Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 16 de março de 2022

Bocage: uma história agora contada com primor

                                                                  I

Pelo que me lembro, na minha chamada memória recorrente desde priscas eras de atiçado buscador e ledor voraz, Bocage era e ficava entre um Pedro Malasartes  (figura tradicional nos contos populares da Península Ibérica, tido como burlão invencível, astucioso, cínico, inesgotável de expedientes, de enganos, sem escrúpulos e sem remorsos) e um Casanova (Giacomo Girolamo Casanova, escritor e aventureiro italiano, tendo interrompido as carreiras profissionais que iniciou — a militar e a eclesiástica — e que passou a levar uma vida aventurada), em terras de Camões, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa, muito antes ainda de José Saramago, portanto. Tinha-o como um boêmio aprontador em terras lusas de Cabral e de Pero Vaz Caminha.

Lendo agora Bocage, o perfil perdido, que virou clássico da obra-pesquisa-documentário do mestre e doutor Adelto Gonçalves, depois de levar tempo para lê-lo, tal o peso do livraço e a densidade do historial enquanto pesquisa e documentário também, posso dizer que tive uma universidade de mais de ano inteiro sobre o poeta. Afinal, um curso e tanto, um livro precioso, com aulas magnas desse que já é escritor esmerado de tantos outros portentosos livros, que tive o prazer de ler, curtir e gostar, e até me mesmo fazer aqui e ali breves resenhas.

Mas com Bocage, sinceramente, tenho medo de me perder. Bocage, uma lenda, um mito, muito além de um Pedro Malasartes (como eu imaginava que era) e muito além de um Casanova que também aludi que fosse. O livro Bocage: o perfil perdido, com qualidade historial, destrincha o mito de fio a pavio, e você lendo o projeto exuberante de livro acaba se sentido um, por assim dizer, formado, diplomado e finalmente inteirado e expert em Bocage. Já pensou?

Num apanhado imediato de querer saber quem foi Bocage, está lá o apanhado, curto e grosso: Bocage, poeta português, nasceu em 1765 e faleceu em 1805. Além de escritor e boêmio, foi militar e tradutor. Suas obras apresentam marcas árcades e românticas. O poeta é bastante lembrado por seus poemas satíricos e de cunho anedótico. Ah, mas a figura lendária do literato e poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage é a do maior representante do arcadismo lusitano. Ou, ainda, Bocage foi um poeta de transição entre o arcadismo — seu pseudônimo árcade era Elmano Sadino — e o romantismo. Seus textos apresentavam características de ambas as estéticas, além de peculiaridades, como amor idealizado, sofrimento existencial. Ele era um poeta cheio de lirismo, erotismo, individualismo e sátiras, com uma linguagem neoclássica, ou seja, clara, abreviada, correta e pomposa. Os temas mais explorados eram bucólicos, pastoris e da mitologia clássica.

 

                                                                 II

Bocage:  o perfil perdido, de Adelto Gonçalves, vai fundo na pesquisa, na história, desde meados de 1711 até muito além da morte desse personagem crucial e criador de arte literária de primeira qualidade para a época em terras lusas, entre viagens, contações, registros, altos e baixos, melindres e concessões, fugas e deserções, naus e glórias, implicações e afetos, sangrias desatadas, polvorosas e amizades e conflitos.

Cantava a vida como o cisne canta a morte, disse ele. Quando escrevia, era um fugir-se como quem afiava a pena feito espada, no gume de seu contemplar, sentir, ferir-se de existir, desacomodado da vida, da sociedade, de qualquer razão pura que tivesse para viver, pior, sobreviver, literalmente às duras penas, como se sempre fugindo nos versos, nos avessos e absurtos diversos das estrofes, deles se criando, desse seu tear lírico se alimentando, se provendo; criar para fugir da ilha de ser-se ou de se ser? Ah, o mito, a lenda, as vazantes criativas.

O livro Bocage, o perfil perdido passa limpo uma vida de quem garimpou com bateia de poemas ora sofridos, ora datados, ora esculachando, criando inimigos e rancores, resmas de rimas, sentimentos revisitados, a cara e a coragem (e a ousadia) de ser ele mesmo, com seus íntimos mares navegando fastios e buscas, bandeiras e naus tenebrosas de seu tempo aqui e ali cruel com o poeta.

A obra destrincha, revela, tira véus, relata paulatinamente e tintim por tintim, um historial de vida, percalços, artes e vertedores, motivos e purgações, irrazões e deszelos... Eis o homem, eis o poeta Bocage, muito além de si mesmo, muito além de seu tempo, firmado no macadame da história agora contada com primor.

 

                                                                III

Escrevendo, ele desafiava seus limites, entre distanciamento e aproximação. Escrever era sua chama. O insurgente lado crítico de Bocage, às vezes, o arrebatava. E criava polêmicas datadas. E a polêmica era seu mote, seu fluxo existencial. Escreviver-se. Às vezes, a vida lhe dava meios do que buscava. E veios de criações alteradas. E ele então se vertia todo, às vezes irônico, mordaz, ferino, polêmico. Há caminhos e há solos de ausências em veredas e verdades.

Os botequins de Lisboa eram a Arcádia de Bocage. Muitos confundiam a sua personalidade poética com o homem. Com seus vários versos também escritos pela mão do fingimento e cantados pela voz da dependência. Traduções. Elogios dramáticos. Improvisos de poeta agonizante, depois. Lida poética insana. Tropel de paixões. Mente aguçada, brilhante. Discursos, historietas. Gênio satírico, vida dissoluta, pendor para composições obscenas. Pavorosa ilusão da eternidade. Um artista contraditório que construiu ao longo de sua produção poética.

Isso, entre tantas informações depuradas, é o que se depreende do livro. Biografia rigorosamente pesquisada, regiamente documentada. Apresenta uma árvore genealógica do poeta enquanto mito e lenda, corrige erros históricos, relata contendas e a conseguinte grande produção poética de alto quilate. Um poeta muito além de seu tempo, muito além de sua morte. Por essas e outras, Bocage escrevia muito e tanto, em tempos difíceis, para confirmar talvez o que nos disse Danúbio Torres Fierro: “Escrever é criar para si uma identidade”. Eis o livro, eis o homem, eis Bocage.


                                                                IV

Adelto Gonçalves é mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana, e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP). É autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage, o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo-Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015),  Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Silas Leite - Brasil

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Bocage, o perfil perdido, de Adelto Gonçalves. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), 520 páginas, R$ 85,00, 2021. Site: https://livraria.imprensaoficial.com.br/

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Silas Corrêa Leite, escritor, professor e blogueiro premiado, é autor, entre outros, de Transpenumbra do Armagedom (São Paulo, Desconcertos Editora, 2021), Cavalos selvagens (Curitiba, Kotter Editorial; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2021), e A Coisa. Muito além do coração selvagem da vida (São Paulo, Editora Cajuína, 2021). O autor foi vencedor do Primeiro Salão Nacional de Causos de Pescadores/USP/Jornal da Tarde/Estadão/Parceiros do Tietê; premiado no Concurso Lygia Fagundes Telles para professor e escritor, governo do Estado de SP/Gestão Gabriel Chalita/Secretaria Estadual de Educação; Prêmio Biblioteca Mário de Andrade (Poesia Sobre São Paulo), Gestão Marilena Chauí (Secretaria de Cultura de SP), Prêmio Fundação Petrobrás de Contos, curadoria Heloisa Buarque de Holanda; prêmio Simetria (Microconto) e Prêmio Instituto Piaget (Cancioneiro infanto-juvenil), ambos em Portugal). Site: www.poetasilascorrealeite.com.br - E-mail: poesilas@terra.com.br





quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Em busca de rastros de Bocage

Adelto Gonçalves, 70 anos, doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é um dos maiores especialistas em século XVIII português. Um de seus trabalhos notáveis é Bocage, o perfil perdido, que sai agora pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), depois de publicado em 2003 pela Editorial Caminho, de Lisboa, resultado de um trabalho de pesquisa em arquivos portugueses com bolsa de pós-doutoramento da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp).

Ainda sobre o século XVIII, o pesquisador publicou outro trabalho notável, Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1999), biografia do poeta inconfidente Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), sua tese de doutoramento, e os ensaios históricos Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras, 2012), Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo colonial – 1709-1820 (2015), e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (2019), publicados pela Imesp.

Jornalista desde 1972, Adelto Gonçalves passou por várias redações, incluindo Cidade de Santos, A Tribuna, de Santos, O Estado de S. Paulo e Folha da Tarde e as editoras Abril e Globo. Em Portugal, é colaborador do quinzenário impresso As Artes Entre as Letras, do Porto, e das revistas Vértice e Colóquio/Letras, de Lisboa. É também colaborador do Jornal Opção, de Goiânia, do Diário do Nordeste, de Fortaleza, e da revista digital VuJonga, de Lisboa, dedicada aos povos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), entre outros sites do Brasil e Portugal.

Foi professor da Universidade Santa Cecília (Unisanta) e da Universidade São Judas-Unimonte, nos cursos de Jornalismo, e da Universidade Paulista (Unip), nos cursos de Direito e Pedagogia, em Santos. Ganhou os prêmios José Lins do Rego de Romance (1980) da Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro; Fernando Pessoa (1986) da Fundação Cultural Brasil-Portugal, do Rio de Janeiro; Assis Chateaubriand (1987) e Aníbal Freire (1994) da Academia Brasileira de Letras, e Ivan Lins de Ensaios (2000) da União Brasileira de Escritores e Academia Carioca de Letras. É sócio correspondente da Academia Brasileira de Filologia.

É ainda autor dos romances Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2003) e Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem 2015), do livro de ensaios e artigos Fernando Pessoa: a voz de Deus (Santos, Unisanta, 1997), e do livro de contos Mariela morta (Ourinhos, Complemento, 1977).

Luthero Maynard – Por que escolheu a vida e a obra do poeta português Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805) para tema de seu pós-doutorado?

Adelto Gonçalves – Com o conhecimento que havia adquirido do século XVIII português, entendi que só me restava escrever a biografia de Bocage. Deixando de lado os poetas do século XX – Fernando Pessoa, especialmente –, os maiores poetas da literatura portuguesa são, pela ordem, Luís de Camões (c.1524-c.1580), Bocage e Gonzaga. Em popularidade, em sua época, Gonzaga, que teve o seu primeiro livro publicado em 1792, quando já estava no degredo em Moçambique, só perdia para Bocage. Isso pode ser constatado se contarmos, por exemplo, as vezes em que os dois poetas são citados na Gazeta de Lisboa, entre 1790 e 1810. Mas é preciso ver que Bocage morava em Lisboa, enquanto Gonzaga estava desterrado na África Oriental. Marília de Dirceu servia como termo de comparação sempre que algum crítico queria elogiar algum poeta ainda desconhecido. Foi o que ocorreu, por exemplo, com Manuel Inácio da Silva Alvarenga (1749-1814), quando apareceu o seu livro Glaura (1799). Marília de Dirceu é a coleção de poemas líricos mais popular da literatura de língua portuguesa, só perdendo, em número de edições, para Os Lusíadas, de Camões. Diante disso, só me cabia como pesquisador sair em busca de rastros de Bocage. Contei com o apoio do professor Fernando Cristóvão, da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, e do professor Massaud Moisés (1928-2018), que foi meu orientador no doutorado. Fiquei em Portugal de 15 de março de 1999 a 15 de março de 2000. Também contei com o apoio de três ex-embaixadores em Portugal: José Aparecido de Oliveira (1929-2007), Dario Moreira de Castro Alves (1927-2010) e Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras.

Uma das principais descobertas de sua pesquisa é que Bocage não nasceu numa casa localizada à rua de São Domingos, atual rua de Edmond de Bartissol, em Setúbal. Como descobriu que aquilo não passava de um equívoco ou de uma farsa?

Adelto Gonçalves – No começo, não imaginava. Só comecei a desconfiar depois de pesquisar a documentação na Torre do Tombo, quando constatei que a família de Bocage tivera uma propriedade sequestrada pelo Estado. E que essa propriedade não ficava na rua de São Domingos, mas no largo de Santa Maria. Depois, confirmei na documentação da décima de prédios urbanos de Setúbal, na Torre do Tombo, que, na rua de São Domingos, na metade final do século XVIII, não havia morado nenhuma família Bocage. Havia, sim, na casa onde diziam ter nascido Bocage um morador chamado Manuel Gomes Borralho. A semelhança no nome talvez tenha contribuído para a crença de que Bocage tivera nascido naquela casa que, afinal, ficava muito próxima à igreja onde ele havia sido batizado. Isso descobri depois de quase seis meses de pesquisas nos arquivos.

Como foi a farsa montada pelo poeta setubalense Manuel Maria Portela?

Adelto Gonçalves – Foi nos papéis do historiador João Carlos de Almeida Carvalho, no Arquivo Distrital de Setúbal, que encontrei a farsa já denunciada. Carvalho pretendia escrever uma biografia de Bocage. Fez algumas pesquisas, conversou com descendentes da família do poeta e deixou muitas anotações. Não escreveu a biografia, mas a sua família se lembrou de encaminhar esses documentos para o Arquivo Distrital de Setúbal. Ainda bem. Carvalho era contemporâneo de Portela e sabia que não havia nenhum fundamento na sua afirmação segundo a qual Bocage teria nascido numa casa da rua de São Domingos. Em 1863, descobriu-se alguns arabescos no teto de uma casa daquela rua que a alguém pareceu brasão de uma família. Disseram que na família de Bocage alguém fora representante do Vaticano e aquilo seria brasão de armas do papa, de algum bispo ou coisa que o valha. Mas nada daquilo era provado. Um bisavô paterno de Bocage tinha o sobrenome de Bispo, mas nada mais que isso. Talvez tenha surgido daí a confusão.

E, mesmo assim, aquilo foi adiante e durou até há pouco tempo?

Adelto Gonçalves – Apesar da falta de provas materiais, Portela, que era funcionário da Câmara e redator do jornal A Voz do Progresso, achou de levar adiante a ideia. De repente, aquilo se tornou algo muito importante para Setúbal. Portela conseguiu recursos financeiros e mandou colocar uma lápide na morada, sem o apoio da Câmara. Ele e outros setubalenses convenceram o industrial francês Edmond de Bartissol, grande proprietário de terras em Alcácer do Sal e produtor de vinhos, a comprar a propriedade para oferecê-la, em seguida, à Câmara com o objetivo de tornar o local uma casa de cultura. Em troca, a Câmara deu nome dele à rua. Os irmãos Castilhos – Antônio (1800-1875) e José Feliciano de Castilho (1810-1879) – apoiaram a ideia e, quando eles entravam no páreo, era para ganhar. Formavam uma espécie de “máfia” literária, um em Lisboa e outro no Rio de Janeiro. Faziam e desfaziam reputações. No Rio, José Feliciano movimentou a comunidade portuguesa e arrecadou fundos para mandar levantar uma estátua de Bocage e colocá-la em Setúbal. Diante desse movimento todo, Carvalho recuou: mesmo que falasse alto que não havia nenhum documento provando que Bocage nascera naquela morada, ninguém lhe daria ouvidos. Preferiu anotar tudo e deixar seus papéis para a posteridade. Fui aos jornais da época e reconstituí a festa de inauguração da estátua na Praça do Sapal, hoje Praça Bocage, que, por sinal, será relembrada em 21 de dezembro de 2021, por ocasião dos 150 anos do monumento. A data marca o dia da morte do poeta (21/12/1805).

Outra descoberta importante de seu livro é a prisão do pai do poeta. Como foi isso?

Adelto Gonçalves – Há um dossier na Torre do Tombo que conta toda essa história. O pai de Bocage, José Luís Soares de Barbosa, era ouvidor em Beja quando foi acusado de desviar dinheiro da arrecadação da décima de 1769. Ele era ligado por compadrio a Antônio da Silva e Sousa, juiz-geral do Tombo da Sereníssima Casa do Infantado e um dos homens mais beneficiados do rei d. Pedro III, então infante. Era a quem o ouvidor dizia que remetia todos os dinheiros da décima. Acontece que esse Silva e Sousa era ligado à corrente política da princesa d. Maria e d. Pedro III, seu marido, que eram contrários ao marquês de Pombal. Por causa de uma daquelas intrigas palacianas, Silva e Sousa foi deportado para o presídio das Pedras Negras, na África, e José Luís foi obrigado a prestar contas. Em 1771, a morada do largo de Santa Maria, com a rua das Canas Verdes (atual rua de Antônio Joaquim Granjo), foi sequestrada pela Coroa, bem como seus bens móveis. E José Luís encaminhado para a cadeia do Limoeiro, onde ficou até 1777, quando veio a Viradeira e ele pôde sair da prisão. A culpa lhe foi perdoada pela rainha d. Maria, mas ele não teve seus direitos reintegrados nem voltou à magistratura. A família dele continuou a morar na casa, mas teria agora de pagar aluguel ao Estado, o que nunca foi feito.

E o processo deve ter rolado bastante tempo na Justiça?

Adelto Gonçalves – De fato, o processo do confisco rolou na Justiça quase trinta anos até que, em 1800, a casa foi à arrematação. Os descendentes de José Luís, liderados por Gil Francisco, o primogênito, mas sem a participação de Manuel Maria, tentaram obstar o confisco, alegando que a casa pertencia à avó deles. Várias testemunhas afiançaram que José Luís Soares de Barbosa, ao se casar com Mariana Joaquina du Bocage, fora morar na casa da sogra e não levara para o matrimônio mais que a roupa do corpo. A casa era herança da mãe de Bocage. Na Biblioteca Nacional de Lisboa (BNL), constatei que fora comprada em 1693 por Leonardo Lustoff, abastado comerciante que exercera também as funções de cônsul da Holanda, em Setúbal, falecido em 1701. Leonardo era pai de Clara Francisca, que se casaria em 1720 com o francês Gil l´Hedois du Bocage, coronel da Armada Real. O francês estava perto dos 70 anos e ela tinha pouco mais de 20 anos. Tiveram duas filhas: uma delas, Mariana Joaquina, seria a mãe do poeta Bocage.

Qual a importância de Bocage para a literatura brasileira?

Adelto Gonçalves – Bocage é hoje pouco lido no Brasil, mas, em Portugal, ainda é muito reverenciado. Para a literatura brasileira, tem grande importância porque é de uma época em que o Brasil não existia como nação independente. E, portanto, éramos todos portugueses. Espero que essa biografia ajude a retirar Bocage do limbo em que se encontra no Brasil.

Quais as principais dificuldades encontradas pelo pesquisador de História e Literatura no País?

Adelto Gonçalves – As dificuldades não são muitas – e as que existem são benéficas, pois permitem ao pesquisador encontrar informações inéditas. Se tudo nos arquivos estivesse organizado e disponível, não haveria muito que pesquisar porque já seria conhecido. Além disso, ao tempo de meu doutorado e pós-doutorado, havia bastante apoio por parte do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), da Fapesp, da Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa, e de outras instituições. Luthero Maynard - Brasil

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Bocage, o perfil perdido, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Fernando Cristóvão. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), 520 páginas, 2021, R$ 85,00. Site: https://livraria.imprensaoficial.com.br/bocage-o-perfil-perdido.html

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Luthero Maynard, jornalista formado pela Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero, passou por várias redações em São Paulo, incluindo O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e Folha da Tarde e diversas revistas da Editora Abril. Lançou a revista História Viva, da Duetto Editorial, da qual foi editor. Foi assessor de imprensa do governador Franco Montoro e da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb-SP).  Foi membro do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e pertence ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHG-SP). E-mail: luthero.maynard@gmail.com.

 

 

quarta-feira, 23 de junho de 2021

A vida de Bocage

Não sei se Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805) era bilharista. A sê-lo, alinharia pelos que se comprazem na complexidade do jogo às três tabelas, arredio a submeter-se às triangulações mais clássicas e lineares — a acreditar no vaticínio do seu arqui-inimigo José Agostinho de Macedo: “É um gênio incapaz de simetria!” De fato, não se pode dizer de Elmano Sadino — o seu nome arcádico — que, como Shakespeare, Mozart ou Picasso, fosse artista, capaz de captar, sintetizar ou magnificar tudo o que a sua época lhe oferecia.

Há um anacronismo muito português que o fere, um engenho que lhe minou a obra até ao achamento de si. Para a época clássica, a natureza do gosto era submetida a leis universais e invioláveis e seria necessário romper com demasiadas coisas para assomar no plano estético a subjetividade que culminaria no Romantismo.

Bocage, por exemplo, fez a gesta, mas tal como Ovídio, que traduziu, só procurou nos lugares a reminiscência “histórica”. Foi essa a ilusão que o traiu, a raiz do seu desencontro com os lugares — velados pelos mitos. Vai ao Brasil, à Ilha de Moçambique, a Goa, a Damão, a Macau, perseguindo a irradiação de Camões, sem se abrir à experiência.

O despojamento de Bocage, tanto dos mitos como dos aplausos que tão facilmente arrebatava nos botequins e salões dos árcades, obrigá-lo-á a efetuar dois movimentos redutores. Só após esse desengano trágico pôde o poeta alcançar o kairos, a oportuna conjugação com o agora e com os lugares. Só aí a sua visão, expurgada do peso canônico, se abre finalmente à subjetividade, ao seu ineditismo.

O barroco começara a separar o autor e a obra, o arcadismo acentuou a “esquizofrenia”. Bocage, após ter sofrido na pele a exacerbação dos mitos, regressa à pequena ficção de si: foi onde foi grande.

Bocage, o perfil perdido (São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo - Imesp, 2021), do brasileiro Adelto Gonçalves, é uma biografia deliciosa, exaustiva e rigorosamente documentada. O autor é jornalista, escritor e professor universitário, e entre outros livros já tinha assinado uma biografia, Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1999), com a qual ganhou o Prêmio Ivan Lins de Ensaios, da União Brasileira de Escritores e da Academia Carioca de Letras; sendo ainda autor de um romance saído em Portugal: Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015).

Bocage, o perfil perdido é um livro de fôlego, notável, que nos leva a atravessar o século XVIII português e se estende aquém e além das balizas cronológicas do poeta, faz o esforço de colocar este em contexto — e é desde já uma referência imprescindível.

O livro aponta primeiro à genealogia, à história do avô materno francês, Gil l´Hedois du Bocage, corsário, que acosta a Lisboa com uma apresada carga de relógios e acaba por prestar serviços à Coroa, como o de garantir a inexpugnabilidade do Rio de Janeiro, contra uma esquadra francesa. Adelto descreve com sabor, numa prosa que sabe ser informativa sem estar enxaguada e que, sem abandonar a densidade requerida, entretém.

A investigação foi aturada e traz novidades: fixa com provas e argumentação inabalável o local de nascimento do poeta, na rua das Canas Verdes; exuma o drama da família por causa da prisão do pai, José Luís Soares de Barbosa, durante seis anos na cadeia do Limoeiro; desfaz a ideia-feita de uma disputa amorosa entre Bocage e o irmão pelo coração de Gertrudes; revela os dias de miséria vividos pela irmã, Maria Francisca, após a sua morte, e descreve os sobressaltos que lhe minaram o espólio (entre os quais a possível sonegação de muitos originais por José Agostinho de Macedo); betuma com dados e documentos uma série de lacunas que persistiam.

Depois segue o passo do poeta com a virtude de, como se diz na contracapa da edição portuguesa, o emoldurar nos “tempos em que viveu” — a queda do marquês de Pombal, a ação de Pina Manique, a campanha do Rossilhão, além de nos dar um retrato do quotidiano de Lisboa.

Complementa ainda o livro um vasto acervo documental, reproduzido em fac-símile, e fotografias das casas onde foi parido e morreu aquele que ditou na hora do fim: “Já Bocage não sou!... À cova escura/ Meu estro vai parar desfeito em vento (...)”. Felizmente que não, como o comprova esta biografia, de muito longe a melhor, do vate setubalense. António Cabrita - Moçambique

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Bocage, o perfil perdido, de Adelto Gonçalves. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), 520 páginas, 2021, R$ 85,00. Site: https://livraria.imprensaoficial.com.br/bocage-o-perfil-perdido.html

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António Cabrita (1959) tem mais de 20 livros publicados em Portugal, Brasil (três livros de ficção) e Moçambique (livros de fábulas, poesia e ensaio). Foi jornalista durante 23 anos e editor. Em 2005, emigrou para Moçambique, onde, neste momento, é professor de Dramaturgia e cronista no semanário Savana. Tem também uma coluna no jornal Hoje Macau. Escreveu inúmeros roteiros para filmes. Entre os seus livros, destacam-se: Inferno (2001), sobre Camilo Castelo Branco, Bagagem não reclamada, Anatomia comparada dos animais selvagens (Prémio PEN Clube 2018), A Kodak faliu. também o Dick, o cão da minha infância (2020), poesia; e A maldição de Ondina, 2013 (Taubaté-SP: Letra Selvagem, 2011), Éter, 2015, A Paixão segundo João de Deus, 2019, e Fotografar contra a luz (2020), romances. E-mail: cabrita96323@gmail.com


 

sexta-feira, 11 de junho de 2021

‘Bocage, o perfil perdido’ ganha edição brasileira

São Paulo – O poeta português Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), ícone da poesia em Língua Portuguesa, não nasceu na rua de São Domingos, atual rua de Edmond Bartissol, em Setúbal, como mostra uma placa ali instalada há mais de um século, mas ao Largo de Santa Maria com a rua de Antônio Joaquim Granjo, antiga rua das Canas Verdes, na mesma cidade. Esse e outros pormenores desconhecidos do poeta, como o tempo real de sua prisão e detalhes de sua obra e de seus últimos dias, constam do livro Bocage, o perfil perdido, do pesquisador brasileiro Adelto Gonçalves, que acaba de ser publicado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), 18 anos depois da edição portuguesa que saiu pela Editorial Caminho, de Lisboa.

Como a editora observa na contracapa, Bocage, o perfil perdido é biografia exaustiva e rigorosamente documentada. Já em si controversa, a história de vida do poeta é contextualizada pelos tempos tormentosos nos quais viveu, em que ocorreram a queda do marquês de Pombal, a ação do intendente de Polícia Pina Manique e a campanha do Rossilhão, entre outros fatos importantes. A biografia recua ao avô do poeta, apresenta sua árvore genealógica desde os bisavôs, abrangendo toda a sua vida, a passagem pelo Rio de Janeiro, Ilha de Moçambique e Índia, e sua participação e expulsão da Nova Arcádia.

Adelto Gonçalves expõe alguns erros históricos. Além do endereço da casa onde o poeta nasceu, o pesquisador corrige outros equívocos, apresentando importantes descobertas, desde a prisão de seu pai, e informações inéditas, como a sobrevivência da Nova Arcádia em Lisboa até 1801. Do último período da vida de Bocage, relata suas contendas com os censores da Real Mesa da Comissão Geral sobre o Exame e Censura de Livros, e a atuação como tradutor e revisor na Oficina Tipográfica, Calcográfica, Tipoplástica e Literária do Arco do Cego. E reconstitui os últimos dias do poeta, que morre em Lisboa em 21 de dezembro de 1805.

Bocage, o perfil perdido estende-se muito além de sua morte, restabelecendo os embates relacionados à memória do poeta entre elmanistas, partidários de Bocage, e José Agostinho de Macedo, seu feroz opositor. Recupera cartas inéditas deixadas por sua irmã Maria Francisca, mostrando-a ludibriada por “falsos amigos”. A biografia apresenta descobertas como a prisão do pai do poeta na cadeia do Limoeiro, de 1771 a 1777, acusado como ouvidor de Beja de ter desviado a arrecadação da décima referente ao ano de 1769.

Outra informação importante, segundo o escritor, é que o poeta, preso em 1797, permaneceu detido mais tempo do que se sabia, até o último dia de 1798, quando saiu do Real Hospício de Nossa Senhora das Necessidades. O livro é resultado de um ano de pesquisas em arquivos portugueses, com bolsa de pós-doutoramento da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp).

No prefácio que escreveu para este livro, Fernando Cristóvão, professor catedrático de Literatura da Universidade de Lisboa, lembrou que “o interesse de Adelto Gonçalves por Bocage radica-se numa tradição brasileira, tanto erudita como popular, que sempre acolheu o poeta com especial carinho. Quer as pessoas cultas, apreciando a perfeição dos seus versos, especialmente os sonetos, quer a gente do povo recordando ou inventando um anedotário brejeiro”.

Currículo – Adelto Gonçalves (1951), nascido em Santos-SP, é jornalista desde 1972, quando começou a trabalhar no extinto jornal Cidade de Santos, do grupo Folhas. Tem passagens pelos jornais A Tribuna, de Santos, O Estado de S. Paulo e Folha da Tarde e pelas editoras Abril e Globo. Em Portugal, é colaborador do quinzenário As Artes Entre as Letras, do Porto, e das revistas Vértice e Colóquio/Letras, de Lisboa. É também colaborador do Jornal Opção, de Goiânia, do Diário do Nordeste, de Fortaleza, e da revista digital VuJonga, de Lisboa, dedicada aos povos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), entre outros sites do Brasil e Portugal.

Doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana pela mesma instituição. Seu trabalho de doutorado Gonzaga, um Poeta do Iluminismo, sobre o poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), foi publicado em 1999 pela Editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, com prefácio do poeta Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Foi professor titular da Universidade Santa Cecília (Unisanta) e Universidade São Judas-Unimonte, nos cursos de Jornalismo, e da Universidade Paulista (Unip), nos cursos de Direito e Pedagogia, em Santos. É autor de Mariela morta, contos (Ourinhos, Complemento, 1977), Os vira-latas da madrugada, romance (Rio de Janeiro, José Olympio, 1981; Taubaté-SP, Editora Letra Selvagem, 2015), Barcelona brasileira, romance (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2003), Fernando Pessoa: a voz de Deus, artigos e ensaios (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Tomás Antônio Gonzaga, estudo biográfico-crítico (Rio de Janeiro/São Paulo, ABL/Imesp, 2012); e Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo colonial - 1709-1822, ensaio histórico (São Paulo, Imesp, 2015). Em 2019, publicou também pela Imesp o livro O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797, ensaio histórico.

Prêmios – Ganhou os prêmios José Lins do Rego de Romance (1980) da Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro; Fernando Pessoa (1986) da Fundação Cultural Brasil-Portugal, do Rio de Janeiro; Assis Chateaubriand (1987) e Aníbal Freire (1994) da Academia Brasileira de Letras, e Ivan Lins de Ensaios (2000) da União Brasileira de Escritores e Academia Carioca de Letras.

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Bocage, o perfil perdido, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Fernando Cristóvão. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), 520 págs., 2021, R$ 85,00. O exemplar pode ser adquirido por meio do site da Imesp: https://livraria.imprensaoficial.com.br/bocage-o-perfil-perdido.html