O novo
livro de Eltânia André cativa e encanta do primeiro ao último conto, todos
povoados de terremotos familiares e existenciais, com alto apuro literário
Que ninguém se deixe enganar com o título, a ilustração da
capa, nem com a estreita lombada do novo livro de Eltânia André (Cataguases, MG, 1966; vive em Portugal desde 2017),
Decomposição dos pássaros. A exemplo de seus trabalhos anteriores, a
experiente psicóloga e premiada escritora, autora de contos e romances notáveis,
explora, com maestria, as angústias, incertezas, memórias e os mistérios da
vida e da mente humanas, nas densas, substanciosas 96 páginas dessas 10
histórias recentes. Trata-se de uma profunda, inquietante e destemida incursão
nos problemas, nos nós, nas questões interiores, de todos nós, e da civilização
em perigo. Com alto apuro literário, estilo elegante, sóbrio, limpo e bonito. O
coração na alma, a razão na História.
O
texto de Eltânia não tem nada dos cacoetes mecânicos de aplicados alunos de
oficinas literárias e pouca leitura, não segue as lições de manuais de como se
escreve um conto. Ao contrário, a escritora imprime a suas histórias um veio
próprio, rico, sinuoso, mas plausível e claro. Por isso Decomposição dos
pássaros é original, cativa e encanta do primeiro ao último texto, todos
povoados de terremotos familiares e existenciais, de casas desoladas, de
tragédias, do cotidiano e dos bastidores doméstico e histórico, o mundo em
permanente conflito, em decomposição. Uma ebulição de pessoas iguais a cada um
de nós em momentos de aflição e desafio, tudo enriquecido por referências
literárias, musicais, cinematográficas, em harmonia com a história narrada.
Diante
de um livro de prosa, poemas ou ensaio, um leitor bem formado e de bom gosto
percebe o embate tentativa versus êxito na fatura literária. Vê com nitidez a
diferença entre os vacilos e defeitos e a segurança, o controle, o esmero
estético de um texto literário, sem prejuízo das questões socioeconômicas e da
experiência humana na Terra. O leitor dos contos de Eltânia André – que escreve
sem a dor da pressa, na expressão de Fernando Pessoa, e sem cair no
psicologismo – não terá dúvida de ter diante dos olhos histórias inesquecíveis.
Temas e texto em tensão e harmonia. Um palimpsesto de deleite e inquietação, pontuado de humor e riso, às vezes
apaziguadores. Pedagogia de fraterna sensibilidade. A razão é simples: quem nos
traz os contos de Decomposição dos pássaros, narrados em primeira
pessoa, seja voz masculina ou feminina, de jovem, adulto ou idoso, é autora
singular, de estilo e enredos irmanados: sonho, pesadelo, realidade – arte.
Suas
epígrafes compõem um elo forte, diálogo preciso, entre o título e o texto de
cada conto, desde a primeira história, “Pluma e osso”, em que João Melo anuncia
“um mundo puro e inocente” e “tempos das grandes labaredas e das fomes
imensas”. Nessa narrativa de sabor clássico, conhecemos a sofrida vida de
Ellen, acossada pelo criador de gansos para a produção de patê de fígado, o
repugnante Breno Galvão, patrão do pai da moça. Depois ainda aparece o doutor
Louçã, o mandachuva da Forceluz de Cataguases que emprega pai e filha. Mais não
se pode dizer, que o leitor conheça as agruras da família e como a Guerra de
Troia e Penélope entram na vida de Ellen.
“Tudo
o que o mestre mandar”, o segundo conto, traz a história de Valtinho e Vando,
que ganhou o apelido de Van Gogh depois que teve uma orelha decepada pela mordida
do irmão. Na epígrafe, Ana Martins Marques afirma que na infância “cometemos
nosso primeiro crime”. Com um inusitado método, Ilda, mãe dos garotos, consegue
tornar os garotos amigos inseparáveis. Angústia e alegria. Obra-prima.
“Os
relógios estão na eternidade”, avisa Orides Fontela na epígrafe de “A última
música: 2 minutos e 35 segundos”, belíssima e triste história de Antônio
Relojoeiro, narrada pelo filho Beto, xará do Guedes, autor da instrumental
“Belo Horizonte”, música evocada no título e fundamental no enredo. A
intertextualidade surge no primeiro parágrafo do conto: “Vim porque aqui nasceu
e viveu o meu pai”, frase que lembra o início de Pedro Páramo, de Juan
Rulfo. Antes de ser internado, na ausência do filho, o protagonista, “sócio de
Cronos”, “guardião das horas”, silenciou todos os relógios da loja e disse algo
tão singelo quanto comovente a um vizinho: “Acredito piamente nisto: foram os
egípcios que inventaram o relógio do sol”. Adulto, “expectativa e espectador”,
Beto recorda as coisas simples que teria construído com o pai: um remendo numa
rede de pescaria, um pião talhado a canivete, uma aeronave ou um barco de
papel. Roteiro para um belo curta-metragem.
Também
bonito e poético, “Márrio-Riomar: um nome todo água”, história de temor e
solidão, é precedido pelo conhecido trecho de Jorge Luis Borges que termina
assim: “O rio me arrebata e eu sou esse rio”. Narrativa primorosa, de final tão
admirável quanto o início e o percurso caudaloso, ao som de samba, pagode e
Pink Floyd.
Em
“Céu na boca”, de sentido duplo, a epígrafe de Brecht alerta para a luta, por
vezes hipócrita, para se ganhar o pão de cada dia. No admirável primeiro
parágrafo, já vemos que o megalomaníaco, mentiroso Edmundo Fontes, com sonhos
de voar, encarna esse tipo. No meio da história, a narradora alerta o sujeito,
já em desgraça na ambiciosa carreira, com um conselho de Churchill: “Se você
vai passar pelo inferno, não pare de andar”. Do início ao último parágrafo, um
lapidado texto, que poderia se chamar “O triste fim de Edmundo Fontes”,
personagem tão diverso de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.
Na
epígrafe do conto-título, outro de extração clássica e o mais curto do volume,
Nuno Júdice mostra como ajustar os olhos que procuram pássaros, metáfora das
buscas de Josué, homônimo do destemido personagem bíblico na conquista da Terra
Prometida. Ainda que um pequeno pardal participe da história, o que lemos é uma
paráfrase do êxodo. “Iria embora de casa ao completar a maioridade, abarrotaria
a mala de lembranças (poço sem fundo) com as imagens que recolheria em suas
andanças (ou exílio?).” Quando alguém, no início do terceiro milênio, organizar
uma antologia de contos brasileiros do século 21, incluirá esse “Decomposição
dos pássaros”.
“Subindo
as montanhas de xisto da Bulgária ou Assassinando a lógica com a caneta de
Campos de Carvalho” é a única história do livro sem epígrafe, dispensável pela
evocação de seu guia no título. Curiosa e divertida trajetória do errático e
picaresco Astrogildo (“ou Walter, como preferirem”) acompanhado de Dersu Uzala,
do filme de Kurosawa. Ele pensou em escrever um livro com o diabo como
protagonista, mas desistiu por não “encontrar humor” no demo, concordou com a
historiador francês Georges Minois (“Deus foi sarcástico ao considerar o hipopótamo
o ápice de sua criação”), não concluiu a leitura de Os miseráveis, de
Victor Hugo, mas nunca se esqueceu do protagonista Jean Valjean, que a “salvou
de poucas e boas [...] mas não da solidão”, e antes de terminar seus dias
tocava “na gaita a trilha sonora” de O dólar furado. Não à toa, portanto,
que seu enterro foi acompanhado ao som de Gianni Ferrio, autor da trilha sonora
do faroeste. A frase final é um arremate de mestre, une Jesus, nome do
motorista do carro fúnebre, e o despontar da lua na Ásia, de Campos de
Carvalho. Conto também antológico.
O
verso “Amei todas as perdas”, do espanhol Antonio Gamoneda, dá o tom de
“Construção”. Entremeado dos ruídos de instrumentos em uma construção, é a
história de perdas e danos, de decomposição, da família de uma anciã de memória
surpreendente. “Era um tiquinho de gente, assim ó, mas não esqueço nada.”
Deliciosas frases da oralidade, sobretudo mineira, marcam a fala da mulher. Uns
exemplos: “Igual eu já te falei...”; “...foi embora caçar um lugar pra ficar”;
“...ele fazia birra e tacava o pão duro longe”. No fim, esmerado parágrafo, nem
na hora do almoço dos trabalhadores da construção há silêncio total: ao som de
colheres rapando o fundo das marmitas somam-se o grito de um casal de maritacas
no ar e outro ruído, trágico, do choque de uma cadeira de rodas “com o
madeirame da porta roído por cupim”).
“Sob
o som das matracas”, depois das maritacas e da matriarca, uma história
terrível, versos de Hilda Hilst a nos alertar: “É crua a vida/ alça de tripa e
metal”. Um homem conta a um primo detalhes cruéis, em versões ausentes dos
livros, da participação do avô, herói anônimo e sem pensão da Revolução de 32,
o “fiasco nacional, brasileiro matando brasileiro”. Também aqui Eltânia
contrapõe a descrição sem filtro de corpos dilacerados (“toda guerra é um
horror”) com expressões populares, como “cavoucou com a unha e cuspiu a bala” e
“você é bobo de tão manso”. História pungente que não deixa nenhum coração de
pedra insensível.
Campos de Carvalho, “terrivelmente bíblico”, liga o título de “Evangelina Agustina: a Baba Vanga brasileira” ao conto, em que conhecemos semelhanças (ambas perderam a visão “às vésperas de completar doze anos”) entre a mística búlgara Vangelia Pandeva Surcheva (1911-1996) e a baiana Evangelina Augusta da Silva (1940-2021), que teve nascimento difícil (uma beleza a descrição do penoso e obstinado trabalho da parteira Hipólita). Há outras passagens pungentes: “A mãe, já recomposta, com a filha aconchegada ao peito, é imagem da qual Hipólita nunca se esquecerá. Sabia de antemão, pelos arrepios na nuca, do destino da menina”. Logo na frase depois dessa, uma de fino humor metalinguístico: “O barulho dos copos se quebrando e o cheio da aguardente deram sinais da volta da normalidade e a parteira não tinha mais o que fazer lá (nem aqui)”.
Eltânia
conta assim um encontro entre a profetiza e a autora de A hora da estrela:
“Acredita-se que no remanso da noite, Clarice Lispector [...] encontrou-se com
Evangelina, a nossa Baba Vanga [...] A escritora entrou sozinha e saiu de
braços dados com Macabeia”. No conto, Eltânia André homenageia outras mulheres,
como Marielle Franco e Dandara dos Palmares, assassinadas, e Margarida Maria
Alves, que preferiu a morte à escravidão. Mescla de realidade e ficção, o
conto, antológico, é um cântico em defesa da fraternidade, da justiça social e
da “divisão do pão, do peixe”.
Os dez contos de Decomposição dos pássaros, leitura de inquieto e por vezes assombroso arrebatamento, destilam esplendores e misérias da vida humana. Um livro que vai atravessar o século. Eltânia André precisa ser mais lida e divulgada. Hugo Almeida - Brasil
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Decomposição dos pássaros, contos, de Eltânia André, Editora Urutau, 2025, 96 páginas, R$ 55,00. https://editoraurutau.com/titulo/decomposicao-dos-passaros
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Hugo Almeida,
doutor em Literatura Brasileira pela USP, é autor dos romances Vale das
ameixas e Mil corações solitários e do ensaio A voz dos sinos
(sobre a obra de Osman Lins), todos publicados pela Editora Sinete. https://editorasinete.com.br/ Site
do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br
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