As Nações Unidas pedem mais recursos e elogiam coordenação das atividades com parceiros após semanas de enchentes no sul e centro. As organizações humanitárias pedem US$ 187 milhões para ajudar 600 mil afetados com foco nos que estão mais expostos ao perigo
As chuvas intensas que causaram inundações
em Moçambique e no sul da África foram tema de uma reunião dos Estados-membros
realizada nesta sexta-feira pelo Escritório da ONU para a Coordenação de
Assuntos Humanitários, Ocha.
A diretora das Operações de Emergência, Edem Wosornu,
informou que Moçambique teve 700 mil vítimas do desastre. No total, cerca de
800 mil pessoas foram afetadas em 10 países pelas inundações que também
causaram mortes na África do Sul, Maláui, Lesoto e Zimbábue.
Desastres relacionados ao clima
A representante do Ocha disse que vários meios de
preparação e coordenação estão sendo fornecidos, além de equipamentos de
assessoria que foram postos à disposição das autoridades. Ela destacou que as
atuais inundações são um forte lembrete de que desastres relacionados ao clima
se tornam mais frequentes, intensos e destrutivos.
O embaixador de Moçambique junto à ONU, Domingos Estêvão
Fernandes, reiterou o pedido de apoio ao país apelando que continue a ajuda,
solidariedade, flexibilidade e auxílio financiado e sustentável para atuar em
três frentes.
O representante permanente disse que primeiro é
necessária ajuda para que os afetados possam sobreviver, seguida de ações de
limpeza, segurança alimentar, abrigo e proteção.
Em segundo lugar, é preciso investir em intervenções de
recuperação para a prevenção de crises em vários sectores, incluindo
deslocamentos, desastres, segurança alimentar, limpeza de resíduos, proteção,
educação, meios de sobrevivência, infraestrutura crítica e degradação
ambiental.
Por fim, o diplomata destacou a necessidade de
investimentos que fortaleçam a preparação para desastres naturais, incluindo
sistemas de alerta e ação antecipada. Ele defendeu também o reforço da
resiliência para a recuperação após eventos extremos causados pelo clima.
Recuperar da tragédia com dignidade
A chefe da ONU em Moçambique, Catherine Sodzi, disse ter
visitado Xai-Xai, na província de Gaza, e as vítimas disseram ter o desejo de
recuperarem da tragédia com dignidade. Ela pediu fundos da comunidade
internacional ao chamar a atenção para a necessidade de mobilizar mais apoio
para atender os pedidos que continuam altos.
A também coordenadora de auxílio no país disse que os
parceiros do setor lançaram um apelo para revisão do Plano de Resposta para as
Necessidades Humanitárias. A ONU busca
US$ 187 milhões para ajudar 600 mil pessoas com um foco nos mais vulneráveis,
incluindo crianças, mulheres, idosos, pessoas com deficiência e deslocadas.
Entre as prioridades da atuação da ONU estão segurança
alimentar, saúde, água, saneamento, higiene, educação, proteção, logística e
coordenação.
Num evento separado, em Genebra, a Agência da ONU para os
Refugiados, Acnur, disse que a forte queda de chuvas das últimas semanas deixou
milhares de moçambicanos esperando por resgate, durante várias horas e até
dias, em telhados de casas.
Condições extremamente difíceis
Acima de 400 mil pessoas que já haviam sido deslocadas
pelas inundações tiveram de fugir novamente das suas áreas em condições
extremamente difíceis.
Mais de meia centena de mulheres em locais de alojamento
relataram os riscos de contrair doenças, violência sexual e de género, além da
exploração dos acolhidos, particularmente mulheres e crianças. As mais de 100
mil pessoas vivendo nesses locais incluem famílias que foram separadas durante
o salvamento.
O Acnur apoia as ações de resposta liderada pelo governo
cobrindo infraestruturas importantes, como estradas, escolas e centros de saúde
que foram destruídas.
Como parte da comunidade humanitária, a agência destaca o
exemplo moçambicano de combate às alterações do clima, após ter sido marcado
por inundações arrasadoras nos últimos 15 anos.
O Acnur fez contacto com pessoas que já haviam sido
deslocadas três vezes e, a cada vez, perdiam casas, pertences, meios de
subsistência e terras agrícolas. Todas estavam apreensivas por não terem sido
capazes de semear a tempo na atual época de plantio.
Efeitos sociais e económicos
Com o conflito no norte de Moçambique, o desafio das
enchentes torna-se mais uma situação de crises. A preocupação é com os efeitos
sociais e económicos gerados pela fragilidade caso a situação piore.
O diretor de Preparação e Resposta a Emergências do
Programa Mundial de Alimentos, WFP, Ross Smith, destacou a colaboração com o
Acnur e o governo nas ações que acontecem no terreno.
A agência participou na preparação e no apoio à resposta,
na divulgação de mensagens de alerta precoce e no reposicionamento de
suprimentos que aceleram a chegada do auxílio da comunidade humanitária.
No terreno há grandes restrições de acesso, mas tem sido
ampliada a resposta para apoiar mais de 450 mil afetados. A agência contou
ainda que lida com a logística, incluindo o fornecimento de aeronaves,
helicópteros e veículos anfíbios para alcançar pessoas em áreas inacessíveis.
Capacidade limitada
Outro constrangimento são os mais de 1,5 mil km de
estradas destruídos e completamente inutilizáveis. O WFP compra alimentos
usando recursos locais para interagir com fornecedores.
A dimensão do desastre é semelhante aos daqueles vistos no sudeste asiático, segundo a agência. Neste contexto, o WFP atua com capacidade limitada no terreno, pela crise de financiamento que obriga a atuar com 40% menos recursos do que em 2025. ONU News – Nações Unidas
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