Luís de Camões, autor d’“Os Lusíadas”, manifesta-se como herói na sua epopeia, defende a investigadora Helena Carvalhão Buescu, no seu livro recém-editado “Camões Poeta, Herói n’Os Lusíadas”
A catedrática emérita da Universidade
de Lisboa traça esta sua reflexão a partir do conceito “negative capability”
(“capacidade negativa”), elaborado pelo poeta inglês John Keats (1795-1821).
Segundo Keats, a visão de uma beleza estética enraíza-se
na “capacidade de se mover entre incertezas, mistérios e dúvidas”, não na
construção lógica e sistemática.
“Embora ele não se tenha referido a Camões, parece-me que
é esta mesma capacidade que caracteriza a sua obra épica (e também lírica),
monumental mas não sistemática, e certamente vivendo de contradições e mesmo
autocontradições”, argumenta Buescu para acrescentar: “Tudo isto molda a
epopeia camoniana, e é tudo isto que faz dela um monumento imortal”.
Segundo a autora, neste quadro de “incertezas, mistérios
e dúvidas”, o poema épico Os Lusíadas (1572) “conjuga o aparentemente
inconjugável, admiração e crítica, realçando a íntima conexão entre os temas,
tipicamente renascentistas, da glória e o desconcerto do mundo”.
Esclarece Helena Carvalhão Buescu que “a glória sobressai
quando contrastada com o desconcerto do mundo, devido à mestria com que a
capacidade negativa (‘negative capacita’) surge como forma apta para
descrever um mundo dúctil, contraditório, capaz de uma coisa e do seu inverso,
do grande e do muito pequeno, ao mesmo tempo”.
A investigadora dá como exemplo duas personagens d’Os
Lusíadas: o monstro Adamastor, personificação do cabo das Tormentas,
atualmente cabo da Boa Esperança; e Veloso, um dos navegadores destacado por
Camões no Canto V do poema épico, cuja audácia suscita humor.
Um mundo, prossegue Buescu, que desafia a lógica de
Aristóteles, mas “não dá completa conta da substância incerta e sempre
imprevisível da vida”.
No “entrelaçar” destes dois temas “nasce e se impõe a
figura de um outro herói n’Os Lusíadas: o do Poeta Camões ele mesmo”.
A obra, editada pela Tinta-da-China, divide-se em cinco
capítulos, abordando o “Herói e imortalidade”, a “Epopeia e o desconcerto do
mundo”, as “Múltiplas imagens de Camões”, as “Formas de sobrevida da epopeia
camoniana” e “Camões no Oriente”, num total de 206 páginas.
Helena Carvalhão Buescu, que completa 70 anos em setembro
próximo, é professora catedrática emérita de Literatura Comparada na
Universidade de Lisboa, e tem publicado de mais de uma centena de ensaios,
entre eles Heranças Imperfeitas, saído no ano passado.
Buescu fundou e dirigiu o Centro de Estudos Comparatistas
da Universidade de Lisboa. É membro da Academia Europaea e da Academia das
Ciências de Lisboa. Ao longo da sua carreira tem sido distinguida com
diferentes prémios, entre os quais o Prémio Eduardo Prado Coelho, da Associação
Portuguesa de Escritores, em 2020, pela obra O Poeta na Cidade. A literatura
Portuguesa na História (2019). In “Bom dia Europa” - Luxemburgo
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