Os produtores brasileiros comprometem-se a produzir grãos, cereais e sementes em Angola, mas exigem segurança jurídica e apoio financeiro também das instituições nacionais, como o Fundo Soberano e a banca. Fase piloto do programa está avaliada em mais de 124 milhões USD, com 45% de financiamento brasileiro
Angola tem pouco mais de 2 meses para
responder a uma proposta do Brasil para apoiar o desenvolvimento do
agronegócio, que pode trazer cerca de 20 empresários de grande dimensão e
experiência para investir no agronegócio. A pressão é motivada pelo calendário
eleitoral nos dois países, mas sobretudo no Brasil, que realiza as eleições
presidenciais no mês de Outubro.
Uma missão técnica nacional irá ao Brasil, na primeira
semana de Março, para agilizar o processo. De acordo com um documento obtido
pelo Expansão, a proposta brasileira (que foi pré-negociada com Angola
e, por isso, está alinhada com os interesses das duas partes) indica a
necessidade de ceder 500 mil hectares de terras, mais especificamente no
planalto de Camabatela (Cuanza Norte), autorizar a utilização de sementes
geneticamente modificadas, emitir garantias via Banco de Desenvolvimento de
Angola (BDA), entre outras exigências.
O maior perigo identificado pelos empresários é a
desvalorização cambial e a parte brasileira solicitou que o BDA assumisse esse
risco, o que pode levantar dúvidas devido à falta de dinheiro que afecta a
gestão daquela instituição nacional. Do lado brasileiro, o governo
compromete-se a disponibilizar recursos financeiros através do Banco Nacional
de Desenvolvimento Económico e Social (BNDES) e do Banco do Brasil (através do
Programa de Fomento às Exportações). "Estes recursos já estão disponíveis",
disse fonte do Expansão. O financiamento, a ser utilizado, vai servir
para a importação de máquinas, veículos de carga e sistemas de armazenamento de
grãos.
O processo eleitoral tem impacto directo nas conversações
oficiais entre os dois países porque a lei brasileira impõe restrições aos
governantes que se candidatam a posições relevantes, como é o caso do actual
ministro da Agricultura e Pecuária do Brasil, Carlos Fávaro, que vai concorrer
ao lugar de senador pelo estado de Mato Grosso e terá de deixar o ministério já
em Abril.
Estas movimentações, que se estendem a outros sectores do
governo brasileiro, podem ter impacto directo na acção governativa e na
concretização de acordos de cooperação. Aliás, Fávaro esteve em Angola por
diversas vezes, incluindo uma visita oficial (em Dezembro de 2024), e não
viajou para outros países africanos desde que assumiu, em Janeiro de 2023, a
pasta da Agricultura e Pecuária do actual governo liderado por Lula da Silva.
As eleições em Angola, que vão
realizar-se em 2027, também podem ter algum efeito nas negociações, mas neste
caso mais pela necessidade de o Governo mostrar serviço e promover novos
empreendimentos que promovam a criação de empregos e a divulgação de "boas
notícias" sobre o País. Caso seja aprovado pelo Governo, o programa também
estará aberto a empresários angolanos. Os grupos empresariais brasileiros
interessados em investir em Angola são provenientes dos estados de Mato Grosso
e Bahia. Um grupo de investidores brasileiros que actua em Angola também
demonstrou interesse em aderir. Miguel Gomes – Angola in “Expansão”
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