Timor-Leste está a debater a possibilidade de introduzir uma lei que permita a abertura de casinos. Se isso for uma realidade, a experiência de Macau “pode ser importante” para o processo que se seguirá, dada a sua “grande experiência” no sector, disse ao Jornal Tribuna de Macau o embaixador timorense em Pequim. Loro-Horta referiu, por outro lado, que Timor tem de aproveitar a totalidade das vagas para bolsas de estudo concedidas pela RAEM para que alunos venham estudar nas universidades do território. “Isso não está a ser aproveitado, por desconhecimento”, revela. Sobre o investimento de empresários locais no país, o diplomata confirma que “há alguns”, sobretudo no sector do café, mas também na construção de hotéis e no consequente desenvolvimento do turismo
Em Timor-Leste existe jogo, em pequena
escala, mas a maior parte é ilegal, pelo que o pequeno país asiático tem
acelerado o debate para a introdução de uma lei sobre o jogo. Segundo referiu
ao Jornal Tribuna de Macau o embaixador timorense em Pequim, numa breve
passagem por Macau, caso sejam permitidos os casinos no seu país, Macau pode
desempenhar um “importante papel” no desenvolvimento do sector, no processo
seguinte à aprovação da lei.
“Dada a sua grande experiência na gestão da indústria do
sector do jogo, não tenho dúvida de que Macau será o parceiro ideal para a
concretização do processo de abertura dos casinos em Timor-Leste”, salientou
Loro-Horta, sem especificar em que moldes esse apoio seria concretizado.
Para o diplomata, “devido aos laços históricos que Macau
tem com Timor, e mesmo a proximidade geográfica, não fará muito sentido levar
companhias europeias ou americanas, tomando em consideração que Macau é, há
vários anos, a maior cidade do jogo, tendo ultrapassado Las Vegas, fazendo
muito dinheiro com o jogo”.
Acrescenta que em Timor já existe uma “enorme cultura de
jogo, permitindo-se certas casas de jogo, principalmente com ‘slot-machines’”.
Assim sendo, diz-se a favor da legalização e apresenta a sua razão: “É muito
simples, se as pessoas continuam a jogar, então mais vale legalizar e
convidar-se companhias sérias que têm décadas de experiência neste sector, como
Macau”. “O Estado beneficiaria de impostos pagos pelas operadoras, a que se
junta tudo aquilo que os casinos podem trazer, ou seja, turismo, hotéis,
restaurantes, todo um ecossistema que é criado”.
O timorense, de 47 anos, nascido em Moçambique, que
exerce o cargo de embaixador na capital chinesa há cerca de dois anos e meio
frisa que a questão de abertura de casinos “está a ser discutida há muito
tempo, até porque há cada vez mais sectores da sociedade interessados em que
isso se concretize”.
No entanto, admite que há algum receio, por causa dos
problemas sociais. “Sim, é verdade, há esse risco, mas julgo que o importante é
haver controlo, regras rigorosas, como existe em Macau, não permitindo que, por
exemplo, os funcionários públicos entrem nos casinos, ou pelo menos exigir que,
para jogar, provem o seu rendimento mensal”.
Na relação com Macau, Loro-Horta destaca a questão dos
estudantes timorenses que pretendem estudar no território. Segundo sabe, há 10
vagas de bolsas de estudo que podem ser aproveitadas, “mas apenas cinco estão a
ser utilizadas, por desconhecimento, uma vez que não há muita informação e os
alunos não sabem como candidatar-se”, observa, desejando que “essas
oportunidades de virem para Macau sejam em breve uma realidade para os
estudantes de Timor-Leste, para que depois possam regressar e ajudar o país a
desenvolver-se”.
Ainda na vertente da juventude, o representante de
Timor-Leste em Pequim lamenta o alto grau de desemprego. “Esse é um dos grandes
problemas que enfrentamos, já que 70% da nossa população tem menos de 35 anos
de idade e os números do desemprego são de facto elevadíssimos”, constata,
falando numa estimativa de entre 70% a 80% de falta de emprego em Díli e
Baucau.
O Estado ainda é o maior empregador, dispondo de cerca de
50.000 funcionários
públicos, para uma população de perto de um milhão e 400 mil pessoas. “É
muito”, diz. “O máximo que devíamos ter era 20.000”, destaca, referindo que o problema é
“não haver sector privado e por isso os governos vão dando trabalho no Estado
para tentar aguentar a pressão social”.
A falta de trabalho, principalmente para os jovens, tem
sido “um pouco aliviada” com os trabalhadores emigrantes. “Têm ido para a
Austrália, trabalhadores agrícolas fundamentalmente, mas também em fábricas,
outros para a Coreia do Sul, sobretudo para o sector da pesca, para os parques
de pesca, e também para o Reino Unido, mas aqui o Brexit fez regressar muitos
timorenses, que recebem incentivos para voltar à terra natal”, salienta.
Empresários chineses fazem investimentos
No que concerne às riquezas naturais, que podem ajudar a
crescer o país económica e socialmente, mencionou o petróleo, o gás natural e
os minerais, principalmente, mas também o café, que tem gerado o interesse de
muitos empresários, incluindo os de Macau, em importar o produto. “Há, nesse
sector, algumas empresas de Macau que se têm dirigido a Timor, mas existe outro
tipo de investimento da RAEM, que é na construção de hotéis, o que julgo
crescerá bastante com a possibilidade de abertura dos casinos”, reforça.
Admitindo que a grande prioridade do Governo liderado por
Xanana Gusmão é diversificar a economia, Loro-Horta reconhece a “grande
dependência” do petróleo e do gás natural.
“Existem três áreas em que nós estamos a ver
possibilidades de investir para poder diversificar a economia, que são o
turismo, o sector agrícola e também as pescas”, afirma, apontando para os
investimentos que os empresários chineses podem fazer, sendo que “a China é
actualmente o segundo parceiro económico de Timor-Leste, logo a seguir à
Indonésia”.
Nesse sentido, muito do seu trabalho como embaixador tem
sido direccionado para o contacto com companhias do sul da China,
principalmente de Guangdong, mas também de Fujian, Guangxi e Wuhan. “Há de
outras partes da China, mas fundamentalmente a maior parte das empresas
chinesas e as comunidades chinesas residentes em Timor são pessoas do sul da
China, da região da Grande Baía e zonas próximas, que já é uma tradição que vem
desde o século XIX”, lembra.
Na área de pescas e da aquacultura existem, de acordo com
o diplomata, companhias interessadas em instalar-se em Timor-Leste. Por isso,
“queríamos ver a possibilidade de aprofundar mais essa cooperação para ver se
conseguimos investimentos chinês no nosso sector de pescas e não só na economia
azul de maneira geral”, indica.
Dá exemplos de investimento chinês em viveiros de
camarão, na zona de Manatuto, havendo outros interessados no mesmo sector na
zona de Viqueque. O governo já deu o terreno, tendo-se iniciado a construção de
infra-estruturas, como tanques.
Quanto ao turismo, Loro-Horta, filho do Presidente de
Timor-Leste, José Ramos-Horta, aborda a questão “fundamental” de haver no
futuro mais voos regulares de acesso directo a Díli. “Para que o turismo se
desenvolva, concretamente o turismo da China, é preciso mais voos directos para
a capital”, reconhece.
Existem três vezes por semana, operados pela Aero Díli,
entre Xiamen e Díli, e agora começou um voo também para outra cidade chinesa.
“Tudo isso é um factor de desenvolvimento”, menciona, sublinhando que visita do
Chefe de Estado timorense a Pequim, em 2024, onde se encontrou com o Presidente
Xi Jinping, assim como a entrada de Timor-Leste na Associação de Nações do
Sudeste Asiático, fez elevar o nível do país nas “Parcerias Estratégicas
Abrangentes” da República Popular da China.
Loro-Horta conclui com o ponto da situação
político-social de Timor-Leste. “O país está bastante estável, sobretudo se
compararmos com alguns países da nossa região”, refere, afirmando que “a última
vez que tivemos um caso sério de violência política foi em 2008, quando houve o
atentado contra o Presidente Ramos-Horta”.
No ano passado registaram-se algumas
manifestações de estudantes, protestos parecidos com o que se passou no Nepal,
na Indonésia e nas Filipinas, com os jovens a criticarem o Parlamento por
pretender comprar carros novos. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal
Tribuna de Macau”
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