Livro
de Lourenço Cazarré premiado em Portugal ganha edição brasileira
I
Depois de publicar Contos pelotenses
(Florianópolis, Editora Insular), Lourenço Cazarré, ainda em 2025, lançou Breve
memória de Simeão Boa Morte e outros
contos poéticos (Rio de Janeiro, Faria e Silva Editora), obra que
já havia sido publicada em Portugal em 2024 pela Imprensa Nacional-Casa da
Moeda, dentro da Coleção Comunidades Portuguesas, mas, desta, vez com dois
contos inéditos que não constam da edição portuguesa.
A obra foi a vencedora em 2023 da 5ª edição do Prêmio
Imprensa Nacional/Ferreira de Castro, que procura distinguir portugueses e
lusodescendentes residentes no estrangeiro e que contou com a participação de
69 candidaturas provenientes do Brasil, Bélgica, Reino Unido, Estados Unidos,
Cabo Verde, França, Irlanda, Suíça, Espanha, Canadá, Sri Lanka e Portugal.
São contos de grande mestria, que têm como tema comum a
literatura e nos quais o autor usa o humor, a ironia e a imaginação com talento
indiscutível. Mas o texto que se destaca, por sua engenhosidade, é aquele que
dá título à obra e que encerra o volume, uma novela de 80 páginas em que um
personagem do conto “O alienista” (1882), de Machado de Assis (1839-1908),
revoltado contra as “mentiras” que o grande escritor brasileiro teria assacado
contra sua memória, procura impiedosamente castigar e menosprezar a obra
machadiana.
Como se lê ao final da novela, esse Simeão Boa Morte seria
um médico psiquiátrico, que cedo se retirou da profissão e tornou-se
empresário, jornalista e dramaturgo amador. Ao falecer, teria deixado inédita
uma monografia com a qual pretendia demonstrar que Machado de Assis, ao
escrever “O alienista”, teria se utilizado de histórias contadas por ele para
um jovem poeta gaúcho, Artur Gentil Cortês, que teria servido de modelo para o
chamado Bruxo do Cosme Velho criar Elisário, protagonista do conto “Um erradio”,
publicado em 1894 na revista A Estação, do Rio de Janeiro, e
incluído no livro Páginas recolhidas (1899). O autor diz ainda
que teria descoberto a memória de Simeão Boa Morte ao final de 1989, quando
pesquisava para escrever sua tese de doutoramento em Letras.
O citado autor se diz revoltado porque, segundo disse,
“quase nada do que consta do referido escrito deu-se de fato”, ou seja, “quase
tudo que ali está consignado ocorreu, sim, mas de modo completamente
inverso”. Eis o que o personagem diz do
grande autor, fundador da Academia Brasileira de Letras: “É um profissional
da fabricação de aforismos, máximas, ditirambos, rifões, ditérios e adágios. E
adora citações bíblicas, mitológicas ou tiradas de livros ilegíveis, como os
produzidos por alemães e russos. Opera sempre com a corrosiva e venenosa
malícia dos intelectuais acanhados”. (pág. 101).
II
Para o crítico literário André Seffrin, autor do texto de
apresentação, “Breve memória de Simeão Boa Morte” constitui uma “impagável
obra-prima e como novela burlesca atinge os cimos machadianos, uma imensa
resposta, e à altura desses mesmos cimos”. Para Seffrin, “essa última história
até o próprio Machado de Assis, gaiatamente, assinaria”.
Até porque, acrescentamos nós, Cazarré procura fazer,
através da paródia, uma imitação burlesca do estilo machadiano, uma forma de
arte que ridiculariza obras, estilos ou personagens sérios através do exagero e
do deboche. Enfim, com ironia e distorção, cria um humor satírico,
transformando o tom original em algo cômico, frívolo ou grotesco.
Já para Luís Filipe Castro Mendes, diplomata e ex-ministro
da Cultura de Portugal (2016-2018), que fez parte da comissão que atribuiu o
prêmio ao autor, esta novela constitui uma obra notável no seu jogo irônico, em
que se reconhece um invulgar conhecimento da literatura, das suas glórias e dos
seus alçapões. “Paradoxalmente, é uma grande e inovadora homenagem ao seu
mestre, Machado de Assis”, conclui.
III
Outros dois contos igualmente têm como interlocutores escritores
de nomeada na Literatura Brasileira. É o caso daquele que abre o volume, “Um
vate de incomensurável acuidade e furor”, em que o protagonista é o romancista
Graciliano Ramos (1892-1953), que, numa reunião pouco atraente de leitura de
poemas, mostra-se enfadado e “aperreado”, sem disfarçar o olhar “caceteado”.
No conto seguinte, “O último trem da infância”, um velho
engenheiro conta como recebeu do poeta e matemático pernambucano Joaquim
Cardozo (1897-1978), que seria “vastíssimo poliglota, leitor voraz, vate
certeiro e matemático da estirpe de Euclides e Newton”, uma espécie de esboço
do que seria depois um dos grandes poemas brasileiros, “Visão do último trem
subindo ao céu”.
Já em “Discurso da mãe do goleirinho”, conto mais extenso,
de 26 páginas, uma jovem poetisa, recorrendo à técnica do cordel, reconstitui a
vida do seu pai, que não chegou a conhecer, a partir das lembranças da avó, com
quem fora morar em Porto Alegre, já à época de seus estudos universitários, uma
senhora “viúva desde os 60 anos e que aos 70 perdera o filho querido”.
No conto “Um magnífico espetáculo de aviltante bajulação”,
acompanha-se a história do sacrifício de uma cadela chamada Pirata que acabaria
por comover toda uma família e, inclusive, levar um filho pequeno a testemunhar
a cena do pai vertendo lágrimas, apesar deste ter sido sempre considerado
pessoa de coração duro. Por fim, no conto seguinte, “A cerimônia do adeus do
Yokozuna Amoyama”, um menino conta sobre o dia em que seu avô o levou à
cerimônia de despedida do maior lutador de sumô de todos os tempos.
IV
Nascido em Pelotas, no Rio Grande do Sul, Lourenço Cazarré
(1954) é descendente de portugueses de Cinfães que emigraram para o Brasil ao
final do século XIX. Formou-se em Jornalismo pela Universidade Católica de
Pelotas em 1975. Depois de um breve período como operador de telex, trabalhou
um ano como repórter na sucursal de Pelotas dos jornais Correio do
Povo, Folha da Manhã e Folha da Tarde,
que pertenciam à empresa Caldas Júnior, de Porto Alegre. Em junho de 1976,
transferiu-se para Florianópolis, onde permaneceu por seis meses como repórter
da sucursal local do grupo Caldas Júnior, antes de se transferir para a redação
do jornal O Estado.
Como escritor passou a ser reconhecido depois que ganhou a 1ª
Bienal Nestlé, em 1982, com o romance O calidoscópio e a
ampulheta (1983), em que conta as desventuras de um ditador livremente
inspirado em Getúlio Vargas (1882-1954). Em 1977, transferiu-se para o Distrito
Federal, onde passou a trabalhar como redator do Jornal de Brasília.
Por essa época, já escrevia contos que publicava em jornais
e revistas. Em 1979, começou a escrever Agosto, Sexta-Feira,
Treze, seu primeiro romance, publicado em 1981. Depois de um retorno ao
Rio Grande do Sul, estabelecendo-se na praia de Laranjal, na costa oeste da
Lagoa dos Patos, onde viveu dos parcos recursos acumulados com os empregos e os
prêmios literários conquistados, voltou a Brasília. Dessa época, são os contos
da primeira edição de Enfeitiçados todos nós (São Paulo,
Melhoramentos, 1984).
Em 1983, em Brasília, passou a trabalhar em uma assessoria
de imprensa na Câmara dos Deputados. Em seguida, tendo sido aprovado em
concurso para professor de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC), em Florianópolis, retornou para Pelotas, mantendo-se em trânsito entre
o Rio Grande de Sul e Santa Catarina por alguns meses, até desistir da carreira
e transferir-se definitivamente para Brasília. Em 1987, exerceu por alguns
meses a função de chefe de editoração da Editora da Universidade de Brasília
(UnB), até que, em 1988, aprovado por concurso público, assumiu o cargo de
redator no Senado Federal, onde trabalhou até se aposentar. Atualmente, é
colaborador do jornal Correio Braziliense. Hoje, vive em
Brasília.
Autor profícuo, Cazarré publicou mais de 40 livros, desde
romances e coletâneas de contos a novelas juvenis, entre os quais se destacam o
romance A longa migração do temível tubarão
(2008), as novelas Nadando contra a morte (1998), Estava
nascendo o dia em que conheceriam o
mar (2011) e Os filhos do deserto combatem
na solidão (2016), as coletâneas de contos A arte excêntrica
dos goleiros (2004) e Exercícios espirituais para
insônia e incerteza (2012) e as novelas juvenis Kandimba
(2019), A fabulosa morte do professor de
Português (2013) e Amor e guerra em Canudos
(2021).
Em 2018, com Kzar, Alexander,
o louco de Pelotas (Curitiba, Editora Paraná,
2018), venceu na categoria romance o Prêmio Paraná de Literatura, promovido
pela Biblioteca Pública do Paraná. O romance premiado trata da paixão alucinada
de um homem pela literatura. Em parceria com Pedro Almeida Vieira, publicou em
fascículos, no site Página Um, a novela policial de humor A
misteriosa morte de Miguela de Alcazar.
Adelto Gonçalves - Brasil
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Breve memória de Simeão Boa Morte e outros contos poéticos, de Lourenço Cazarré. Rio de Janeiro, Faria e Silva Editora, 176 páginas, R$ 48,90, 2025. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 244 páginas, 18 euros, 2024. E-mails: altabooks@altabooks.com.br incm@incm.pt Sites: www.altabooks.com.br www.incm.pt
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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e
Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela
Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Nova Fronteira, 1999), Barcelona
Brasileira (Lisboa, Nova
Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003;
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp)/Academia Brasileira de Letras,
2012), Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp,
2015), Os Vira-Latas da Madrugada
(José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o
Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019),
entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on
Global Trends (Robbin Laird, editor, 2024), publicado os Estados
Unidos e na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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