A Ovídio Martins e Oswaldo
Osório
Em verdade Lisboa não
estava ali para nos saudar.
Eis-nos enfim transidos e
quase perdidos
no meio de guardas e
aviões da Portela
Em verdade éramos o gado
mais pobre
d’África trazido àquele
lugar
e como folhas varridas
pela vassoura do vento
nossos paramentos de
presunção e de casta.
E quando mais tarde
surpreendemos o espanto
da mulher que vendia maçãs
e queria saber d’onde… ao
que vínhamos
descobrimos o logro a
circular no coração do Império.
Porém o desencanto, que
desce ao peito
e trepa a montanha,
necessita da levedura que
o tempo fornece.
E num caminhão, por entre
caixotes e resquícios da véspera,
fomos seguindo nosso
destino
naquela manhã friorenta e
molhada por chuviscos d’inverno.
Arménio Vieira – Cabo Verde
In Poemas, (1981, Lisboa, África Editora)
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Arménio Adroaldo
Vieira e Silva – Há 3 dias comemorou o seu 85.º aniversário, pois nasceu
na cidade da Praia na ilha de Santiago a 29 de janeiro de 1941. Começou a sua
atividade literária na década de 1960, nas revistas SELO, Voz de Povo,
Boletim de Cabo Verde, Vértice em Coimbra, Portugal, Raízes,
Ponto & Vírgula e Fragmentos, Sopinha de Alfabeto, entre
outras.
Publicou,
entre outros títulos, Safras de um Triste Outono (2021); Silvenius –
Antologia Poética (2016); Fantasmas e Fantasias do Brumário (2014); O
Brumário e Derivações do Brumário (2013); que acabou com um
interregno de três anos, quando Arménio Vieira publicou O Poema, a Viagem, o
Sonho (2009), sequência lógica da mistura da poesia de Poemas (1981)
e MITOGrafias (2006), da novela O Eleito do Sol (1990) e do
romance No Inferno (1999).
Em
2009, tornou-se o primeiro escritor cabo-verdiano a obter o Prémio Camões,
a mais importante distinção literária na língua portuguesa.
“Sou um poeta, apenas isso”, reagiu então. In “Expresso das Ilhas”
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