Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quarta-feira, 20 de maio de 2020

‘O Reino, a Colônia e o Poder’, uma bela contribuição para a historiografia brasileira

Você  apanha  o livro, folheia as páginas, observa  o trabalho de edição, olha  as fotografias que ilustram o texto, volta, lê o título,  procura o nome do autor  e  descobre quem é. Jornalista, doutor em Letras,  historiador  com notável contribuição à historiografia brasileira e  prêmios recebidos de  diversas instituições, entre as quais a Academia Brasileira de Letras.  Enfim, você abre o livro, começa a ler e se vê transportado ao século XVIII para   participar de um pedaço da história da capitania de São Paulo.

O personagem central da história, que está no subtítulo, é d. Bernardo José Maria da Silveira e Lorena (1756-1818), ou simplesmente Lorena, que governou a capitania entre 1788 e 1797. Mas por quê preocupar-se com esse período da história de São Paulo e dedicar a ele as quatrocentas páginas de um livro bem documentado e bem escrito?  O autor responde logo na Introdução, na primeira página.  Porque não tínhamos ainda nenhuma pesquisa mais aprofundada sobre esses nove anos do governo Lorena, decisivos para o desenvolvimento da capitania. A curiosidade do leitor se aguça. Decisivos, como e por quê?

Ao chegar a São Paulo, Lorena se debruçou sobre os problemas que afetavam a capitania, detectou suas necessidades e traçou um programa de ação para enfrentá-los. Eram muitos os problemas. O primeiro envolvia o porto de Santos que então vivia em ruínas.  Era necessário, pois, reconstrui-lo e equipá-lo. Mas isso não bastava. Era preciso abrir um caminho para ele. Do contrário, como escoar a produção de arroz, algodão, aguardente de cana, café, couro, madeira, açúcar?

Começa então a abertura do caminho para Santos. Era uma trilha difícil de ser percorrida: barrancos, árvores tombadas, terrenos alagados, escorregadios, buracos, em alguns lugares mata fechada.  Só os índios conseguiam passar por ali, e nem sempre. As mulas, carregadas de mercadorias, escorregavam, caíam, despencavam em abismos.

O que faz Lorena? Junta recursos disponíveis nos cofres da Corte e dos comerciantes e começa o que mais tarde se chamaria a Calçada do Lorena. Teve êxito? O mineralogista inglês John Mawe (1764-1829), que, em 1807, fez uma viagem de Santos a São Paulo,  resumiu assim o seu entusiasmo: “Poucas obras públicas, mesmo na Europa, lhe são superiores, e se considerarmos que a região por onde passa é quase desabitada, encarecendo, portanto, muito mais o trabalho, não encontraremos nenhuma, em país algum, tão perfeita”.

Não foi só essa, claro, a contribuição de Lorena para o desenvolvimento da capitania. Mais tarde, a lei do porto único seria outro fator importante. E o mais jovem capitão-general a governar São Paulo teve de empregar toda a sua habilidade política para contornar os problemas que poderiam ameaçar o êxito de seu plano de governo.

Um deles, o conflito entre os interesses econômicos de comerciantes de São Paulo e do Rio de Janeiro. Outro, as disputas políticas envolvendo inclusive o clero sobre, por exemplo, o lugar que essa ou aquela autoridade podia ocupar nas procissões. Isso hoje nos diverte um pouco, mas era uma questão importante para a sociedade da época.

Por trás disso, outro problema, uma velha conhecida nossa, a corrupção e o consequente enriquecimento ilícito punham em risco o bom desempenho administrativo do governo. Se você mergulhar nessa história, vai encontrar os antepassados de gente que ainda hoje conhecemos bem: políticos desonestos, bajuladores, espertalhões, corruptos.

Por tudo isso, O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 é uma bela contribuição de Adelto Gonçalves para a historiografia brasileira. Digo isso sem receio de estar caindo em exagero ou no “afã louvaminheiro” dos partidários de Lorena.  Essa afirmação tem o apoio de dois pesos-pesados dos estudos históricos, Carlos Guilherme Mota, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), e o britânico Kenneth Maxwell, professor aposentado da Universidade Harvard/EUA. - Waldecy Tenório - Brasil

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O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Kenneth Maxwell, apresentação de Carlos Guilherme Mota e fotos de Luiz Nascimento. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 408 páginas, R$ 70,00, 2019. Site: www.imprensaoficial.com.br

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Waldecy Tenório é doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de O amor do herege: resposta às ‘Confissões de Santo Agostinho’ (Editora Paulinas, 1986), A bailarina andaluza: a explosão do sagrado na poesia de João Cabral (Ateliê Editorial, 1996),  João Alexandre Barbosa: o leitor insone (Edusp, 2007), organizador em coautoria com Plínio Martins Filho, e Escritores, gatos e Teologia (Ateliê Editorial, 2014). E-mail: waldecytenorio@uol.com.br

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