Tal como já acontece há dois anos, o Festival Literário de Macau – Rota das Letras volta a ter lugar na Primavera. O evento – um dos mais relevantes ao nível das artes no território – vai ocupar a Casa Garden entre os dias 5 e 15 de Março, apresentando uma programação diversa que vai para além das letras e explora expressões artísticas como o cinema, o teatro e a música. A lista de convidados é extensa e inclui desde poetas locais a argumentistas de filmes de Hollywood
O Festival Literário de Macau – Rota
das Letras está de regresso. A 15.ª edição do evento decorre de 5 a 15 de Março
na Casa Garden, voltando a plantar no coração da Península uma celebração
primaveril da arte nas suas múltiplas vertentes. Da literatura ao cinema,
passando pela música e pelo teatro, a Rota das Letras oferece uma palete
diversificada de manifestações artísticas produzidas por autores de diferentes
culturas, em diferentes línguas, para o público igualmente heterogéneo de
Macau.
O propósito da iniciativa mantém-se inalterado desde
2012, aquando da primeira edição: materializar “um ponto de encontro
fundamental entre culturas, línguas e expressões artísticas do Oriente e do
Ocidente”. A morada principal é a Casa Garden, onde decorrerão as habituais
sessões de discussão e de lançamento de livros que caracterizam o festival, mas
a programação contempla ainda a exibição de filmes, representações teatrais e
concertos em vários espaços culturais da cidade.
A “celebração” e o “diálogo intercultural” são as forças
motoras da presente edição, segundo adianta a organização em comunicado de
imprensa. Celebra-se, sobretudo, os 15 anos de realização ininterrupta da Rota
das Letras, que manteve a sua função enquanto ágora artística e cultural mesmo
em plena pandemia de Covid-19 e que continua a ser uma referência incontornável
na aproximação dos polos ocidental e oriental.
Será também assinalado o centenário do falecimento de
Camilo Pessanha, poeta português que viveu, morreu e garantiu um lugar perene
no território ao ser sepultado no Cemitério de São Miguel Arcanjo. “A sua
ligação profunda a Macau e o seu legado literário serão revisitados através de
diversas iniciativas, sublinhando o papel da cidade como ponte entre mundos”,
indica o comunicado, que desvenda ainda três nomes envolvidos na celebração.
São eles António Carlos Cortez, poeta e professor de Português e Literatura;
Carlos Morais José, escritor e jornalista radicado em Macau; e Christopher Chu,
escritor e jornalista que já publicou um livro sobre os trinta anos em que
Pessanha viveu na cidade.
Embora a programação completa ainda não tenha sido
divulgada ao público, já é possível saber qual o foco do dia de abertura do
festival, a 5 de Março. Nesse dia, estará em destaque a exposição “Territórios
Humanos: Fotografia, Pertença e Memória”, que reunirá imagens captadas pela
óptica do português Alfredo Cunha e do chinês Liu Zheng e explorará as suas
“identidades” particulares, bem como as “narrativas” comuns que se cruzam nos
respectivos acervos fotográficos. A mostra será acompanhada pelo lançamento de
dois livros de fotografia.
Nomes sonantes da literatura
O painel completo de convidados será divulgado em
comunicado posterior, mas já se conhecem alguns dos nomes locais e
internacionais que integrarão as sessões desta edição da Rota das Letras.
O panorama literário local divide-se entre os poetas Yao
Feng, Cheung Wai Man, Kam Un Loi e Nick Groom, no lado masculino, e Rai Matsu e
Zita Si Tou Chi U, no lado feminino. A lista de convidados radicados em Macau
inclui também o pintor Konstantin Bessmertny e o maestro Veiga Jardim. Por sua
vez, Rui Leão e Maria José de Freitas e “outros autores locais” vão homenagear
a obra do arquitecto macaense José Maneiras, falecido em Novembro do ano
passado.
As sessões dedicadas ao mundo lusófono contarão ainda com
a presença de dois jornalistas e escritores que no ano passado publicaram,
individualmente, livros sobre personalidades portuguesas de diferentes
espectros políticos. Falamos de João Miguel Tavares, autor de José Sócrates
– Ascensão (1957-2005), e de Miguel Carvalho, autor de Por Dentro do
Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal. Destaque ainda para a
jornalista Andreia Sofia da Silva com O lápis vermelho, livro que se
debruça sobre os efeitos da censura do Estado Novo nos territórios
ultramarinos, com especial foco na imprensa de Macau.
No que respeita à literatura em língua chinesa, a lista
de convidados é composta por nomes bastante sonantes e reconhecidos tanto pelo
público como pela crítica especializada. O comunicado começa por mencionar Bi
Feiyu, vencedor de prémios como o Man Asian Literary Prize, o Lu Xun Literary
Prize e o Mao Dun Prize – provavelmente, o mais prestigioso prémio literário
chinês.
Seguem-se escritores como Xiao Bai, autor de Xangai que
também venceu o prémio Lu Xun; Gu Shi, detentora dos prémios Nebula e Locus
pelas suas histórias de ficção científica; e Lu Jian, poeta da geração
“pós-anos 80s” galardoado com o Prémio de Poesia Zhang Qiang. Importa ainda
mencionar o nome de Xie Youshun, que se destaca dos demais por se dedicar à
análise e crítica da literatura contemporânea chinesa – responsabilidade que
lhe mereceu, aliás, a atribuição do Prémio Feng Um de Crítica Literária.
Por seu turno, a categoria das letras internacionais é
representada por personalidades de múltiplas línguas e continentes. No
continente asiático, incluem-se o escritor indiano Amitav Ghosh – considerado
um dos grandes vultos da literatura mundial graças à sua “Trilogia Ibis” e à
forma como retrata temas como colonialismo, ambiente e identidade humana – e
Elisa Shua Dusapin, romancista franco-suíça com raízes sul-coreanas cuja obra
de estreia, Inverno em Sokcho, se situa precisamente na cidade turística
da Coreia do Sul.
Viajando até às Américas, encontramos Hernán Diáz,
escritor argentino-americano que venceu o prémio Pulitzer em 2023; Carlos
Andrés Gomez, colombiano-americano que escreve e declama poesia ‘spoken word’;
e Guy Delisle, cartoonista canadiano conhecido pelos seus livros de viagem
sobre destinos pelo mundo fora – incluindo a China, que explorou no livro de
2000 Shenzhen: A Travelogue from China.
A Europa é representada pelo britânico Adam Sisman, autor
de biografias aprofundadas sobre figuras como A. J. P. Taylor ou Hugh
Trevor-Roper, e pelo trio envolvido na concepção do filme “Ballad of a Small
Player”, lançado na Netflix no final do ano passado: Lawrence Osborne, o autor
do livro homónimo de 2014, e Mike Goodridge, o produtor da longa-metragem. Este
filme, recorde-se, foi gravado em Macau no Verão de 2024 e catapultou cenários
bem conhecidos da região, como templos e casinos, para os ecrãs dos utilizadores
da Netflix.
Para além das letras
Enveredando pela área do cinema, a programação tem espaço
para uma homenagem à sétima-arte portuguesa com a apresentação de “Salatinas”,
um documentário assinado pela jornalista Filipa Queiroz que aborda a expulsão
de cerca de três mil residentes da Alta de Coimbra para dar lugar à Cidade
Universitária.
O cinema português vai também estar representado por
Tiago Guedes, com os seus filmes “A Herdade”, de 2019, e “Restos do Vento”, de
2022. Para além de realizador de cinema, é também encenador da peça de teatro
“À Primeira Vista”, que terá assim a sua estreia em Macau. A ocasião marca o
regresso da actriz Margarida Vila-Nova ao território, onde já residiu e
inclusive fundou projectos como a Mercearia Portuguesa ou a Futura Clássica.
“À Primeira Vista” é a versão portuguesa do monólogo de
2019 “Prima Facie”, que a produtora Força de Produção descreve na sua página
oficial como “uma das mais reconhecidas pelas de teatro dos últimos anos”. Com
assinatura de Suzie Miller, o espectáculo promete um “thriller jurídico de
cortar a respiração” sobre temas fortes como “poder, consentimento e lei”.
Quanto ao calendário musical, o único nome até agora
confirmado é o de Rodrigo Leão. O músico e compositor, figura essencial do
género ‘new age’ em Portugal e membro das bandas Sétima Legião e Madredeus, tem
actuação marcada para a noite de 11 de Março no Centro Cultural de Macau.
O comunicado de imprensa sublinha que
serão “brevemente” acrescentados “nomes adicionais” a esta primeira lista de
convidados. A 15.ª edição do Festival Literário de Macau é organizada com o
apoio do Governo de Macau e de representações diplomáticas, associações locais,
empresas (sobretudo as do sector hoteleiro) e órgãos de comunicação social. Carolina
Baltazar – Macau in “Ponto Final”
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