Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 20 de junho de 2025

Portugal - Evaristo.ai, o primeiro ‘chatbot’ para língua portuguesa baseado em inteligência artificial aberta

Evaristo é o seu nome e é o primeiro ‘chatbot’ para a língua portuguesa baseado em inteligência artificial (IA) aberta, que dá uma receita de mousse de chocolate mas falha na resposta a perguntas factuais.


Inspirado na personagem do cinema português interpretada por António Silva em “O Pátio das Cantigas”, o ‘Evaristo.ai’ foi concebido pelo NLX – Grupo de Fala e Linguagem Natural da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e pela empresa subsidiária OUSAR.AI e agrega seis modelos de linguagem de IA generativa de acesso aberto, incluindo o português Gervásio PT, desenvolvido pela mesma equipa.

Numa conversação, o utilizador pode optar pelo Gervásio, mas também pelos modelos LLama (EUA), Qwen e DeepSeek (China), Mistral Small (França) e Sabiá (Brasil).

Através do Evaristo.ai pode-se obter, por exemplo, uma receita de culinária, um itinerário para uma visita a Portugal ou a letra para um fado.

Contudo, a perguntas, por exemplo, sobre quem é Donald Trump ou quando foram as últimas eleições em Portugal, a resposta dada é que Trump foi Presidente dos Estados Unidos e que as últimas eleições em Portugal foram em 2022 ou em 2024, consoante os modelos de IA usados.

A plataforma avisa, para cada modelo, que “o resultado gerado pode não ser correto, exato, perfeito e/ou adequado”.

Em declarações à Lusa, o coordenador da equipa do Evaristo.ai e professor no Departamento de Informática da FCUL, António Branco, adiantou que os modelos de linguagem são treinados com dados e esse treino teve um limite temporal, que em alguns modelos foi 2022, 2023 ou 2024.

Justificando as vantagens deste ‘chatbot’, que, por definição, é um programa concebido para simular uma conversa com humanos, interagindo e respondendo a perguntas, geralmente através de recurso a inteligência artificial, sendo utilizado sobretudo em ambiente ‘online’, a FCUL refere, em comunicado, que o Evaristo.ai usa modelos de IA que “são amplamente abertos, em termos de código, de licença e de distribuição” e “não rastreia os seus utilizadores nem passa os conteúdos destes a entidades terceiras, salvaguardando a privacidade dos utilizadores e a propriedade dos seus conteúdos”.

“Não se baseia na intermediação, revenda ou adaptação de ‘chatbots’ terceiros ou de serviços de IA generativa de empresas ou organizações terceiras, nem explora comercialmente os dados dos utilizadores”, assegura a FCUL, assinalando que o Evaristo.ai “é o primeiro ‘chatbot’ para a língua portuguesa baseado em IA aberta” e “multimodelo”. In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”


sábado, 23 de novembro de 2024

Portugal - Investigadoras do Centro de Biologia Molecular e Ambiental e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa distinguidas com o prémio Basinnov Innovation Award 2024

Ana Preto e Andreia Valente receberam o “Basinnov Innovation Award 2024” e vão agora avançar para ensaios pré-clínicos

 

Um composto criado em Portugal é o primeiro descrito a bloquear as três principais mutações do gene mais frequente no cancro colorretal e pancreático. Este resultado foi mostrado em células do laboratório e em ratinhos e, se os ensaios pré-clínicos e clínicos correrem bem nos próximos anos, o fármaco poderá ser decisivo nesses e noutros cancros com aquelas mutações, como do pulmão, ovário e útero.

O projeto chama-se “TaMuK:Targeting Mutated KRAS”, está patenteado e deu os primeiros passos há cerca de dez anos, pelo grupo da investigadora Ana Preto, no Centro de Biologia Molecular e Ambiental (CBMA) da Escola de Ciências da Universidade do Minho (ECUM), e pelo grupo da investigadora Andreia Valente, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), a par de Helena Garcia e Paulo Costa (FCUL) e de Cristina Fillat, do Instituto de Investigações Biomédicas August Pi i Sunyer (Barcelona).

Esta equipa acaba de vencer a primeira edição do “Basinnov Innovation Award 2024”, tendo direito a 20 mil euros para aplicar em ensaios pré-clínicos e a serviços de mentoria da rede europeia de inovação em saúde EIT Health InnoStars. O prémio foi atribuído num evento satélite da Web Summit, em Lisboa, pela biotecnológica Basinnov Life Sciences, pelo Gulbenkian Institute for Molecular Medicine e pela EIT Health InnoStars. A iniciativa visa distinguir uma inovação na oncologia e imunoterapia com grande relevo científico, terapêutico e de potencial aplicação na farmacêutica. 

O novo composto designa-se PMC79, é baseado no metal ruténio e atua como uma espécie de “bala mágica” em mutações do gene KRAS, ligado ao desenvolvimento de vários cancros, como o colorretal e do pâncreas. “O nosso composto é o primeiro capaz de inibir especificamente três das mutações mais frequentes do KRAS (G12D, G12V e G13D), sendo o único a inibir a G12V, sem afetar a proteína normal, tanto in vitro em células de cancro no laboratório como in vivo em modelos de ratinhos com cancro”, explicam Ana Preto e Andreia Valente.

“Este prémio é um exemplo de que a investigação básica é indispensável e impactante para o desenvolvimento de novos fármacos e sua possível aplicação clínica”, acrescentam as investigadoras. Nas últimas décadas foram feitos vários estudos para se atuar no gene KRAS, então considerado “invencível” ou “não tratável”. Recentemente, surgiram no mercado alguns inibidores, mas de eficácia limitada nos cancros colorretal e do pâncreas, no qual o PMC79 parece promissor. Universidade do Minho - Portugal


segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Internacional - Nova função de proteína do cérebro atrasa causas de demências neurodegenerativas


Uma equipa internacional liderada pelo cientista Cláudio M. Gomes, professor do Departamento de Química e Bioquímica na Ciências ULisboa e coordenador do laboratório Protein Misfolding and Amyloids in Biomedicine (PMAB), afiliado ao Instituto de Biossistemas e Ciências Integrativas (BioISI), descobriu uma nova função para uma proteína do cérebro, que atrasa a formação de depósitos proteicos causadores de demências como a doença de Alzheimer.

A descoberta, publicada esta segunda-feira na revista científica Nature Communications, e anunciada pela Faculdade em comunicado de imprensa, revela que a proteína S100B atua sobre a proteína Tau, cuja deposição tóxica no cérebro está associada a várias demências e à fase de agravamento da doença de Alzheimer.

“A proteína Tau atua na estabilização dos microtúbulos, as estruturas que mantêm a arquitetura dos neurónios. Contudo, através de uma reação de autoassociação [agregação] anormal, esta proteína adota facilmente uma forma aberrante que leva à sua acumulação nos tecidos. É o que sucede na doença de Alzheimer, em que alterações bioquímicas promovem a libertação da proteína Tau dos microtúbulos, o que desencadeia a sua agregação”, elucida Cláudio M. Gomes, coordenador do estudo. “Estes depósitos de proteína Tau são tóxicos e matam os neurónios, sendo também libertados para o exterior das células, disseminando a patologia às células vizinhas”, explica ainda o cientista.

Na sequência de um estudo anterior desta equipa, sabia-se que a proteína S100B desempenha no cérebro algumas funções protetoras, e que os seus níveis aumentam com o envelhecimento, um conhecido fator de risco para demências. A descoberta agora publicada mostra que a proteína S100B interage com a proteína Tau nos microtúbulos, dentro das células e que mesmo quando perturbados os microtúbulos com libertação da forma tóxica da proteína Tau, essa interação persiste. Esta observação levou a equipa a estudar como interagem as duas proteínas, e a determinar as respetivas consequências biológicas.


“Investigamos a formação de agregados da proteína Tau ao longo do tempo, e observamos que a mesma é atrasada na presença da proteína S100B”, conta Guilherme Moreira, estudante de doutoramento em Bioquímica na Ciências ULisboa, orientado por Cláudio M. Gomes, e primeiro autor do estudo. “Claramente havia um efeito inibitório resultante da associação entre as duas proteínas, que descobrimos ser muito dinâmica e ocorrer sobretudo entre a região da proteína Tau responsável pela agregação e uma concavidade na proteína S100B, que sabíamos ter um papel regulatório nestes processos”, explica o jovem investigador, que concluiu a licenciatura e o mestrado em Bioquímica nesta faculdade. O estudo também revelou que a proteína S100B evita que formas tóxicas da proteína Tau libertadas para o exterior das células corrompam as células vizinhas. Para Cláudio M. Gomes, “este aspeto é muito relevante dado que a proteína S100B é também excretada pelos astrócitos [tipo de célula do sistema nervoso central], pelo que esta descoberta revela uma ampla atividade protetora desta proteína, que atua dentro e fora das células”.

Segundo os investigadores, este resultado é muito relevante no contexto da doença de Alzheimer, dado que o aparecimento de sintomas cognitivos e demência estão associados aos danos causados pelos agregados da proteína Tau, e à disseminação da patologia para múltiplas regiões do cérebro. “Este estudo desvenda um novo mecanismo biológico de proteção, relevante nas fases iniciais da doença, que se torna ineficiente ao longo do tempo com o crescente acumular de agregados tóxicos no cérebro”, conclui o coordenador desta investigação.

As demências neurodegenerativas associadas à formação de agregados da proteína Tau, como a doença de Alzheimer, afetam milhões de pessoas em todo o mundo. A expectativa resultante deste trabalho de investigação fundamental é de que a compreensão do funcionamento de moléculas protetoras como a S100B possa inspirar o desenvolvimento de fármacos, com potencial terapêutico, que possam atuar de forma semelhante.

Esta investigação foi desenvolvida em colaboração com investigadores da Universidade de Lille (França), I3S - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (Portugal), Universidade de Hohenheim (Alemanha) e da University of Texas Medical Branch (EUA). Da parte da Ciências Lisboa e do BioISI, para além de Guilherme Moreira e de Cláudio M. Gomes, também participaram no estudo a aluna de doutoramento em Bioquímica Joana Cristóvão; as investigadoras doutoradas Andrea Quezada, Filipa Santos e Ana Carapeto; e os professores Mário Rodrigues e Federico Herrera. Universidade de Lisboa – Portugal

 

Cláudio M. Gomes dedica esta obra à memória da sua amiga e mentora - a professora Maria de Sousa (1939–2020) - "por sempre nos fazer crer que podemos ver o não visto".