Uma música, um palco e um vestido sensual foram suficientes para acender um debate nacional sobre os limites entre a fé e a diversão.
Em Banyuwangi, (Java Oriental), foi montado um palco para
celebrar Isra’ Mi’raj, uma das noites mais sagradas do Islão, que comemora a
viagem do Profeta Maomé de Meca à Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, e a sua
ascensão ao céu. O local era destinado a sermões e orações.
No dia 16 de Janeiro, o que se seguiu aos sermões e
orações foi algo completamente diferente: uma cantora de dangdut, de
vestido justo, subiu ao palco, com as ancas a balançar ao ritmo animado da
dança moderna no dialecto Osing, e um homem juntou-se para dançar e dar-lhe
gorjeta.
Alguém filmou tudo. Em poucas horas, o vídeo espalhou-se
pelas redes sociais, incomodando muitas pessoas.
O Isra’ Mi’raj é solene, enquanto as apresentações de dangdut
prosperam na proximidade física e na interacção com o público. Para os
críticos, os dois mundos colidiram.
Os organizadores insistiram que não houve desrespeito.
Muhammad Hadiyanto, chefe da comissão local, disse que, antes do início da
música, o programa religioso terminara e os clérigos tinham saído. A
apresentação, segundo o próprio, apenas tinha como objectivo entreter os
membros da comissão durante a limpeza.
O pedido de desculpas pouco fez para aplacar a
indignação. Os líderes religiosos consideraram-no uma falha moral.
“Este incidente é profundamente lamentável”, disse
Sunandi Zubaidi, vice-presidente do Conselho de Ulemás da Indonésia (MUI) de
Banyuwangi. “A nobreza da dakwah (pregação islâmica) foi manchada por
acções que não reflectem os valores islâmicos.”
Alertou que os acontecimentos sagrados não devem ser
misturados com actos que conduzam à imoralidade, incluindo a exposição da aurat
(partes íntimas do corpo segundo o Islão), a dança erótica e o ikhtilat
(mistura entre homens e mulheres). Advertiu mesmo que tais acções podem
constituir blasfémia.
O parlamento fez eco da preocupação. O deputado Singgih
Januratmoko disse que a questão atinge o cerne da forma como a sociedade
protege a santidade da religião. “A alegação de que o entretenimento ocorreu
após o evento principal não resolve a questão por si só”, frisou, defendendo
que, “do ponto de vista religioso, o cenário, os símbolos e o contexto são
indissociáveis”.
A polícia disse que não foi cometido qualquer crime, mas
confirmou-se que o espectáculo não constava na licença do evento.
Os organizadores devem compreender a natureza de um
evento e garantir que as apresentações estão alinhadas com o seu conceito e
público. Para ocasiões religiosas, isto pode significar seleccionar estilos de
“música religiosa”, como conjuntos de percussão, cantores com vestes modestas
ou canções religiosas, observou Said.
“Quando um vídeo se torna viral, as pessoas só vêem o que
acontece no palco. Não vêem a preparação nos bastidores – a coordenação, os briefings,
os avisos. No entanto, a reacção do público é muitas vezes: ‘Porque é que o dangdut
é assim?’”, acrescentou.
O dangdut, um dos géneros musicais mais populares
da Indonésia, é construído sobre ritmos hipnóticos, semelhantes aos da tabla, e
mistura percussão indiana, melodias malaias e frases árabes. Surgiu na década
de 1930 e ganhou destaque na década de 1950, durante a campanha cultural
anti-ocidental do Presidente Sukarno, que restringiu os filmes de Hollywood,
mas permitiu o cinema hindi. Na década de 1960, começaram a aparecer cantores
locais, embora o género se tenha mantido intimamente ligado às aldeias e
classes sociais mais baixas.
Na década de 1970, o indonésio Rhoma Irama, o “Rei do
Dangdut”, electrificou o dangdut com guitarras e influências do rock,
inspiradas em bandas como os Deep Purple, levando o género para além das
comunidades rurais. Renomeou o seu grupo, Soneta, como “A Voz do Muçulmano”,
fundindo o dangdut com temas islâmicos, introduziu a separação de
géneros em palco e substituiu elementos do rock por desempenhos com temática
religiosa.
Os primeiros concertos foram recebidos com hostilidade,
com pedras e sandálias atiradas para o palco. Inicialmente, a MUI (Municipal
Indonesia University) declarou haram – proibido pela lei islâmica –
cantar versículos do Alcorão, mas posteriormente endossou o trabalho da lenda
do dangdut.
Tal como outras formas de arte musical indonésia, como o jaipongan
e campursari, o dangdut tem incorporado cada vez mais letras com
conotação sexual e danças sensuais, movimentos que testam limites na maior
nação de maioria muçulmana do mundo.
“Esta arte existe porque há um público
para ela. A questão não é o gosto, mas o local. Num evento religioso, diria que
este tipo de desempenho é altamente inapropriado, indecente e impróprio”
concluiu o etnomusicólogo Endo Suanda. In “Jornal
Tribuna de Macau” – Macau com “Agências
Internacionais”
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