Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Portugal - Novo livro analisa Camões como herói da sua própria epopeia

Luís de Camões, autor d’“Os Lusíadas”, manifesta-se como herói na sua epopeia, defende a investigadora Helena Carvalhão Buescu, no seu livro recém-editado “Camões Poeta, Herói n’Os Lusíadas”

A catedrática emérita da Universidade de Lisboa traça esta sua reflexão a partir do conceito “negative capability” (“capacidade negativa”), elaborado pelo poeta inglês John Keats (1795-1821).

Segundo Keats, a visão de uma beleza estética enraíza-se na “capacidade de se mover entre incertezas, mistérios e dúvidas”, não na construção lógica e sistemática.

“Embora ele não se tenha referido a Camões, parece-me que é esta mesma capacidade que caracteriza a sua obra épica (e também lírica), monumental mas não sistemática, e certamente vivendo de contradições e mesmo autocontradições”, argumenta Buescu para acrescentar: “Tudo isto molda a epopeia camoniana, e é tudo isto que faz dela um monumento imortal”.

Segundo a autora, neste quadro de “incertezas, mistérios e dúvidas”, o poema épico Os Lusíadas (1572) “conjuga o aparentemente inconjugável, admiração e crítica, realçando a íntima conexão entre os temas, tipicamente renascentistas, da glória e o desconcerto do mundo”.

Esclarece Helena Carvalhão Buescu que “a glória sobressai quando contrastada com o desconcerto do mundo, devido à mestria com que a capacidade negativa (‘negative capacita’) surge como forma apta para descrever um mundo dúctil, contraditório, capaz de uma coisa e do seu inverso, do grande e do muito pequeno, ao mesmo tempo”.

A investigadora dá como exemplo duas personagens d’Os Lusíadas: o monstro Adamastor, personificação do cabo das Tormentas, atualmente cabo da Boa Esperança; e Veloso, um dos navegadores destacado por Camões no Canto V do poema épico, cuja audácia suscita humor.

Um mundo, prossegue Buescu, que desafia a lógica de Aristóteles, mas “não dá completa conta da substância incerta e sempre imprevisível da vida”.

No “entrelaçar” destes dois temas “nasce e se impõe a figura de um outro herói n’Os Lusíadas: o do Poeta Camões ele mesmo”.

A obra, editada pela Tinta-da-China, divide-se em cinco capítulos, abordando o “Herói e imortalidade”, a “Epopeia e o desconcerto do mundo”, as “Múltiplas imagens de Camões”, as “Formas de sobrevida da epopeia camoniana” e “Camões no Oriente”, num total de 206 páginas.

Helena Carvalhão Buescu, que completa 70 anos em setembro próximo, é professora catedrática emérita de Literatura Comparada na Universidade de Lisboa, e tem publicado de mais de uma centena de ensaios, entre eles Heranças Imperfeitas, saído no ano passado.

Buescu fundou e dirigiu o Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. É membro da Academia Europaea e da Academia das Ciências de Lisboa. Ao longo da sua carreira tem sido distinguida com diferentes prémios, entre os quais o Prémio Eduardo Prado Coelho, da Associação Portuguesa de Escritores, em 2020, pela obra O Poeta na Cidade. A literatura Portuguesa na História (2019). In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


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