Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Portugal - Exposição resgata trajetória e obra de Bocage

Mostra em Setúbal inclui biografia do poeta escrita por pesquisador brasileiro



A edição brasileira de Bocage: o perfil perdido, do pesquisador brasileiro Adelto Gonçalves, publicada em 2021 pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), é um dos destaques da exposição “Bocage entre Nós”, inaugurada no dia 24 de setembro no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS), em Setúbal, Portugal, com encerramento previsto para o dia 21 de dezembro de 2022, data que assinala a morte do poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805).


Em 2023, a exposição "Bocage entre Nós", que conta com o patrocínio da Associação de Municípios da Região de Setúbal (AMRS), da União de Freguesias de Setúbal e do MAEDS, circulará, em regime de itinerância, por várias escolas básicas e secundárias de Portugal, de acordo com a vontade expressa da comissão organizadora e daquelas entidades. “A ideia é sensibilizar e conquistar para a "causa bocagiana" professores e alunos, levando à tão desejada alteração de paradigma a respeito do nosso poeta”, disse o professor setubalense António Chitas, organizador da exposição, que, neste momento, prepara o lançamento do 2.º Curso de Formação "Novas Perspectivas para o Ensino da Vida e Obra de Bocage – Estratégias, Metodologias e Recursos Didáticos”, destinado a professores dos ensinos básico e secundário de Portugal.


A exposição dá-se na sequência de um extenso programa de comemorações, que teve início a 15 de setembro do ano passado, data que marca o nascimento do poeta, e assinalou também a passagem do 150º aniversário da inauguração da estátua do poeta na Praça do Bocage, antiga Praça do Sapal, em Setúbal, que se deu a 21 de dezembro de 1871 e contou com o apoio da comunidade portuguesa do Rio de Janeiro. Por isso, a exposição tem como subtítulo: “a construção da memória nos 150 anos do monumento a Bocage”, como consta do catálogo.

“Parte significativa da exposição foi concebida para utilização posterior ao final do evento, configurando-se um recurso educativo e didático de grande interesse, que vamos proporcionar aos estabelecimentos de ensino”, observou Rui Manuel Canas, presidente da União de Freguesias de Setúbal, uma das entidades patrocinadoras do evento.

Além de catálogo confeccionado especialmente para a efeméride, a exposição conta com várias edições antigas de obras impressas do poeta e outras mais recentes, além de azulejos, pratos de faiança, canecas, cachimbos, medalhas, moedas, gravuras de Setúbal e outros objetos do século XVIII, bem como quadros que retratam o vate em várias fases de sua vida adulta. Do catálogo ainda consta um texto em que o professor António Chitas, investigador bocagiano, traça em breves palavras a biografia do poeta.

Também estão expostas fotocópias de documentos manuscritos que constam de arquivos portugueses e que foram reproduzidos no livro Bocage: o perfil perdido, de Adelto Gonçalves, publicado originalmente em 2003 pela Editorial Caminho, de Lisboa, e depois na edição brasileira. Para pesquisar e escrever a obra, o estudioso brasileiro, doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) contou com bolsa de pós-doutoramento oferecida pela Fundação de Apoio à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), que lhe permitiu permanecer em Portugal nos anos de 1999-2000.







sexta-feira, 11 de junho de 2021

‘Bocage, o perfil perdido’ ganha edição brasileira

São Paulo – O poeta português Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), ícone da poesia em Língua Portuguesa, não nasceu na rua de São Domingos, atual rua de Edmond Bartissol, em Setúbal, como mostra uma placa ali instalada há mais de um século, mas ao Largo de Santa Maria com a rua de Antônio Joaquim Granjo, antiga rua das Canas Verdes, na mesma cidade. Esse e outros pormenores desconhecidos do poeta, como o tempo real de sua prisão e detalhes de sua obra e de seus últimos dias, constam do livro Bocage, o perfil perdido, do pesquisador brasileiro Adelto Gonçalves, que acaba de ser publicado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), 18 anos depois da edição portuguesa que saiu pela Editorial Caminho, de Lisboa.

Como a editora observa na contracapa, Bocage, o perfil perdido é biografia exaustiva e rigorosamente documentada. Já em si controversa, a história de vida do poeta é contextualizada pelos tempos tormentosos nos quais viveu, em que ocorreram a queda do marquês de Pombal, a ação do intendente de Polícia Pina Manique e a campanha do Rossilhão, entre outros fatos importantes. A biografia recua ao avô do poeta, apresenta sua árvore genealógica desde os bisavôs, abrangendo toda a sua vida, a passagem pelo Rio de Janeiro, Ilha de Moçambique e Índia, e sua participação e expulsão da Nova Arcádia.

Adelto Gonçalves expõe alguns erros históricos. Além do endereço da casa onde o poeta nasceu, o pesquisador corrige outros equívocos, apresentando importantes descobertas, desde a prisão de seu pai, e informações inéditas, como a sobrevivência da Nova Arcádia em Lisboa até 1801. Do último período da vida de Bocage, relata suas contendas com os censores da Real Mesa da Comissão Geral sobre o Exame e Censura de Livros, e a atuação como tradutor e revisor na Oficina Tipográfica, Calcográfica, Tipoplástica e Literária do Arco do Cego. E reconstitui os últimos dias do poeta, que morre em Lisboa em 21 de dezembro de 1805.

Bocage, o perfil perdido estende-se muito além de sua morte, restabelecendo os embates relacionados à memória do poeta entre elmanistas, partidários de Bocage, e José Agostinho de Macedo, seu feroz opositor. Recupera cartas inéditas deixadas por sua irmã Maria Francisca, mostrando-a ludibriada por “falsos amigos”. A biografia apresenta descobertas como a prisão do pai do poeta na cadeia do Limoeiro, de 1771 a 1777, acusado como ouvidor de Beja de ter desviado a arrecadação da décima referente ao ano de 1769.

Outra informação importante, segundo o escritor, é que o poeta, preso em 1797, permaneceu detido mais tempo do que se sabia, até o último dia de 1798, quando saiu do Real Hospício de Nossa Senhora das Necessidades. O livro é resultado de um ano de pesquisas em arquivos portugueses, com bolsa de pós-doutoramento da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp).

No prefácio que escreveu para este livro, Fernando Cristóvão, professor catedrático de Literatura da Universidade de Lisboa, lembrou que “o interesse de Adelto Gonçalves por Bocage radica-se numa tradição brasileira, tanto erudita como popular, que sempre acolheu o poeta com especial carinho. Quer as pessoas cultas, apreciando a perfeição dos seus versos, especialmente os sonetos, quer a gente do povo recordando ou inventando um anedotário brejeiro”.

Currículo – Adelto Gonçalves (1951), nascido em Santos-SP, é jornalista desde 1972, quando começou a trabalhar no extinto jornal Cidade de Santos, do grupo Folhas. Tem passagens pelos jornais A Tribuna, de Santos, O Estado de S. Paulo e Folha da Tarde e pelas editoras Abril e Globo. Em Portugal, é colaborador do quinzenário As Artes Entre as Letras, do Porto, e das revistas Vértice e Colóquio/Letras, de Lisboa. É também colaborador do Jornal Opção, de Goiânia, do Diário do Nordeste, de Fortaleza, e da revista digital VuJonga, de Lisboa, dedicada aos povos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), entre outros sites do Brasil e Portugal.

Doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana pela mesma instituição. Seu trabalho de doutorado Gonzaga, um Poeta do Iluminismo, sobre o poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), foi publicado em 1999 pela Editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, com prefácio do poeta Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Foi professor titular da Universidade Santa Cecília (Unisanta) e Universidade São Judas-Unimonte, nos cursos de Jornalismo, e da Universidade Paulista (Unip), nos cursos de Direito e Pedagogia, em Santos. É autor de Mariela morta, contos (Ourinhos, Complemento, 1977), Os vira-latas da madrugada, romance (Rio de Janeiro, José Olympio, 1981; Taubaté-SP, Editora Letra Selvagem, 2015), Barcelona brasileira, romance (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2003), Fernando Pessoa: a voz de Deus, artigos e ensaios (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Tomás Antônio Gonzaga, estudo biográfico-crítico (Rio de Janeiro/São Paulo, ABL/Imesp, 2012); e Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo colonial - 1709-1822, ensaio histórico (São Paulo, Imesp, 2015). Em 2019, publicou também pela Imesp o livro O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797, ensaio histórico.

Prêmios – Ganhou os prêmios José Lins do Rego de Romance (1980) da Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro; Fernando Pessoa (1986) da Fundação Cultural Brasil-Portugal, do Rio de Janeiro; Assis Chateaubriand (1987) e Aníbal Freire (1994) da Academia Brasileira de Letras, e Ivan Lins de Ensaios (2000) da União Brasileira de Escritores e Academia Carioca de Letras.

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Bocage, o perfil perdido, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Fernando Cristóvão. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), 520 págs., 2021, R$ 85,00. O exemplar pode ser adquirido por meio do site da Imesp: https://livraria.imprensaoficial.com.br/bocage-o-perfil-perdido.html

 




terça-feira, 1 de setembro de 2020

‘O Reino, a Colônia e o Poder’: uma obra seminal


A publicação de O Reino, a Colônia e o Poder: o Governo Lorena na Capitania de São Paulo 1788-1797, de Adelto Gonçalves, constitui um acontecimento editorial de vulto. Estamos em presença de uma obra relevante para a compreensão da história brasileira e portuguesa do último quartel do século XVIII. Nela é equacionada uma época conturbada da história universal. Com efeito, a Revolução Francesa estava omnipresente e as suas realizações repercutiam-se de forma exponencial, dando um novo rosto à ordem social e política. Portugal encontrava-se num período de transição – a Viradeira, que reverteu algumas das medidas mais profundas implementadas pelo Marquês de Pombal, entretanto caído em desgraça – e no Brasil as ideias independentistas das elites fermentavam.

Adelto Gonçalves perspectivou, de forma dialéctica, além das linhas de força da época, aquelas que caracterizavam São Paulo. Sucessivamente, o leitor tem acesso ao quotidiano multímodo e estuante de uma cidade colonial: a forma com era exercido o poder, o diálogo entre a metrópole e a periferia, as instituições existentes, a economia, as mentalidades e a cultura. Por outro lado, é introduzido na mundividência de Bernardo Lorena, que governou aquela urbe durante uma década. Para melhor problematizar o consulado daquele aristocrata, Adelto Gonçalves analisou, ao longo de cerca de duzentas páginas, os primórdios da Capitania de São Paulo, debruçando-se diacronicamente sobre os factos marcantes que ali tiveram lugar.

O escopo deste ensaio é, portanto, amplo e de extrema complexidade. Para ser levado a bom porto era condição sine qua non que o seu autor consultasse, de forma aturada, uma bibliografia extensa e ainda que procedesse a um exaustivo trabalho de arquivo, aliás, como é seu timbre. Deste modo, Adelto Gonçalves percorreu, durante anos, algumas das principais instituições brasileiras e portuguesas, exumando documentos que «dormiam o sono dos arquivos», cuja consulta lhe facultou matéria-prima para descrever, com rigor, sem especulação, aquele período e para formular teses que os historiadores vindouros não poderão deixar de ponderar atentamente. Registe-se ainda que tal metodologia, por vezes, não é seguida por investigadores menos probos, porquanto exige muita energia, perseverança, dispêndio considerável de tempo e uma competência específica. Optam, na verdade, com alguma frequência, por repetir aquilo que já foi dito e redito, nem sempre com proficiência, acrescente-se.

                                                                 II
Com a presente obra, Adelto Gonçalves revela honestidade intelectual, atributo igualmente notório em outras obras que assinou. A consulta de inúmeros documentos inéditos permitiu-lhe corrigir erros que a historiografia tradicional cristalizara e abriu novos horizontes relativamente à interpretação da natureza do colonialismo português e à forma como São Paulo estava estruturada.

Adelto Gonçalves, natural de Santos, é mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana, tendo-se doutorado em Literatura Portuguesa, pela Universidade de São Paulo. Leccionou nas Universidades Paulista (Unip) e Santa Cecília (Unisanta), bem como no Centro Universitário Monte Serrat (Unimonte, Santos), e Centro Universitário Amparense (Unifia, Amparo). A sua actividade estende-se, também, desde 1972, ao jornalismo, tendo colaborado, entre outros periódicos, em O Estado de S.  Paulo, A Tribuna (Santos), Revista Época (São Paulo), Revista Vértice (Lisboa), As Artes entre as Letras (Porto), Pravda (Moscovo) e Jornal de Opção (Goiânia), desempenhando, actualmente, o cargo de assessor de imprensa na área empresarial.

A cultura brasileira e a cultura portuguesa devem muito ao labor de Adelto Gonçalves, graças à sua extensa e relevante obra, que se espraia pela análise de poetas consagrados como Bocage, Tomás António Gonzaga, Machado de Assis e Fernando Pessoa; pelo ensaio histórico, como Direito e Justiça em Terras d’el-Rei na São Paulo Colonial e o texto agora em apreço; pelo romance e o conto (Os Vira-Latas da Madrugada, Barcelona Brasileira e Mariela Morta). É ainda de referência obrigatória a crítica literária, que mantém há anos, com regularidade pendular, dando a conhecer, em múltiplos periódicos, obras de autores maioritariamente brasileiros e portugueses, contribuindo, deste modo, para a formação e a orientação de inúmeros leitores.

                                                                   III
A sua competência e o seu magistério têm merecido o reconhecimento de várias entidades e instituições, que lhe atribuíram galardões. Recordemos alguns: Prémio Fernando Pessoa, da Fundação Cultural Brasil-Portugal, por O Ideal Político de Fernando Pessoa; Prémios Assis Chateaubriand e Aníbal Freire, da Academia Brasileira de Letras; Prémio Ivan Lins de Ensaios da União Brasileira de Escritores e da Academia Carioca de Letras, por Gonzaga, um Poeta do Iluminismo, que constitui a sua tese de doutoramento.

Em suma, eis uma obra seminal, redigida num estilo límpido, profusamente anotada, que corrige teses erróneas, problematiza e reequaciona um período determinante da história do Brasil e de Portugal, confirmando, outrossim, a actividade singular de um investigador com créditos há muito firmados. Daniel Pires – Portugal


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O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Kenneth Maxwell, texto de apresentação de Carlos Guilherme Mota e fotos de Luiz Nascimento. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 408 páginas, R$ 70,00, 2019. Site: www.imprensaoficial.com.br


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Daniel Pires, professor, licenciado em Filologia Germânica, é doutor em Cultura Portuguesa pela Universidade de Lisboa e diretor do Centro de Estudos Bocageanos, de Setúbal. É autor de Fábulas de Bocage (2000), Bocage: a Imagem e o Verbo (2015), Padre Malagrida: o Último Condenado ao Fogo da Inquisição (2012), O Marquês de Pombal, o Terramoto de 1755 em Setúbal e o Padre Malagrida (2013),  Dicionário da Imprensa Periódica Portuguesa no Século XX (1996), Dicionário Cronológico da Imprensa Macaense no Século XIX (2016) e de ensaios sobre Camilo  Pessanha, Wenceslau de Moraes e Raul Proença. Foi responsável pela edição da Obra Completa de Bocage, publicada pela Edições Caixotim, do Porto, entre 2004 e 2007. Organizou as Obras Completas de Bocage: Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas, publicadas pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de Lisboa, em 2017.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Malagrida

             Malagrida: o último supliciado pelo fogo
                                                                                                                                

                                                           I

O confronto entre Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), conde de Oeiras e, depois, marquês de Pombal, secretário de Estado dos Negócios do Reino, com os jesuítas teve o seu epílogo com a condenação do padre Gabriel Malagrida (1689-1761) ao garrote e à fogueira da Inquisição na Praça do Rossio, em Lisboa. Um ato de barbárie explícita que, mesmo no século XVIII, horrorizou o mundo civilizado, que já havia ficado chocado com a morte dos Távoras em 1759, acusados de tramar um atentado contra a vida do rei d. José I (1714-1777).

Os Távoras  e demais acusados  foram executados por quebra de ossos das pernas e dos braços e, finalmente, por esmagamento do tórax num pátio armado em Belém. Com Malagrida, ainda houve certa “complacência”, pois não teria sido atirado vivo ao fogo. De qualquer modo, sua execução foi uma exibição da mais completa selvageria, no dizer do filósofo francês François-Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire (1694-1778) que, embora anti-jesuíta, definiu assim o episódio: “Juntou-se o excesso de ridículo e de absurdo ao excesso de horror”.

Reconstituir esse episódio foi o que levou o pesquisador Daniel Pires (1951) a escrever Padre Gabriel Malagrida: o último condenado ao fogo da Inquisição (Setúbal: Centro de Estudos Bocageanos, 2012), que jorra luz a um acontecimento singular na vida política portuguesa do século XVIII, livro que, de certo modo, tem a sua sequência com O Marquês de Pombal, O Terramoto de 1755 em Setúbal e o Padre Malagrida, que, a exemplo do anterior, acaba de ser editado pelo Centro de Estudos Bocageanos, dentro da Coleção Clássicos de Setúbal.

De nacionalidade italiana, Malagrida em 1721 radicou-se no Brasil, fazendo um trabalho de catequese com os índios guaranis, caiacazes, tabajaras, gamelas e barbados, além de fundar colégios, casas de retiro e um asilo, à época em que os jesuítas tinham apoio da monarquia portuguesa. A derrocada dos jesuítas – que, de início, até apoiaram a nomeação de Sebastião José de Carvalho e Melo para o ministério de D. José I – deu-se a partir de 1753, quando os guaranis começaram a resistir à demarcação de fronteiras estabelecida em 1750 pelo Tratado de Madri em que Espanha e Portugal definiram aleatoriamente as fronteiras entre a província espanhola do Paraguai e a capitania de Mato Grosso, sem levar em consideração os interesses dos índios guaranis.

Como os índios rebelados contavam com o apoio dos jesuítas, que tinham também interesses econômicos na questão, a atitude despertou a ira do conde de Oeiras, então uma estrela em ascensão no reinado de D. José I que começou a partir da morte de D. João V a 31 de julho de 1750.

                                               II

O mais notável dos jesuítas de sua época, Malagrida passou a ter a sua vida confundida com a da própria Companhia de Jesus. Com admiradores e seguidores na monarquia, o padre seria chamado de volta pela rainha Mariana Ana da Áustria (1683-1764) para viver na Corte, onde estava quando ocorreu o terremoto de 1º de novembro de 1755 que destruiu boa parte de Lisboa, chegando a causar danos também em Setúbal e outras vilas d´além Tejo.

Talvez porque se sentisse protegido pela nobreza tradicional, Malagrida escreveu e publicou no ano seguinte a obra Juízo da verdadeira causa do terremoto que padeceu a Corte de Lisboa no primeiro de novembro de 1755 em que considerava o cataclismo um castigo de Deus, que teria ficado revoltado com toda sorte de iniqüidades e licenciosidade que grassariam nas altas esferas do Reino. Sua publicação com a licença necessária do governo seria uma prova de que à época Malagrida desfrutava de grande prestígio na Corte.

O terremoto, porém, favoreceria a ascensão do conde Oeiras a ministro de D. José I com plenos poderes. Obviamente, o recado que trazia a obra seria endereçado também ao conde de Oeiras e talvez fizesse parte de um plano que pretendia levar ao seu afastamento do governo. Mas o tiro acabaria saindo pela culatra porque o conde de Oeiras, fortalecido cada vez mais, depois de “enterrar os mortos e tratar dos vivos”, acabaria por obrigar Malagrida a se exilar na vila de Setúbal, com residência fixa.
                       
                                                            III

Em 1758, ocorreria a tentativa de assassinato do rei D. José I, o que daria ao conde de Oeiras a oportunidade de se vingar e livrar-se da nobreza tradicional que nunca vira com bons olhos a sua ascensão a ministro plenipotenciário, até porque não o considerava um dos seus, mas de uma nobreza subalterna. Como muito bem mostra Daniel Pires, o conde de Oeiras aproveitaria a ocasião para acusar os jesuítas da autoria moral do atentado.

Como se sabe, na noite de 3 de setembro de 1758, D. José I, quando voltava para as tendas armadas próximas ao Palácio na Ajuda, então em reconstrução, depois de uma visita a sua amante, Teresa de Távora, seria alvo de tiros, mas, mesmo ferido, conseguiria escapar. Os jesuítas, então, seriam perseguidos no Reino e nas colônias e a Companhia de Jesus extinta. Em janeiro de 1759, na seqüência desses episódios, Malagrida seria encarcerado no Forte da Junqueira, depois de processo aberto pela Inquisição. Só que, gênio irrequieto, nunca silenciaria e, sempre que podia, avançaria contra o conde de Oeiras, denunciando a podridão moral do reinado de D. José I.

A rigor, teria uma atitude suicida que só pode ser explicada pelo depoimento que D. João de Almeida Portugal, o Marquês de Alorna (1726-1802), detido então na Junqueira, acusado também de envolvimento no regicídio, deu a respeito do comportamento de Malagrida na prisão, dizendo que o padre ficava horas em oração com a cabeça postada no chão, “no tempo em que estas casas de paredes tão grossas, acabadas de fazer, continham em si um frio e uma umidade insuportáveis”. Isso teria perturbado o seu entendimento, o que o levava a dizer que ouvia vozes.

Familiar do Santo Ofício, o conde de Oeiras, obviamente, teve participação decisiva no julgamento que condenaria Malagrida, sem levar em conta que sua conduta podia estar ligada à insanidade mental. Também maçom, o conde de Oeiras disse que Malagrida “obrava por se venerar como santo e para estabelecer o fanatismo na crudelidade e leveza do povo ignorante”. Para o ministro, o padre teria sido o “diretor espiritual dos réus que haviam fomentado e dirigido o insulto praticado contra D. José”. Contra Malagrida, constavam ainda acusações de que costumava extorquir famílias nobres – especialmente senhoras, que pediam suas orações – sob o pretexto de devotos fins. O padre, porém, acabaria condenado pela Inquisição por heresia.

Nas conclusões, Daniel Pires observa que o conde de Oeiras encenou, de forma extremamente inteligente e metódica, uma acusação que não refletia a realidade, atribuindo aos jesuítas a autoria moral da tentativa de regicídio. Lembra ainda que Malagrida viveu seus últimos 30 meses em condições subumanas, nas prisões da Junqueira e da Inquisição, convivendo com ratos e sujeira, o que, com certeza, contribuiu para lhe agravar o estado de demência.

Todos esses episódios com requintes de detalhes podem ser acompanhados neste livro de Daniel Pires, que passa a fazer parte de uma extensa obra que inclui livros sobre Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), Camilo Pessanha (1867-1926), Wenceslau de Moraes (1854-1929) e Raul Proença (1884-1941), entre outros.

                                                           IV
Doutor em Cultura Portuguesa pela Universidade de Lisboa, Daniel Pires é mais conhecido por suas pesquisas sobre Bocage, sua paixão literária, o que o levou a fundar o Centro de Estudos Bocageanos, em Setúbal, além de defender tese de doutoramento a respeito da obra do poeta. Foi responsável pela edição da Obra Completa de Bocage, publicada pela Edições Caixotim, do Porto, entre 2004 e 2007.

Licenciado em Filologia Germânica, já deu aulas de inglês no ensino secundário e foi professor em Setúbal. Sua paixão pela pesquisa e seu gosto pelo conhecimento já o levaram a trabalhar em São Tomé, Angola, Moçambique, Macau, China, Goa e Escócia. Em Macau viveu por três anos, entre 1987 e 1990, onde atuou na Universidade local, e, mais tarde, ensinou na Universidade de Cantão, a cerca de 120 quilômetros de Hong Kong.

É autor de importantes trabalhos de divulgação da obra de Bocage, como o livro Fábulas de Bocage (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 2000) e a organização e publicação da brochura da Exposição Biobibliográfica comemorativa dos 230 anos de nascimento e dos 190 anos da morte de Bocage (Setúbal, Câmara Municipal de Setúbal/Biblioteca Pública Municipal de Setúbal, 1995). Com Fernando Marcos, preparou a edição de uma pasta com 15 belos postais (sépia) sobre Bocage na Prisão (Setúbal, CEB, 1999). 

Publicou ainda o Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa no Século XX (Lisboa, Editora Grifo, 1996), constituído por três volumes.  Colaborou no Dicionário de História de Portugal e no Dicionário de Fernando Pessoa, além de fazer parte da comissão que organizou as comemorações do bicentenário da morte de Bocage, em 2005. Tem pronto para publicação o Dicionário da Imprensa de Macau do Século XIX,  trabalho iniciado em 1990 em que descreve todos os periódicos que foram publicados em Macau no século XIX, incluindo os jornais ingleses que, durante a Guerra do Ópio, saíram simultaneamente em Macau e em Cantão. Adelto Gonçalves - Brasil

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PADRE GABRIEL MALAGRIDA: O ÚLTIMO CONDENADO AO FOGO DA INQUISIÇÃO, de Daniel Pires. Setúbal: Centro de Estudos Bocageanos, 136 págs., 2012. Preço do exemplar: 10 euros mais portes de correio. E-mail: danielspires@netcabo.pt


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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras, 2012). E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Foto: Luiz Nascimento