Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Portugal - Cientistas desenvolvem hidrogel inovador para tratamento do melanoma

Equipa da FCUP e da U.Minho desenvolveu um sistema de libertação controlada de um fármaco anticancerígeno para aplicação localizada na pele


Uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) e do CBMA – Centro de Biologia Molecular e Ambiental da Universidade do Minho desenvolveu um hidrogel inovador com potencial para tratamento do melanoma, a forma mais grave de cancro da pele. Só em Portugal, surgem mil a 1500 novos casos por ano.

O que tem este hidrogel de particular? É um material híbrido composto por nanocápsulas esféricas (vesículos), que incorporam a doxorrubicina, um fármaco utilizado no tratamento de vários tipos de cancro, e por um polímero em forma de malha (gel), que funciona como uma espécie de barreira, permitindo controlar a libertação do medicamento.

“Desenvolvemos um sistema de libertação controlada de um fármaco, que permite que este seja libertado de forma gradual no local da aplicação, mantendo a sua atividade e podendo reduzir a exposição a tecidos saudáveis”, descrevem Isabel Oliveira e Eduardo Marques, investigadores do Centro de Investigação em Química da Universidade do Porto (CIQUP) e docentes da FCUP.

Este hidrogel foi concebido para aplicação localizada na pele, por exemplo na área afetada pelo melanoma, podendo futuramente ser explorado como complemento de outras abordagens terapêuticas, nomeadamente após cirurgia.

A libertação localizada e controlada do fármaco poderá reduzir a exposição de tecidos saudáveis e, consequentemente, alguns dos efeitos secundários associados à quimioterapia.

Características únicas do hidrogel

Para além de apresentar boa biocompatibilidade nos ensaios laboratoriais realizados no CBMA, os cientistas verificaram, em estudos anteriores, que as nanocápsulas utilizadas neste hidrogel são sensíveis ao pH. Assim, em contacto com os tumores, que geralmente apresentam um ambiente mais ácido, este sistema poderá facilitar a libertação do medicamento.

O hidrogel apresenta também a característica particular de ser sensível à temperatura. “À temperatura ambiente, o material é uma solução que pode ser facilmente manipulada e aplicada. Quando entra em contacto com a pele, devido à diferença de temperatura, ocorre rapidamente a transição para o estado de gel, o que favorece a sua permanência no local de aplicação”, descrevem os cientistas do CIQUP.

Um dos principais desafios foi precisamente combinar os dois componentes do hidrogel sem comprometer as suas propriedades individuais. “Foi necessário compreender como os vesículos e o gel polimérico interagem entre si, para encontrar as condições que permitem obter um material estável, capaz de transportar e libertar o medicamento de forma controlada”, explica Rui Machado, primeiro autor do estudo, desenvolvido no âmbito da sua tese de doutoramento em Química, defendida em abril na FCUP.

Testes em culturas 2D e 3D em células de melanoma

Para realizar este estudo multidisciplinar, os investigadores da FCUP desenvolveram e caracterizaram o hidrogel híbrido, que foi posteriormente testado pela equipa do CBMA, na Universidade do Minho.

Os cientistas do CMBA utilizaram culturas 2D e 3D de células de melanoma, sendo estas últimas capazes de reproduzir algumas características da organização de um tumor.

“Verificámos que o hidrogel permite a libertação do fármaco e a sua entrada nas células tumorais, incluindo nas regiões mais profundas dos modelos 3D, mantendo a sua atividade anticancerígena”, explicam Andreia Gomes e Bruna Silva, investigadoras do CBMA.

Os ensaios mostraram ainda que o hidrogel desenvolvido aumentou a quantidade de fármaco introduzido nas células de melanoma, em comparação com o gel polimérico ou as nanocápsulas em separado.

Os resultados deste trabalho, desenvolvido ao longo de dois anos, foram recentemente publicados na revista ACS Applied Bio Materials, da American Chemical Society.

Os cientistas querem agora avançar para estudos in vivo de forma a avaliar a interação do hidrogel e do fármaco com o organismo. O objetivo é continuar a explorar o potencial deste sistema inovador para se chegar a um tratamento anti-melanoma mais localizado e com menos efeitos secundários. Universidade do Porto - Portugal