Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sábado, 4 de outubro de 2025

Moçambique – Chamada para Antologia Literária Mista

A Editora Vértice Literário anunciou a abertura de mais uma edição da Antologia Literária Mista, uma iniciativa que visa celebrar e eternizar a riqueza cultural, histórica e social da província de Tete.


De acordo com a organização, esta edição é dedicada exclusivamente a Tete e convida poetas, cronistas e contistas, naturais ou residentes na província, a participarem com textos inéditos que retratem a identidade da região.

O período de submissão decorre de 20 de setembro a 30 de outubro de 2025, sendo que cada autor poderá submeter apenas um texto, no género crónica, conto, prosa ou poema. A participação é gratuita.

“Esta é uma oportunidade única para que as vozes literárias da nossa província brilhem e sejam reconhecidas no cenário literário”, refere a nota de divulgação.

Os interessados poderão solicitar o regulamento através do contacto telefónico / WhatsApp (+258) 834 698 880 ou pelo email:

editoraverticeliterario@gmail.comIn “Moz Entretenimento” - Moçambique


quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Moçambique - Jessemusse Cacinda lança em livro viagem nas vivências de Nampula

O jornalista e filósofo Jessemusse Cacinda estreia-se na prosa narrativa com o livro Kwashala Blues, lançado na passada segunda-feira na Galeria do Porto de Maputo, com a apresentação do Prof. Doutor Lourenço do Rosário e da Profa. Doutora Stélia Muianga.


Conforme avança a nota de imprensa sobre a cerimónia de lançamento, Jessemusse Cacinda já era um cultor da crónica que roçava o território ficcional, agora publica o seu primeiro livro, no qual os géneros se misturam e encontram uma outra via da escrita num realismo mágico com fortes inspirações na oralidade e cultura popular. “Kwashala Blues”, editado pela Ethale Publishing, junta a crónica, o conto e o romance num só livro.

A professora e ensaísta brasileira da Universidade Federal da Paraíba, Vanessa Pinheiro, após ter lido, entendeu que “Kwashala Blues revela camadas interpretativas que o leitor descobre aos poucos, embevecido. O leitmotiv é a morte do pai do protagonista, que desencadeia memórias afectivas narradas em curtos relatos. Estes relatos são sintetizados por Cacinda pela metáfora musical do ritmo popular moçambicano kwashala que, assim como a vida mimetizada na trama, tem oscilações e nuances.”

Já a prefaciadora do livro analisa que Kwashala Blues convida o leitor para uma viagem, desde Maputo até a Nampula, por sinal, onde nasce e cresce o autor da obra. E, a partir daí, indica, “se a capital moçambicana acaba sendo um contraponto vibrante de Nampula, essa cidade assume contornos mais definidos à medida em que viajamos pela vida dos seus habitantes, entre Muahivire e Namicopo. As marcas da ocupação colonial no Índico ainda assombram os dias tranquilos de um professor, dos estudantes e, também, a vida do jovem em luto pela morte do pai. Em Iapala, a história familiar entrecruza-se com a do caminho dos sacos de sal e açúcar em trânsito para o Malawi, tanto ouvido nas histórias dos mais velhos.” O prefácio é assinado por Noemi Alfieri, professora da Universidade Bayreuth da Alemanha.

Jessemusse Cacinda nasceu em Nampula, Moçambique. É fundador da editora Ethale Publishing, vocacionada na promoção da literatura e do pensamento africano.

Foi jornalista na Rádio Moçambique, onde venceu o prémio “Qualidade” nas categorias, “Melhor Crónica” (2012) e “Melhor Reportagem Temática” (2013) e Co-Director do Festival Fim do Caminho (Nampula, Moçambique).

Coordenou as antologias “O Hamburguer que matou Jorge” (Ethale Publishing, 2017) e “Nampula: Antologia de his-es-tórias de uma cidade vibrante” (Ethale Publishing, 2022). Participou na antologia “Contos e crónicas para ler em casa II” (Literatas, 2020). Publicou o livro de entrevistas “Pensar Africa” (Ethale Publishing/Literatas, 2021). Participou como autor de capítulos nos livros “Desafios da Comunicação no sec XXI” (Década de Palavras, 2018), “Moçambique Neoliberal” (Ethale Publishing/Editora Educar, 2019), “Do Quarto ao Quinto Homem” (Ethale Publishing, 2021) e “Caderno de Música Moçambicana” (Kuphaya, 2023), e coordenou o livro “Moçambique: Emergência, Reconstrução e Resiliência” (Ethale Publishing/AMEA, 2022). Tem textos publicados nas revistas Índico e Literatas, e na Doeck Literary Magazine. Trabalha como redactor de radionovelas, documentários, reportagens, relatórios e manuais.

Estudou Filosofia, Jornalismo, Sociologia do Desenvolvimento e Gestão de Projectos. In “O País” - Moçambique



domingo, 3 de setembro de 2023

São Tomé e Príncipe - Crónica de uma Comunidade errante!

Baixou o pano sobre a última Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP, que, em São Tomé, serviu de mote para a passagem da presidência da organização, de Angola para São Tomé e Príncipe.

Tudo aparentemente normal, quiçá, como expectante. Porém, considerando os fenómenos antecedentes à referida reunião, não é demais questionar a verdadeira importância (se é que há alguma) da CPLP para as aspirações dos comuns cidadãos dos países que compõem a Comunidade. Quiseram as regras da rotatividade que a última Conferência de Chefes de Estado e de Governo ocorresse em São Tomé, capital da República de São Tomé e Príncipe.

A Conferência foi preparada num clima de indisfarçável desalento decorrente do trágico incidente do dia 25 de Novembro de 2022, que custou a vida de cidadãos civis, barbaramente espancados e mortos por militares, militares estes que foram protegidos a todo o custo pelo Governo local e a seguir promovidos para funções de relevo superior (nas palavras de Domingos Simões Pereira, Presidente da Assembleia Nacional Popular da Guiné Bissau, não é novidade para ninguém que esse incidente causou desconforto a todos – eu diria que não é mero desconforto).

Nas vésperas da Conferência o Ministro dos Negócios Estrangeiros santomense foi obrigado a demitir-se do cargo, por ter sido inconveniente nas declarações a propósito do esforço (ou falta dele) de alguns Estados da CPLP na promoção do português na Guiné Equatorial (olvidou o Ministro que quem vive de mãos estendidas está diminuído na sua dignidade e no direito de, livremente, verbalizar o que pensa. Custou-lhe o cargo).

Ainda mais próximo da data da reunião dos Chefes de Estado e de Governo, o executivo local, através do altar do “venerando” conselho de ministros, decidiu ordenar, pelo período de 15 dias, a proibição de quaisquer manifestações com carácter reivindicativo ou protestatório (o Presidente da República local prontamente apareceu a chancelar esta pérola do executivo, quiçá temendo raspanete semelhante a que, diz-se a boca pequena, levou, quando publicamente afirmou que não participara da cerimónia de entronização do Rei Carlos III porque o país não havia recebido qualquer convite, sugerindo, assim, que a presença do seu Primeiro Ministro naquela cerimónia só podia justificar-se numa categoria de “pato”).

Este o quadro reinante no país que acolheu a Cimeira da CPLP, de cara “lavada” (diz-se, com dinheiro de Angola!). Ora, dizem os Estatutos da CPLP que, entre outros princípios, a Comunidade rege-se pelo princípio do Primado da Paz, da Democracia, do Estado de Direito, dos Direitos Humanos e da Justiça Social (al. e) do n.º 1 do art. 5.º).

Deixo para os especialistas (que hoje são aos montes) a dissertação sobre se o quadro atrás destacado está no alinhamento com, pelo menos, esse princípio dos Estatutos da CPLP. O que acho que qualquer normal cidadão da Comunidade esperava era alguma manifestação, ainda que abstrata, em relação à situação reinante no país anfitrião. Dito de outra forma, face à ostensiva violação do elementar direito à manifestação (fora de um cenário de estado de sítio), do direito à vida (execuções perpetradas por militares das Foras Armadas), do direito a um processo justo, etc., não seria de esperar que a Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP transmitisse algum sinal que acalentasse os anseios que tantos santomenses, e não só (veja-se os pronunciamentos da Dra. Ana Gomes, Portugal, e Dr. Domingos Simões Pereira, Guiné Bissau, apenas para citar alguns) têm vindo a suscitar?

A questão mais preocupante é a de saber quem, com responsabilidades na CPLP, poderia liderar uma tal manifestação em relação àquilo que se passa em São Tomé e Príncipe, e que não se pode tomar por perfeitamente normal. Dos países, declaradamente mais influentes (nestas coisas o dinheiro conta primeiro), Angola e Moçambique, certamente por razões internas (só pode exigir aos outros quem é inquestionável nos exemplos), não assumiriam tal desiderato. A Guiné Equatorial, apesar do petróleo, em relação à CPLP continua a ser um mero pendulo à busca do melhor lugar para se agarrar (realce-se a ovação da Conferência por, finalmente, aquele país abolir a pena de morte!).

O Brasil, apesar do esforço do Presidente Lula da Silva (que vai enviando farpas por onde passa – não se pode esquecer o seu posicionamento em relação ao conflito Rússia-Ucrânia, ou do episódio em que, em Luanda, sugeriu que os jornalistas angolanos são domesticados pelo “chefe”!), não parece estar, por ora, tão por dentro dos assuntos domésticos santomenses como os outros Estados-membros.

Restaria Portugal, no seu papel paternal (que vai usando com mais ou menos acutilância em razão do que realmente interessa em cada momento). Porém, em relação ao primeiro-ministro português, António Costa tem assuntos internos mais sérios, pelo que não arriscaria mais uma exposição. No que se refere ao Presidente Marcelo, de um político de enorme empatia, transformou-se num fofinho, essencialmente neste seu último mandato, pelo que já muito pouca gente o leva a sério (perguntem a António Costa).

De forma que as questões antecedentes à Cimeira, relacionadas com o país anfitrião, passaram completamente ao lado de tudo e de todos. Dos 64 pontos da Declaração de São Tomé – 14.ª Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP (novas e meras declarações de intenção), não há uma só que, ainda que de forma tímida, sugira que algo de anormal se passa naquelas Ilhas do Equador.

Neste particular a Conferência serviu também, quiçá, para branquear a situação, dando ao executivo local maior margem para cometer ou negligenciar o cometimento de atrocidades contra aqueles que se manifestem (por qualquer forma) contra os actos governativos. Dir-me-ão: em encontros bilaterais foram abordados outros temas, e, quiçá, a situação das Ilhas.

Mas, convenhamos, isto, ainda que tenha acontecido, é muito poucochinho, pois as pessoas da Comunidade têm o direito de saber o que pensam os Chefes de Estado e de Governo da CPLP sobre as questões concretas dos países membros, como são as acima enunciadas.

A Conferência, envolta nesta aparente normalidade, transformou-se numa simples feira das vaidades, sem qualquer resultado palpável, pelo menos para os cidadãos, alegados destinatários da Comunidade. Terminou como começou, com declarações inócuas, por desprovidas de significado prático, beijinhos e abraços, até à feira seguinte. Mais uma demonstração de que a CPLP continua no seu caminho errático, sendo uma simples organização internacional, de políticos para políticos, com escassa ou nenhuma real preocupação com as pessoas (de carne e osso) que compõem a referida Comunidade.

É exactamente por isso que os cidadãos continuam a não se reverem na CPLP, tendo cada vez menos razão para nela se reverem. A qualquer cidadão é legítimo questionar: para que serve a CPLP?  Victor Ceita – São Tomé e Príncipe in “Téla Nón”

Observação: qualquer verdade que possa emergir desta crónica é “mera” e “pura” coincidência.

 

quarta-feira, 19 de julho de 2023

Moçambique – Luís Nhachote lança “Cartas ao presidente Chissano” como acto de cidadania

Luís Nhachote lançou, esta terça-feira, no Sindicato Nacional de Jornalistas, na Cidade de Maputo, Phambeni – cartas ao presidente Chissano. O livro de crónicas tem o prefácio assinado pelo antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, e foi apresentado por Ungulani ba ka Khosa.

Foto: José dos Remédios

No espaço reservado à nota do autor do seu livro, Luís Nhachote afirma o seguinte: “Decidi, vinte anos depois, ir aos arquivos do mediaFax buscar as 40 crónicas que escrevi ao então Presidente da República, Joaquim Chissano, e que dão corpo a este pequeno livro, com a intenção de preservar a ‘memória histórica’ da nossa democracia embrionária. Fi-lo com a intenção de não deixar, no esgoto da memória, que a cidadania activa pode – e deve continuar – a ser exercida dentro dos limites da decência e urbanidade”.

Durante 40 semanas, Luís Nhachote escreveu 40 crónicas ao Presidente da República, Joaquim Chissano. Ao publicá-las em livro, esta terça-feira, na Cidade de Maputo, uma vez mais, o jornalista percebeu que o seu exercício foi um acto de cidadania, dito e argumentado pelo apresentador do livro Ungulani ba ka Khosa: “Foi uma alegria, para mim, apresentar o livro de Nhachote, porque representa, quer para a classe jornalística, quer para a classe dos escritores e toda a classe intelectual, um exercício de cidadania que, há 20 ou 30 anos, já se vinha exercendo”.

Segundo Ungulani ba ka Khosa, numa altura em que se verificam pressões de alguns poderes sobre os cidadãos, o livro de Luís Nhachote demonstra, de uma vez por todas, que o exercício da cidadania tem de estar presente em todos os moçambicanos.

Concordando com o apresentador do seu livro, Luís Nhachote, primeiro, confessou que Ungulani ba ka Khosa fez uma análise do seu projecto muito além do que antes tinha imaginado. De seguida, assumiu que, de facto, Phambeni – cartas ao presidente Chissano, “É um dos principais exercícios de cidadania que eu tive como moçambicano jovem que até teve o privilégio de votar em todas as eleições realizadas em Moçambique”.

Apesar desse necessário exercício de cidadania, Luís Nhachote lembrou, no Sindicato Nacional de Jornalistas, que as suas crónicas foram vistas, pelos mais velhos do seu tempo, colegas alguns, como um acto de ousadia. Firme nos seus processos, com efeito, o então jovem jornalista continuou a trilhar veredas consciente de que, o que quer que escrevesse, a cordialidade deveria sempre manter-se como um factor presente nas crónicas. “Eu escrevi as minhas cartas com muito respeito à figura do então Estadista e não tive nenhum problema até ao fim do seu consulado, tanto que, no fim das cartas, eu me despedi e desejei-lhe boa sorte”.

20 anos depois, entretanto, quem se considera sortudo é o autor do livro, Luís Nhachote, porque, afinal, mereceu o prefácio de Joaquim Chissano. “Nem consigo descrever. Ter o prefácio do próprio visado das minhas cartas é uma bênção. Penso que o Presidente insuflou nos moçambicanos que é possível fazer coisas com base no respeito e nos princípios”.

Phambeni – cartas ao presidente Chissano é um livro constituído por 101 páginas e foi lançado em cerimónia no Sindicato Nacional de Jornalistas, na Cidade de Maputo, sob a chancela da Gala Edições. José dos Remédios – Moçambique in “O País”


segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Clauder Arcanjo: tributo à mulher nordestina

I

Mulheres fantásticas (Mossoró: Sarau das Letras Editora; Fortaleza: Edições Poetaria, 2019), reunião de dezoito pequenos contos, do cronista, romancista, crítico literário e contista Clauder Arcanjo (1963), que constitui um tributo ao realismo fantástico tão presente nas histórias do Nordeste brasileiro, na definição do próprio autor, tem como figura central a mulher e suas habilidades únicas, que tanto intrigam os homens, que, muitas vezes, buscam em vão explicações para o seu comportamento. Não foi para tentar encontrar essas respostas que o Clauder Arcanjo escreveu estes contos, mas, principalmente, para realçar estes mistérios.

Para tanto, tratou de imaginá-las como elementos da natureza, objetos e até animais, como galinha, sapo, abelha, mas sem cair no tratamento chulo das palavras, ou ainda forças naturais, como ventania, maré e nuvem, ou sentimentos, como saudade, mostrando com leveza e bom humor os dramas que ocorrem no relacionamento entre homens e mulheres. Na visão do autor, os homens se mostram frágeis e incapazes de compreender a sensibilidade delas.

As histórias – ou causos, no linguajar popular nordestino – se dão num vilarejo, Licânia, que seria encravado no sertão do Ceará e que aqui funciona como a Yoknapatawpha, de William Faulkner (1897-1962), a Macondo, de Gabriel García Márquez (1927-2014) e a Santa Maria, de Juan Carlos Onetti (1909-1994), cidades fictícias que atuam como núcleo vital de assuntos literários ou ainda entidades míticas. Licânia, aliás, é o título do primeiro livro de Clauder Arcanjo, publicado em 2007, que reúne contos que já trazem essa ideia de reunir num local mítico histórias e personagens que se movimentam num mundo picaresco, habilidade que o autor haveria de sedimentar em Cambono (2016), romance em que presta homenagem a esse gênero tão ibérico.

No prefácio, Dimas Macedo, professor, jurista e membro da Academia Cearense de Letras, observa que Mulheres fantásticas “pode ser lido como uma reunião de crônicas e memórias, quanto fragmentos daquilo que se pode fazer com a magia das mulheres e com a áurea de suas fantasias”. E acrescenta que, para a Literatura, “as mulheres e seus arquétipos são fontes de inspiração que nunca se esgotam, especialmente quando concertadas por um escritor de talento, como é o caso do autor deste livro”.

 

                                                               II

No texto de apresentação, a poeta Kalliane Amorim ressalta a adesão de Clauder Arcanjo ao realismo fantástico, gênero que despontou na América Latina na década de 1940, mas encontrou o seu auge nas décadas de 1960 e 1970, e que, no Brasil, não alcançou o mesmo impacto, embora tenha influenciado escritores importantes como José J. Veiga (1915-1999), Moacyr Scliar (1937-2011) e, especialmente,  Murilo Rubião (1916-1991), cujos contos combinam uma visão realista do mundo com elementos mágicos que são inseridos em cenários cotidianos.

Diz Kalliane: “A incredulidade e o espanto do homem diante da mulher que se transforma em sapo, que acende uma cidade inteira, que é portal para as travessias da vida, ou diante do mais fantástico que é, nesses dias em que vivemos, estar diante de uma mulher que acolhe, escuta e alimenta, na certeza de que essa mulher pode ser qualquer uma de nós – eis a beleza do fantástico que emerge no trivial da vida, sob a pena de Clauder Arcanjo”.

O livro foi escrito em homenagem à professora potiguar Aíla Sampaio (1965-2017). Arcanjo pretendia fazer um livro em coautoria com ela, cada um escrevendo seus contos. Ele já havia escrito o primeiro e mostrado a ela, que já estava escrevendo o segundo conto, quando veio a falecer em novembro de 2017, de câncer. Por isso, o livro é dedicado a ela in memoriam.

 

                                                              III


Antonio Clauder Alves Arcanjo, ou apenas Clauder Arcanjo, nascido em Santana do Acaraú-CE, é graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Ceará, Ao lado do romancista e jurista David Medeiros Leite, é um dos fundadores da editora Sarau das Letras, de Mossoró-RN, que já lançou mais de 300 livros. Produz e apresenta na TV a cabo Telecom (Mossoró) o programa cultural Pedagogia da Gestão. É membro da Academia Mossoroense de Letras, da Academia Norte-rio-grandense de Letras e da Academia de Letras do Brasil. Mora em Mossoró desde 1986. Em 2017, recebeu o título de cidadão norte-rio-grandense, que lhe foi concedido pela Assembleia Legislativa.

Por alguns anos, foi cronista semanal do jornal Gazeta do Oeste, de Mossoró, e usou durante muito tempo o heterônimo Carlos Meireles (homenagem aos poetas Carlos Drummond e Cecília Meireles) para resenhar textos literários, colaborando em sites, revistas e jornais de várias partes do País. Atualmente coordena, no Jornal de Fato, o Espaço Martins de Vasconcelos e escreve para a versão online do jornal O Mossoroense e para revista cultural Kukukaya, entre outros veículos literários.

A reunião de contos, intitulada Licânia, contos, marca a sua estreia em livro em 2007. É autor também de Lápis nas veias (2009), minicontos, Novenário de espinhos (2011), poemas, Uma garça no asfalto (2014), crônicas Pílulas para o silêncio/Pildoras para el silencio (2014), aforismos, edição em português-espanhol, com tradução do poeta peruano Alfredo Pérez Alencart, professor da Universidade de Salamanca, Espanha, Cambono (2016), romance, Separação (2017), contos, O Fantasma de Licânia (2018), novela, A província em exílio (2019), discursos, e Sinos/Campanas (2 019), poemas, com tradução também de Alfredo Pérez Alencart. Entre seus trabalhos inéditos, o autor tem obras nos gêneros poesia, crônica, minicontos, romance e resenhas literárias.

Em 2003, recebeu menção honrosa no Concurso de Poesia Luís Carlos Guimarães, promovido pela Fundação José Augusto, de Natal. No ano seguinte, foi distinguido com nova menção honrosa, desta feita na categoria contos dos Prêmios Literários Cidade do Recife. Com Pílulas para o silêncio, ganhou o Prêmio Geir Campos, da União Brasileira dos Escritores, seção do Rio de Janeiro. Adelto Gonçalves - Brasil

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Mulheres fantásticas, de Clauder Arcanjo, com prefácio de Dimas Macedo e ilustrações de Raisa Christina. Mossoró-RN: Sarau das Letras Editora/Fortaleza: Edições Poetaria, 167 págs., R$ 40,00, 2019. E-mail: clauderarcanjo@gmail.com 

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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage, o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo-Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d’El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. (E-mail: marilizadelto@uol.com.br




quinta-feira, 27 de maio de 2021

Demarchi: textos escritos no calor da hora

                                                                    I

Siri na lata (Santos, Realejo Edições, 2015), livro premiado e selecionado em 2014 para publicação pelo Programa de Apoio Cultural da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Santos, reúne crônicas publicadas pelo poeta e crítico literário Ademir Demarchi, de 2008 a 2015, em revistas e jornais, principalmente no Diário do Norte do Paraná, de Maringá, além de resenhas e textos para orelhas e prefácios de outras obras e uma percuciente entrevista dada pelo autor à jornalista e pesquisadora Márcia Costa, publicada no Jornal da Orla, de Santos, em 17/11/2008.

O título, expressão muito popular na região litorânea que tenta refletir a situação de desespero em que fica um siri ou um caranguejo preso numa lata antes de ir para a panela, procura refletir a tensão de um trabalho que foi escrito no “calor da hora” diante da obrigatoriedade de produzir semanalmente um texto de cultura que prendesse a atenção do leitor de jornais diários. Como se sabe, este tipo de leitor – cada vez mais raro nestes tempos digitais – geralmente está mais preocupado com as coisas do dia a dia e com aquilo que pode prejudicar a sua vida, em função da parlapatice que tem marcado a ação dos homens públicos. São textos em que autor experimenta a crônica, a ficção, a prosa poética, a resenha e até faz comentários de fundo político.

Desses textos, surpreende a vasta cultura do autor e a elasticidade de suas preferências como leitor, pois não só percorre com facilidade as obras de autores clássicos mundiais como se demora em analisar obras de poetas, romancistas e contistas pouco difundidos ou de renome apenas regional, o que lhe dá a autoridade de ser um dos maiores conhecedores da produção literária praticada nas últimas três décadas no Brasil.

 

                                                                    II

Na primeira parte do livro, Siri nas nuvens, a mais lírica, surpreende aquela crônica em que o cronista reclama que, até então (o texto é de 2010), o Brasil não deixava Barbosa morrer em paz.  Moacir Barbosa Nascimento (1921-2000) foi aquele infeliz goleiro que, na Copa do Mundo de 1950, não segurou um chute do uruguaio Alcides Ghiggia (1926-2015) na final disputada no Maracanã. A seleção brasileira perdeu quando lhe bastava apenas um empate. E Barbosa morreu esquecido, como um mocho nas solidões, aos 79 anos, em 2000, e foi enterrado no cemitério da Grande Planície em Praia Grande, onde vivera os seus anos de ostracismo.

Mas, em 2010, por falta de pagamento, a administração do cemitério queria se livrar dos ossos do ex-goleiro porque pretendia aproveitar o seu túmulo para enterrar outras pessoas. Ou seja, desta crônica, pode-se concluir que um lance fortuito pode tanto consagrar como comprometer não só a vida de alguém para sempre como até o seu futuro pós-morte. “Pelo jeito tem gente lá (na Praia Grande), vivinha, que ainda não engoliu a Copa de 50”, lamenta o cronista, com ironia, na última linha de sua crônica.

Na segunda parte da obra, que dá título ao livro, o cronista trata de ir mais fundo ao analisar, na crônica “A idiocracia galopante que nos governa”, o cenário político brasileiro de há nove/dez anos, para antecipar com precisão a situação desesperadora em que vive o país real hoje, resultado de uma escolha desastrada por uma população facilmente manipulável por demagogos. E cita o filme Idiocracy, dirigido em 2006 por Mike Judge, em que aparece um presidente norte-americano, que é também “ator de filmes pornôs, truculento e burro, mas aplaudido pela massa de ignorantes que baba com admirada estupidez diante de gente assim que os representa, quer por se parecerem ou por estarem em anúncios na tevê”.

Na mesma crônica, lembra que, de 1970 para cá, dos “90 milhões em ação...para frente Brasil, salve a Seleção”, passamos para os 200 milhões de habitantes de hoje. “Ao longo desse tempo, temos assistido à ascensão social e econômica de uma infinidade de brasileiros que estavam na miséria (...)”, reconhece. E conclui: “Mas os índices não mentem: o país é formado por 7% de analfabetos absolutos e 68% de analfabetos funcionais (aqueles alfabetizados, no entanto, incapazes de ler um livro que não seja do Paulo Coelho, e olhe lá). Restam 25% da população, apenas, de alfabetizados, mas que praticamente não leem, não vivenciam a cultura complexa que o país acumula. Os que o fazem talvez sejam uns 5%...”.

Em outras palavras: o cronista parece querer dizer que nunca os idiotas mandaram tanto, confirmando uma previsão do cronista Nelson Rodrigues (1912-1980) segundo a qual eles “iriam tomar conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade, pois são muitos”.

 

                                                                   III

Na quinta parte do livro, Siri à caiçara, Demarchi reúne resenhas que escreveu para assinalar a publicação de obras escritas por autores santistas ou que estão ligados à Baixada Santista, como Marcelo Ariel, Alexandre Martins, Carlos Gama, Edson Amâncio, Gilberto Mendes (1922-2016), Luiz Cancello, Madô Martins, Flávio Viegas Amoreira, Manoel Herzog, Regina Alonso, José Macia, o Pepe, antigo ponta-esquerda do Santos FC, e Patrícia Galvão (1910-1962), a Pagu, que se tornou musa do movimento modernista, embora não tenha participado da Semana de Arte Moderna de 1922, além de dois textos que dedicou a romances deste resenhista.

Nas demais seções do livro, Siri na estante, Siri na tela, Siri no corpo e Siri no prato, o leitor ainda encontrará textos diversos dedicados a outras obras e filmes e, por fim, à atriz Maria Alice Vergueiro (1935-2020), que, aos 80 anos, ainda excursionava com uma nova peça de teatro em que dirigia e protagonizava uma velha senhora, “numa metáfora de si mesma que, à espera da morte, morre e a peça se transforma em seu velório”. Por aqui, pela qualidade do texto e pela sutileza das observações do autor, vê-se que o leitor, por certo, só terá a acrescentar em sua cultura se vier a conhecer este livro.

 

                                                                  IV

Ademir Demarchi, nascido em Maringá, em 1960, mas estabelecido em Santos e São Vicente desde 1993, foi editor das revistas de poesia Babel – Revista de Poesia, Tradução e Crítica, de 2000 a 2017, e Babel Poética, de 2011 a 2013, que foi premiada em primeiro lugar entre 170 projetos no Programa Cultura e Pensamento de 2009/2010 do Ministério da Cultura. Edita o selo editorial de livros artesanais Sereia Ca(n)tadora, com 31 títulos publicados entre 2010 e 2018. 

É graduado em Letras na área de Francês pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e mestre em Literatura Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sob a orientação de Raul Antelo, um dos maiores especialistas acadêmicos na área da Antropofagia. É doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) na mesma área.

Publicou Os mortos na sala de jantar (Santos, Realejo Edições, 2007); Passeios na floresta (Porto Alegre, Éblis, 2007; Lima, Amotape Libros, 2013); Do sereno que enche o Ganges (São Paulo, Dulcineia Catadora, 2007: Lima, Centro Peruano de Estudios Culturales, 2012);  Ossos de sereia (Assunção, Paraguai, YiYi Jambo, 2010; Santos, Sereia (Ca(n)tadora, 2012; Lima, Viringo Cartonero, 2014); Pirão de sereia, que reúne sua obra poética de 30 anos (Santos, Realejo Edições, 2012); O amor é lindo (São Paulo, Editora Patuá, 2016); Gambiarra: uma pinguela para o futuro do pretérito (Bragança Paulista, Urutau, 2018); Espantalhos, ensaios (Florianópolis, Editora Nave, 2017) e Contra poéticas (Florianópolis, Nave Editora, 2020), entre outros.

Com numerosos poemas, artigos e ensaios publicados em livros e revistas e em sites da Internet, é colunista há 13 anos do jornal Diário do Norte do Paraná, de Maringá, e desde 2014 dos jornais impressos RelevO, de Curitiba, e O Duque, de Maringá. Organizou as antologias Passagens – antologia de poetas contemporâneos do Paraná (Curitiba, Imprensa Oficial do Estado do Paraná, 2002) e 101 poetas – antologia de experiências de escritas poéticas no Paraná do século XIX ao XX, 2 vols. (Curitiba, Biblioteca Pública do Paraná, 2014). Adelto Gonçalves – Brasil

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Siri na lata, de Ademir Demarchi. Santos, Realejo Edições, 395 págs., R$ 40,00, 2015. 

E-mail: ademirdemarchi@uol.com.br

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Adelto Gonçalves, jornalista, é mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp)/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

 

sexta-feira, 1 de maio de 2020

‘Ruminar’ ou o lirismo que vem do sertão

                                                           I
Quem está acostumado a ler a Bíblia sabe que, no Velho Testamento, em Números, capítulo 22, encontra-se a história em que um anjo aparece para advertir Balaão, filho de Beor, o Petor, senhor das campinas de Moabe, da banda do rio Jordão de Jericó, que, a pedido de Balaque, filho de Zipor, rei dos moabitas, pretendia barrar a passagem dos filhos de Israel, contrariando o que Deus lhe dissera em sonho. E que seguia Balaão em sentido contrário até que o anjo do Senhor fez com que a jumenta sobre a qual ele seguia montado se desviasse do caminho.

Então, Balaão espancou a jumenta para fazê-la tornar ao caminho. E, vendo que o animal não respondia, voltou a espancá-lo com o bordão mais duas vezes. Então, o Senhor abriu a boca da jumenta para questionar Balaão: Que te fiz eu, que me espancaste estas três vezes? Em seguida, a jumenta ainda diria a Balaão: Porventura não sou a tua jumenta, em que cavalgaste desde o tempo que eu fui tua até hoje? Costumei eu alguma vez fazer assim contigo? E ele respondeu: Não. Então o Senhor abriu os olhos de Balaão, e ele viu o anjo do Senhor, que estava no caminho (...).

Mas, a que vêm estas reminiscências? Vêm para lembrar que não é de hoje que os homens de imaginação colocam os animais a falar ou ao menos a manifestar sentimentos que seriam inerentes apenas aos seres humanos, geralmente de lealdade. É o que se pode ver também na novela Asno de ouro em que seu autor, Lucius Apuleio (125d.C-170d.C), filósofo romano nascido em Madaura, na atual Argélia, Norte da África, conta como o personagem Lúcio, na Grécia, ao tomar uma poção por engano na casa de uma mulher versada em artes mágicas é transformado em asno, mas sem que viesse a perder a sua inteligência. Raptado por um bando de salteadores, Lúcio passa por provações, trabalhando como burro de carga, até que volta à condição humana. Na forma de asno, porém, tem a oportunidade de ouvir relatos de homens e mulheres e testemunhar a precariedade da vida humana. Essas aventuras acabam por constituir uma fábula sobre o pecado e a expiação.

                                                          II
Não se sabe se foi a partir desses exemplos que o poeta potiguar David de Medeiros Leite (1966) imaginou o seu livro de poemas Ruminar (Rumiar), que saiu em edição bilíngue em 2015 pela editora Sarau das Letras, de Mossoró-RN, e Trilce Editores, de Salamanca, com tradução para o espanhol pelo poeta peruano Alfredo Pérez de Alencart (1962), radicado há muitos anos em Salamanca e professor universitário desde 1987. O Asno de ouro, aliás, é citado por Alencart no prefácio que escreveu para esta obra, para lembrar que igualmente David de Medeiros Leite faz com que animais também falem, adquirindo a forma humana. “Em Ruminar, primeiro quem fala é o gado; depois, o vaqueiro que cuida do rebanho”, observa Alencart.

De fato, o autor apresenta, de forma poética, a relação homem-animal no contexto do sertão nordestino, colocando num primeiro momento o que seria a visão do gado, com suas inquietações que vão desde a preocupação com suas crias, até o questionamento quanto a sua situação de servo ou escravo do ser humano. Em seguida, os poemas mostram a visão do vaqueiro, sua preocupação com as tarefas cotidianas e até mesmo seu apego a superstições comuns ao homem sertanejo. Tudo perpassado por um lirismo transparente e puro, com versos moldados em formas breves e livres.

Um bom exemplo da primeira parte é um dos três poemas que dão título à obra, “Ruminar III”: A gemedeira do carro de boi/ faz o homem,/ de beira da estrada,/ admirar nossa passagem./ O ruído também/ nos serve/ de contrapeso/ ao fardo arrastado./ Entre/ a faina e o ruminar/seguimos aviltando/  vergastadas/ – transferidas, talvez –/ dos que sustentam/ em confusas mãos/ capatázios látegos.

O que encanta nos poemas de David de Medeiros Leite é a maneira como o poeta extrai seiva lírica da matéria mais humilde, como se pode constatar nos versos de “Sujeitos (ruminam)”, peça escrita em memória do poeta popular, cantor e improvisador cearense Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), mais conhecido como Patativa do Assaré. Vale a pena reproduzi-lo por inteiro: Para confidência/ elegi a vaca Estrela./ Com ela, meu desabafo diário/ em regozijos e dissabores./ E como sou compreendido!/ O boi Fubá,/ com cara enfadada,/ fica com despeitos./ Dou de ombros! Também os escuto/ decodificando seus humores,/ desgostos e contemplares./ Sou capaz de decifrar/ o olhar bovino/ desde menino./ E isso aprendi com meu avô,/ que dizia:/ “Nem carece encará- los – eles não gostam –/ só precisa mirá-los/ de soslaio/ e verá/ a profundidade/ que  carregam/ nos silêncios/ e breves mugidos”.

                                                         III
Nascido em Mossoró-RN, David de Medeiros Leite, graduado em 1999 pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), mestre (2008) e doutor (2011) em Direito pela Universidade de Salamanca (USAL), na Espanha, é advogado, jurista e gestor com atuação em diversos cargos na administração pública e professor da UERN desde 2004, onde também desenvolve pesquisas, especialmente na área de Direito Público.

Foi pró-reitor de Gestão de Pessoas na UERN e é assessor jurídico da presidência do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte. Foi ainda diretor científico da Fundação de Apoio à Pesquisa no Estado do Rio Grande do Norte (Fapern). Em 2005, em parceria com o escritor Clauder Araújo, criou a editora Sarau das Letras. Além de livros de poemas, tem publicado biografias e livros de crônicas e de História com temas ligados ao Nordeste, em especial à cidade de Mossoró.

É autor de Companheiro Góis – dez anos de saudade, biografia (Coleção Mossoroense, 2001), Os carmelitas em Mossoró, em coautoria com Gildson Souza Bezerra e José Lima Dias Júnior (Coleção Mossoroense, 2002), Ombudsman mossoroense (Sebo Vermelho, 2003), Duarte Filho: exemplo de dignidade na vida e na política, biografia, em coautoria com Lupércio Luiz de, Azevedo (Sarau das Letras, 2005), Incerto caminhar (Sarau das Letras, 2009), Cartas de Salamanca (Sarau das Letras, 2011), Casa das lâmpadas (Sarau das Letras, 2013), Mossoró e Tibau em versos – antologia poética, em coautoria com Edilson Segundo (Sarau das Letras, 2014), Rio do fogo, em coautoria com Bruno Lacerda (2017); Mi Salamanca: guía de un poeta nordestino, com tradução e prólogo de Alfredo Pérez Alencart (2018), Aldemar Duarte Leite: centenário de nascimento, biografia (2018), e  História da Liga Operária de Mossoró, em coautoria com José Edílson Segundo e Olivá Leite da Silva Júnior (2018).

Na área de Direito, é autor ainda de Presupuesto participativo en municipios brasileños: aspectos jurídicos y administrativos (Editorial Académica Española, 2012) e Participação política e cidadania – Amicus Curiae, audiências públicas parlamentares e orçamento participativo, em coautoria com José Armando Pontes Dias Júnior e Aurélia Carta Queiroga da Silva (2018). Adelto Gonçalves – Brasil

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Ruminar (Rumiar), de David de Medeiros Leite, com tradução e prólogo de Alfredo Pérez Alencart. Mossoró-RN: Sarau de Letras Editora; Salamanca-Espanha: Trilce Ediciones, 80 páginas, 2015. E-mails: clauderarcanjo@gmail.com davidmleite@hotmail.com
  
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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Angola – Jornalista angolano lançou livro de crónicas em Lisboa

Jornalista angolano pretende conquistar leitores de outros países a começar por Portugal com o livro “Balumuka”, por essa razão, o jornalista e autor, Rúbio Praia, lançou na cidade de Lisboa (Portugal), o seu livro de crónicas, depois de o já ter apresentado em solo pátrio, há três anos



Trata-se de um livro de 164 páginas, com 31 crónicas publicadas no Jornal de Angola, programa “Kialumingo” da Rádio Luanda e no extinto Semanário Agora, em que aborda temas diversos da actualidade entre os quais o analfabetismo, proliferação de igrejas, fuga à paternidade, entre outros. Questionado o autor sobre o que o levou a apresentar o livro em terras de “Camões”, Rúbio Praia Justificou alegando que o principal motivo é de promover uma maior partilha dos seus escritos a partir de Portugal ao que se estenderá aos demais países do mundo.

“Estou a lançar o livro aqui em Portugal com o sentido de promover uma maior partilha deste livro de crónicas lançado em Luanda há três anos, sem descurar que há outras portas que se podem abrir aqui neste país lusófono e europeu”, apontou. Por outro lado, o autor tenciona continuar a promover o seu livro “Balumuka”, em Angola, fazendo uma digressão por várias províncias do país, sendo que ainda neste primeiro trimestre os leitores da cidade do Lubango (Huíla), poderão ter contacto com o livro de crónicas.

Para o escritor e dramaturgo, Mário Amorim Guerra, a quem coube o prefácio do livro, escreve entre vários pontos, que a aludida obra faz-lhe sentir um sabor a terra na boca, a kissangua, maruvo, Rangel, asfalto e música para dançar no Marítimo da Ilha. “Faz-me viajar até Tala-Hady (Cazenga), Terra Nova e Maianga. Um sabor a terra de que estamos todos a sentir falta”, registou o escritor que também considerou o texto pela sua estrutura e conteúdo. Entretanto, o livro provoca e desafia a novas ideias. Crónicas com títulos: “Quase Pesadelo”, “África não é um país”, “Aberto até de Madrugada”, “O amanhã ‘nasce’ de um aborto”, “Honra aos Heróis da Cultura”, “Roubaram-me o meu amigo Action Nigga”, “A maka dos nossos conteúdos”, entre outros, podem ser lidas no livro. De salientar, que o livro “Balumuka” de Rúbio Praia, foi apresentado na Casa de Angola em Portugal, no âmbito do Dia da Cultura Nacional assinalado no passado dia 08 de Janeiro, instituído em 1986, por ocasião do discurso do então Presidente da República, António Agostinho Neto durante a tomada de posse dos corpos gerentes da União do Escritores Angolanos, em 1979. Jorge Fernandes – Angola in “O País”


O autor

Rúbio Praia - nasceu no bairro dos Candeeiros, então município do Sambizanga, Luanda, a 05 de Julho de 1983. Jornalista, poeta e prosador publicou os seus primeiros textos no suplemento “Vida Cultural” do Jornal de Angola (2004), depois na Rádio Nacional de Angola e seguidamente na sua coluna no semanário Agora. Arrebatou o “Prémio Maboque Jornalista Revelação 2013”. Tem escrito para vários órgãos de informação nacionais: Jornal Cultura, Revista África Today, Semanário Sol e Revista Todos. Tem no prelo o livro de contos intitulado “Testemunhos Secretos”, e está em pesquisa para o seu primeiro romance, cujo título ainda não foi revelado. Presentemente trabalha no Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa do Banco Nacional de Angola.

sábado, 10 de agosto de 2013

Crónica

 
Acerca do cerco aos aposentados da Função Pública
 
Tenho ouvido e lido nos últimos dias apontamentos diversos, por vezes contraditórios, sobre o que se prepara para o cerco aos aposentados da Função Pública. E todos os dias surge um novo pormenor. É a prática usual: lançar primeiro o pânico e a confusão, e depois aliviar um pouco o garrote e deixar o aposentado mais aliviado (ainda podia ser pior...), contudo sempre “lixado”.
 
Ontem foram anunciadas nas TV’s as excepções à redução dos 10% (média aritmética? Abaixo dos 600 Euros nada e daí para cima será progressivo? Chegará aos 50%? Não se sabe. É preciso criar o pânico. Afinal só chegará no máximo aos 30%, ouviremos ainda dizer. Uf!, que alívio, podia ser pior...). Acima dos 95 anos não haverá penalização, Deo gratias!, diremos lá de cima.
 
Dizia-se ontem que segundo a proposta do governo a redução não se aplicará nem aos juízes (Tribunal Constitucional na linha de mira?) nem aos militares (pois, foram eles que fizeram o 25, não vá o diabo tecê-las).
 
Mas hoje já se incluiram também os aposentados da Caixa Geral de Depósitos, propriedade do Estado (que para o efeito dependerão do Banco Central Europeu onde as regras são outras, embora paredes meias com os homens da Troika que protagonizam a operação de “convergência” com as reformas da Segurança Social), e também os políticos, incluindo os deputados e os autarcas, com pensões vitalícias após escassos 12 anos de actividade. E o que mais estará para vir.
 
Diz o povo com razão, que “é quem mais ordena” como acreditavam os líricos, que “quem se lixa é o mexilhão”.
 
Há poucos dias ouvi e vi na televisão um senhor que participou e contribuiu para o famigerado memorando de entendimento, que não é um jovem inexperiente como os que povoam o actual governo e que até já foi Ministro das Finanças, afirmar, em resposta a uma pergunta da entrevistadora sobre se os contratos firmados com os funcionários públicos não deveriam ser respeitados à semelhança do que está a acontecer com os contratos com a banca, que na opinião de um seu amigo, um conceituado jurista, os contratos têm que ser respeitados como determina o direito internacional, enquanto as normas que regem o funcionalismo público não são contratos, mas consequência de simples legislação que pode ser alterada em qualquer momento.
 
Quando frequentei o Liceu, no tempo do “fascismo”, havia uma disciplina no 6º e 7º anos intitulada “Organização Política e Administrativa da Nação”. Já nessa altura lá se ensinava que um dos princípios básicos que devia presidir à feitura das leis era a sua “não rectroactividade”. Ainda hoje ouvi também um erudito comentador, dos muitos que povoam agora as nossas televisões, dizer que os princípios da confiança e da não rectroactividade das leis são a base, em regime democrático, de um qualquer Estado de Direito. Em que ficamos? Fico com dúvidas: Em que tipo de regime vivemos afinal?
 
Não vejo, por exemplo ninguém advogar, para a “convergência” das pensões (processo que parece inevitável), pormenores ignorados pelos proponentes, como seja ser tomado em consideração, por uma questão de justiça, o número de anos de serviço efectivo prestado ao Estado e respectivos descontos efectuados. É que 47 anos de serviço público, aos 70 de idade, quando o Estado obrigatoriamente “manda embora” um funcionário, não são exactamente a mesma coisa que 36 anos normais, ou menos do que isso nos numerosos  casos de aposentações antecipadas e no verdadeiro escândalo das pensões vitalícias de políticos e autarcas com uma dúzia de anos de serviço, ou de gestores de empresas públicas com pensões de largos milhares de Euros após alguns meses de passagem pelas instituições.
 
E já agora talvez fosse a altura indicada para ser reposto o Complemento Especial de Pensão (CEP), a pagar aos militares que deram anos da sua juventude na guerra do Ultramar, aquando da aposentação, legislado por um governo e alterado pelo governo seguinte, com efeitos rectroactivos como agora é prática corrente.
 
Em Fevereiro de 2002 foi publicada a Lei nº 9/2002, visando regular o regime jurídico dos períodos de prestação de serviço militar de ex-combatentes, para efeitos de aposentação ou reforma.
 
Requeri a contagem do tempo de serviço militar para efeitos de aposentação, como determinava a Lei, e quase três anos depois, em Dezembro de 2004, recebi uma carta assinada por dois ministros, o Ministro de Estado e da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar, Paulo Portas, agora Vice-Primeiro Ministro e o Ministro das Finanças e da Administração Pública, António Bagão Félix, em que, dirigindo-se ao «Caro Antigo Combatente», me explicavam:
 
«Este é o primeiro grande esforço do Estado para reconhecer os mais de 400 000 Antigos Combatentes que serviram a Pátria em condições especiais de dificuldade ou perigo», e me informavam ter sido «reconhecido, para efeitos de aposentação, o tempo de serviço militar prestado no Ultramar, incluindo o tempo de bonificação, que totaliza 3 anos e 6 meses.»
 
E mais:
 
«Saiba ainda que, quando se aposentar, tem direito a que lhe seja atribuído, todos os anos o Complemento Especial de Pensão, calculado de acordo com a contagem do tempo de bonificação do serviço militar prestado. Este complemento é transmissível integralmente ao cônjuge sobrevivo, pensionista de sobrevivência
(As palavras a cheio estão conforme o ofício)
 
O Complemento de Pensão seria uns escassos 12,50 Euros mensais, pagos de uma só vez no mês de Novembro de cada ano.
 
Aposentado que fui, nunca recebi daí nem um único cêntimo. Fui à CGA e deram-me um papel verde com muitas palavras, frente e verso, e explicaram-se que no meu caso não tinha afinal direito a nada.
 
Como diria a minha avozinha transmontana, se fosse viva, BERDAMBUM!
 
Sou ainda dos que acreditam que o povo acordará um dia da modorra em que o mergulharam.
 
Aguardo pacientemente a tomada de posição de cada um dos partidos sobre esta matéria para decidir se votarei em alguém nas próximas eleições autárquicas. Walter Marques – Portugal
 
Walter Anatole Marques - Assessor Principal da Função Pública (AP), Eng.º Electrotécnico (IST), Alf. Milº Infª em Moçambique - 1965 a 1967