Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Portugal


“O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos e ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. O povo está na miséria. O país está perdido.” Eça de Queiroz - Portugal

5 Outubro de 1143 - 5 Outubro 2012 - 869º aniversário da independência de Portugal, o mais antigo país da Europa. Baía da Lusofonia

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Conto

O meu ‘Jeep’

O Jeep foi o primeiro carro que alguma vez tive em vida. Sempre tive um fraco pelo Jeep, de preferência descapotável, razão porque cedo fui coleccionando umas coroas, ou seja, escudos, para adquirir um automóvel daqueles em segunda mão. Decidi comprá-lo, quando a família Cardina retornou à metrópole. Desgostado de não poder mais ver a Gorete, o Jeep se me tornou uma consolação.

As minhas poupanças eram tão poucas, que não me podia dar ao luxo de querer um Jeep dos que havia nos stands. Não obstante, sentia-me confortado por ter poupado dinheiro para adquirir o veículo naquelas condições.

O meu Jeep era da geração Willys. Vendeu-mo o Zé João por cinco escudos. Um preço então pesado para o meu bolso. Mas paguei-o, porque fosse o que fosse, desacompanhado daquela miúda, mal me suportava sem aquele Willys.

O meu Jeep era todo pintado cinzento-metálico, que muitos não colhiam com agrado, mas ainda hoje deve andar na parada. Desde que o Zé João decidiu pô-lo cá na rua a vender, o cinzento-metálico tornava o veículo despercebido. O cinzento-metálico era uma cor que não caía bem à vista de qualquer um. Mas, puxa! Eu queria o Jeep tal como estava, pois do jeito que ele aparentava herdara a discrição do meu discreto feitio. Nunca tive inveja ao Peugeot do meu pai ou ao Volkswagen do meu tio António. Nunca senti a mínima inveja ao Volkswagen branco do Marrupa. O Volkswagen do Marrupa, com os seus grandes faróis traseiros marcava presença. E todos os meus amigos de infância o reclamavam como sendo o seu carro da vida.

Pese aquele feitio pomposo nada me interessava no carro do Marrupa, afora o facto exclusivo dele ser o padrinho de baptismo do meu irmão. Confesso que bastantes vezes resisti a ir em boleias alheias, não fosse a obsessão de querer um Jeep em segunda mão para mim.

Enquanto não tivesse o negócio arrumado, juro que mal pregava os olhos. Sofri bastante antes que o Jeep quedasse em minhas mãos. Tive insónias, delírios e alucinações, com algumas paranóias de permeio, pois o Zé João se fartara de avisar-me que o ia entregar a outro interessado porque não me mostrava flexível a fechar o negócio.

Qual quê! Qual carapuça? Era mais chantagem do que outra coisa. O tipo andava teso e sem outro comprador. Mas a chantagem que me causava tais doenças psíquicas resultava, porque eu andava apaixonado e já muito antes morria de amores por aquele Jeep, que pelo tempo que correu o nosso romance portou-se com lealdade, antes de se decidir ou consentir a partir nas mãos do desconhecido mbava (ndr. ladrão) que mo canou.

Devo explicar que a minha única fonte imediata de economia poderia ter sido a bolsa da minha mãe. Mas tive que resistir, sem nunca a ter assaltado. A solução achada terá sido proceder a desvios de aplicação aos dinheiros que a minha mãe me dava para comprar merenda, na escola. Desse jeito consegui juntar tostões, centavo a centavo, até que o Jeep me sorriu.

Quando comprei o Jeep todo o mundo achou-me esquisito por causa da cor que ostentava. Alguns até chegaram a tomar que eu me inspirara nas cores das roupas do pai de Kwawenda. Daí mandei-o pintar de verde na oficina do primo Filipe. De facto, a cor que por ora ostentava me pareceu mais adequada, porque se confundia com os Jeeps da tropa colonial. Eram tantos os Jeeps da tropa colonial que se cruzavam pela Rua Condestável, pois lá pelo Matacuane Macamero havia o quartel. Assim me pareceu uma alternativa subtil para a ansiada discrição. Os mais velhos diziam que a cor era politicamente incorrecta porque eram os tais Willis que faziam a caça acelerada aos turras. Mas eu mal sabia o que eram os turras e muito menos a coisa de colónia.

Estava preocupado com a mudança rápida da cor do veículo porque me fartara de andar em boleias. E o Jeep caiu-me como uma prenda de Natal. O carro tinha um guiador que transpunha a bagageira. Locomovia-se por tracção humana. Não obstante, me via todo realizado por ter alcançado o sonho. Após adquiri-lo a minha felicidade foi tanta que tive que deixar de apertar o cinto nos intervalos de lanche.

O meu Jeep estava em condições mecânicas de tal maneira que nunca chegara a me envergonhar com avarias a meio do caminho. Salvo algumas excepções eu parava-o para remetê-lo na revisão, donde a cada vez saía novinho em folha, a brilhar. Desta forma, muitos desataram a cobiçá-lo.

Já muita gente quis vir no meu carro. As miúdas do bairro idem. Pena não as pudesse levar todas, porque não havia espaço que as pudesse comportar. Para resolver o dilema em que me encontrava reservei a todos passageiros o meu guarda-cinto, por onde eles deviam seguir-me pendurados, mesmo empoleirados, até chegarem ao destino, pois dentro do Jeep, mesmo que fosse com mil diabos, é que não os deixava entrar nunca.

Fosse como fosse, terá sido aquele Jeep que me transportara em visitas às casas das tias Clara e Rosa, a ter com os meus primos Rui, Beto, Filipe, Júlia, Nina, Terezinha e Cipriano, Angito, Tina, Felícia, Udi e Meta, lá para a Rua 7. Terá sido aquele Jeep todo-terreno que também me levara a sagrar vencedor em provas de ralis, desforrando e deixando para trás o Mercedes-Benz do Pintinho, o Scania do Fifi, o Mazda do Gabriel, o Toyota do Remane, todos ainda a cheirar a perfume dos stands. Tornei-me vaidoso devido as potencialidades do meu carro. Tornei-me vaidoso de tal maneira que passei a desrespeitar a outras marcas automobilísticas.

Creio que os patrões das fábricas dos outros carros rivais não gostaram das minhas vendas. Nada podiam fazer contra mim. Mas os outros amigos um dia acabariam aliando-se e mandaram os ladrões que fossem roubar o meu Jeep que estava parqueado na Cooperativa de Consumo 24 de Junho, local para onde a minha mãe me mandara comprar arroz, açúcar e mais qualquer coisa de que já não me recordo o que terá sido.

Até hoje não consigo compor-me da raiva do ladrão que me extraviou o Jeep Willys. Daí me custe decidir se compro ou não novo carro, pois ainda me demoro a compô-lo com bugigangas e luzinhas longo alcance e mata-boi (ndr. protecção à frente), como o outro, e vêem os ladrões mo tirar como o fizeram, sem dó nem piedade. Adelino Timóteo – Moçambique
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AdelinoTimóteo é escritor, jornalista e pintor. Poesia: “Antologia da Poesia Moçambicana “Nunca mais é Sábado“, “Viagem à Grécia através da Ilha de Moçambique“ (Prémio Nacional ANEM),“A Fronteira do Sublime”. Poemas deste livro reunidos em “De Veneza ao Peito”, e traduzidos para italiano, Antologia "Poesia Sempre", Biblioteca Nacional (Brasil). “Dos Frutos do Amor e Desamores até à Partida” (Prémio BCI 2011). Narrativa: Mulungu, A Virgem da Babilónia, Nação Pária, Não Chora, Carmen. 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

São Tomé

Chegou ontem à tarde, dia 02 de Outubro de 2012, a Malabo, capital da Guiné Equatorial, o Primeiro-ministro de São Tomé e Príncipe Patrice Emery Trovoada acompanhado da sua esposa, que visitam oficialmente pela primeira vez o país vizinho.

No aeroporto aguardavam o visitante, o Primeiro-ministro Encarregado da Coordenação administrativa Vicente Ehate Tomi acompanhado de diversos membros do governo, o Primeiro Vice-ministro Clemente Engonga Nguema Onguene, o Ministro da Informação Agustín Nze Nfumu, O Ministro da Juventude e Desportos Francisco Pascual Obama Osue, a Ministra da Educação e Ciências Maria del Carmen Ekoro, entre outras individualidades.

Nesta visita à Guiné Equatorial serão abordados diversos temas comuns aos dois países enquadrados na problemática do Golfe da Guiné e, entre essas matérias, serão focadas as próximas eleições gerais marcadas para o ano de 2013 na Guiné Equatorial, após ter terminado o processo de recenseamento eleitoral, que conduzirá o país ao convívio dos países democráticos, um dos requisitos necessários para a adesão do país à CPLP. Baía da Lusofonia

Brasil

                                      O que a Nação espera
                                                                                                                             
            A lentidão sempre marcou o desenvolvimento de qualquer obra pública de vulto no Brasil. E não há nenhuma evidência de que o cronograma apresentado pelo Programa de Investimentos em Logística: Rodovias e Ferrovias será cumprido à risca com a aplicação em 25 anos de R$ 91 bilhões em 10 mil quilômetros de linhas férreas e R$ 42,5 bilhões em 7,5 mil quilômetros de rodovias, o que equivale a um investimento total de R$ 133,5 bilhões.

            Até porque um quarto de século é tempo demasiado que estará sujeito a muitas chuvas e trovoadas políticas. E a experiência tem mostrado que o Estado sempre gasta mal. É o que se tem visto ao longo da atuação do Ministério dos Transportes que nunca consegue aplicar em obras nem 50% dos recursos que empenha todos os anos em seus orçamentos. Seja como for, o Brasil, depois de anos e anos de estatismo, chega agora, sob a batuta da presidente Dilma Rousseff, ao neoliberalismo da antiga primeira-ministra inglesa Margareth Thatcher, ainda que com mais de 30 anos de atraso.

            Em outras palavras: foram necessárias décadas de impasses e má administração pública para que se chegasse à conclusão óbvia que um pouco de capitalismo na gestão de negócios antes tidos como exclusivos do Estado não faz mal a ninguém. Assim é que, num primeiro momento, rodovias e ferrovias serão tocadas daqui para frente por empresas privadas e, numa segunda etapa, os portos, os aeroportos e as hidrovias.

            Se o Plano Nacional de Logística e Transportes (PNLT), nome pomposo que se criou para reconhecer a ineficiência estatal na construção e gestão da infraestrutura logística, seguir o caminho certo, em 2025, a matriz de transporte será mais homogênea. Assim, o modal rodoviário, hoje majoritário e responsável por mais de 60% de todo o transporte de carga, deverá representar apenas 30%.

            Tarefa hercúlea, sem dúvida, se se levar em conta que em São Paulo, o Estado mais desenvolvido na Federação, aquela marca ultrapassa 90%. Já o modal ferroviário, hoje com cerca de 25%, deverá passar para 35% em13 anos. Haja otimismo. Afinal, como poderão abolir o estatismo aqueles que sempre se serviram dele e nele sempre se apoiaram e vicejaram?

            Mas, já que se trata de planos visionários, não se pode esquecer o modal aquaviário. Talvez ainda vá demorar muito para se ver filas de contêineres em barcaças como se contempla habitualmente nas águas do rio Neckar, nas proximidades do porto fluvial de Mannhein, na Alemanha, mas não custa sonhar.

            Segundo os números do PNLT, o transporte aquaviário, quem sabe tomado por um furor thatcheriano, dará um salto gigantesco até 2025, passando dos atuais 14% na matriz de transporte para 29%. É verdade que o papel aceita tudo, mas, se o PNLT em 13 anos concretizar pelo menos 50% do que prevê, o Brasil já terá saldado um débito de décadas de atraso em investimentos em logística.

            E, como disse a presidente no discurso que serviu para anunciar o Programa de Investimentos em Logística: Rodovias e Ferrovias, que faz parte do PNLT, o País terá finalmente uma infraestrutura compatível com o seu tamanho. Que essa não seja apenas uma frase de efeito. É o que ansiosamente a Nação espera. Milton Lourenço - Brasil
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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). Site: www.fiorde.com.br E-mail: fiorde@fiorde.com.br

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Outono

Balada do Outono

Águas passadas do rio
meu sono vazio
não vão acordar
águas das fontes calai
ó ribeiras chorai
que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
deixem meus olhos secar
águas das fontes calai
ó ribeiras chorai
que eu não volto a cantar

Águas do rio correndo
poentes morrendo
p'ras bandas do mar
águas das fontes calai
ó ribeiras chorai
que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
deixem meus olhos secar
águas das fontes calai
ó ribeiras chorai
que eu não volto a cantar

José Afonso - Portugal

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Falecimento

Faleceu ontem, 30 de Setembro de 2012, no Rio de Janeiro o escritor brasileiro Waldomiro Freitas Autran Dourado nascido em Patos de Minas a 18 de Janeiro de 1926. O seu primeiro livro, Teia foi escrito no ano de 1947, seguindo-se Sombra e Exílio, obra que o levou a ganhar o prémio Mário Sette.

Publicou ao todo 17 romances destacando-se em 1970 O Risco do Bordado, vencedor do prémio Pen Club do Brasil e em 1981/1982 As Imaginações Pecaminosas em que alcançou o prémio Goethe da Literatura Brasileira e o prémio Jabuti. O seu romance mais famoso é A Ópera dos Mortos.

Numa iniciativa conjunta dos governos do Brasil e de Portugal Autran Dourado foi galardoado com o prémio Camões no ano de 2000 e por fim no ano de 2008 recebeu o prémio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras (ABL). Baía da Lusofonia

              Em memória de Waldomiro Freitas Autran Dourado (1926 – 2012)

Recordação

NESTA HORA, ENQUANTO TE OLHO, LEMBRO

Nesta hora, enquanto te olho, lembro
aquele sorriso aberto entre bem poucas flores de Outono.
Eu contando histórias... tu sentindo
a minha timidez cortada de olhares rápidos.
Assim foi... até que um pássaro voou cantando.
Depois, o ondular vibrante dos pinheiros,
nossos corpos rolando
nos planos inclinados de um sol quase a extinguir-se.
O próprio tempo esquecendo-se
de nos ver inseparados.

Ruy Cinatti – Timor Leste