Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Europa - Universidade de Coimbra lidera projeto focado na saúde das abelhas melíferas e no apoio a uma apicultura sustentável

A Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) lidera uma das ações do Programa Intergovernamental de Cooperação Europeia em Ciência e Tecnologia (COST) - “BeSafeBeeHoney: Beekeeping Products Valorisation and Biomonitoring for the Safety of Bees and Honey”, centrada na saúde das abelhas melíferas e no apoio a uma apicultura sustentável. Esta ação terá a duração de quatro anos.


Sara Leston, investigadora do Centro de Ecologia Funcional (CFE) do Departamento de Ciências da Vida (DCV), é a representante científica e membro do Comité de Gestão nacional desta ação, que representa uma rede promissora de investigação interdisciplinar que junta diversos investigadores e empreendedores.

«Com uma abordagem claramente multidisciplinar, o projeto “BeSafeBeeHoney” reúne conhecimentos científicos em diversas áreas, para que a produção e transferência de evidências científicas inovadoras sejam capazes de defender a saúde das abelhas e apoiar uma apicultura sustentável num contexto de alterações climáticas», revela Sara Leston.

«A ação centra-se também na recuperação e valorização dos produtos derivados do mel das colmeias e na sua utilização para proporcionar novas oportunidades de mercado sustentáveis e económicas. Em conformidade com os princípios das ações do COST, o projeto irá ainda ao encontro da igualdade de género, da capacitação das mulheres e da inclusão, uma vez que mais de metade dos membros da equipa do projeto são mulheres, jovens investigadores e investigadores de diversos países com objetivos de inclusão», explica a representante do projeto.

Para além disso, a ação “BeSafeBeeHoney” pretende assegurar a realização da estratégia "Do prado ao prato", que deve garantir um sistema alimentar justo, saudável e respeitador do ambiente, e, simultaneamente, a subsistência dos agricultores. «A estratégia abrangerá toda a cadeia de abastecimento do mel e dos seus produtos, enquadrada na Estratégia de Biodiversidade, que visa proteger a natureza, inverter a degradação dos ecossistemas e travar a perda de abelhas; e na Estratégia de Economia Circular, que inclui todas as medidas que promovem processos circulares e garantem a redução de resíduos», conclui.

A “BeSafeBeeHoney” vai além das colaborações científicas tradicionais, reunindo investigadores e intervenientes não científicos e tem vindo a crescer desde a sua aprovação, contando já com 53 membros no Comité de Gestão e um total de 270 participantes de universidades, centros de Investigação e Desenvolvimento (I&D), organizações governamentais/ intergovernamentais, Organização Não Governamentais (ONGs) e Pequenas e Médias Empresas (PMEs), distribuídos por 41 países dentro e fora da União Europeia (UE).

Mais informações sobre esta ação estão disponíveis aqui. Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Internacional - Projeto da Universidade de Coimbra com financiamento para aumentar resiliência da apicultura

A Universidade de Coimbra (UC) integra projeto internacional que pretende aumentar a resiliência da apicultura a fatores de stress abióticos, como mudanças climáticas, perda de habitat e compostos químicos, nomeadamente pesticidas. José Paulo Sousa, investigador do Centro de Ecologia Funcional da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC (FCTUC), é o coordenador do projeto “Better-B” na UC, agora contemplado com cerca de 6 milhões de euros.


«As colónias de abelhas melíferas estão muitas vezes mal-adaptadas para lidar com estes fatores de stress, em grande parte devido às práticas modernas de apicultura», afirma o investigador, revelando que «a chave para uma apicultura resiliente é aproveitar o “poder da natureza” para restaurar a harmonia e o equilíbrio dentro das colónias e entre as colónias e o meio ambiente, ambos perturbados pelas atividades humanas».

De acordo com o José Paulo Sousa, a solução passa por «compreender os processos e mecanismos que se aplicam na natureza e adaptar as práticas apícolas modernas e a tomada de decisões em conformidade, e quando adequado, utilizando os benefícios das tecnologias avançadas». Assim, nos próximos quatro anos, os investigadores irão abordar diferentes tipos de fatores de stress através de monitorização, experimentação e modelação ecológica.

No âmbito do projeto “Better-B”, será realizada uma «avaliação da qualidade dos recursos florais em diferentes habitats e ainda as interações entre planta-polinizador, de forma a compreender melhor os fenómenos de competição entre as abelhas melíferas e espécies de polinizadores selvagens em situações de abundância e escassez de recursos, recorrendo a monitorização e experimentação», explica o também docente da FCTUC.

Segundo o consórcio, os dados recolhidos servirão para alimentar modelos para avaliar a “capacidade de carga” de diferentes tipos de habitats e, ainda, para desenvolver ferramentas de tomada de decisão sobre como melhorar a estrutura do habitat em termos de recursos alimentares e balancear a atividade apícola e conservação/aumento da biodiversidade de polinizadores.

A equipa do “Better-B” irá também avaliar o impacto da «complexidade da paisagem e da contaminação por pesticidas no desempenho das colónias», utilizando métodos de avaliação desenvolvidos e testados no âmbito do projeto “B-Good”, do qual a FCTUC faz parte e que tem como objetivo geral fornecer orientação aos apicultores e ajudá-los a tomar decisões melhores e mais informadas. «Serão avaliados os efeitos de determinados fatores abióticos na sensibilidade a pesticidas, realizando ensaios ecotoxicológicos com abelhas melíferas para avaliação de efeitos letais e sub-letais. A UC é a única instituição de ensino superior em Portugal a realizar este tipo de ensaios», ressalva o docente da FCTUC.

Neste projeto será igualmente avaliado o impacto da Vespa velutina nigrithorax, também conhecida como vespa asiática, nas colónias de abelhas. «Aqui, utilizaremos métodos de monitorização e será uma extensão de dois projetos da UC em parceria com as comunidades intermunicipais das regiões de Coimbra e Viseu-Dão-Lafões», conclui José Paulo Sousa.

O “Better-B” é um projeto financiado pela Horizonte Europa e junta 17 instituições de países como Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, Itália, Noruega, Países Baixos, Polónia, Portugal, Reino Unido, Roménia e Suécia. Universidade de Coimbra - Portugal





segunda-feira, 14 de março de 2022

Bolívia - A cidade como abrigo para as abelhas


Na Bolívia luta-se para que estes polinizadores possam prosperar, nas florestas, mas também em varandas, prédios, árvores urbanas e em casa de apicultores entusiastas.

Ver as suas abelhas sem ferrão stressadas a cada temporada mantém Regina Heredia, uma apicultora e produtora de mel orgânico, acordada à noite. À medida que as ondas de calor se tornam mais frequentes, as secas duram mais e o tempo de floração muda nas árvores, as abelhas sem ferrão ou “señoritas” (jovens em espanhol) estão com dificuldades para se adaptarem às alterações climáticas e outras mudanças ambientais causadas pelo Homem.

Existem mais de cem variedades de abelhas sem ferrão na Bolívia e são responsáveis pela polinização de mais de 70% das árvores do país. Os números indicam que mais de 80% das 250 mil plantas com flores dependem da polinização para continuar a sua reprodução sexual, da mesma forma que a vida de ecossistemas inteiros muitas vezes depende do seu desenvolvimento. Algumas abelhas sem ferrão são as únicas adaptadas para polinizar amendoeiras, castanheiros, entre outras colheitas. Não há outro agente de polinização que possa substituí-las.

Javier Coimbra, investigador e conservacionista, explica que as abelhas sem ferrão têm uma capacidade incrível de adaptação. Elas podem obter néctar e pólen de qualquer flor, ao contrário das suas primas europeias, Apis melleris, que preferem flores grandes com muito néctar. O mel de abelha sem ferrão da Bolívia é mais rico em minerais, tendo também outras propriedades medicinais.

Abelhas sem ferrão em risco

A Bolívia sofreu incêndios florestais extremos em 2019 e 2020. A seca impulsionada pelas alterações climáticas intensificou os incêndios e, nos últimos dois anos, mais de 5 milhões de hectares foram perdidos no país, 3,5 milhões deles em Santa Cruz. Até agora, as consequências para as abelhas ainda estão em estudo. “Existem dados preliminares sobre os mamíferos e a vegetação afetados, mas para as abelhas sem ferrão e outros polinizadores ainda não podemos dizer um número”, afirma Coimbra.

No entanto, as condições após os incêndios prenunciam um panorama negativo para essas valiosas espécies e para os seus ecossistemas: sem flores, as abelhas têm de voar para mais longe, as colónias são abandonadas e áreas maiores ficam para trás sem polinizadores, reduzindo as hipóteses de a floresta se regenerar. A expansão de quintas e pastagens e o aumento do uso de pesticidas estão a afetar as abelhas mais do que nunca.

Existem mais de cem variedades de abelhas sem ferrão na Bolívia. Estas são responsáveis pela polinização de mais de 70% das árvores do país.

“Quando os proprietários derrubam árvores para fazer mais quintas, atacam as colmeias e queimam-nas para limpar a terra e só recolhem o mel”, explica Regina. “Temos de mover as colmeias cada vez mais para longe, cada vez mais para dentro da floresta, ou não seremos capazes de controlar os efeitos desses elementos nas abelhas e no mel”.

Uma oportunidade na cidade grande

José Carlos Becker, apicultor entusiasta, está em ação. Para melhorar a situação, promove a instalação de colmeias sem ferrão e a produção de mel na cidade de Santa Cruz de la Sierra, uma das cidades com crescimento mais rápido da América do Sul. Um relatório do PNUD estabeleceu que o crescimento é de 6,5%, enquanto as outras cidades do país mantêm uma taxa de crescimento de 5%. O desenvolvimento vertiginoso da cidade está a tomar terras, derrubando árvores e transformando mais de 150 espécies que crescem na cidade em relvado, deixando as abelhas sem árvores ou vegetação.

“As pessoas consideram-nas primeiro como animais de estimação, mas, conforme interagem, apaixonam-se e têm mais consciência de como são valiosas e vulneráveis”, conclui. Com mais de 200 colónias instaladas em Santa Cruz, José sente que está a trazê-las de volta para onde pertencem. “As pessoas não imaginam como as abelhas são importantes. Com a nova utilização do solo aprovado pelo INRA [Instituto Nacional de Reformas Agropecuárias], os proprietários de terras preocupam-se em produzir monoculturas e plantar árvores. Esta pode ser uma oportunidade para ensinar e aumentar a consciencialização sobre as abelhas. Se virmos uma mangueira na cidade, sem as abelhas, esta árvore produzirá apenas um ou dois frutos. Isso é o quanto dependemos delas”, afirma.

A sua afirmação vai ao encontro do relatório da FAO de que sem polinizadores os frutos tendem a ser menores ou a produção será deficiente. Até agora, todas as colmeias continuam a viver e adaptar-se à vida na cidade, protegidas em varandas e jardins, ou escondidas entre tijolos, árvores e praças. São companheiras de quem cultiva uma horta comestível ou procura produzir mel para autoconsumo. José salva colmeias de árvores caídas e encontra-lhes um novo lar. O apicultor garante que as abelhas sem ferrão são resistentes, mas mudanças bruscas no clima, como chuvas fortes, afetam-nas.

O modelo climático PRECIS (Fornecimento de Climas Regionais para Estudos de Impactos) para a Bolívia indica que a precipitação vai intensificar-se e tornar-se mais frequente em dezembro, janeiro e fevereiro, projetando um aumento de 53% nas chuvas fortes até 2100. “[As abelhas] têm apenas dois a cinco mm de comprimento, então imagine uma chuva forte e repentina na cidade, pois ainda estão à procura de néctar: é impossível a estas abelhas voltarem para a colmeia, vão morrer lá”, explica Becker. Como José Becker, a esperança de Regina Heredia está nas pessoas.

A produtora acredita que a presença de abelhas sem ferrão em áreas urbanas é a melhor forma de aumentar a consciencialização sobre estes insetos importantes e as alterações climáticas, removendo o equívoco de que todas as abelhas têm ferrões e são perigosas, e provando que a humanidade e as abelhas estão mais ligadas do que muitas vezes acreditamos.

Programas de gestão e conservação são necessários mais do que nunca, afirma, assim como a implementação de políticas de mitigação das alterações climáticas pelos governos para salvar mais do que as abelhas. In “Green Savers Sapo” – Portugal com “Climate Tracker”


 

domingo, 29 de agosto de 2021

Cabo Verde - Jovem aposta na criação de abelhas no interior de Santiago

As abelhas destacam-se por disseminar o pólen e fertilizar vários tipos de flora selvagem, bem como culturas agrícolas essenciais, como o tomate, o mirtilo e a abóbora. No entanto, encontram-se ameaçadas pelo calor extremo e outros factores. Foi pensando na sua preservação, que nos últimos quatro anos, o activista ambiental, João Gomes, vem apostando na apicultura


A apicultura é um ramo da zootecnia, voltada para a criação de abelhas. Essa técnica, segundo o portal brasileiro revista agropecuária, pode ter por objectivo a produção de mel, própolis, geleia real, pólen, cera de abelha e veneno, ou mesmo fazer parte de um projecto de paisagismo.

Ao Expresso das Ilhas, João Gomes conta que há já alguns anos que a apicultura é desenvolvida pela Associação Vercellese Verso Santa Cruz, num projecto financiado por uma igreja valdense na Itália. A referida associação, em parceria com a Câmara Municipal de Santa Cruz, no interior da ilha de Santiago, oferece formação em apicultura aos jovens daquela localidade.

“Eu, por exemplo, beneficiei-me dessa formação e depois apaixonei-me por esse bicho porque trabalho muito com conservação e protecção do meio ambiente. Como é uma espécie que está em via de extinção, achei por bem fazer esta formação e uma outra na Itália para adquirir mais conhecimento e propagá-lo em Cabo Verde”, relata.

João Gomes afirma que enquanto um multiplicador do conhecimento, vem desenvolvendo a apicultura de modo a ajudar a agricultura no país.

Nos últimos quatro anos de existência da apicultura, João construiu 11 colmeias, ou famílias de abelhas.

“A apicultura teve início na década de 90 em Santa Cruz, o projecto foi interrompido por falta de apoio. Hoje estamos avançados. Contamos onze colmeias povoadas. Vamos iniciar agora uma segunda acção de formação já que estamos na preparação do apeado que está formado, o que permite dar uma formação de início ao fim”, assegura.

Segundo explica o activista, hoje é possível dar aos jovens uma formação em apicultura do início ao fim, porque a existência de famílias de abelhas, permite ir além da teoria. Diferente da época em que se formou, em que depois da teoria, era preciso iniciar a apicultura do zero.

“Isso está ultrapassado. Quem vem tomar formação, além da que eu tinha tomado, vai poder assistir no terreno a algo que já está avançado. Isso vai ajudá-los muito no processo de aprendizagem, o que é bom e dá para ver que Cabo Verde está num bom caminho”, afirma.

Cada colmeia pode ter entre 40 a 70 mil abelhas, dependendo do estado de saúde de cada família. No caso das famílias estarem fortes, esclarece João Gomes, cada colmeia pode conter até 70 mil indivíduos.

Importância da apicultura

João Gomes expende que no país, assim como no resto do mundo, todas as abelhas estão no activo na natureza. Daí que se torna importante que hoje, se capacitem jovens de modo a multiplicar as colmeias que os apicultores devem ter conservado devido a diminuição do número das mesmas na natureza.

“Se corrermos o risco de perder todas as abelhas que estão no meio ambiente, será um grande problema reintroduzi-las”, alerta.

Assim, o activista ambiental reitera que se a apicultura for feita de forma organizada, vai permitir ajudar as abelhas, independentemente das localidades onde estiverem, independentemente das alterações climáticas que vêm afectando a espécie.

Nas suas declarações, garante que o primeiro objectivo deste projecto é a protecção e conservação da espécie que está em via de extinção.

Entretanto, aponta outros benefícios da apicultura como a produção do mel, própoles, cera, pólen e geleia real, todos uma fonte de rendimento e uma ajuda para a saúde humana.

“Ainda não produzimos nada para venda já que a nossa prioridade é reproduzir as famílias que temos e maximizá-las. Quando estiverem fortes e tiverem condições de produzir mel e os outros derivados tanto para o consumo como para a comercialização aí, sim, faremos isso”, diz.

Embora ainda não sejam produzidas para serem comercializadas, João Gomes destaca que há muita procura por esses produtos, sobretudo do mel e própoles.

“Porque estamos a desenvolver um medicamento com própoles, álcool e cana-de-açúcar para combater fungos e bactérias. Algumas pessoas deram-se conta e mesmo não tendo para comercializar, algumas vezes temos tido procura. Porque por vezes oferecemos a amigos e a novidade se espalha. Temos tido procura da ilha de Boa Vista, mas sobretudo da ilha de Santiago, mais especificamente da cidade da Praia, Santa Cruz e Tarrafal”.

Remoção de enxames em residências

Conforme o entrevistado, a remoção de enxames em casas de família é algo corriqueiro. Mas, o grupo enfrenta algumas dificuldades para tal.

“Há lugares que são distantes e ir fazer uma captura requer custo. Se for um enxame que invadiu uma casa e está numa árvore a remoção é fácil. Contudo, se for um enxame que vive numa parede há já algum tempo, é mais difícil”, descreve apontando para uma colmeia removida em Achada Santo António, Praia.

Para remover aquela colmeia, especificamente, João Gomes narra que foram precisas três noites, em que o grupo teve de regressar à Santa Cruz às 3h00 da manhã.

“Se a pessoa tiver condições de suportar os custos nos trabalhos mais difíceis é melhor, porque sair daqui de Santa Cruz, levar o carro, uma colmeia e uma equipa de quatro a cinco pessoas, custa. Se for um local de remoção simples, um lugar mais perto por exemplo, não custa nada”, compara.

Os equipamentos do grupo de apicultores liderado por João Gomes foram doações da Associação Vercellese Verso Santa Cruz. Outras foram trazidas da Itália ou produzidas pelo próprio activista, apesar da possibilidade de importar.

Desafios

Na apicultura, os enxames são recolhidos e alojados em caixas apropriadas chamadas colmeias, durante a noite, onde continuam a trabalhar.

“As abelhas têm apenas quatro horas de descanso. Logo no início do amanhecer, por volta das 5h30 começam a sair das caixas para as suas actividades, em diferentes lugares. Até o pôr-do-sol recolhem todo o pólen, néctar, cera e outras coisas que precisam e regressam para as caixas”, detalha.

No sítio de João Gomes, algumas caixas são produções suas, e outras vieram da Itália. Aliás, frisa, o grupo recebeu, recentemente, 30 caixas colmeias, desmontadas.

Para João Gomes, o principal desafio na apicultura em Cabo Verde consiste em formar as famílias devido à seca dos últimos anos. Isto porque as abelhas dependem da flora apícola.

“Se não houver flor, as abelhas morrem. E em todas as partes do mundo as abelhas estão a morrer de fome e as nossas não são excepção”, pormenoriza.

Ao se formar uma família, há uma grande preocupação em alimentar as abelhas que estão a enfraquecer. E quando retiradas do seu habitat, João Gomes sublinha que se não estiverem bem controladas acabam por morrer.

“Há necessidade de capturar essas famílias, nutri-las, dar-lhes a força necessária para se tornarem numa família forte. Para isso temos um suplemento que veio da Itália, açúcar pasteurizado que é para alimentar as nossas abelhas e salvá-las. Estamos no processo de resgatar todas as abelhas que estão fracas na natureza, dar-lhes força para não sofrerem nenhum dano que possamos causar”, ressalva.

Em cada caixa há um nutritor, trata-se de um depósito onde são depositadas um xarope feito com um quilo de açúcar e um litro de água. O xarope, de acordo com o entrevistado, fortifica as abelhas na falta de flora apícula.

A ideia dos apicultores de Santa Cruz é até o final do ano ter pelo menos 20 colmeias povoadas.

“Estamos com 11 colmeias povoadas, mas já fizemos mais de 50 capturas. Porque a apicultura funciona da seguinte forma, quando uma caixa é nova, nunca recebeu nenhuma abelha, fica difícil mantê-las. Ao contrário dos humanos que preferem uma casa nova e bem construída. Às vezes é preciso muito cuidado e muita técnica para capturar as abelhas, colocar numa caixa e mantê-la de modo a formar uma família. No início era mais complicado, mas agora temos mais conhecimento e conseguimos formar famílias rapidamente”, explica.

Apicultura para toda a ilha

João Gomes refere que para um desenvolvimento da apicultura em toda a ilha de Santiago, conta com um parceiro em Rui Vaz, Emileno Ortet, que trabalha com agricultura.

O objectivo é criar uma unidade de agricultura naquela localidade por ser cheia de eucalipto, uma planta que produz grande quantidade de mel.

“Na ilha de Santiago, na Serra Malagueta e Rui Vaz há uma grande potencialidade para fazer o estudo da apicultura. E com o Emileno Ortet acredito que brevemente conseguiremos montar uma unidade de apiado. Já temos algumas colmeias preparadas para Rui Vaz e depois pretendo fazer alguma recolha de abelhas no próprio Rui Vaz e levar outras daqui e de outros lugares da ilha de Santiago”, avança.

A apicultura que pretendem desenvolver, continua, é móvel. Assim, em toda a ilha de Santiago, onde se verificar uma boa flora apícola, vão lá estar para capturar as abelhas que depois serão fortificadas.

“Aliás, Cabo Verde deve apostar muito na babosa, porque a babosa é uma flora apícola e gostaria que Cabo Verde apostasse na plantação de plantas que são floras apícolas. Há muitas plantas que não têm nada a ver com a apicultura e flora apícola. E hoje todos os países do mundo apostam nestas plantas para salvar as abelhas e o planeta”, recomenda. Sheilla Ribeiro – Cabo Verde in “Expresso das Ilhas”


quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Internacional - Apicultura sustentável: Consórcio europeu desenvolve colmeias inteligentes de baixo custo

No próximo mês de janeiro, uma equipa de cientistas da Universidade de Coimbra (UC) vai iniciar um conjunto de testes com colmeias inteligentes de baixo custo, instaladas num apiário do norte do país (Douro), no âmbito de um projeto europeu que visa dotar os apicultores de ferramentas de monitorização remota em tempo real, quer em termos da avaliação da saúde das colónias quer do potencial apícola de áreas ao nível de recursos para as abelhas, para uma melhor gestão dos seus apiários.  



Designado B-GOOD “Giving Beekeeping Guidance by Computational Assisted Decision Making” (desenvolvimento de sistemas de decisão para uma apicultura sustentável – novas ferramentas assistidas por computação), este projeto reúne perto de 70 cientistas de 17 instituições de 13 países europeus, bem como apicultores e especialistas em tecnologias informáticas, e tem um financiamento global de mais de sete milhões de euros da União Europeia através do Programa Horizonte 2020.

Estas colmeias inteligentes, que vão ser testadas simultaneamente em mais sete países participantes no projeto, estão instrumentadas com um conjunto de sensores que recolhem e monitorizam continuamente vários parâmetros, tais como humidade, temperatura, vibração das abelhas e peso da colmeia, entre outros, permitindo conhecer o estado da colónia de acordo com o denominado índice do estado de saúde das abelhas (do inglês Health Status Index - HSI), um índice desenvolvido pela Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA, na sigla original).

Com estes estes dados, aliados a outras ferramentas, explica José Paulo Sousa, vice-coordenador do projeto e docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), «vai ser possível testar, padronizar e validar os métodos para medir e reportar os indicadores selecionados que afetam a saúde das abelhas, através de uma simples aplicação informática (app), permitindo que os apicultores tenham informação rápida e fidedigna em tempo real sobre o estado de cada uma das suas colónias, podendo detetar antecipadamente fenómenos de enxameamento e sintomas de diversas doenças, evitando assim constantes monitorizações dos apiários e aplicando tratamentos adequados quando necessário».

Numa segunda etapa do projeto, os cientistas vão também desenvolver um modelo fenológico dos recursos alimentares para as abelhas, isto é, «mapear as flores que são importantes para as abelhas sob o ponto de vista nutricional, período de floração ao longo do ano e a quantidade de recursos que podem providenciar». Será um trabalho de elevada complexidade, porque, clarifica o docente da FCTUC, «implica trabalhar muita informação: trabalhar dados ao nível das paisagens agrícolas, florestais e de áreas naturais e as associações florísticas destes elementos da paisagem, e validar em campo o modelo fenológico identificando as flores “amigas” das abelhas e avaliar o teor de açúcar, néctar, pólen, etc.».

O objetivo final será «não apenas mapear os recursos importantes para as abelhas à escala europeia, mas criar mapas dinâmicos de adequação do habitat em termos de quantidade e qualidade de recursos que cada zona geográfica pode providenciar por ano às abelhas, informação muito relevante não só para os apicultores, como também para entidades estatais que estabelecem os limites para o número de apiários que podem ser instalados em cada zona do território», salienta o docente da FCTUC.

José Paulo Sousa sublinha que esta ferramenta de gestão assume particular relevância: «devido às alterações climáticas, a disponibilidade de recursos florais constitui um grave problema, pois pode haver espécies que deixem de florir a determinada altura, o período de floração pode variar, podendo causar um desfasamento entre o período de floração e as necessidades nutricionais das abelhas e, consequentemente, originar uma alteração do estado de saúde das colónias, com uma diminuição da capacidade de reprodução e uma redução na resistência a diversas doenças».

O investigador declara ainda que «é essencial uma gestão adequada dos recursos ao nível da paisagem, adotando medidas que incentivem a implementação de infraestruturas verdes em áreas agrícolas com misturas florais ajustadas a cada região que permitam períodos de floração mais alargados».

O B-GOOD «abre caminho para uma apicultura saudável e sustentável na União Europeia, seguindo uma abordagem colaborativa e interdisciplinar», afirma o também investigador do Centro de Ecologia Funcional da FCTUC, realçando que o que torna único este projeto «é a utilização de uma ampla rede espacial de recolha de dados em colónias de abelhas com estreita ligação a dados apícolas já existentes, assim como o desenvolvimento de tecnologias inovadoras e autónomas para a monotorização de colmeias».

Toda a tecnologia que suporta as colmeias inteligentes do projeto B-GOOD, o que irá permitir a implementação de ações de mitigação adaptáveis destinadas a minimizar o impacto de diferentes agentes de stresse nas abelhas, deverá estar no mercado dentro de dois a três anos. Universidade de Coimbra “Faculdade de Ciências e Tecnologia” - Portugal

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Angola - Projeto de produção de mel sustentável desenvolvida por uma brasileira



Segundo divulgou a Unesp, a brasileira Marisa Rodrigues realiza trabalho de extensão rural em Angola, levando o conhecimento para ajudar as comunidades rurais no País.

Ela ainda é aluna de doutorado na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias Câmpus de Jaboticabal, e sua pesquisa focada no comportamento e genética de abelhas Apis mellifera.

Marisa, visitou Angola pela primeira vez em 2014, viu um enorme potencial da produção de mel e voltou em 2016 como consultora em um projeto de produção de mel sustentável, onde trabalha com apicultores rurais para produzir mel de forma sustentável.

O projeto é coordenado pela aluna e foi criado por uma rede de apicultores que trocam experiências, conhecimentos e materiais de apicultura, proporcionando meios de subsistência alternativos para os agricultores na vila da Chibia na Angola.



O projeto chamou a atenção do Ministério do Ambiente da Angola, nomeadamente o Instituto Nacional de Biodiversidade e Áreas Protegidas (INBAC). Nesse contexto o INBAC contactou a aluna sobre os conflitos entre humanos e elefantes, particularmente dentro do Parque Nacional do Bicuar na província de Huíla e na Comuna de Cambondo, na província do Cuanza Norte.

Marisa sugeriu o uso de cercas de abelhas como uma barreira ecológica, com base na pesquisa pioneira do projeto Save the Elephants (http://elephantsandbees.com/). Dessa forma, em abril deste ano, a aluna construiu um protótipo funcional de uma vedação de colmeias suspensas.

Em Junho, com o patrocínio da empresa Jardins da Yoba, a aluna visitou o projeto coordenado pela Dra Lucy King, no Quênia, onde firmaram uma parceria. Dessa cooperação, a aluna conseguiu uma doação para seu projeto em Angola para a construção de 30 colmeias suspensas na comuna de Cambondo, província de Cuanza Norte.

Além de realizar seu projeto fora do Brasil, Marisa desenvolve trabalhos educacionais em escolas municipais levando conhecimento sobre o mundo das abelhas e a importância de sua preservação. In “Mundo Lusíada” - Brasil