Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Transnístria

As pequenas “Uniões Soviéticas” da Europa

A dissolução da URSS deixou marcas profundas no mapa político europeu, ainda que muitas delas sejam desconhecidas da grande maioria dos europeus. Quase duas décadas e meia volvidas após a dissolução do gigante soviético, as reminiscências de um tempo perdido não são ainda totalmente parte dos livros de História.

A evolução política e económica do continente europeu desde o início da década de noventa foi acelerada e introduziu um aprofundado esquema de integração entre os países europeus. A esta crescente dinâmica de integração, cristalizada por Maastricht, correspondeu um aumento do poder relativo da União Europeia no sistema internacional nos anos subsequentes. De 1992 a 2004, a União Europeia tornou-se no alfa e no ómega dos estados da antiga órbita soviética. O mesmo não pode ser dito dos estados recém-independentes: Ucrânia, Bielorrússia, Moldávia, Geórgia, Azerbaijão e Arménia nunca alcançaram um estatuto de relacionamento semelhante aos restantes.

Desta nova linha divisória na Europa resultou o afastamento de Bruxelas como centro de decisão com capacidade de influência no processo de desenvolvimento económico e político desses estados. Em grande medida, a contínua a aproximação da União Europeia a leste foi sempre, por isso mesmo, um processo incompleto. Esta lacuna no relacionamento externo da União Europeia lançou no esquecimento realidades que permaneceram afastadas do léxico comum dos europeus.

Na fronteira leste da Europa, área de ancestral interesse russo, predomina uma agenda dominada por questões de segurança e de equilíbrio militar. A proclamação de independência das antigas repúblicas soviéticas degenerou em problemas de soberania de parcelas intraestaduais de território, inseridas em estados que, apesar de reconhecidos internacionalmente, nunca o foram internamente. É o caso da Geórgia, que a guerra de 2008 ajudou a catapultar para os noticiários internacionais; é o caso do Azerbaijão, que não controla a república do Nagorno-Karabakh; e é também o caso da Moldávia, que desde 1992 se vê obrigada a coexistir com o estado de facto independente da Transnístria.



Abarcando quase todo o norte da Moldávia ao longo da fronteira com a Ucrânia, a Transnístria é o resultado da recusa da população de ascendência russa em pertencer à Moldávia, um estado de maioria latina, que sucedera à República Socialista Soviética da Moldávia. No ano que se seguiu à declaração de independência da Moldávia, em 1991, foi desencadeada uma guerra civil de curta duração entre as forças governamentais do novo país e grupos paramilitares locais, apoiados por Moscovo.

A partir daí, não mais o governo de Chisinau controlou a Transnístria, que vem funcionando na prática como um estado independente. É uma república presidencial dotada de órgãos de soberania, de bandeira e de hino nacionais, tal e qual como qualquer outro estado. Organiza eleições e cunha a sua própria moeda.

O não reconhecimento internacional da Transnístria como estado soberano não impede que a comunidade internacional admita a decisiva influência de Moscovo nos assuntos internos da república. De resto, a Rússia é o garante da autonomia da Transnístria, a qual seria severamente comprometida sem o seu apoio económico e sem a sua presença militar. Desde o acordo de cessar-fogo de 1992 que Moscovo mantém estacionado no território da Transnístria mais de um milhar de soldados, originalmente introduzidos com o estatuto de forças de peacekeeping. Apesar dos sucessivos compromissos em o retirar, Moscovo não abre mão deste contingente militar. A presença militar russa na Transnístria assegura a Moscovo a manutenção do status-quo na região e sua influência enquanto centro de poder nevrálgico na sua vizinhança próxima.

Há quase vinte e cinco anos que assim é. A Transnístria permanece um estado fantasma no coração da Europa, subsistindo entre as brumas da herança da antiga cortina de ferro. Vive no e do passado, alimenta-se do antigo espírito de grandeza da União Soviética, e encara o mundo ocidental como um corpo estranho ao seu modo de vida. É um pedaço da União Soviética projectado no século XXI, uma autêntica experiência política de laboratório.

Para a Europa contemporânea, esta realidade é estranha, não apenas por se afigurar nos antípodas dos valores que defende e promove, mas porque integra uma problemática crucial para o seu futuro e sobre a qual a Europa parece ter pouco a dizer e muito menos a decidir: que modelo de relacionamento futuro quer assumir com as suas vizinhanças, e que política externa é possível adoptar – designadamente – para a vizinhança a leste. Em suma, temas que definem a própria identidade europeia. Por agora, o que existe é uma Política Europeia de Vizinhança bastante perto da estagnação, e uma Parceria Ocidental cujo grau de sucesso é ténue e difícil de aferir.

Apesar das modificações introduzidas pelo Tratado de Lisboa no respeitante às prerrogativas da sua política externa, tornou-se inegável que a realidade dos últimos anos veio secundarizar na agenda europeia a discussão sobre o papel internacional da União Europeia como força motriz para a democratização de estados terceiros. Em prol dos temas económicos e financeiros, o volte face na agenda europeia escondeu do debate público europeu questões essenciais e que mereciam uma maior visibilidade. Seria positivo para a União Europeia reintroduzir determinados temas na discussão pública num futuro próximo, não para bem das suas políticas, mas sobretudo para a sua credibilização aos olhos dos cidadãos.

É sabido no entanto que só com o fim dos programas de ajustamento em curso e com o avistar do fim da conjuntura que continua a perigar o projecto da União Económica e Monetária, é que será possível repensar o papel da União Europeia no restante continente (que como se procurou aqui salientar permanece fértil em realidades que para muitos seriam fruto da imaginação), e no mundo.

Talvez assim, um dia, seja possível viver num continente livre de pequenas “Uniões Soviéticas”. Até lá, há todo um longo caminho a percorrer. João Gil – Portugal in “darussia.blogspot.pt”


Sede do Parlamento da Transnístria na capital Tiraspol

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A língua que ninguém fala

"Se sofres particularmente por não estares a fazer algo que te parece certo, por que não ages, em vez de te lamentares?"
                                  Marco Aurélio

Não é muito arriscado para um escritor – precisamente por não ser um linguista – afirmar, que hoje em dia na Galiza, a realidade da língua chamada galega passa por uma perceção concreta de que o seu uso não só está a diminuir, como que nem sequer possamos dizer que esteja precisamente dele a fazer-se um "correto uso", ou a ser usada quanto menos tal como deveu ser previsto pelas autoridades, que no seu dia levaram à frente a implementação das "Normas Ortográficas e Morfológicas do Idioma Galego", através do Decreto "Filgueira" de 1982, desenvolvido desde as achegas da RAG e o ILG. Ou talvez sim. Talvez essas autoridades já previram isto: o abandono coletivo da língua de menor prestígio social (o galego) face à língua de maior prestígio e peso social (o castelhano); tentado precisamente com este decreto travar esse futuro, hoje feito presente. Mas se isso foi previsto e a normativa não cumpriu seu fim, só resta o paliativo da correção do diagnóstico e a mudança do tratamento.

Acontece que nesta altura a absorção da língua galega pelo castelhano se faz tão evidente, que a normativa atual só pode ser implementada a nível escolar ou académico. A realidade social caminha por outros vieiros.

Três são as falas que hoje e dia subsistem ao nível de rua, e mesmo em certos casos até compartilham espaços na atual Comunidade Autónoma da Galiza.

O castelhano: língua em ascensão que possibilita melhor a comunicação a todos os níveis. É a língua que prevalece na maior parte do tecido urbano, dominante ou quase única nos meios de comunicação social. Nela desenvolvem-se a maioria das trocas comerciais, efetuadas através de e por todo o país; assim como a maior parte de todo o tipo de relatórios legais ou privados... Mesmo da correspondência comercial ou privada (incluído a de suporte eletrónico) realizada por escrito. É a língua de charme, mas também a língua da classe operária. A língua de referente também no nível de ócio ou da arte, incluindo a musica... Inclusive na maior parte das canções utilizadas nas assim chamadas "festas populares" (onde quase todo o repertório das Orquestras se faz nesse idioma)...

O galego-castelhano (diluindo-se devagarzinho no processo de absorção que agora estamos presenciando). Esta é uma fala que continua recluída ao âmbito familiar e das relações de amizade. Língua hibrida desprestigiada (consciente ou inconscientemente) pelos próprios utentes, que reduzem o seu uso ao âmbito coloquial da comunicação mais privada.

Cada vez menos empregue graficamente, cada vez menos utilizada para expressar os pensamentos ou sentimentos mais íntimos da maioria das pessoas. Ou bem muito limitada para o uso das relações que consideramos serias como: criar os filhos, dirigir-se a alguma instituição ou simplesmente recorrer a algum tipo de serviço necessário para manter a nossa "coesão" social (levar o carro à oficina, ir cortar o cabelo, jantar num restaurante...). Quer dizer, faz-se mais dificultoso fazer uma vida normal nela.

O galego-castelhano (na falta de estatísticas sérias) ocupa um lugar ainda visível no mundo rural, ou das pequenas vilas, mas já não no citadino urbano ou no das vilas que aspiram em breve a ostentar o título de cidade (onde a mudança para o castelhano ocorre de modo "natural" e sem confronto, ao ter a língua de prestígio um atrativo social irrefreável)

O galego-português. Fala dum pequeno grupo conscientizado, no que com o tempo se deu em chamar movimento "Lusista ou Reintegracionista". Fala que não corre perigo de extinção como o galego-castelhano, o qual sofre a introdução invasiva contínua de léxico da língua A para a língua B, estando em caminho de transitar a uma espécie de gíria da língua castelhana. Não podendo já neste presente sobreviver sem as ferramentas que esta lhe presta.

O galego-português, pelo contrário, goza de muito boa saúde tanto no reduzido número de falantes que mantém na Galiza, como dentro duma ampla comunidade internacional (290 milhões a nível mundial) onde cada vez o seu prestígio tem mais reconhecimento. Embora moderadamente, a sua tendência na Galiza mantém-se em expansão desde que a princípios dos anos oitenta a AGAL (Associação Galega da Língua) iniciasse a sua andaina em favor duma normativa mais em sintonia com os preceitos do galeguismo clássico, desde os Padres Sarmiento e Feijó até a Geração Nós. Carvalho Calero e Guerra da Cal foram as figuras mais em destaque, que na época do franquismo fizeram (dentro e fora do país) as achegas e apostas mais interessantes a este movimento reintegrador.

Daí inferimos que o crescimento contínuo experimentado pelo galego-português na Galiza tem a sua causa, entre outras cousas, no amor e cuidado com que os utentes que usufruem desta alternativa estão a agarimar a sua fala; mas também nas ferramentas que estes usuários possuem, muito superiores àquelas a que podem recorrer os falantes de galego-castelhano (de dicionários, material pedagógico ou didático até à net, livros, filmes, jornais, música...)

Assim como também no nascimento e criação de redes já estáveis que vão da base popular até ao mundo académico – como o demonstra a recente criação da AGLP (Academia Galega da Língua Portuguesa) com o apoio das outras Academias irmãs. Além das relações a todo o nível – académico, cultural, sindical... – que se estão a desenvolver entre a Galiza e o resto da lusofonia.

Estamos, pois, numa tessitura onde o galego ILG – RAG já não tem mais emprego que a escrita oficial – dos documentos oficiais, manuais escolares das disciplinas veiculadas em galego, livros de diversa divulgação editados nesta normativa e pouco mais. Mesmo nem é utilizada, na sua fala diária, pelos funcionários ou professores, que redigem ou ministram estes documentos ou matérias do currículo escolar.

Apontamento Politico. Com a implementação da Lei Wert, a presença do castelhano ainda será mais firme e a sua expansão e assentamento mais evidente, ao perder o galego-castelhano, ou ver muito enfraquecido, o seu último reduto de apoio e sonhos: a sua presença constante no ensino.

Apontamento pessoal. Da minha visão, cada vez se faz mais impossível viver em galego-castelhano, o qual aumenta o isolamento destes falantes perante a falta de comunidade real de fala. Mas será que é possível viver em galego português hoje na Galiza? Acho que sim, porque a relativa pequenez da comunidade de falantes desta opção pode ser compensada com a ampla rede de falantes a nível global e de ferramentas efetivas e imediatas, que esta variante tem (a maiores dos centros sociais, diversificados por todo o país ou projetos coletivos de muita alta dignidade: como a Escola Semente)... Factos que, sem dúvida, diminuem a sensação de isolamento. Além disso, o trabalho continuado de rua, feito pelo lusismo ou reintegracionismo de base tem aberto muitas mentes, e cada vez é menos estranha a situação, na qual as pessoas que olham para escritos em galego-português sejam capazes de ler e compreender mensagens com grafias, antes alheias, como NH ou LH.

Olhando as cousas sob este prisma, a não mudança já não é questão de teimosia mas de imobilismo. Artur Alonso – Galiza in “Portal Galego da Língua”


"A única coisa que temos de respeitar, porque ela nos une, é a língua."
                                                                                                        Frank Kafka

domingo, 3 de novembro de 2013

Ver através de...

 
Investigadores da FCUP desenvolvem sistema 'See-Through' entre veículos para reduzir acidentes
 
Projeto coordenado por Michel Ferreira, docente do Departamento de Ciência de Computadores
 
Comunicação entre veículos, sempre existiu. Desde sua invenção, os automóveis foram equipados com luzes de travagem, piscas e buzinas. Apesar de todos os avanços tecnológicos da comunicação sem fio, a comunicação entre veículos ainda tem como base uma tecnologia antiga de sinais de luzes ou buzinadelas. Ninguém gosta de ficar preso no trânsito atrás de um veículo de grande porte e lento, como também, é difícil efetuar uma ultrapassagem com segurança e clara visibilidade.
 
Atualmente, já é possível, e para provar isso, Michel Ferreira, docente do Departamento de Ciência de Computadores da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e a sua equipa de investigação do Instituto de Telecomunicações tem vindo a desenvolver uma tecnologia que permite ao condutor "ver" através de outros veículos, com fortes implicações para a comunicação entre veículos ou entre os veículos e a "estrada" e, consequentemente, uma maior segurança rodoviária e informações sobre condições de tráfego.
 
O sistema See-Through "Ver-Através do sistema", é algo semelhante a um espelho "retrovisor", mas que permite ver a estrada à frente de um camião ou autocarro que seguisse à nossa frente, ou seja, o veículo que pretende ultrapassar envia um sinal para o veículo à frente, pedindo acesso à sua câmara de pára-brisas.
 
Segundo Michel Ferreira, "Imagine que estou atrás de um grande camião que não me permite ver através dele, tornando difícil e desconfortável a avaliação, por exemplo, de uma ultrapassagem, mas esse camião tem uma câmara de pára-brisas orientada para a frente. Eu consigo, através do sistema de comunicação entre veículos que desenvolvemos, ir buscar a imagem dessa câmara no pára-brisas do camião e transmitir essa visão ao condutor que vem atrás".
 
O docente da FCUP, afirma que o sistema See-Through mostra que "é possível fazer esta transmissão vídeo entre veículos com um atraso quase insignificante (200 milissegundos), que não afeta em termos de segurança a manobra de ultrapassagem".
 
Esta novidade na investigação, foi apresentada em outubro de 2013 por Michelle Silvéria, um dos elementos da equipa de Michel Ferreira, numa principais conferências científicas em termos de realidade aumentada, o International Symposium on Mixed and Augmented Reality (ISMAR), que se realizou na Austrália.
 
O artigo "Augmented Reality Driving Supported by Vehicular Ad Hoc Networking" e a demonstração teve um forte impacto, tendo sido publicado nas revistas New Scientist e Smithsonian Magazine, que segundo o Michel Ferreira, levou a mais de 10 mil visualizações por dia do vídeo da demonstração que se encontra no YouTube.
 
O projeto permite uma "Realidade aumentada em ambiente de condução automóvel suportada por comunicação sem-fios veículo-a-veículo". Este trabalho é um dos resultados da investigação produzida no âmbito do projeto DRIVE-IN, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e o maior projeto de investigação do Programa Carnegie Mellon Portugal.
 
Fazem parte da equipa coordenada por Michel Ferreira, Pedro Emanuel Rodrigues Gomes, estudante de doutoramento em Informática e os investigadores Fausto Vieira e Michelle Silvéria. Faculdade Ciências U. Porto - Portugal

Libertação espiritual

Paulina Chiziane
A escritora moçambicana Paulina Chiziane, natural de Manjacaze, Gaza, onde nasceu a 04 de Junho de 1955, tem quase trinta anos dedicados à escrita e no passado dia 30 de Outubro de 2013, apresentou no Centro Recreativo da Universidade Politécnica (CREISPU) na capital de Moçambique, Maputo, a sua última obra literária, em co-autoria com Rasta Samuel Pita, intitulada “Por quem vibram os tambores do além?”, sob a chancela da Índico Editores.

Rasta Samuel Pita
“Se Deus é o único que criou a todos de maneira igual, deu a Moisés o poder da magia, também deu aos curandeiros, o mesmo poder. Por que é que hoje, os curandeiros são condenados e Moisés é louvado? As pessoas que criticam os curandeiros não conhecem as suas normas e nem os seus princípios. O conceito de ‘Deus único’ saiu de um africano, chamado Moisés, para o mundo. Como é que de repente aparecem religiões do ocidente a afirmar que África está nas trevas e os curandeiros são os diabos”. Palavras de Paulina Chiziane abordando que a opinião generalizada sobre o curandeiro africano e particularmente o moçambicano é negativa.
O Prefácio do livro coube ao Prof. Nataniel Ngomane que fez a apresentação. Aqui ficam as suas “Poucas palavras”:
Poucas palavras
Depois da publicação de Na mão de Deus (2012), em co-autoria com Maria do Carmo da Silva, livro em que Paulina Chiziane, a pretexto de discorrer - e com reconhecida e meritória ousadia - sobre uma dramática experiência de vida, levanta o véu a toda uma série de questões fortemente marcadas pela discriminação, exclusão e consequente marginalização dos doentes mentais, quer pelas famílias quanto pelos hospitais e pelo Estado - assunto, aliás, que mereceu a minudente atenção de Michel Foucault, levando-o a dissecá-lo na sua Histoire de la Folie à l’ Âge Classique (1972) e em Maladie Mentale et Psychologie (1975) -, a longínqua autora de Balada de Amor ao Vento (1990), Ventos do Apocalipse (1995), O Sétimo Juramento (2000), Niketche (2002), As Andorinhas (2008) e O Alegre Canto da Perdiz (2008) parece estar, de facto, a optar por um novo paradigma de escrita não propriamente ficcional mas contemplativo e reflexivo, ao nos presentear, desta vez, com este Por quem vibram os tambores do além?
Tal como Na Mão de Deus, livro posterior a este, mas que razões circunstanciais levaram a que fosse publicado primeiro, e cujas narrativas inquietam visceralmente o leitor - quer seja pela sua autenticidade, pinçada da experiência vivencial da autora, quer mesmo pelo facto de remeterem, amiúde, a uma crescente realidade que, para a nossa infelicidade, se vem assistindo no quotidiano moçambicano -, este “Por quem vibram os tambores do além?” apela também a uma reflexão que provoca profundamente o leitor, particularmente aquele leitor enraizado na tradição do pensamento e visão sociocultural de base ocidental, instigando-o a revisitar e questionar conceitos, crenças e caminhos de vida julgados firmes e consolidados. Este livro coloca esse leitor, em particular, em confronto com outros e sólidos sistemas culturais e de pensamento.
A assistência na apresentação do livro
Aqui, em co-autoria com Rasta Samuel Pita - e através de diversas frestas -, Paulina Chiziane põe o leitor em contacto com diversas tradições do pensamento africano, em especial as dos povos bantu, alicerçando-as com o crivo da sua visão crítica, tudo com base numa lógica impressionante, em meio a um destemido exercício comparativo assente no cruzamento de perspectivas filosóficas diferentes e de sistemas de pensamento igualmente diferentes.
Tomando como referência espaços geopolíticos do actual território de Moçambique e suas milenares figuras mitológicas – até agora desconhecidas de muitos de nós -, Pita e Chiziane conduzem o leitor pelas sinuosas e múltiplas veredas das cavernas africanas, derramando sobre elas incontáveis feixes de luz de um saber sobre o qual urge questionar se oculto, escamoteado ou, pura e simplesmente, reprimido e votado à margem ou ao esquecimento.
Iniciando com uma invocação aos espíritos, feita por Rasta Pita, a porta de entrada deste livro sugere, à partida, e em perfeita sintonia com os modelos estruturais da narrativa, a provável presença dessas entidades no texto, que, efectivamente, acabam sendo encontradas, embora não realizem aquela série de proezas habituais ao mundo da ficção. Todavia, ao mesmo tempo em que assim procede, essa invocação passa a constituir o principal mote, uma espécie de janela ampla que se abre e por meio da qual se tem acesso ao mundo estruturado do conhecimento e dos espíritos africanos sobre os quais a obra se tece.
Os espíritos africanos, neste livro, devem ser entendidos no sentido antropológico da ancestrolatria conceptualizada por Ribeiro (1998, p.25)1, como a religião dos bantu, o culto aos antepassados que “informa toda a vida familiar e social. Religião sem profetismo, fundada na tradição dos antigos, [em que] as suas manifestações principais são concretizadas em sacrifícios cruentos de animais, oferendas e orações, junto de um altar rudimentar, [e nela] só se temem e imploram os próprios antepassados”.
Não deve causar espanto, por conseguinte, que ao mesmo tempo em que essa janela ampla se abre, se abra outra similar, por via da mesma invocação, apontando para a existência de um “ser supremo” apresentado como autor espiritual do trabalho de Rasta Samuel Pita e Paulina Chiziane, e não só. Esse ser vai se desdobrando em múltiplas teias, consubstanciado nesse culto aos antepassados, assim conferindo estrutura e consistência a todo um modo de ver, pensar e viver o mundo totalmente diferente do que nos foi habituado pela filosofia e pensamento ocidentais. Em última instância, esse outro paradigma é apresentado como a força que informa as sociedades tradicionais dos bantu, num percurso em que o canto, o rufar do tambor e a força da natureza constituem elementos centrais. Nataniel Ngomane – Moçambique
  
1  Ribeiro, Pe. Armando. Antropologia. Aspectos culturais do Povo Changana e Problemática Missionária. Maputo: Paulinas
Quem deseje perceber as tradições africanas e os seus próprios conceitos, crenças, sistemas de pensamentos e visões do mundo, deverá ler o livro de Paulina Chiziane e Samuel Pita “Por quem vibram os tambores do além?”  Baía da Lusofonia

Paulina Chiziane – Escritora, “Balada de Amor ao Vento” (1990), “Ventos do Apocalipse” (1993), “O Sétimo Juramento” (2000), “Niketche: Uma História de Poligamia” (2002), “O Alegre Canto da Perdiz” (2008), “Na Mão de Deus” (2012), “Por Quem Vibram os Tambores do Além?” (2013). Prémio José Craveirinha 2003.
Nataniel Ngomane - Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), onde defendeu a tese A escita de Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khosa e a estética do realismo maravilhoso (2004), Nataniel Ngomane é Licenciado em Linguística pela Faculdade de Letras da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), com a defesa da dissertação Alguns aspectos da coesão e coerência textuais no romance Terra Sonâmbula de Mia Couto (1994).
Professor de Literatura Comparada e de Metodologia de Investigação na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da UEM, tem textos dispersos em capítulos de livros, revistas e jornais, além de participação diversa em eventos científicos nacionais e internacionais.
Membro do Conselho Consultivo da revista Portuguese Literary & Cultural Studies (do Center for Portuguese Culture and Studies da University of Massachusetts-Dartmouth) e do Conselho Editorial Científico da revista Recorte (da Universidade Vale do Rio Verde, de Minas Gerais, Brasil), os seus interesses em pesquisa integram a Literatura Moçambicana e Latino-Americana, o Cinema e a Música moçambicanos. Director da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane




sábado, 2 de novembro de 2013

Memórias de Damão

 
As memórias da infância vividas no tempo do império, em Damão, por Cândido do Carmo Azevedo, são o tema de “Goa, Damão e Diu – Factos, Comunidade e Lazer nos meados do século XX”. O livro foi reeditado e apresentado na passada quarta-feira, 29 de Outubro de 2013, na Fundação Rui Cunha.
 
“Goa, Damão e Diu – Factos, Comunidade e Lazer nos meados do século XX”, livro de Cândido do Carmo Azevedo, consiste num registo de memória da “infância feliz” entre 1953 e 1958. Foi ontem apresentado na Fundação Rui Cunha.
 
Azevedo, autor de oito obras publicadas, conta que foi depois de uma viagem em 1988 àquele território que decidiu registar as memórias de infância. “Trinta e tal anos depois da invasão do território pela União Indiana [em 1961], estava-se a perder aquela cultura portuguesa e cristã. Então resolvi escrever para salvaguardar aquelas memórias e é isso que está no livro”, diz o autor.
 
Cândido do Carmo Azevedo conta que viveu na Índia 10 anos, onde fez a instrução primária. “O meu pai era comandante da polícia e eu percorri Goa, Damão e Diu.” Viver com aquelas crianças “hindus, mouras, cristãs” foi uma vivência que o fez “enormemente feliz, porque poucas crianças têm oportunidade de viver numa comunidade tão diferente e com tantos valores estranhos”, explica Azevedo, que foi professor do Instituto Politécnico de Macau e leccionou em Pequim.
 
O livro tem uma dimensão etnográfica. O autor conta as histórias do quotidiano e inclui um dicionário lúdico no final, com a explicação de passatempos e jogos. Além disso, o autor foi buscar lendas, histórias, cantares e lengalengas que “mais ninguém se lembra”, diz.
 
Hoje, o território “está muito modificado”, diz. “Tive aquele pensamento que me levou a escrever o livro e foi precisamente isso que aconteceu”: os territórios alteraram-se muito e já não são hoje o que eram. “Desapareceram muitas coisas” mas, em termos de património arquitectónico de matriz portuguesa, os edifícios “mantêm-se e são cuidados”, conclui Cândido do Carmo Azevedo.
 
Primeiro de muitos livros
 
“Este livro é o repositório da vivência que o autor teve, da mocidade dele e, em alguma medida, também da minha”, explica Rui Cunha, presidente da fundação que ontem recebeu o lançamento da obra e também ele com infância passada em Goa.
 
É Rui Cunha quem assina o prefácio desta segunda edição. O livro ganhou o Prémio Literário Camilo Pessanha em 1994, atribuído pelo Instituto Português do Oriente à melhor obra sobre o legado português nesta região do mundo.
 
Rui Cunha explica que esta reedição do livro, quase 20 anos depois do seu lançamento, justifica-se pela importância da obra. “Até para vermos quanta foi a influência e como o padrão português serviu de exemplo em relação àqueles territórios”, explica.
 
Com esta reedição, a Fundação Rui Cunha inicia aquilo que pretende ser um processo consistente de recolha de memórias do antigo império português. Ao PONTO FINAL, Rui Cunha diz que esta reedição é um “bom começo”: “Que venham mais livros, que venham mais coisas. Nós gostaríamos que isto fosse extensível a todos os territórios onde houve administração portuguesa. Desta vez é Goa, Damão e Diu, mas que haja de outros lugares. Isso faz parte dos objectivos da Fundação.” Cláudia Aranda – Macau in “Ponto Final”


Fiorde no Aeroporto de Brasília

 
FIORDE abre escritório no Aeroporto de Brasília
BRASÍLIA – Dentro de seu plano de expansão, a Fiorde Logística Internacional, de São Paulo, acaba de estender os seus serviços também para a região do Distrito Federal, com a abertura de um escritório na Área Especial do Aeroporto Internacional de Brasília, no Lago Sul. Com a nova filial, a empresa terá uma equipe altamente especializada para atender também a seus clientes na região Centro-Oeste do País.
Ao anunciar a abertura da filial, o vice-presidente da Fiorde, Mauro Lourenço Dias, lembrou que a crise econômica continua a passar longe do Distrito Federal, já que a região vem apresentando um crescimento ao redor de 3,5%, superior à média do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro prevista para 2013, de 2,48%. “Por isso, a Fiorde está direcionando seus esforços para participar também desse crescimento”, disse, lembrando que os setores que mais se destacam em Brasília são o de serviços, que responde por 90% de toda a atividade econômica do Distrito Federal, e a administração pública, já que a cidade concentra grande parte dos órgãos federais, que contratam mão de obra, compram itens variados e realizam obras.
“Além disso, a atividade industrial no Distrito Federal tem apresentado média de crescimento de 6,6%”, destacou. “É, portanto, uma região que vem colocando em execução uma série de empreendimentos que exigem o fornecimento de serviços especializados, principalmente no setor de comércio exterior”, acrescentou. “A exemplo do que já fazemos no Sudeste e no Nordeste, passaremos a oferecer no Centro-Oeste desembaraço aduaneiro com grande agilidade, disponibilizando serviços de coordenação de transporte, pagamento de fretes e taxas, contratação de seguro e análise de carta de crédito, entre outros”, disse o vice-presidente, ressaltando que a Fiorde coloca à disposição de seus clientes serviços de consolidação de cargas para qualquer ponto do planeta, oferecendo sempre as tarifas mais competitivas.
“Estamos capacitados a oferecer todos os tipos de assessoria e consultoria, desde o estabelecimento de custos de importação e exportação, classificação fiscal, análise e obtenção de benefícios fiscais, informações sobre normas, editais, portarias e regimes aduaneiros especiais, até a elaboração de defesas e recursos administrativos”, observou.
Segundo o diretor, a empresa, além de oferecer a seus clientes serviços especiais, como elaboração de projetos de draw back e obtenção de licença de importação para materiais especiais (usados), está em condições de assumir projetos especiais e a terceirização dos departamentos de comércio exterior de empresas. “Oferecemos todas as condições para que o cliente possa concentrar seu foco de atuação em seu core business”, disse.
Com mais de 700 funcionários, a Fiorde já mantém filiais em Santos, Campinas, Jacareí, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Manaus e Recife e nos aeroportos de Guarulhos e Viracopos, além de agentes subcontratados nos principais portos e aeroportos do País, dispondo de centros de distribuição em Santos, Guarulhos e Belo Horizonte. A Fiorde Cargo e Armazéns Gerais, empresa do Grupo Fiorde, mantém ainda, no município de Cabo de Santo Agostinho-PE, um centro de distribuição junto ao Porto de Suape, na região metropolitana do Recife. Fiorde Logística Internacional - Brasil

Aeroporto Internacional de Brasília: Fiorde mantém no local uma equipe altamente especializada para atender também a seus clientes na região Centro-Oeste do País
 
 


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Moçambique mais igualitário

Segundo o Relatório Global sobre Desigualdade do Género 2013 publicado no passado dia 25 de Outubro pelo Fórum Económico Mundial em Genebra na Suíça, Moçambique é o país lusófono mais igualitário entre homens e mulheres.

Islândia, Finlândia, Noruega e Suécia são os quatro primeiros entre 136 países classificados no oitavo relatório anual do Fórum Económico Mundial em função das suas capacidades em reduzir a desigualdade de género em quatro áreas distintas, saúde e sobrevivência, acesso à educação, participação política e oportunidades na dinâmica económica.

Nesta classificação encontram-se cinco países da CPLP, Angola, o único país que não se encontra na primeira metade dos países registados, Brasil, Cabo Verde, Moçambique e Portugal.

Moçambique é o país melhor classificado em 26º lugar, o quarto de África, com oscilações significativas entre oportunidades na dinâmica económica (11º) e participação política (18º) com as restantes áreas, saúde e sobrevivência (112º) e acesso à educação (124º). Em 2010 Moçambique estava no 22º lugar

Em segundo lugar está Cabo Verde, 41º posto, estando no grupo dos países que estão em primeiro lugar no requisito saúde e sobrevivência, 25º na participação política, 96º em oportunidades na dinâmica económica e 97º no acesso à educação. Cabo Verde classificou-se pela primeira vez em 2012 no 35º lugar.

Portugal é o terceiro classificado, estando na posição 51ª, no ano de 2010 estava no 32º lugar. A melhor classificação, 46º é em participação política, 56º em acesso à educação, 66º em oportunidades na dinâmica económica e 83º em saúde e sobrevivência.

O Brasil encontra-se no 62º lugar, melhorando do 85º posto em 2010. O Brasil está no grupo dos países classificados em 1º lugar em acesso à educação e saúde e sobrevivência, existe portanto igualdade nos sexos no acesso a estes dois preceitos, mas está em 68º na participação política e 74º em oportunidades na dinâmica económica.

Angola classifica-se pela primeira vez, entrando para o 92º lugar. Está no grupo do 1º lugar em saúde e sobrevivência, 34º na participação política, 92º em oportunidades na dinâmica económica e em 127º no acesso à educação.

Nos últimos cinco lugares estão, Mauritânia, Síria, Chad, Paquistão e Yémen.
Para conhecer em pormenor o Relatório Global sobre Desigualdade do Género 2013 do Fórum Económico Mundial aceda aqui. Baía da Lusofonia