Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 19 de junho de 2025

Portugal - Estudo avalia risco de exceder limites de segurança de metais tóxicos e iodo pelo consumo de macroalgas e halófitas

Um grupo de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), em colaboração com a Universidade de Aveiro, realizou, em Portugal, o levantamento dos níveis de metais tóxicos e iodo em macroalgas e plantas naturalmente adaptadas a biótopos salinos, conhecidas como halófitas.


Atualmente, as macroalgas e halófitas são reconhecidas como alimentos funcionais, representando uma fonte de nutrientes essenciais e compostos bioativos. O aumento do consumo destes produtos e o facto de serem ainda pouco estudados justificaram esta avaliação a nível nacional.

Os resultados mostram que o arsénio e o iodo são os dois elementos químicos que limitam o consumo, em segurança, de macroalgas, principalmente de macroalgas castanhas, que são as que as pessoas mais consomem. Por outro lado, as halófitas parecem ser uma boa alternativa se cultivadas em locais não contaminados.

Importa destacar que a Agência Internacional de Investigação do Cancro (IARC), da Organização Mundial da Saúde, classifica o arsénio como cancerígeno para o ser humano (Grupo I). A mesma organização reconhece, ainda, que a ingestão excessiva de iodo pode causar disfunção da glândula tiroide. O nível dos elementos químicos estudados está em curso em vários países europeus, em cumprimento de uma recomendação da Agência Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA), de 2018, que visa garantir a segurança alimentar e promover o desenvolvimento sustentável e responsável do setor.

«Este trabalho teve como principais objetivos determinar em que medida a ingestão de cádmio, chumbo, mercúrio, arsénio e iodo presentes em macroalgas e halófitas excede os limites de segurança conhecidos. Para além disso, foi avaliado o potencial das várias espécies e dos locais de amostragem estudados como possíveis promotores da economia azul e da agricultura marinha em Portugal, considerando que a acumulação dos elementos químicos está relacionada com a localização geográfica em que as várias espécies crescem», elucida Elsa Teresa Rodrigues, investigadora do Centro de Ecologia Funcional (CFE) e do Departamento de Ciências da Vida da FCTUC.

Nesta investigação concluiu-se, ainda, que as zonas estuarinas não são apropriadas para desenvolver agricultura marinha, enquanto a costa rochosa portuguesa apresenta condições seguras para esse fim.

De acordo com a equipa de investigadores, a implementação da agricultura marinha, em Portugal, deve ser feita apenas em zonas restritas da costa, com qualidade ambiental comprovada. Os produtos alimentares comercializados devem apresentar elevada qualidade, ser vendidos a preços justos e garantir benefícios económicos e ambientais, nomeadamente pelo aproveitamento dos subprodutos para o desenvolvimento de outro tipo de indústrias.

«É fundamental a Comissão Europeia estabelecer limites máximos para arsénio e iodo em macroalgas destinadas ao consumo humano e a sua monitorização rigorosa deve ser assegurada pelas autoridades nacionais competentes», consideram os especialistas.

«Faz-se, ainda, o apelo à população para limitar o consumo de macroalgas castanhas, devido ao seu elevado teor de arsénio e iodo, dada a possibilidade de haver efeitos adversos para a saúde», concluem.

O artigo científico “Risks of exceeding health-based guidance values for toxic metals and metalloids through seaweed and halophyte consumption” está disponível aqui. Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Portugal - Grávidas “falham” níveis mínimos de iodo

Estudo da FMUP alerta para carências em micronutriente essencial. Consumo de leite e de sal iodado e mais informação podem ser resposta para falhas na suplementação


As grávidas portuguesas apresentam carência ligeira a moderada de iodo, o que pode comprometer o desenvolvimento neurológico e cognitivo das crianças. A conclusão é de uma investigação realizada na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), no âmbito do projeto IoMum, com o objetivo de determinar os níveis de iodo durante a gravidez.

Ao todo, participaram neste estudo 481 grávidas, com uma média de idades de 32 anos, residentes na região do Grande Porto, durante um ano. Os níveis de iodo foram calculados a partir de análises realizadas à urina das participantes.

Os resultados indicam que a mediana de iodo era de apenas 104 μg/l, bastante abaixo dos 150 μg/L, o valor mínimo adequado durante a gravidez. Em 19% das grávidas, esses níveis ficavam mesmo abaixo dos 50 μg/l.

Publicado no Journal of Endocrinological Investigation, este estudo revela que 43% das grávidas não estavam a tomar um suplemento de iodo, o que aumenta o risco de carência. Além disso, entre as mulheres que tomavam este suplemento, quase metade começou após a sexta semana de gestação, contrariamente ao que é recomendado.

Desde 2013, a Direção-Geral da Saúde (DGS) recomendou a suplementação com iodo na preconceção (três meses antes de a mulher engravidar), durante a gravidez e a amamentação, sendo que a Organização Mundial de Saúde (OMS) aconselha uma ingestão diária de 250 μg.

A falta de suplementação constitui, por si só, um fator de risco para desenvolver carência neste micronutriente. Neste trabalho, a mediana de iodo era de apenas 74 μg/l nas mulheres que não tomavam suplemento. Já as grávidas que faziam suplementação de iodo apresentavam valores medianos de 146 μg/l. 

“A falta de adesão das grávidas à suplementação está claramente relacionada com a insuficiência de iodo. Não tomar um suplemento associa-se a um risco seis vezes maior de ter os níveis de iodo abaixo do que é adequado”, explicam Elisa Keating, investigadora da FMUP/CINTESIS e coordenadora do IoMum, e Cláudia Matta Coelho, doutoranda da FMUP e primeira autora do estudo.

Grávidas ignoram importância da ingestão de iodo

Estudos prévios deste mesmo grupo indicam que cerca de metade das mulheres grávidas não reconhecem a importância da ingestão de iodo para um normal desenvolvimento neurocognitivo dos seus bebés dentro do útero e, entre as mulheres que sabem que o iodo é essencial durante a gravidez, 32% não conseguem indicar qualquer alimento rico neste nutriente.

Não basta saber que o iodo é importante na gravidez. Mesmo as grávidas que reconhecem essa importância têm quantidades de iodo abaixo do aconselhado. “Saber que o iodo é importante durante a gravidez pode não ser suficiente. É urgente promover ações para assegurar que as mulheres portuguesas em idade fértil começam a sua gravidez com níveis apropriados de iodo”, advertem as investigadoras

Para a equipado IoMum, as conclusões destes estudos devem sustentar a implementação de medidas de Saúde Pública que incluam a promoção do consumo de leite, que também se associa a um aumento dos níveis de iodo, e o uso de sal iodado na alimentação durante a gravidez, sendo que todas estas medidas devem ser acompanhadas de monitorização ativa do estado de iodo nesta população vulnerável.

“Portugal continua sem programa de iodização do sal, embora mais de 100 países já tenham legislação nesta área. As preocupações sobre o sal relacionadas com as doenças cardiovasculares devem ser contrabalançadas com ações que levem a indústria a ajustar as concentrações de iodo no sal, bem como pela implementação de medidas de monitorização do estado de iodo na população. O laboratório associado RISE, recentemente criado, poderá dar resposta a esta necessidade de monitorização”, indicam Elisa Keating e Cláudia Matta Coelho.

A Itália aparece como um exemplo a seguir. Para compensar a necessidade de reduzir o sal na alimentação, este país aumentou o teor de iodo no sal (30 mg por quilo de sal).

O projeto IoMum conta com a participação de dezenas de investigadores de várias Instituições de Ensino Superior de Portugal e de outros países, assim como do Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto. Cláudia Azevedo / CINTESIS e Olga Magalhães / FMUP Universidade do Porto – Portugal