Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 20 de abril de 2026

Uma obra para recuperar a história de Setúbal

Projeto prevê três volumes que, por sua pluralidade de temas, tornar-se-ão instrumento de consulta obrigatória para historiadores, professores e estudantes

                                                                                                     

                                                            I


Setúbal, a cidade onde nasceu o poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), acaba de ganhar um projeto editorial que pretende se tornar a maior obra de investigação sobre a história do município, trazendo à luz informações sobre temas pouco conhecidos, além de incentivar novas investigações. Nesse sentido, foi lançado em julho de 2025 o primeiro volume do Dicionário de História de Setúbal, trabalho coordenado pelo historiador Albérico Afonso Costa e publicado pelo jornal O Setubalense, com o apoio da Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra e da Câmara Municipal de Setúbal.

Para julho de 2026, está previsto o lançamento do segundo volume. E, para julho do ano seguinte, o terceiro e último. O primeiro volume marcou também a passagem do 170.º aniversário de fundação de O Setubalense, o mais antigo jornal em circulação em Portugal continental. No total, os três volumes contam com a colaboração de quase uma centena de profissionais de áreas como arqueologia, sociologia, antropologia, economia, arquitetura e jornalismo.

Com a participação de 76 historiadores, o primeiro volume, que já foi distribuído para as bibliotecas escolares da cidade, traz cerca de 500 entradas que vão de A até E e, como os demais, abrange um período de cerca de dois mil anos, desde a presença romana, quando o vilarejo era conhecido como Cetóbriga, até a época contemporânea (ano de 1976), sendo os temas dos séculos XIX e XX de maior presença, como observa o coordenador no prefácio. Por isso, o leitor vai encontrar nos três volumes desde a época em que o burgo não passava de uma medieval vila amuralhada contra piratas e invasões até a sua transformação numa cidade industrial e moderna.

De surpreender é que, ao contrário do que comumente se lê em tradicionais livros de História, os verbetes trazem também referências sobre a chamada Setúbal rebelde, ou seja, sobre as lutas de tendência anarquista que a levaram a ser conhecida como Barcelona portuguesa, sem deixar de  mostrar igualmente a cidade assolada pela opressão fascista nos anos salazaristas (1933-1974), bem como a luta dos menos favorecidos que moravam em bairros com construções precárias, até se transformar num burgo industrial a partir da década de 1960, situado na margem norte do estuário do rio Sado, a cerca de 50 quilômetros ao Sul de Lisboa. Enfim, uma cidade com fortes ligações com o mar, a pesca e o turismo, famosa também por suas mulheres conserveiras, que trabalhavam nas indústrias de conservas de pescado e eram parte integrante de um proletariado que buscava um futuro digno.

 

 

                                                            II

Como não poderia deixar de ser, a família Bocage recebeu largo espaço neste Dicionário, a começar pela entrada dedicada ao famoso poeta, que vai da página 195 à de número 199, de autoria do professor e historiador António Chitas, que foi vice-presidente do Centro de Estudos Bocagianos (2006-2014) e é autor de numerosos artigos e crônicas sobre a história e figuras de Setúbal. Com base em quatro obras do historiador Daniel Pires, especialmente a mais recente, O essencial sobre Manuel Maria de Barbosa du Bocage (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2023), do investigador Jorge Morais, autor de Bocage Maçon (Coimbra, Via Occidentalis Editora, 2007), e sobretudo deste articulista, Bocage: o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003), além da citação de uma famosa conferência do poeta Olavo Bilac (1865-1918) no Teatro Municipal de São Paulo, em 1917, Chitas traça, em rápidas palavras, a trajetória do poeta, desde sua infância e adolescência em Setúbal, sua vida um tanto desregrada em Lisboa, suas viagens, a partir de 1786, a princípio como guarda-marinha, a Goa  e, posteriormente, já como desertor, a Surrate, na Índia, Cantão e Macau, na China. Quatro anos depois, já de volta à Lisboa e sua vida boêmia, Bocage inicia uma carreira literária com sua inscrição na Nova Arcádia e a publicação, a partir de 1791, de pelo menos três obras. Influenciado pelo clima de liberdade provocado pela Revolução Francesa (1789-1799), produz poemas e traduz obras que não haveriam de agradar às autoridades constituídas, o que o levou até a projetar uma fuga para o Brasil, que lhe não foi possível empreender. Acusado de autor de “papéis ímpios, sediciosos e críticos”, seria colocado na Cadeia do Limoeiro e, depois, transferido para os cárceres da Inquisição. Recuperaria a liberdade no último dia de 1798 e passaria a trabalhar como revisor e tradutor na Tipografia do Arco do Cego, período em que, em 1799, publicaria o segundo tomo de suas Rimas, cuja primeira edição é de 1791.

Em 1802, ainda seria denunciado como pedreiro-livre (maçom) e passaria por novos dissabores, que incluiriam seu encarceramento. Em 1804, publica o terceiro volume de Rimas para, no ano seguinte, adoecer gravemente, vítima de um aneurisma nas carótidas, e vir a falecer a 21 de dezembro, com apenas 40 anos. Da família Bocage, há ainda verbetes sobre Gilles Hedois Ledoux du Bocage, avô materno do poeta, Mariana Joaquina Caetana Xavier Lustoff du Bocage, sua mãe, Gil Francisco Barbosa du Bocage, seu irmão mais velho, José Luís Soares de Barbosa, seu pai, além de outros parentes. Sem contar as entradas que tratam das comemorações bocagianas que se realizaram durante os séculos XIX e XX, entre as quais a história da colocação da estátua do poeta na antiga Praça do Sapal que passaria a ser chamada de Praça Bocage, inaugurada no dia 21 de dezembro de 1871.

 

                                                                III

Nos demais verbetes, o leitor tomará conhecimento de vários aspectos que emolduram a história de Setúbal, como, por exemplo, fatos que ocorreram em 1949, à época da realização de eleições para a presidência da República, quando pela primeira vez, após o golpe de 28 de maio de 1926, hostes contrárias ao regime concorreram, tendo à frente o general Norton de Matos (1867-1955), contra o general Óscar Carmona (1869-1951), candidato da situação. Como diz em extenso verbete o historiador Albérico Afonso Costa, o movimento, iniciado em 1948, “tentará reerguer dos escombros o movimento antifascista que havia sido destroçado no pós-guerra”.

Da resistência ao fascismo salazarista, há ainda vários verbetes que tratam da história de vida de setubalenses militantes da causa da liberdade que foram perseguidos pela PIDE, a polícia política do regime, inclusive à época das eleições marcadas para 1958, que apoiavam a candidatura do general Humberto Delgado (1906-1965), igualmente derrotado em pleito fraudulento contra o almirante Américo Tomás (1894-1987), candidato do regime.

Além de fatos ligados diretamente à História de Setúbal, o leitor irá encontrar centenas de verbetes que relembram personagens que foram reconhecidos por suas atuações na cidade, biografias de personalidades políticas, culturais, desportivas, militares e religiosas, além de jornalistas, empresários, artistas plásticos, pintores, escultores, médicos, poetas, escritores, jogadores de futebol e outros profissionais. Como observa o coordenador, houve a preocupação de selecionar apenas pessoas já falecidas.

Outra preocupação, segundo ele, foi a de dar realce àqueles que habitualmente são esquecidos pela História e que, “fazendo parte de sua matéria-prima, deixaram no seu mundo/cidade uma nítida impressão digital”. Nesse sentido, também foram lembradas instituições que marcaram (e ainda marcam) sua existência na História de Setúbal, como a Casa de Bocage, onde se acreditava erroneamente que teria nascido o poeta, a Casa dos Pescadores, o Casino Setubalense, associações representativas de diversas profissões, clubes de futebol, jornais e publicações impressas já desaparecidas, igrejas, conventos, ermidas e capelas católicas, confrarias e irmandades negras, além de relatos de viajantes estrangeiros que estiveram na Setúbal nos séculos XVIII e XIX.  Enfim, trata-se de uma obra que, com certeza, ficará na História de Setúbal.

 

                                                                    IV


Albérico Afonso Costa (1951) é historiador e investigador integrado do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (UNL). Professor coordenador na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal (IPS). Doutor em História Contemporânea, na especialidade de História Cultural e das Mentalidades, pela FCSH da UNL, tem colaborado e coordenado projetos na área da História, formação de professores e formação profissional.

Tem vários trabalhos publicados nestas áreas de investigação, com destaque para: FPA, a Fábrica LeccionadaAventuras dos Tecnocatólicos no Ministério das Corporações (2008); Roteiro Republicano de Setúbal, coord. (2010); História e Cronologia de Setúbal - 1248-1926 (2011);   Salazar e a Escola TécnicaUma reforma tolerada num regime intolerante (2011); Setúbal sob a Ditadura Militar – 1926-1933 (2014) e Setúbal Cidade VermelhaSem perguntar ao Estado qual o caminho a tomar —1974/1975 (2017); Lugares de José Afonso na Geografia de Setúbal (2019); Setúbal no Centro do Mundo, 165 anos do jornal O Setubalense, coord. (2020); Setúbal sob o Estado Novo – A Resistência  a Salazar, vol. 1, 1933-1949, 2021, e Setúbal sob o Estado NovoA Resistência a Salazar e a Caetano, vol. 2, 1950-1974 (2023); e O Círculo Cultural de Setúbal – De Ninho Oposicionista a Quartel-General da Revolução, um redondo vocábulo, pela mão de José Afonso (2024).

Tem proferido dezenas de comunicações e conferências sobre os temas de História Contemporânea e formação de professores. Tem ainda publicações em livros coletivos, revistas e atas de eventos científicos. Diretor da revista Medi@ções da Escola Superior de Educação de Setúbal, é também coordenador do Departamento de Ciências Sociais e Pedagogia e membro do Conselho Técnico Científico da Escola Superior de Educação do IPS.

Em 2019, recebeu da Câmara Municipal de Setúbal a medalha de honra da cidade na classe de atividades culturais. Em 2020, foi homenageado pela Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão (LASA) pelo “valioso contributo que tem dado à comunidade setubalense”. Adelto Gonçalves - Brasil

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Dicionário de História de Setúbal, vol. I:A-E, de Albérico Afonso Costa (coordenação). Setúbal, Jornal O Setubalense, 20 euros, 456 páginas, 2025. E-mail: geral@osetubalense.com

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Adelto Gonçalves (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br




sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Portugal - Exposição resgata trajetória e obra de Bocage

Mostra em Setúbal inclui biografia do poeta escrita por pesquisador brasileiro



A edição brasileira de Bocage: o perfil perdido, do pesquisador brasileiro Adelto Gonçalves, publicada em 2021 pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), é um dos destaques da exposição “Bocage entre Nós”, inaugurada no dia 24 de setembro no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS), em Setúbal, Portugal, com encerramento previsto para o dia 21 de dezembro de 2022, data que assinala a morte do poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805).


Em 2023, a exposição "Bocage entre Nós", que conta com o patrocínio da Associação de Municípios da Região de Setúbal (AMRS), da União de Freguesias de Setúbal e do MAEDS, circulará, em regime de itinerância, por várias escolas básicas e secundárias de Portugal, de acordo com a vontade expressa da comissão organizadora e daquelas entidades. “A ideia é sensibilizar e conquistar para a "causa bocagiana" professores e alunos, levando à tão desejada alteração de paradigma a respeito do nosso poeta”, disse o professor setubalense António Chitas, organizador da exposição, que, neste momento, prepara o lançamento do 2.º Curso de Formação "Novas Perspectivas para o Ensino da Vida e Obra de Bocage – Estratégias, Metodologias e Recursos Didáticos”, destinado a professores dos ensinos básico e secundário de Portugal.


A exposição dá-se na sequência de um extenso programa de comemorações, que teve início a 15 de setembro do ano passado, data que marca o nascimento do poeta, e assinalou também a passagem do 150º aniversário da inauguração da estátua do poeta na Praça do Bocage, antiga Praça do Sapal, em Setúbal, que se deu a 21 de dezembro de 1871 e contou com o apoio da comunidade portuguesa do Rio de Janeiro. Por isso, a exposição tem como subtítulo: “a construção da memória nos 150 anos do monumento a Bocage”, como consta do catálogo.

“Parte significativa da exposição foi concebida para utilização posterior ao final do evento, configurando-se um recurso educativo e didático de grande interesse, que vamos proporcionar aos estabelecimentos de ensino”, observou Rui Manuel Canas, presidente da União de Freguesias de Setúbal, uma das entidades patrocinadoras do evento.

Além de catálogo confeccionado especialmente para a efeméride, a exposição conta com várias edições antigas de obras impressas do poeta e outras mais recentes, além de azulejos, pratos de faiança, canecas, cachimbos, medalhas, moedas, gravuras de Setúbal e outros objetos do século XVIII, bem como quadros que retratam o vate em várias fases de sua vida adulta. Do catálogo ainda consta um texto em que o professor António Chitas, investigador bocagiano, traça em breves palavras a biografia do poeta.

Também estão expostas fotocópias de documentos manuscritos que constam de arquivos portugueses e que foram reproduzidos no livro Bocage: o perfil perdido, de Adelto Gonçalves, publicado originalmente em 2003 pela Editorial Caminho, de Lisboa, e depois na edição brasileira. Para pesquisar e escrever a obra, o estudioso brasileiro, doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) contou com bolsa de pós-doutoramento oferecida pela Fundação de Apoio à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), que lhe permitiu permanecer em Portugal nos anos de 1999-2000.







quarta-feira, 23 de junho de 2021

A vida de Bocage

Não sei se Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805) era bilharista. A sê-lo, alinharia pelos que se comprazem na complexidade do jogo às três tabelas, arredio a submeter-se às triangulações mais clássicas e lineares — a acreditar no vaticínio do seu arqui-inimigo José Agostinho de Macedo: “É um gênio incapaz de simetria!” De fato, não se pode dizer de Elmano Sadino — o seu nome arcádico — que, como Shakespeare, Mozart ou Picasso, fosse artista, capaz de captar, sintetizar ou magnificar tudo o que a sua época lhe oferecia.

Há um anacronismo muito português que o fere, um engenho que lhe minou a obra até ao achamento de si. Para a época clássica, a natureza do gosto era submetida a leis universais e invioláveis e seria necessário romper com demasiadas coisas para assomar no plano estético a subjetividade que culminaria no Romantismo.

Bocage, por exemplo, fez a gesta, mas tal como Ovídio, que traduziu, só procurou nos lugares a reminiscência “histórica”. Foi essa a ilusão que o traiu, a raiz do seu desencontro com os lugares — velados pelos mitos. Vai ao Brasil, à Ilha de Moçambique, a Goa, a Damão, a Macau, perseguindo a irradiação de Camões, sem se abrir à experiência.

O despojamento de Bocage, tanto dos mitos como dos aplausos que tão facilmente arrebatava nos botequins e salões dos árcades, obrigá-lo-á a efetuar dois movimentos redutores. Só após esse desengano trágico pôde o poeta alcançar o kairos, a oportuna conjugação com o agora e com os lugares. Só aí a sua visão, expurgada do peso canônico, se abre finalmente à subjetividade, ao seu ineditismo.

O barroco começara a separar o autor e a obra, o arcadismo acentuou a “esquizofrenia”. Bocage, após ter sofrido na pele a exacerbação dos mitos, regressa à pequena ficção de si: foi onde foi grande.

Bocage, o perfil perdido (São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo - Imesp, 2021), do brasileiro Adelto Gonçalves, é uma biografia deliciosa, exaustiva e rigorosamente documentada. O autor é jornalista, escritor e professor universitário, e entre outros livros já tinha assinado uma biografia, Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1999), com a qual ganhou o Prêmio Ivan Lins de Ensaios, da União Brasileira de Escritores e da Academia Carioca de Letras; sendo ainda autor de um romance saído em Portugal: Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015).

Bocage, o perfil perdido é um livro de fôlego, notável, que nos leva a atravessar o século XVIII português e se estende aquém e além das balizas cronológicas do poeta, faz o esforço de colocar este em contexto — e é desde já uma referência imprescindível.

O livro aponta primeiro à genealogia, à história do avô materno francês, Gil l´Hedois du Bocage, corsário, que acosta a Lisboa com uma apresada carga de relógios e acaba por prestar serviços à Coroa, como o de garantir a inexpugnabilidade do Rio de Janeiro, contra uma esquadra francesa. Adelto descreve com sabor, numa prosa que sabe ser informativa sem estar enxaguada e que, sem abandonar a densidade requerida, entretém.

A investigação foi aturada e traz novidades: fixa com provas e argumentação inabalável o local de nascimento do poeta, na rua das Canas Verdes; exuma o drama da família por causa da prisão do pai, José Luís Soares de Barbosa, durante seis anos na cadeia do Limoeiro; desfaz a ideia-feita de uma disputa amorosa entre Bocage e o irmão pelo coração de Gertrudes; revela os dias de miséria vividos pela irmã, Maria Francisca, após a sua morte, e descreve os sobressaltos que lhe minaram o espólio (entre os quais a possível sonegação de muitos originais por José Agostinho de Macedo); betuma com dados e documentos uma série de lacunas que persistiam.

Depois segue o passo do poeta com a virtude de, como se diz na contracapa da edição portuguesa, o emoldurar nos “tempos em que viveu” — a queda do marquês de Pombal, a ação de Pina Manique, a campanha do Rossilhão, além de nos dar um retrato do quotidiano de Lisboa.

Complementa ainda o livro um vasto acervo documental, reproduzido em fac-símile, e fotografias das casas onde foi parido e morreu aquele que ditou na hora do fim: “Já Bocage não sou!... À cova escura/ Meu estro vai parar desfeito em vento (...)”. Felizmente que não, como o comprova esta biografia, de muito longe a melhor, do vate setubalense. António Cabrita - Moçambique

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Bocage, o perfil perdido, de Adelto Gonçalves. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), 520 páginas, 2021, R$ 85,00. Site: https://livraria.imprensaoficial.com.br/bocage-o-perfil-perdido.html

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António Cabrita (1959) tem mais de 20 livros publicados em Portugal, Brasil (três livros de ficção) e Moçambique (livros de fábulas, poesia e ensaio). Foi jornalista durante 23 anos e editor. Em 2005, emigrou para Moçambique, onde, neste momento, é professor de Dramaturgia e cronista no semanário Savana. Tem também uma coluna no jornal Hoje Macau. Escreveu inúmeros roteiros para filmes. Entre os seus livros, destacam-se: Inferno (2001), sobre Camilo Castelo Branco, Bagagem não reclamada, Anatomia comparada dos animais selvagens (Prémio PEN Clube 2018), A Kodak faliu. também o Dick, o cão da minha infância (2020), poesia; e A maldição de Ondina, 2013 (Taubaté-SP: Letra Selvagem, 2011), Éter, 2015, A Paixão segundo João de Deus, 2019, e Fotografar contra a luz (2020), romances. E-mail: cabrita96323@gmail.com


 

sexta-feira, 11 de junho de 2021

‘Bocage, o perfil perdido’ ganha edição brasileira

São Paulo – O poeta português Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), ícone da poesia em Língua Portuguesa, não nasceu na rua de São Domingos, atual rua de Edmond Bartissol, em Setúbal, como mostra uma placa ali instalada há mais de um século, mas ao Largo de Santa Maria com a rua de Antônio Joaquim Granjo, antiga rua das Canas Verdes, na mesma cidade. Esse e outros pormenores desconhecidos do poeta, como o tempo real de sua prisão e detalhes de sua obra e de seus últimos dias, constam do livro Bocage, o perfil perdido, do pesquisador brasileiro Adelto Gonçalves, que acaba de ser publicado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), 18 anos depois da edição portuguesa que saiu pela Editorial Caminho, de Lisboa.

Como a editora observa na contracapa, Bocage, o perfil perdido é biografia exaustiva e rigorosamente documentada. Já em si controversa, a história de vida do poeta é contextualizada pelos tempos tormentosos nos quais viveu, em que ocorreram a queda do marquês de Pombal, a ação do intendente de Polícia Pina Manique e a campanha do Rossilhão, entre outros fatos importantes. A biografia recua ao avô do poeta, apresenta sua árvore genealógica desde os bisavôs, abrangendo toda a sua vida, a passagem pelo Rio de Janeiro, Ilha de Moçambique e Índia, e sua participação e expulsão da Nova Arcádia.

Adelto Gonçalves expõe alguns erros históricos. Além do endereço da casa onde o poeta nasceu, o pesquisador corrige outros equívocos, apresentando importantes descobertas, desde a prisão de seu pai, e informações inéditas, como a sobrevivência da Nova Arcádia em Lisboa até 1801. Do último período da vida de Bocage, relata suas contendas com os censores da Real Mesa da Comissão Geral sobre o Exame e Censura de Livros, e a atuação como tradutor e revisor na Oficina Tipográfica, Calcográfica, Tipoplástica e Literária do Arco do Cego. E reconstitui os últimos dias do poeta, que morre em Lisboa em 21 de dezembro de 1805.

Bocage, o perfil perdido estende-se muito além de sua morte, restabelecendo os embates relacionados à memória do poeta entre elmanistas, partidários de Bocage, e José Agostinho de Macedo, seu feroz opositor. Recupera cartas inéditas deixadas por sua irmã Maria Francisca, mostrando-a ludibriada por “falsos amigos”. A biografia apresenta descobertas como a prisão do pai do poeta na cadeia do Limoeiro, de 1771 a 1777, acusado como ouvidor de Beja de ter desviado a arrecadação da décima referente ao ano de 1769.

Outra informação importante, segundo o escritor, é que o poeta, preso em 1797, permaneceu detido mais tempo do que se sabia, até o último dia de 1798, quando saiu do Real Hospício de Nossa Senhora das Necessidades. O livro é resultado de um ano de pesquisas em arquivos portugueses, com bolsa de pós-doutoramento da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp).

No prefácio que escreveu para este livro, Fernando Cristóvão, professor catedrático de Literatura da Universidade de Lisboa, lembrou que “o interesse de Adelto Gonçalves por Bocage radica-se numa tradição brasileira, tanto erudita como popular, que sempre acolheu o poeta com especial carinho. Quer as pessoas cultas, apreciando a perfeição dos seus versos, especialmente os sonetos, quer a gente do povo recordando ou inventando um anedotário brejeiro”.

Currículo – Adelto Gonçalves (1951), nascido em Santos-SP, é jornalista desde 1972, quando começou a trabalhar no extinto jornal Cidade de Santos, do grupo Folhas. Tem passagens pelos jornais A Tribuna, de Santos, O Estado de S. Paulo e Folha da Tarde e pelas editoras Abril e Globo. Em Portugal, é colaborador do quinzenário As Artes Entre as Letras, do Porto, e das revistas Vértice e Colóquio/Letras, de Lisboa. É também colaborador do Jornal Opção, de Goiânia, do Diário do Nordeste, de Fortaleza, e da revista digital VuJonga, de Lisboa, dedicada aos povos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), entre outros sites do Brasil e Portugal.

Doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana pela mesma instituição. Seu trabalho de doutorado Gonzaga, um Poeta do Iluminismo, sobre o poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), foi publicado em 1999 pela Editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, com prefácio do poeta Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Foi professor titular da Universidade Santa Cecília (Unisanta) e Universidade São Judas-Unimonte, nos cursos de Jornalismo, e da Universidade Paulista (Unip), nos cursos de Direito e Pedagogia, em Santos. É autor de Mariela morta, contos (Ourinhos, Complemento, 1977), Os vira-latas da madrugada, romance (Rio de Janeiro, José Olympio, 1981; Taubaté-SP, Editora Letra Selvagem, 2015), Barcelona brasileira, romance (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2003), Fernando Pessoa: a voz de Deus, artigos e ensaios (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Tomás Antônio Gonzaga, estudo biográfico-crítico (Rio de Janeiro/São Paulo, ABL/Imesp, 2012); e Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo colonial - 1709-1822, ensaio histórico (São Paulo, Imesp, 2015). Em 2019, publicou também pela Imesp o livro O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797, ensaio histórico.

Prêmios – Ganhou os prêmios José Lins do Rego de Romance (1980) da Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro; Fernando Pessoa (1986) da Fundação Cultural Brasil-Portugal, do Rio de Janeiro; Assis Chateaubriand (1987) e Aníbal Freire (1994) da Academia Brasileira de Letras, e Ivan Lins de Ensaios (2000) da União Brasileira de Escritores e Academia Carioca de Letras.

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Bocage, o perfil perdido, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Fernando Cristóvão. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), 520 págs., 2021, R$ 85,00. O exemplar pode ser adquirido por meio do site da Imesp: https://livraria.imprensaoficial.com.br/bocage-o-perfil-perdido.html