foram produzidas na União Europeia e mais de 137 mil em Portugal, o que representa grandes quantidades de subprodutos com “impacto económico e ambiental negativos”.

O VALORIZEBYPRODUCTS, liderado pela UTAD, é financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) através do COMPETE 2020 – Programa Operacional Competitividade e Internacionalização (POCI)] no valor de 235.948,90€, e tem a duração de três anos. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro - Portugal

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Portugal - Estudo conclui que um em cada três pais interpreta mal o peso dos seus filhos

Um estudo publicado no American Journal of Human Biology revela que 32,9% dos pais interpretam mal o peso dos seus filhos, praticamente um em cada três, (30,6% subestimam e 2,3% sobrestimam).

Conduzido por Daniela Rodrigues, Aristides Machado-Rodrigues e Cristina Padez, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), o estudo teve dois grandes objetivos: analisar a concordância entre o estatuto nutricional das crianças e a perceção que os pais têm do peso delas; observar se a subestimação do peso estava de algum modo associada ao risco da criança ter excesso de peso/obesidade.

A investigação, que pretendeu ainda avaliar se a perceção que os pais têm sobre o peso dos seus filhos era influenciada por características das crianças e socioeconómicas, envolveu 793 pais e respetivos filhos (com idades compreendidas entre 6 e 10 anos).

«Verificámos que mais de 30% dos pais não identificou corretamente o estatuto nutricional dos filhos, sendo que a maior parte subestimou. A subestimação foi substancialmente maior consoante o peso dos filhos, ou seja, vários pais com filhos com excesso de peso classificaram o peso dos filhos como normal e, principalmente, pais com crianças obesas reportaram que as crianças tinham apenas um pouco de peso acima do recomendado», diz Daniela Rodrigues, primeira autora do artigo científico e investigadora do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) da FCTUC.

E é nas classes sociais mais baixas que os pais mais subestimam o peso das suas crianças, especialmente das meninas: «ter pais com menor estatuto socioeconómico e mães com excesso de peso aumenta a probabilidade de subestimar o peso dos filhos, principalmente entre as raparigas», nota a investigadora.

No que se refere ao objetivo de observar se a subestimação do peso estava de algum modo associada ao risco da criança ter excesso de peso/obesidade, os investigadores verificaram que «pais que subestimam o peso dos filhos têm 10 a 20 vezes mais probabilidade de terem filhos com excesso de peso ou obesidade, o que tem sido associado a um conjunto de problemas de saúde física e mental, não só na infância mas que permanecem na idade adulta».

Ponderando as conclusões do estudo, que foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), Daniela Rodrigues defende que «é urgente ajudar os pais a identificar corretamente o excesso de peso e a obesidade dos filhos para que possam recorrer à ajuda dos profissionais de saúde e, consequentemente, melhorar a qualidade de vida da criança».

«O primeiro passo para alterar comportamentos de risco associados à obesidade (dietas ricas em gorduras saturadas e açucares, inatividade física, comportamentos sedentários, etc.) é perceber a necessidade de alterar esses mesmos comportamentos, identificando corretamente o estatuto nutricional da criança», acrescenta.

No artigo publicado, os investigadores apresentam ainda algumas explicações para os resultados do estudo. «Os pais podem não saber identificar o que é excesso de peso ou obesidade, principalmente porque os media tendem a apresentar a obesidade no seu extremo. Por outro lado, numa altura em que a prevalência de excesso de peso e obesidade afeta cerca de um terço das crianças, os pais podem “normalizar” o excesso de peso, porque é o formato que mais encontram nas crianças que os rodeiam», afirma a Investigadora da FCTUC.

«Acreditamos ainda que a maior parte dos pais prefere não identificar a criança como tendo peso acima do recomendado por uma questão de enviesamento social, evitando os estereótipos associados ao excesso de peso e obesidade», conclui.

O artigo, intitulado “Parental misperception of their child's weight status and how weight underestimation is associated with childhood obesity”, pode ser consultado aqui. Universidade de Coimbra “Faculdade de Ciências e Tecnologia” - Portugal

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Portugal - Estudo revela que o ambiente contribui para as diferenças de género na atividade física e obesidade infantil

O ambiente local – social e construído – promove modelos de discriminação na prática desportiva infantil baseada no sexo, contribuindo bastante para a obesidade em meninas. A conclusão é de um estudo realizado por uma equipa do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC).

Trata-se de um estudo pioneiro que avalia a relação entre o ambiente e as diferenças de género na atividade física e nas taxas de prevalência da obesidade infantil.

A equipa, liderada por Helena Nogueira, começou por avaliar em que medida a atividade física influencia a prevalência da obesidade infantil por género. Foram avaliadas 2253 crianças de 19 escolas públicas e privadas do distrito de Coimbra, com idades compreendidas entre os 6 e os 11 anos (49,3% meninas e 50,7% meninos). Observou-se que as meninas apresentaram valores mais altos de excesso de peso e obesidade em comparação com os meninos (25,1% e 20,1%, respetivamente). Verificou-se, sem surpresa, que o envolvimento em práticas desportivas organizadas fora da escola é significativamente maior nas crianças do sexo masculino (73,8% nos meninos e 66,5% nas meninas). Observou-se ainda que a prática desportiva tem um impacto positivo no peso das meninas, revelando pouca influência no peso dos meninos.

Com base nestes resultados, os investigadores tentaram identificar os fatores ambientais que explicam a diferença de género na obesidade infantil. Para tal, avaliaram a oportunidade de prática desportiva no concelho de Coimbra através de um questionário realizado em ginásios, associações e clubes desportivos, entre outros, com oferta formal de atividades desportivas para a faixa etária entre os 6 e 11 anos.

«Efetuámos o levantamento das atividades disponíveis e estabelecemos três categorias de frequência - mistas, isto é, frequentadas por ambos os sexos, modalidades só frequentadas por meninas e modalidades só frequentadas por meninos – e descobrimos que a oferta é muito desequilibrada, penalizando fortemente as meninas», relata Helena Nogueira.

Ao todo responderam 33 instituições, verificando-se que a disponibilidade de atividades desportivas é discriminatória. «Das 23 modalidades identificadas, 13 apresentam frequência mista, 7 são frequentadas exclusivamente por meninos e apenas três estão voltadas para as meninas (dança, ballet e ginástica). Esta realidade prejudica as oportunidades de as meninas praticarem desporto fora da escola, o que é, só por si, uma desvantagem social», sublinha a investigadora.

Segundo a também docente do Departamento de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, as conclusões deste estudo, publicado no American Journal of Human Biology, sugerem várias reflexões: «verificou-se que a prevalência da obesidade é maior em crianças de classes sociais mais baixas, que são também as que têm menos condições de pagar atividades desportivas fora da escola. Por isso, não só é necessário criar mais oportunidades para as meninas se envolverem nos seus desportos favoritos, como também proporcionar modalidades desportivas para a frequência fora da escola a um custo que as famílias com menores condições económicas possam suportar».

Como medidas para combater a epidemia da obesidade infantil e promover a igualdade de género na prática desportiva, a investigadora preconiza, por exemplo, «a atribuição de incentivos (subsídios) de apoio às instituições que oferecerem às crianças mais pobres oportunidades de acederem à prática de desporto fora da escola; a alteração do currículo no ensino básico, introduzindo mais tempo para atividade física obrigatória».

Este estudo foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e faz parte do projeto de investigação “Desigualdades na obesidade infantil: o impacto da crise económica em Portugal de 2009 a 2015”, coordenado por Cristina Padez. Universidade de Coimbra “Faculdade de Ciências e Tecnologia” - Portugal

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Portugal - Estudo revela associação positiva entre o gene FTO e obesidade abdominal em meninas

A atividade física não modificou o efeito do gene em crianças

«Existe uma associação forte e significativa entre o polimorfismo de nucleótido simples (SNP) rs9939609 T/A do gene associado à obesidade FTO (fat mass and obesity-associated gene) e o risco de obesidade abdominal em meninas mas não em meninos», conclui um estudo publicado no American Journal of Human Biology. Esta associação positiva nas meninas é muito problemática devido ao risco da obesidade abdominal para a saúde.

A investigação foi realizada por uma equipa do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), no âmbito de um projeto sobre “Desigualdades na obesidade infantil: o impacto da crise económica em Portugal de 2009 a 2015”, coordenado por Cristina Padez, e cofinanciado pelo programa “COMPETE 2020, Portugal 2020” e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

No estudo agora publicado, a amostra foi constituída por 440 crianças portuguesas (213 meninas e 227 meninos), com idades compreendidas entre os 3 e os 11 anos, de várias escolas públicas da região Centro do país.

Pretendeu-se perceber também se a atividade física, medida objetivamente com acelerómetros, pode moderar o efeito da variante FTO rs9939609 na obesidade em crianças. «Surpreendentemente, verificámos que a prática de atividade física, seja maior ou menor, não vai atenuar a influência do gene FTO no ganho de peso corporal em crianças, ao contrário do que se verifica em adultos, como demonstrámos num estudo anterior realizado com jovens adultos portugueses», afirma Licínio Manco, especialista em genética e primeiro autor do artigo publicado.

«Isto significa que é importante incentivar a atividade física em todas as crianças, independentemente da sua suscetibilidade genética para a obesidade, pelos inúmeros benefícios para a saúde infantil», acrescenta.

Comentando as conclusões do estudo, o investigador da FCTUC entende que estes resultados devem ser consolidados em amostras maiores e em estudos longitudinais porque «existem alguns trabalhos que sugerem que a prática de atividade física pode atenuar a influência de alelos de risco para obesidade em crianças». As meninas são um grupo de maior risco por serem mais sedentárias e mais suscetíveis a ganhar peso. Universidade de Coimbra “Faculdade de Ciências e Tecnologia” - Portugal

sábado, 4 de junho de 2016

Paraguai - Estévia: milagre ou pesadelo guarani?

A estévia parece ser demasiado boa para ser real: possui virtudes antioxidantes, bactericidas, diuréticas e cicatrizantes. Mas sobretudo como uma poderosa aliada na luta contra a obesidade e o diabetes, dois crescentes flagelos da saúde mundial.

O povo guarani conhece as folhas da planta de Ka’a he’e há mais de mil anos, mas guardou o segredo zelosamente durante muitas gerações. Em língua guarani, seu nome significa “erva-doce” e é verdade: seu poder adoçante é 350 vezes superior ao do açúcar.

Para o resto do mundo é Stevia Rebaudiana Bertoni graças a um cientista suíço. “Em 1887, o sábio Moisés Bertoni identificou e classificou pela primeira vez a planta. Pouco depois, o químico paraguaio Ovidio Reubaudi definiu sua composição química. O trabalho de ambos explica o nome científico que tem hoje a Ka’a he’e”, explica Juan Barboza, presidente da Câmara Paraguaia da Estévia.

A estévia parece ser demasiado boa para ser real: possui virtudes antioxidantes, bactericidas, diuréticas e cicatrizantes. Mas sobretudo como uma poderosa aliada na luta contra a obesidade e o diabetes, dois crescentes flagelos da saúde mundial.

“É um adoçante natural que pode ser parte de uma dieta e de um estilo de vida saudáveis porque não contém nem calorias nem carboidratos e, portanto, não afeta os níveis de açúcar no sangue”, confirma Priscilla Samuel, diretora do Instituto Global da Estévia, em Oak Brook Illinois.

Essas bondades não passaram despercebidas dos gigantes do setor alimentar que adoçam com glucosídeos de esteviol (estrato de alta pureza derivado das folhas de estévia através de um processo químico) produtos como Pepsi Next ou Coca Cola Life. Na Suíça, uma gama de doces da icônica marca Ricola ou as bebidas Beodrinx.

Vítima de seu êxito

Nos anos 1970, quando a ciência começou a suspeitar que alguns edulcorantes – como o ciclamato ou a sacarina – podiam ser cancerígenos e começou a procurar substitutos. A estévia era até então uma planta desconhecida para a indústria alimentar mundial.

O Japão foi um marco de inflexão na internacionalização da Ka’a he’e. “Há cerca de 40 anos, um grupo de japoneses descobriu as vantagens da planta. Encheu um navio de estévia paraguaia e levou embora para iniciar seu cultivo local”, lembra Juan Barbosa.

Alguns anos depois, “os japoneses tiveram problemas de espaço e decidiram levar a estévia para a China, onde não havia essa restrição. Hoje a China é o maior produtor mundial, com cerca de 25.000 hectares cultivados, diante do Paraguai com menos de 2.000 hectares. Atualmente, a planta também é cultivada no Brasil, Índia, Argentina, Taiwan e México, entre outros países, mas a oferta não satisfaz a demanda.

China, líder mundial da produção de estévia





















A ‘estévia química’

Por razões sanitárias, mercados como Estados Unidos, União Europeia ou Suíça proíbem a importação de folhas de estévia, porém admitem o uso de glucosídeos de esteviol.

“O Comitê Científico da Comissão Europeia sobre Alimentação Humana concluiu que a informação disponível sobre as folhas de estévia não era suficiente para garantir ser apta ao consumo humano. Com base nos dados disponíveis, não se pode excluir riscos para a saúde humana, declara Eva van Beek, porta-voz da Secretaria Federal de Segurança Alimentar e Veterinária.

Contudo, “o extrato de alta pureza que se obtém das folhas de estévia e se utiliza em produtos alimentícios é totalmente seguro para o consumo humano, como confirma um compêndio de mais 200 estudos científicos”, segundo a Dra Samuel.

Isso explica que o valor dos alimentos e bebidas adoçados com glucosídeos de esteviol tem oscilado entre 8 e 11 bilhões de dólares em 2015, conforme estimativas da consultoria Industry ARC. São quatro vezes mais do que em 2010.

Na opinião de Juan Barbosa, a demanda crescente desequilibra o mercado, já que as multinacionais fabricam edulcorantes sintéticos que não provém da estévia, sem notificar seus clientes. “Temo-nos expressado em fóruns nacionais e internacionais que nos opomos energicamente a isso porque é uma prática enganosa que afeta seriamente os camponeses guaranis e milhares de humildes produtores de estévia em outros países latino-americanos”.

Biopirataria e direitos indígenas

Um grupo de especialistas reunidos pela ONG Declaração de Berna, a organização independente Pró Estévia Suíça, a Universidade de Hohenheim (Alemanha) e o Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Rural e Reforma Agrária (Paraguai) têm a mesma inquietude. No estudo El sabor agridulce de la stevia (2015) afirmam que as multinacionais violam os direitos indígenas.

“A Convenção sobre a Diversidade Biológica e o Protocolo de Nagoya estabelem que os possuidores de conhecimentos tradicionais têm o direito de se beneficiar deles. E a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas o confirma”, cita o texto. Ainda assim, ignora-se o direito do povo guarani a receber benefícios das vendas.

Segundo François Meienberg, porta-voz da Declaração de Berna, “o auge dos glucosídeos de esteviol iniciou uma corrida  para patentear métodos de produção através da biologia sintética, em vez de obtê-los das folhas da planta”.  Isso confunde o consumidor que acredita receber os benefícios da planta em seu estado natural. 

“Em um futuro próximo, as grandes empresas venderão ou utilizarão glucosídeos de esteviol que não dependerão em nada do cultivo de plantas de estévia. Uma das empresas de ponta nesse setor é a suíça Evolva, que trabalha em colaboração com a americana Cargill [Coca-Cola e Pepsi]”, denuncia Meienberg.

Evolva, com sede em Reinach (Basileia), confirma que vai lançar este ano um produto chamado Eversweet, cujas moléculas são idênticas às que possui a estévia.

Não é de todo ruim

Neil Goldsmith, diretor geral e cofundador da Evolva, defende seu produto como um valioso substituto do açúcar, porém sem as desvantagens da estévia e dos glucosídeos de esteviol que provocam um sabor amargo quando aumenta a concentração nos alimentos.

Será “um produto acessível e que reduzirá o impacto ambiental porque se requer menos terra, água e energia para produzi-lo”. Além disso, garante que o objetivo da Evolva substituir a estévia, mas que o Eversweet seja utilizado em produtos feitos com açúcar tradicional.

Sobre os prejuízos que o novo mercado de ‘estévia química’ causaria aos indígenas guaranis e outros pequenos Goldsmith responde sem hesitar que as ONGs frequentemente se esquecem de dizer algumas coisas. “A maioria da estévia que se consome hoje não provém de pequenos agricultores, mas de grandes produtores na China e no sudeste asiático. Portanto, o panorama romântico que pintam não é real”.

Acordo com pequenos produtores

O potencial futuro dos glucosídeos de esteviol é muito grande. A Organização Mundial de Saúde estima que nos próximos anos poderão representar 30% dos edulcorantes no mundo. Por isso as empresas de biologia sintética buscam substitutos químicos e assim evitar os inconvenientes das condições meteorológicas e as pragas.

Para fazer participar o povo guarani – radicado dos dois lados da fronteira entre o Paraguai e o Brasil – nos lucros da estévia e seus derivados, a Declaração de Berna considera que governos e empresas devem fechar um acordo arbitrado pelos guaranis.

Além disso, proibir toda publicidade enganosa que descreva os glucosídeos de esteviol como produtos naturais. Andrea Ornelas – México - Adaptação: Claudinê Gonçalves – Suíça in “swissinfo.ch”

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Portugal - Obesidade


Em Portugal, quase metade da população apresenta excesso de peso e perto de um milhão de adultos sofre de obesidade.

Estes números preocupantes estão, entre outras causas, ligados a hábitos de vida mais sedentários e à transformação dos hábitos alimentares, ocorrida ao longo das últimas décadas, que tem favorecido o consumo de cereais refinados, açúcares e gorduras saturadas, em detrimento da tradicional alimentação mediterrânica, rica em cereais integrais, peixe, vegetais, fruta e azeite.

Considerada, entretanto, pela Organização Mundial da Saúde como uma epidemia, a obesidade afecta a longevidade e a qualidade de vida. Por favorecerem doenças como a diabetes mellitus tipo II, a hipertensão arterial ou a dislipidemia, o excesso de peso e a obesidade levam a um importante aumento do risco cardiovascular. Estima-se, por exemplo, que a hipertensão seja 2,5 vezes mais frequente nos indivíduos obesos que em pessoas com peso normal.

A obesidade ocorre quando o número de calorias ingerido é superior ao gasto: quando tal sucede, as calorias são armazenadas no organismo sob a forma de massa gorda, podendo vir a afectar toda a saúde.


Medidas para prevenir e combater a obesidade

A regra essencial é manter o gasto calórico do corpo igual ou superior à quantidade de calorias ingeridas.

1. Siga as proporções recomendadas pela Roda dos Alimentos

Pratique uma dieta equilibrada e variada, rica em legumes, cereais integrais, fruta e peixe. Reduza os alimentos com açúcar e as gorduras saturadas, presentes sobretudo nas gorduras processadas industrialmente (hidrogenadas), carnes vermelhas, manteiga, e lacticínios gordos.

2. Aprenda a conhecer os alimentos e os nutrimentos

Quando ingere um alimento, procure saber que tipo de nutrientes está a fornecer ao seu organismo. Não precisa de transformar-se num “conta-calorias”, mas é importante ter a noção de que certos alimentos são mais calóricos do que outros.
Aprenda sobretudo a detectar as calorias escondidas nos alimentos pré-cozinhados ou processados industrialmente (muitas vezes sob a forma de gorduras invisíveis).

3. Coma cada 3 a 4 horas

Comendo várias vezes ao dia não tem demasiada fome quando chega à refeição seguinte. Coma porções suficientes para se sentir saciado. Use o seguinte truque: comece as refeições principais com uma sopa de legumes, sem batata. Para além de conter água, muitas vitaminas e sais minerais, ajuda a saciar a sensação de fome. Isto evita a ansiedade que certas dietas de emagrecimento podem causar.

4. Mantenha uma actividade física regular

Escolha uma actividade que lhe dê prazer e inclua-a na sua rotina, de preferência diária. A regularidade é importante. Sempre que possível, ande a pé nas suas deslocações e privilegie o contacto com a natureza com pequenos passeios ou caminhadas ao ar livre.

5. Emagrecer e manter um peso saudável

Muitas pessoas conseguem perder peso em tempo recorde. No entanto, o mais comum é que estas “dietas relâmpago” resultem, pouco tempo depois, no inverso: a recuperação do peso, acompanhada, frequentemente, de um aumento superior ao peso original.
Se tem excesso de peso, procure ser acompanhado por um médico ou nutricionista e estabeleça metas razoáveis para a sua dieta.Tão importante como emagrecer é manter um peso saudável ao longo do tempo.

Obesidade e IMC

O índice de massa corporal (IMC) permite classificar o grau de obesidade de uma pessoa. Calcula-se dividindo o peso (em Kg) pela altura elevada ao quadrado (em metros).
Segundo a OMS, o excesso de peso corresponde a um IMC entre 25 e 30 e a obesidade surge quando o IMC é igual ou superior a 30.
IMC = Peso (Kg)
Altura 2 (m)



Obesidade infantil

As estatísticas mostram que, a nível nacio­nal, 31,5% das crianças entre os 9 e os 16 anos são obesas ou sofrem de excesso de peso. A alimentação incorrecta e a escassa prática de actividade física são a base desta situação, favorecendo na população infantil uma predisposição para um conjunto de doenças, como a diabetes e as alterações do foro cardiovascular, em idade adulta.
Se não se contrariar esta tendência, a esperança média de vida destas crianças vai ser mais curta do que aquela que a geração dos pais tem neste momento.


Tipos de Obesidade

Do ponto de vista da distribuição da gordura, a obesidade pode ser:

Ginóide (em forma de pêra): caracteriza-se por um aumento da gordura da cintura para baixo. É a forma mais comum nas mulheres, tem menos risco cardiovascular mas está associada, muitas vezes, ao aparecimento de varizes e doenças das articulações.

Andróide (em forma de maçã): a gordura localiza-se na zona da cintura e zona superior do tronco. É mais frequente entre os homens e tem uma estreita relação com o aparecimento de diabetes, hipertensão, aterosclerose e o aumento de risco cardiovascular. Fundação Portuguesa de Cardiologia – Portugal