Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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domingo, 24 de agosto de 2025

Deixei de ser aquele que esperava


 









Deixei de ser aquele que esperava

 

Deixei de ser aquele que esperava,

Isto é, deixei de ser quem nunca fui…

Entre onda e onda a onda não se cava,

E tudo, em ser conjunto, dura e flui.

 

A seta treme, pois que, na ampla aljava,

O presente ao futuro cria e inclui.

Se os mares erguem sua fúria brava

É que a futura paz seu rastro obstrui.

 

Tudo depende do que não existe.

Por isso meu ser mudo se converte

Na própria semelhança, austero e triste.

 

Nada me explica. Nada me pertence.

E sobre tudo a lua alheia verte

A luz que tudo dissipa e nada vence.

 

Fernando Pessoa – Portugal


quinta-feira, 1 de maio de 2025

Luxemburgo - Música inspirada em Pessoa marca Dia da Língua Portuguesa no próximo dia 05 de Maio

A 05 de maio, por ocasião da celebração do Dia Mundial da Língua Portuguesa, proclamado pela UNESCO, a Embaixada de Portugal e o Centro Cultural Português – Camões, organizam um recital de música de países lusófonos, por músicos oriundos de países de língua oficial portuguesa residentes no Luxemburgo



Eimy Dream (Angola), Gregório Carvalho (Brasil), Plácido Vaz (Cabo Verde), Ody Cadiz (Guiné-Bissau), Paulo Levi (Portugal) Hy-Khang Dang (Luxemburgo) apresentarão, no Dia Mundial da Língua Portuguesa, um repertório lusófono e uma composição inspirada em Fernando Pessoa, a peça “Saudades” (inspirada no “Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa).

O recital terá lugar no Camões – Centro Cultural Português, às 19h00, e a entrada é livre.

Dado o número limitado de lugares disponíveis, solicita-se reserva para o seguinte email: ccp-luxemburgo@camoes.mne.pt. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


domingo, 20 de abril de 2025

Ricardo Reis e Alberto Caeiro: A revelação pública há 100 anos

A revelação pública da poesia de Ricardo Reis e de Alberto Caeiro constitui um dos centenários mais significativos da vida e da obra de Fernando Pessoa. Verificou-se através dos cinco números da revista "Athena", editada desde outubro de 1924 até junho de 1925, data exata da publicação, embora o último número inscrevesse o mês de fevereiro de 1925.


 

A poesia de Alberto Caeiro e a de Ricardo Reis, qualquer delas bem diferente uma da outra, representa uma das etapas fundamentais do modernismo em Portugal, apesar de não terem, na altura, a repercussão alcançada por Álvaro de Campos, cuja expressão contundente e provocatória se manifestou quer no “Orpheu”, em 1915, quer no “Portugal Futurista”, em 1917, quer, ainda, em cartas para os jornais a rebaixar, por exemplo, Afonso Costa, uma das personalidades políticas mais relevantes da República. 

Contudo, a revelação de Alberto Caeiro e de Ricardo Reis ficara limitada a círculos literários muito reduzidos. A opinião pública debatia-se com sucessivas crises políticas, sociais e militares que afetavam a ordem pública e provocavam uma contínua instabilidade: consecutivas quedas de governos (que chegaram a durar 24 horas), a explosão de bombas, atentados pessoais, até durante um funeral no Cemitério dos Prazeres... Tudo isto acontecia em Lisboa e repercutia-se através das outras cidades do país. 

Durante os seus trajetos em Lisboa, Fernando Pessoa anulava-se entre os transeuntes das ruas e os passageiros dos transportes públicos. Num dos testemunhos que chegaram ao nosso conhecimento, Ofélia Queiroz (1900–1991), a sua única e episódica namorada, traçou-lhe um retrato sumário: “Um senhor todo vestido de preto [...] com um chapéu de aba revirada e debruada, óculos e laço ao pescoço [...] ao andar, parecia não pisar o chão.”

Era um desconhecido. Privava apenas com os proprietários e funcionários dos escritórios onde traduzia para inglês e para francês correspondência comercial. Mantinha um convívio restrito com poucos amigos, em pequenas tertúlias instaladas em cafés e em restaurantes da Baixa, do Chiado ou do Terreiro do Paço. A vida privada de Pessoa — objeto de várias suposições, tais como homossexual, bissexual, misógino, onanista, abúlico — só chegou ao nosso conhecimento através de manuscritos dispersos no espólio e posteriormente reunidos, em 1966, num volume com o título genérico “Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação”. 

Foi neste livro que Fernando Pessoa afirmou categoricamente: “Não encontro dificuldade em definir-me: sou um temperamento feminino com uma inteligência masculina. A minha sensibilidade e os movimentos que dela procedem, e é nisso que consistem o temperamento e a sua expressão, são de mulher. As minhas faculdades de relação — a inteligência, e a vontade, que é a inteligência do impulso — são de homem.” 

Esclareceu depois Fernando Pessoa: “Reconheço sem ilusão a natureza do fenómeno. É uma inversão sexual fruste. Pára no espírito. Sempre, porém, nos momentos de meditação sobre mim, me inquietou; não tive nunca a certeza, nem a tenho ainda, de que essa disposição do temperamento não pudesse um dia descer-me ao corpo. Não digo que praticasse então a sexualidade correspondente a esse impulso; mas bastava o desejo para me humilhar.” 

Fernando Pessoa em "páginas íntimas e de auto-interpretação" 

Alberto Caeiro e Ricardo Reis completam, agora, 100 anos com os poemas incluídos na revista "Athena" e, posteriormente, na revista "Presença". Mais tarde, as edições da Ática, em volumes próprios, consagrados a Alberto Caeiro e Ricardo Reis, ambos em 1946, demonstraram a excecional dimensão de Fernando Pessoa.

"Athena": as três polémicas

Os cinco números da revista "Athena" podem explicar aspetos fundamentais do universo heteronímico de Fernando Pessoa, o aparecimento de "O Guardador de Rebanhos", de Alberto Caeiro, e das "Odes", de Ricardo Reis. A revista é dirigida por Fernando Pessoa e por Rey Vaz (1891-1955), arquiteto, caricaturista e pintor, que esteve à frente da Escola Afonso Domingues, em Lisboa. (...) 

Por outro lado, a "Athena" não se limitou à publicação de Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Incluiu, no contexto das revistas do modernismo, a primeira colaboração efetiva de uma mulher portuguesa, Mily Possoz (1888-1968). (...) 

Pintora, aquarelista e gravadora, Mily Possoz destacou-se entre os Cinco Independentes - que afinal eram sete - ao expor na Sociedade Nacional de Belas Artes. Trata-se da primeira grande exposição que veio consolidar as novas formas de expressão na pintura. 

Mas há ainda mais duas singularidades da "Athena": a colaboração de Mário Saa (1893-1971), como poeta que, no mesmo ano, se notabilizara com a edição do livro "A Invasão dos Judeus" (1925), na sequência de outro livro seu, "Portugal Cristão-Novo ou os Judeus na República" (1921). Ambos desencadearam, na primeira metade do século XX, a polémica do antissemitismo. 

Finalmente, a colaboração de António Botto (1897-1959) na "Athena" deu lugar a outra polémica, em torno da afirmação, sem equívocos, da homossexualidade na literatura portuguesa. (...) 

Foram queimados os livros de António Boto, Raul Leal e Judith Teixeira no pátio do Governo Civil de Lisboa. As campanhas promovidas pela Liga de Ação dos Estudantes de Lisboa, empenhada na defesa da moral e dos bons costumes, contribuíram para intensificar a indignação pública. Elas eram encabeçadas por Pedro Teotónio Pereira e Marcello Caetano, ambos apoiantes em 1926 da instauração da ditadura militar e ambos, posteriormente, ministros de Salazar. 

A génese dos heterónimos 

O acolhimento dispensado a Fernando Pessoa para colaborar na revista “Presença” (1927–1940) foi, sem dúvida, da maior importância para a divulgação da sua obra ortónima e heterónima. As numerosas cartas que Pessoa dirigiu a José Régio, a João Gaspar Simões e a Adolfo Casais Monteiro documentam a origem dos heterónimos, fundamentalmente Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Sem, todavia, remontar aos primórdios, aos 6 anos, na altura em que morava em Lisboa, na Rua de São Marçal, e inventou o Chevalier de Pas, que alguns biógrafos e críticos admitem ser um duplo da figura do pai, Joaquim Seabra Pessoa, falecido a 12 de junho de 1893. 

Em 1899, Fernando Pessoa concebeu o segundo heterónimo. Vivia na África do Sul com a mãe e o padrasto e frequentava a Durban High School. Deu-lhe o nome de Alexander Search, personagem inspirado em leituras de escritores de língua inglesa, entre os quais Edgar Allan Poe, um dos autores que o acompanharam a vida inteira. Estes dois heterónimos assinalam o início do debate íntimo e profundo para romper a solidão em que mergulhara. Era a busca obsessiva de uma companhia para dialogar com os seus próprios labirintos. 

Mas é na carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro — alguns meses antes de falecer — que Fernando Pessoa descreveu em pormenor a génese dos principais heterónimos que lhe deram renome universal: “A 8 de março de 1914 acerquei-me de uma cómoda alta e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, ‘O Guardador de Rebanhos’. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre.” 

Pessoa acrescenta: “Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir — instintiva e subconscientemente — uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. 

Múltiplo e vário, homem da cidade por excelência, Álvaro de Campos quer “sentir tudo de todas as maneiras”. Adotou uma escrita torrencial para comunicar as transformações operadas pela civilização industrial e mecânica que caracterizam o século XX. A “Ode Triunfal” e a “Ode Marítima”, ambas publicadas em 1915 no “Orpheu”, traduzem a impetuosidade do futurismo, na sua fase mais imperativa, frenética e audaciosa. 

Já a “Tabacaria”, publicada em 1927 e com o maior destaque na revista “Presença”, tem outra respiração. A sequência narrativa leva-nos a questionar a luta contra o esquecimento, o apagar da memória, a aguda perceção da vulnerabilidade da condição humana: “Nunca serei nada./ Não posso querer ser nada./ À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” Fernando Pessoa, logo no princípio, é direto. Explora a vulgaridade do quotidiano. As palavras encontram-se carregadas de uma ansiedade latente, de um desencanto visceral, de um tédio exorbitante e desmedido. O dia seguinte é (e será sempre) mais do mesmo, a sucessão da fatalidade, da angústia, do vazio e do desespero. 

Existiam alguns textos dispersos de Bernardo Soares. Só em 1929, passados mais cinco anos, ele fará a sua estreia pública. Contudo, o “Livro do Desassossego” só virá a ser publicado em 1982. Ou seja, 47 anos depois da morte de Pessoa. Qualquer Prémio Nobel da Literatura desejaria ser o autor desta obra de génio. 

O dia triunfal nunca existiu 

Uma investigação liderada por Ivo de Castro, numa equipa que, entre outros, integrou Luís Fagundes Duarte e João Dionísio, procedeu ao estudo dos manuscritos, à análise meticulosa de cada poema, de cada verso, da obra ortónima e heterónima, e de outros documentos do espólio de Pessoa. 

Ficou demonstrado que o dia triunfal, o histórico dia 8 de março de 1914, nunca existiu, tal como Pessoa o descrevera. Era uma ficção engenhosa para a posteridade. As contradições são evidentes. A versão de Pessoa, na carta a Casais Monteiro, não corresponde àquela versão: assim chegou a esta conclusão o grupo de trabalho que procedeu, durante anos, à leitura sistemática da correspondência para diversos destinatários e de numerosos outros manuscritos depositados na Biblioteca Nacional. 

Seja como for, os poemas de Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos concorreram para a universalidade de Fernando Pessoa, a partir das décadas de 50 e 60 do século XX, ao verificar-se a projeção nacional e internacional da sua obra ortónima e heterónima. 

Caeiro, o encontro com a lezíria 

A presença humana e geográfica de Alberto Caeiro tem “a nitidez de uma fotografia”. Deixou de ser uma contemplação errante e misteriosa, coberta de névoas e de brumas. Escreveu Caeiro: “Eu não tenho filosofia: tenho sentidos.../ Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é./ Mas porque a amo, e amo-a por isso,/ Porque quem ama nunca sabe o que ama/ Nem por que ama, nem o que é amar...” 

Alberto Caeiro interroga-nos olhos nos olhos. O seu mundo exterior não mergulha no vago e no indeciso. Identificou-se com todo o vigor e autenticidade ao abrir a série de poemas “O Guardador de Rebanhos”: “Minha alma é como um pastor,/ conhece o vento e o sol/ e anda pela mão das estações/ a seguir e a olhar./ Toda a paz da Natureza sem gente/ vem sentar-se a meu lado.” Ou então nos “Poemas Inconjuntos”, que completam a conceção do mundo de Alberto Caeiro: “Com filosofia não há árvores: há ideias apenas./ Há só cada um de nós, como uma cave./ Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;/ — E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,/ que nunca é o que se vê quando se abre a janela.” 

Aliás, o drama “O Marinheiro”, cuja publicação fora recusada na revista “Águia” — onde Pessoa era colaborador — e virá a ser inserido no primeiro número do “Orpheu”, já demarcava um afastamento das conceções estéticas, da visão saudosista e das linhas doutrinárias da Renascença Portuguesa definidas por Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra e Jaime Cortesão. 

Portanto: Alberto Caeiro apresenta-se como um Teixeira de Pascoaes virado do avesso. Nem António Nobre, sempre a incutir lamentações nostálgicas. Caeiro é um discípulo de Cesário Verde, na frontalidade da abordagem e dissecação da realidade. 

Reis, o universo intemporal 

O outro caso específico é Ricardo Reis. Constitui a oposição ao fascínio da lezíria ribatejana de Alberto Caeiro. Acentuou a supremacia da razão em face da emoção, sem o discurso exuberante de Alberto Caeiro e, sobretudo, a vibração da “Ode Triunfal”, da “Ode Marítima” e os meandros surpreendentes da “Tabacaria”. Ricardo Reis celebra a beleza intemporal de tudo quanto vê, de tudo quanto ouve, de tudo quanto sente. Assim o confirma em vários excertos que transcrevemos das suas odes: “Vê de longe a vida./ Nunca a interrogues. Ela nada pode/ dizer-te,/ a resposta está além dos deuses.” Há um gosto sóbrio de fruir e exaltar os prazeres de cada dia: “quão breve tempo é a mais longa vida”; “gozemos o momento”; “aguardando a morte como quem a conhece”; “quer gozemos, quer não gozemos, passamos o rio”; “sem ódios, nem paixões que levantam a voz/ nem invejas que dão movimento demais aos olhos,/ Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,/ e sempre iria ter ao mar”... 

Ricardo Reis assimilou a cultura clássica que tem como paradigma as “Odes” de Horácio. Possui o sentido da medida, o ritmo e a precisão de cada verso. A pluralidade dos silêncios alerta-nos para situações que transcendem a rotina, a construção geométrica não extingue o rasgo inconfundível da sua imaginação criadora. 

A inscrição no túmulo 

Nos seus 47 anos de vida, a maior parte dos quais passados em Lisboa, Fernando Pessoa ia de rua em rua, como qualquer outro cidadão. O ambiente desgastante da cidade prolongava-se à mesa do café, nos escritórios onde trabalhava, na solidão dos quartos alugados. É melhor citar Bernardo Soares ao mencionar as rotinas que o sufocavam — “as secretárias velhas do escritório”, “a pobreza das ruas intermédias da Baixa usual” e “a náusea da quotidianidade enxovalhante da vida”... 

É certo que Fernando Pessoa manifestou a urgência da mudança. Desejava “criar um outro mundo, igual a este, mas com outra gente”. Contudo, eram tantas as impossibilidades que se limitava a exigir, numa das “Odes” de Ricardo Reis: “Para ser grande sê inteiro/ Sê todo em cada coisa./ Põe quanto és/ no mínimo que fazes.” 

Estes versos inscritos no túmulo de Fernando Pessoa, no claustro dos Jerónimos, constituem o legado do seu carácter, para honrar e cumprir o que há de mais nobre na condição humana. De resto, cada poema de Fernando Pessoa ou dos seus heterónimos consiste numa viagem à sua própria vida, às nossas vidas e a muitas outras vidas imaginadas. António Valdemar – Portugal in “Expresso” com “saojoaodel-rei.blogspot.com”

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António Valdemar - Jornalista-carteira profissional número Um e investigador;  sócio efetivo da Academia das Ciências de Lisboa e sócio correspondente português para a ABL-Academia Brasileira de Letras-cadeira nº 3


sexta-feira, 7 de junho de 2024

Brasil - Casa das Culturas de Santos promove sarau em homenagem a Fernando Pessoa

A Casa das Culturas de Santos vai promover neste sábado (8), às 16h30, sarau literário em homenagem ao poeta português Fernando Pessoa (1888-1935), celebrando o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (10 de junho).

A abertura ficará a cargo da Academia de Letras e Artes de Praia Grande. O sarau literário é um encontro para apresentar literatura e poemas. O público também pode participar.

Fernando Pessoa foi um dos mais importantes escritores portugueses do modernismo e um dos maiores poetas da Língua Portuguesa. Seu aniversário de nascimento é comemorado em 13 de junho.

Antes, às 15h, o escritor e curador da Casa, Flávio Viegas Amoreira, promove oficina literária para os interessados na arte da escrita. Até 23 de junho, o público poderá conferir na Casa das Culturas a exposição Vicente de Carvalho, Além-Mar, em homenagem ao centenário de morte do Poeta do Mar, completado em 22 de abril deste ano.

O endereço da Casa das Culturas de Santos é Rua Sete de Setembro, 49, Vila Nova emSantos. O horário de funcionamento é de quinta a sábado, das 14h às 19h, e domingo, das 11h às 16h. A entrada é gratuita.

Dia de Portugal

Já o Centro Histórico de Santos recebe, neste fim de semana, o maior e mais tradicional evento da comunidade lusitana na região. Com muita música, danças folclóricas, comidas típicas e artesanatos, a Festa de Portugal agitará a região do Valongo, no sábado e domingo (8 e 9/6), conforme vem divulgando o Mundo Lusíada.

Chegando à 15ª edição, o festejo é beneficente em prol da Escola Portuguesa. Neste dia 7, será aberta a exposição “Festa de Portugal em Santos: um encontro de gerações”, com imagens do fotógrafo Rodrigo Francisco. A mostra poderá ser visitada, gratuitamente, no hall de entrada da Construtora Phoenix (Rua XV de Novembro, 141), na sexta, das 18h às 22h, e no sábado e domingo, das 10 às 18 horas.

Conforme José Augusto do Rosário, presidente da Escola Portuguesa e organizador do evento, a Festa de Portugal já virou tradição na cidade e visa manter a cultura portuguesa na Baixada Santista e valorizar a forte influência lusitana na formação do povo e da cultura santista. Atualmente, existem cerca de 50 mil cidadãos portugueses ou luso descendentes espalhados por toda a Baixada Santista e Vale do Ribeira, mas com potencial de chegar a 90 mil em breve, considerando os descendentes com condições de obter a dupla nacionalidade.

Um dos principais destaques, além da programação cultural, é a gastronomia. Pelo segundo ano consecutivo, a Praça de Alimentação ficará no Arcos do Valongo, num ambiente coberto, com mesas e cadeiras. No local, serão vendidos diversos pratos como arroz de braga, bolinho de bacalhau, sardinha na brasa, caldo verde; doces típicos, além de vinho, chopp, cerveja, refrigerante e água. Estarão presentes neste espaço o Restaurante Almeida, o Bar Goiás, a Manteigaria do Porto, a Vinhos e Tais, o Rei do Café, a Donana Sopas, a Casa da Madeira, o Típico Madeirense e a Escola Portuguesa, com três barracas vendendo pastéis de nata e doces conventuais, arroz de braga e sardinha na brasa.

No mesmo local, haverá atividades para as crianças. Neste ano terá pela primeira vez contação de histórias com contos portugueses e oficinas, além de uma feira de artesanato com produtos lusitanos.

Outra praça de alimentação com comidas típicas também será montada nas dependências do Santuário Santo Antônio do Valongo, com as barracas e restaurante da igreja servindo pratos típicos, além de um estande do Laticínio Marcelo e outro da Escola Portuguesa, vendendo doces. In “Mundo Lusíada” - Brasil

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Argentina - Mais de 350 livros em português vendidos na feira em Buenos Aires

A livraria do pavilhão de Lisboa na Feira do Livro de Buenos Aires vendeu uma média de 50 livros por dia na primeira semana, um número “muitíssimo surpreendente”, não só pela quantidade, mas também pela procura em língua portuguesa


Segundo Marcos Almada, o livreiro responsável pela venda dos livros do pavilhão de Lisboa, na primeira semana de feira – entre 23 e 30 de maio, incluindo os dois primeiros dias de jornadas profissionais – tinham sido vendidos mais de 350 livros, entre a seleção de 723 obras em língua portuguesa, levadas pela comitiva portuguesa, e os que o livreiro tem angariado junto das editoras latino-americanas.

“Dada a crise [económica] argentina que estamos passando, com os livros caros e as pessoas sem dinheiro, surpreendeu-nos bastante a quantidade de vendas, porque normalmente as cidades convidadas não têm tantas vendas como as dos grupos editoriais”, disse Marcos Almada.

Mais surpreendente ainda, para o livreiro, é a quantidade de livros em língua portuguesa que estão a ser vendidos.

“Isto mostra que há uma idiossincrasia para ler em português, para além da procura por visitantes do Brasil”, afirmou, explicando que além da curiosidade natural de quem quer experimentar a ler em português, há académicos, professores e tradutores, mas também alunos, porque “nos colégios estatais existe português como segunda língua”.

O interesse neste país pela língua portuguesa tem também outra raiz, esclareceu Marcos Almada, a procura por entender melhor a literatura e a música brasileira, sobretudo a bossa nova, que têm grande penetração na cultura argentina.

Quanto aos autores mais vendidos, o livreiro disse que há um equilíbrio entre clássicos e contemporâneos, sendo que dos primeiros, “Fernando Pessoa é sem dúvida o número um”, mas Eça de Queirós e José Saramago são também muitíssimo procurados.

Entre os contemporâneos, Marcos Almada destacou Gonçalo M. Tavares e Lídia Jorge, que esgotou nos primeiros dias os exemplares disponíveis.

Outra razão que leva as pessoas a procurarem autores específicos é o facto de quererem conhecer as obras dos autores convidados.

O facto de haver uma programação cultural de Lisboa estendida e cartazes perto do pavilhão com as fotografias dos escritores é outro atrativo para comprar livros, acrescentou.

O responsável adiantou ainda que se verifica uma crescente procura por livros ilustrados e por livros sobre Lisboa, nomeadamente arte e arquitetura, que “também se vendem muito”.

A título de exemplo, aludiu a um livro sobre azulejos de Lisboa, que se vendeu logo nos primeiros dias.

Relativamente às obras que já esgotaram, apontou “O Livro do Desassossego” – “o mais procurado” – que, entretanto, foi reeditado e reposto, e livros de Lídia Jorge e Isabela Figueiredo. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Portugal - Exposição dá a conhecer relação entre Fernando Pessoa e Almada Negreiros através dos seus livros

Uma exposição que dá a conhecer a relação artística e pessoal que existiu entre Fernando Pessoa e Almada Negreiros, através dos seus espólios, vai estar patente na Casa Fernando Pessoa em Campo de Ourique a partir do próximo sábado.


Esta nova exposição temporária vai pôr lado a lado as bibliotecas particulares de dois nomes maiores do modernismo português, procurando promover um “diálogo” através dos livros de cada um, divulgou em comunicado a Casa Fernando Pessoa.

A mostra “Almada e Pessoa – Conversa entre bibliotecas” estará patente até 8 de setembro e vai dar a conhecer edições raras, manuscritos e dedicatórias personalizadas.

“As bibliotecas dos artistas e escritores deixam ver o circuito de relações que se fazem e desfazem ao longo da sua vida, as suas amizades e os seus interlocutores intelectuais. Os livros que os escritores e artistas leem, sublinham, comentam, ilustram, editam, oferecem e recebem de oferta, são parte, fonte, ou extensão da sua obra”, refere a nota.

Com curadoria das investigadoras Mariana Pinto dos Santos, Giorgia Casara e Teresa Monteiro, a exposição vai apresentar uma seleção de livros dos dois artistas, postos em diálogo, atendendo à cumplicidade que partilharam, às suas amizades e projetos que tiveram em comum.

A biblioteca particular de Almada Negreiros, por exemplo, inclui livros com dedicatórias assinadas por Natália Correia, Jorge de Sena, Teixeira de Pascoaes, Aquilino Ribeiro e Vinícius de Morais, entre muitos outros.

Nas palavras dos organizadores, estes exemplares mostram “a rede de cumplicidades pessoais e artísticas de um dos mais multifacetados artistas portugueses do século XX”.

O poeta Fernando Pessoa e o artista multidisciplinar Almada Negreiros conheceram-se em 1913, quando tinham, respetivamente, 20 e 25 anos.

Em 1915, o autor do “Manifesto anti-Dantas” colaborou com a Orpheu, revista criada por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, considerada o marco inaugural da vanguarda literária e artística em Portugal.

“São aqui mostradas pela primeira vez dois projetos de maquetes ilustradas da ‘Mensagem’ que Almada fez, mas que nunca chegou a publicar, assim como uma primeira edição da ‘Mensagem’ dedicada por Fernando Pessoa a Almada, em que o trata por ‘Bebé de Orpheu!’”, revelam os promotores da exposição.

Os dois artistas têm múltiplas ligações, desde logo, Almada foi o autor do logótipo da Olisipo, editora que Fernando Pessoa fundou, tendo ali publicado o seu livro “A Invenção do Dia Claro” (1921), que também estará na exposição.

O número 3 da revista Orpheu estava a ser planeado por ambos, quando Fernando Pessoa morreu repentinamente, em 1935, tendo esse projeto a dois ficado interrompido.

Segundo a curadora Mariana Pinto dos Santos, “Almada foi um impulsionador da criação do mito Pessoano. Ao isolar a sua imagem no famoso retrato que fez para o Restaurante Irmãos Unidos, onde o grupo da revista Orpheu se reunia – e que pode ser visto na exposição permanente da Casa Fernando Pessoa -, Almada está a inscrever-se também no mito, ao ser o autor da imagem de Pessoa que iria ser perpetuada.”

Na opinião da responsável, esta é uma das mais-valias desta exposição: abrir novas perspetivas e ligações com outras peças que integram a coleção do museu.

No sábado, dia da inauguração, terá lugar uma conversa com as curadoras, às 16:00, de entrada livre, mas sujeita à lotação. In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Portugal - Inéditos de Fernando Pessoa em novo livro da U.Porto Press

São textos inéditos de Fernando Pessoa, assinados pelo próprio ou pelos seus heterónimos, e fazem parte do “Espólio de Pessoa” – mais de vinte e sete mil documentos que o poeta português deixou numa arca, encontrada após a sua morte –, catalogado na Biblioteca Nacional de Portugal.


O Espólio de Pessoa encontra-se dividido em envelopes, contendo uma quantidade variável de documentos. Envelopes Filosóficos: Filosofia & Heteronímia, agora coeditado pela U.Porto Press e pelo Instituto de Filosofia da Universidade do Porto (IFUP), dá ao leitor “a oportunidade de ler documentos filosóficos transcritos diretamente do espólio do autor, bem como de publicações que o poeta e pensador publicou durante a sua vida”, assinalam Nuno Ribeiro e Cláudia Souza, dois dos coordenadores deste novo título da coleção Transversal da Editora da U.Porto.

Como explica Maria Celeste Natário, docente do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da U.Porto (FLUP), também coordenadora da publicação e autora do Prefácio, estes “Envelopes (…) constituíram base de reflexão para Seminários Abertos de Filosofia em Portugal, que decorreram em 2022”, na FLUP, tendo como convidados os investigadores Nuno Ribeiro, Cláudia Souza e Paulo Borges, “conhecidos hermeneutas da obra pessoana, designadamente no âmbito filosófico”.

Segundo a também coordenadora do Grupo de Investigação “Raízes e Horizontes da Filosofia e da Cultura em Portugal” do IFUP, o volume agora publicado “contribuirá para recolocar a obra pessoana no universo da Filosofia”, sendo este “o espaço, por excelência, onde o seu pensamento se inscreve”.

Fernando Pessoa, a Filosofia e os seus “outros eus”

Ao folhear Envelopes Filosóficos: Filosofia & Heteronímia, o leitor encontrará textos filosóficos assinados pelo próprio Pessoa, mas também por Alberto Caeiro, Ricardo Reis ou Álvaro de Campos – seus conhecidos heterónimos – e ainda “outros eus pessoanos ainda pouco divulgados”: Charles Robert Anon, Horace James Faber, Alexander Search, A. Moreira, Faustino Antunes, Frederick Wyatt, António Mora ou Raphael Baldaya.

Para além de revelar uma faceta menos conhecida da obra de Fernando Pessoa – a dimensão da sua escrita enquanto pensador filosófico – esta publicação mostra que o autor, na redação dos seus textos, “ao mesmo tempo que constrói filosofia, se desdobra noutros eus, isto é, noutras personalidades que pensam, produzem e assinam importantes reflexões filosóficas”, contam Nuno Ribeiro e Cláudia Souza.


Se, por um lado, a Biblioteca Particular do poeta e prosador português é prova da “multiplicidade das suas leituras, que estão na base da sua produção textual”, as suas listas de leituras de índole filosófica são, por outro lado, “testemunho do seu interesse pela Filosofia”, atestando, também, “o vasto conhecimento que tinha dos diversos autores e temas filosóficos”.

Este título está disponível na loja online da U.Porto Press, com um desconto de 10%. Universidade do Porto - Portugal

Sobre os coordenadores

Nuno Ribeiro é investigador do Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (IELT, NOVA – FCSH) e autor de mais de 20 edições sobre a obra de Fernando Pessoa publicadas na Europa, no Brasil e nos Estados Unidos. Doutorou-se em Filosofia com uma tese sobre o espólio filosófico de Fernando Pessoa intitulada Tradição e Pluralismo nos Escritos Filosóficos de Fernando Pessoa.

Cláudia Souza é doutora em literaturas de língua portuguesa e pesquisadora do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. É autora de inúmeras edições e ensaios sobre a obra de Fernando Pessoa publicados na Europa, no Brasil e nos Estados Unidos. Publicou mais de 20 edições do espólio de Fernando Pessoa.

Paulo Borges (Lisboa, 1959) é Professor no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigador do Centro de Filosofia da mesma Universidade. Autor e organizador de 65 livros de ensaio filosófico, aforismos, poesia, ficção e teatro, publicados em Portugal, Espanha e Reino Unido.

Maria Celeste Natário é Professora Associada no Departamento de Filosofia da FLUP, onde se doutorou. Coordena o Grupo de Investigação “Raízes e Horizontes da Filosofia e da Cultura em Portugal”, no IFUP, onde tem promovido o diálogo entre Filosofia e Culturas de Língua Portuguesa, bem como o diálogo entre Filosofia e Literatura.




terça-feira, 22 de agosto de 2023

Canadá – Cantora Tammy Weis muda-se para Portugal e homenageia Fernando Pessoa

A cantora e compositora canadiana Tammy Weis mudou-se para Portugal e está a homenagear Fernando Pessoa através da sua música. Este ano apresentou um álbum inspirado no escritor português com produção de Rui Veloso e já tem atuações programadas para Portugal, Canadá e para a Europa


Foi no dia 31 de março, no Centro Cultural de Belém, que Tammy Weis apresentou “Soul Whisper”, o seu álbum de homenagem a Fernando Pessoa, numa altura em que se assinalam os 135 anos do nascimento do poeta português.

São ao todo 11 temas que contaram com a produção de Rui Veloso e ainda a participação de vários músicos portugueses e internacionais convidados, entre os quais o contrabaixista Carlos Barretto, João Só (guitarra), Luís Guerreiro (guitarra portuguesa), o espanhol António Serrano (harmónica) e o canadiano Randy Bachman (um dos fundadores da banda Guess Who).

Este é o resultado de uma pesquisa e dedicação à obra e processo criativo do escritor feita nos últimos anos por Tammy Weis que, após uma visita a Albufeira, em 2012, “apaixonou-se completamente por Portugal” e decidiu mudar-se em definitivo para Lisboa.

Natural do oeste do Canadá, Tammy vivia no Reino Unido desde 2006. “Estava a viver em Londres (Inglaterra), quando tive a hipótese de visitar Portugal através de um bom pacote de viagens para Albufeira de duas semanas. Nesse período, conheci pessoas fantásticas, foi como ter uma vida praticamente nova”, disse em entrevista à Lusa.

Foi nesta altura que “tudo mudou”. “Apaixonei-me completamente por Portugal. As praias, o mar, o vento, as cores, as pessoas e a gastronomia, podia continuar e continuar”, confessou à agência noticiosa.

Após esta primeira visita, a canadiana regressou ao sul de Portugal, por diversas ocasiões, para “explorar o país”. O convite de uma pessoa amiga para uma visita a Lisboa serviu como “impulso” para que, em 2018, descobrisse a obra de Fernando Pessoa e fizesse a mudança em definitivo.

“Numa das viagens a Portugal, visitei uma galeria de arte em Alfama. Na entrada dizia que faziam quadros e que serviam vinho e café. Entrei e conheci um guitarrista, que de repente começou a tocar guitarra, eu também cantei algumas músicas de jazz. Um pintor sugeriu ao guitarrista que eu devia cantar poemas de Fernando Pessoa, pois a partir daí é que a minha carreira teria sucesso”, explicou.

Tammy ficou curiosa e começou a informar-se mais sobre o poeta português. “Disseram-me para olhar para alguns dos quadros na galeria, que estava repleta de quadros dele. Foi aí que começou a minha jornada de Fernando Pessoa e de me mudar para Lisboa”.

Foi aqui que começou aquela que tem sido a missão de Tammy Weis nos últimos anos, de aprender mais sobre Pessoa. Para a cantora, as palavras do poeta são “coisas simples”, que nos fazem pensar de uma “forma diferente e aspetos sobre a vida”.

Como resultado, nasceu “Soul Whisper”, projeto financiado pelo Conselho Canadiano das Artes, e ainda “aprovado” por Luís Miguel Rosa Dias, sobrinho do poeta português que morreu em 2019, aos 88 anos, mas ainda pode acompanhar parte das gravações.

Atualmente Tammy Weis encontra-se no Canadá onde no dia 1 de setembro vai atuar no Frankie’s Jazz Club, em Vancouver. Em 22 de outubro, a canadiana regressa à região que a fez apaixonar-se pelo país, Tavira, nas celebrações do aniversário de Álvaro de Campos, pseudónimo utilizado por Fernando Pessoa.

A próxima etapa para a cantora e compositora canadiana será “adquirir a nacionalidade portuguesa”, processo que, segundo a mesma, terá início em breve. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


sábado, 5 de junho de 2021

Cabo Verde - Obra de Fernando Pessoa traduzida para crioulo cabo-verdiano vai ser apresentada em Lisboa


Cidade da Praia – O Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa, vai acolher no próximo dia 08, terça-feira, o lançamento do livro “Odi Marítimu”, de Fernando Pessoa, traduzido para o cabo-verdiano por José Luiz Tavares.

Em nota, a Editora Abysmo explica que a escolha da “Ode Marítima” para esta edição particular, é assente na relevância deste poema no quadro do primeiro modernismo português e das suas características performativas que o tornam perfeito para a elaboração da alta dicção poética em língua cabo-verdiana.

O propósito final é dotar a língua cabo-verdiana de um relevante corpus poético que possa vir a constituir-se como húmus de onde, amanhã, poderão brotar notáveis poetas cultos e eruditos, ultrapassando a natural fasquia do tradicionalismo e da oralitura.

Este poema foi traduzido em 2007 integrado numa antologia mais vasta organizada pelo autor, e que iria ser publicada pela Casa Fernando Pessoa no âmbito de uma quinzena de cultura cabo-verdiana.

A tradução que ora se dá à estampa não sofreu actualização para esta edição, porquanto ainda este ano devemos editar uma “alargadíssima” antologia de poemas de Álvaro de Campos, e a Ode Marítima deverá ter uma nova versão.

O livro começa a ser apresentado a partir das 18h30, hora local.

Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas da língua portuguesa e figura central do Modernismo português. Poeta lírico e nacionalista cultivou uma poesia voltada para os temas tradicionais de Portugal e ao seu lirismo saudosista, que expressa reflexões sobre seu “eu profundo”, suas inquietações, sua solidão e seu tédio.

Fernando Pessoa foi vários poetas ao mesmo tempo, criou heterónimos – poetas com personalidades próprias que escreveram sua poesia. In “Inforpress” – Cabo Verde


 

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Venezuela - Começou o Primeiro Encontro Virtual de Escritores Lusófonos

Sete escritores e intelectuais contemporâneos portugueses vão unir-se ao público venezuelano, durante os próximos cinco dias, no Primeiro Encontro Virtual de Escritores Lusófonos na Venezuela, que homenageará o poeta português Fernando Pessoa


Segundo o embaixador luso em Caracas, Carlos de Sousa Amaro, trata-se de “uma oportunidade para conhecer o valiosíssimo património literário escrito em língua portuguesa que existe em vários continentes e que une diferentes culturas numa mesma expressão linguística”.

“Este primeiro encontro de escritores lusófonos pretende ainda difundir o trabalho de autores de diferentes países e contextos culturais que utilizam o português como língua de expressão. Desde Malaca (na atual Malásia), passando por Macau, África, Brasil e Portugal, há escritores que prestam homenagem à língua portuguesa nas suas produções, convertendo-se em verdadeiros promotores do nosso idioma no mundo”, explica o diplomata.

Num comunicado divulgado em Caracas, Carlos de Sousa Amaro diz que “a odisseia dos portugueses pelo mundo, iniciada no século XV, criou um primeiro ensaio do mundo globalizado, onde a língua portuguesa jogou um papel protagonista como veículo civilizador, nos cinco continentes”.

“Hoje, estes países e territórios, com os quais Portugal mantém uma relação muito próxima, sólida e fraterna, estão unidos por laços inquebrantáveis em diferentes âmbitos, como a cultura e a economia”, sublinha.

Por outro lado, explica que a Venezuela “é um país onde há uma grande comunidade portuguesa e onde o ensino da nossa língua está no auge, com cada vez mais escolas e estudantes dispostos a aprender português”.

“Este evento tem como objetivo difundir o valor que tem o nosso idioma na atualidade, assim como a crescente importância que terá no futuro”, afirma o diplomata.

O comunicado descreve o poeta Fernando Pessoa como “um dos mais importantes da Europa no século XX” e explica que o encontro que propõe explorará a sua obra e figura, através de cartas, contos e ensaios, e obras de teatro que vieram à luz por meio dos seus conhecidos heterónimos.

Por outro lado, o coordenador do ensino da Língua Portuguesa na Venezuela, Rainer Sousa, explica que o encontro ajudará a constatar que “a língua portuguesa foi reinventada, adaptando-se a climas diferentes ao de Portugal, sendo também adotado por pessoas de culturas muito variadas”.

“Mas o mais curioso de todo este fenómeno é poder ver como o português pode exprimir realidades e situações tão diferentes, vividas por seres humanos que, falando o mesmo idioma, trazem contributos únicos, tão singulares ao rico património da nossa língua”, explica.

O Encontro terá lugar de 08 a 12 de dezembro com a participação de escritores e intelectuais lusófonos da Colômbia, Brasil, Malásia, Moçambique, Macau, Portugal e EUA, será transmitido pelas redes sociais (Facebook, Twitter e Instagram) da Coordenação do Ensino do Português na Venezuela e do jornal de expressão portuguesa Correio de Venezuela, pelo Youtube, e a página https://www.cepe-venezuela.org/.

Participam Deane Barroqueiro (EUA), Delmar Maia Gonçalves (Moçambique), Luísa Timóteo (Malásia), Jerónimo Pizarro (Colômbia), Miguel de Senna Fernandes e Henrique de Senna Fernandes (ambos de Macau), Juan Martins (Venezuela) e Julián Fuks (Brasil).

O 1º Encontro Virtual de Escritores Lusófonos na Venezuela foi organizado pela Embaixada de Portugal em Caracas, pelo Instituto Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, Coordenação de Ensino Português na Venezuela (CEPE-Venezuela), com o apoio do Instituto Português de Cultura, a Caixa Geral de Depósitos, o jornal de expressão portuguesa Correio da Venezuela e a fundação Coração em Malaca. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo



domingo, 16 de junho de 2019

Uma leitura brasileira de Pessoa, Bocage e Gonzaga

Em Quito, pesquisador Adelto Gonçalves discorre sobre a vida e a obra dos poetas em conferências para estudantes e acadêmicos

QUITO – A convite da Embaixada do Brasil no Equador, o jornalista e escritor Adelto Gonçalves fez na segunda semana de junho duas apresentações de sua obra literária em palestras dirigidas ao público estudantil e acadêmico de Quito. Sábado, dia 8, no Instituto Brasileiro-Equatoriano de Cultura (Ibec), o pesquisador apresentou a um público formado por mais de 50 estudantes equatorianos de Português um alentado trabalho sobre sua trajetória literária que inclui nove livros publicados e uma nova obra a sair ainda neste ano pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Na segunda-feira, à noite, dia 11, participou, de uma conversa no Centro Cultural Benjamin Carrión, com o escritor Rogério Pereira, ex-diretor da Biblioteca Pública do Paraná e editor do jornal mensal literário Rascunho, que contou com a moderação do poeta Santiago Estrella, jornalista do diário El Mercurio. Os dois encontros contaram com a presença e a participação do embaixador Joao Almino, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.  Gonçalves fez uma leitura brasileira da obra e da vida dos poetas Fernando Pessoa (1888-1935), Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) e Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). Já Rogério Pereira abordou a relação entre literatura e jornalismo como espaços confluentes.

De Fernando Pessoa, Gonçalves destacou que o ensaio "O ideal político de Fernando Pessoa", que consta de seu livro Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997) e foi publicado originalmente em Estudos sobre Fernando Pessoa (Rio de Janeiro, Fundação Cultural Brasil Portugal, 1986), teve uma trajetória internacional interessante, pois seria lido na Biblioteca Nacional de Lisboa pelo ensaísta Brunelo Natale De Cusatis, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Perugia, e citado no livro Fernando Pessoa: Politica i Profezia: Apuntes y Frammenti 1910-1935 (Roma, Antonio Pelicanti Editore, 1996), do qual em 2018 saiu uma segunda edição.

Na introdução que escreveu para esta segunda edição, De Cusatis lembra que o fato de o ensaísta ter mostrado que o pensamento de Pessoa passava longe das hostes esquerdistas desagradou ao escritor Antonio Tabucchi (1943-2012), tradutor da obra de Pessoa para o italiano. Em artigo publicado no diário Il Corriere della Sera, de Milão, em 31 de maio de 2001, Tabucchi acusou De Cusatis de se basear num ignoto brasiliano (brasileiro desconhecido), como se lê à página 24 da edição atual de Politica i Profezia.  De Cusatis destacou que "Adelto Goncalves é um ensaísta de prestígio e crítico, autor de uma biografia crítica do poeta português Tomás Antônio Gonzaga publicada em 1999 pela editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro".

Durante a apresentação, Gonçalves lembrou que Fernando Pessoa se definiu como "um conservador ao estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente antirreacionário". Mais: Pessoa era contra o comunismo, o socialismo, o catolicismo e o revolucionarismo. Mas nunca fez a defesa explícita da escravidão. "Seria um anarquista utópico, mas de direita, tal como se autodefiniu certa vez Gilberto Freyre (1900-1987)”, acrescentou.

Lembrou, porém, que Pessoa defendia que havia um imperialismo da cultura, ou seja, certos povos exerceriam influência sobre outros. “Como exemplo, citava a França", disse, lembrando que esta posição política do poeta tem despertado protestos de intelectuais africanos para a decisão da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) de dar o seu nome a um programa de bolsas para estudantes. E que seria melhor optar por um nome mais consensual, como o poeta moçambicano José Craveirinha (1922-2003), Prêmio Camões de 1991, filho de pai algarvio e de mãe ronga.

Depois de fazer referência a escritores equatorianos como Jorge Icaza (1906-1978) e Jorge Enrique Adoum (1926-2009), Gonçalves destacou principalmente a vida de Tomás Antônio Gonzaga, lembrando que, em Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), corrigiu a informação do professor e filólogo português Rodrigues Lapa (1897-1989) segundo o qual o poeta, no exilio na Ilha de Mocambique, casara com a "herdeira da casa mais opulenta de Moçambique em negócios da escravatura" e dedicara "as horas vagas ao rendoso comércio de escravos".

"De fato, Gonzaga casou em 1793 com Juliana de França Mascarenhas, de 18 anos de idade, filha de Alexandre Mascarenhas, que era escrivão e subordinado ao poeta na estrutura judiciaria da comarca local. Mais: Mascarenhas morreria em 1793 e, portanto, Gonzaga não teria tempo de ajudar o sogro arredondar a fortuna, como disse Lapa”, observou. “Além disso, Mascarenhas não era pessoa de muitas posses: tinha uma casa na ilha e outra no continente fronteiro que obtivera pelo casamento”, disse, ressaltando também que nas edições da Gazeta de Lisboa, de 1792 a 1810, Gonzaga, autor de Marília de Dirceu, só seria superado em número de citações por Bocage, que sempre viveu em Lisboa, com exceção dos quatro anos (1786-1790) que passou entre Rio de Janeiro, Goa, Damão e Macau". Lembrou ainda que Gonzaga não participou do comércio negreiro, embora como advogado tenha trabalhado para grandes comerciantes de escravos. “Ele tinha cerca de 30 escravos para o trabalho doméstico. Já os grandes traficantes aparecem nas listas como proprietários de mais de três centenas de escravos”, disse.

De Bocage, Gonçalves destacou que, em Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003), provou com documentos que o poeta não nasceu na Rua de São Domingos, atual Edmond Bartissol, em Setúbal, mas sim numa casa localizada à Rua das Canas Verdes, atual António Joaquim Granjo, na esquina com o Largo de Santa Maria. "Essa casa a mãe de Bocage herdara do avô, Leonardo Lustoff, comerciante, representante de interesses batavos em Setúbal, que fora cônsul da Holanda. Em 1771, o pai de Bocage, José Luís Soares de Barbosa, ouvidor em Beja, seria acusado de desviar a arrecadação da décima, ficando preso na cadeia do Limoeiro até 1777. A casa, sequestrada, iria a leilão em 1800. Da documentação referente à Rua de São Domingos, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, não há registro de que alguma família Bocage ou Barbosa tenha residido naquela casa. Até hoje, porém, a Câmara Municipal de Setúbal não se resolveu a adquirir o imóvel da verdadeira casa onde nasceu Bocage. E corrigir uma informação equivocada de quase século e meio", concluiu. Adelto Gonçalves - Brasil

Adelto Gonçalves - Doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa e mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana pela Universidade de São Paulo (USP), Gonçalves é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. Tem prevista a publicação em 2019 de O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797, ensaio histórico, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Equador – Diálogo sobre poetas de língua portuguesa na cidade de Quito

Adelto Gonçalves faz palestra em Quito


Centro Cultural Benjamin Carrion

QUITO - O jornalista e escritor Adelto Gonçalves participou, na passada segunda-feira à noite, de uma conversa no Centro Cultural Benjamin Carrion, em Quito, com o escritor Rogério Pereira, ex-diretor da Biblioteca Publica do Paraná e editor do jornal mensal literário Rascunho, que contou com a moderação do poeta Santiago Estrella, jornalista do diário El Mercurio. O encontro foi promovido pela Embaixada do Brasil em Quito e contou também com a presença do embaixador João Almino, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. Gonçalves fez uma leitura brasileira da obra e da vida dos poetas Fernando Pessoa, Bocage e Tomás Antônio Gonzaga. Já Rogério Pereira abordou a relação entre literatura e jornalismo como espaços confluentes.

De Fernando Pessoa, destacou que o ensaio "O ideal politico de Fernando Pessoa", que consta de seu livro "Fernando Pessoa: a Voz de Deus" (Santos, Editora da Unisanta, 1997) e foi publicado originalmente em "Estudos sobre Fernando Pessoa (Rio de Janeiro, Fundação Cultural Brasil Portugal, 1986), teve uma trajetória interessante, pois seria lido na Biblioteca Nacional de Lisboa pelo ensaísta Brunelo Natale De Cusatis, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Perugia, e citado no livro "Fernando Pessoa: Politica i Profezia: Apuntes y Frammenti 1910-1935" (Roma, Antonio Pelicanti Editore, 1996), do qual em 2018 saiu uma segunda edição.

Na introdução que escreveu para esta segunda edição, De Cusatis lembra que o fato de o ensaísta ter mostrado que o pensamento de Pessoa passava longe das hostes esquerdistas desagradou ao escritor italiano Antonio Tabucchi (1943-2012), tradutor da obra de Pessoa para o italiano. Em artigo publicado no diário Corriere dela Sera, de Milão, em 31 de maio de 2001, Tabucchi acusou De Cusatis de se basear num ignoto brasiliano (brasileiro desconhecido), como se lê a pagina 24 da edição atual de Politica i Profezia.

De Cusatis lembrou que "Adelto Gonçalves é um ensaísta de prestígio e crítico, autor de uma biografia critica do poeta português Tomás Antonio Gonzaga publicada em 1999 pela editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro".

Durante a apresentação, Gonçalves lembrou que Fernando Pessoa se definiu como "um conservador ao estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente antirreacionario". Mais: Pessoa era contra o comunismo, o socialismo, o catolicismo e o revolucionarismo. Mas nunca fez a defesa explícita da escravidão. "Seria um anarquista utópico, mas de direita, tal como se autodefiniu certa vez Gilberto Freyre. Defendia, porém, que havia um imperialismo da cultura, ou seja, certos povos exerciam influência sobre outros. Como exemplo, citava a França", disse, lembrando que esta posição politica do poeta tem despertado protestos de intelectuais africanos para a decisão da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) de dar o nome de Fernando Pessoa a um programa de bolsas para estudantes. E que seria melhor optar por um nome mais consensual, como o poeta moçambicano José Craveirinha (1922-2003), Prémio Camões de 1991, filho de pai algarvio e de mãe ronga.

Depois de fazer referência a escritores equatorianos como Jorge Icaza e Jorge Enrique Adoum, Gonçalves destacou principalmente a vida de Tomas Gonzaga, lembrando que, em Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), corrigiu a informação do professor português Rodrigues Lapa segundo o qual o poeta, no exilio na Ilha de Moçambique, casara com a "herdeira da casa mais opulenta de Moçambique em negócios da escravatura" e dedicara "as horas vagas ao rendoso comércio de escravos".

"De fato, Gonzaga casou em 1793 com Juliana de França Mascarenhas, de 18 anos de idade, filha de Alexandre Mascarenhas, que era escrivão e subordinado do poeta na estrutura judiciária da comarca local. Mais: Mascarenhas morreria em 1793 e, portanto, Gonzaga não teria tempo de ajudar o sogro a aumentar a fortuna", disse. “Além disso, Mascarenhas era pessoa de poucas posses: tinha uma casa na ilha e outra no continente fronteiro que obtivera pelo casamento. Ressaltei também que nas edições da Gazeta de Lisboa, de 1792 a 1810, Gonzaga, autor de Marília de Dirceu, só seria superado em número de citações por Bocage, que sempre viveu em Lisboa, com exceção dos quatro anos (1786-1790) que passou entre Rio de Janeiro, Goa, Damão e Macau", acrescentou.

De Bocage, Gonçalves destacou que, em Bocage: o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003), provou com documentos que o poeta não nasceu na rua de São Domingos, atual Edmond Bartissol, em Setúbal, mas sim numa casa localizada a rua das Canas Verdes, atual Antonio Joaquim Granjo.

"Essa casa a mãe de Bocage herdara do pai, o corsário francês l`Hedois du Bocage. Em 1771, o pai de Bocage, José Luis de Barbosa, ouvidor em Beja, seria acusado de desviar a arrecadação da décima, sendo preso na cadeia do Limoeiro ate 1777. A casa, sequestrada, iria a leilão em 1800. Da documentação referente a rua de São Domingos, no Arquivo da Torre do Tombo, não há registro de que alguma família Bocage ou Barbosa tenha residido naquela casa. Até hoje, porém, a Câmara Municipal de Setúbal não se resolveu a adquirir o imóvel da verdadeira casa onde nasceu Bocage e corrigir uma informação falsa de quase século e meio", concluiu.