Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 3 de agosto de 2023

A grande reportagem à volta do mundo

A aventura, nos mares ainda desconhecidos e nas terras ainda ignoradas, de Fernão Mendes Pinto, relatada na Peregrinação, possui a fluência, a agilidade e o imprevisto de uma grande reportagem


Foi tudo o que quis ser ou aquilo que as circunstâncias o obrigaram a ser: mercador nos confins do Oriente, “a subir e descer as vias de água” no Mar Amarelo; soldado, cortesão, mendigo e pirata. Ele próprio resumiu as adversidades que sofreu: “treze vezes cativo e dezassete vezes vendido”. Como se tudo isto não bastasse também foi jesuíta, mas despiu a roupeta quando entendeu e voltou a ser um homem livre.

Era natural de Montemor-o-Velho. Pertencia a uma família humilde. Até aos 10 ou 12 anos – confessa na Peregrinação – encontrava-se “na miséria e estreiteza na casa do pai”. O apelo da distância incutiu-lhe o espírito da aventura. Correndo riscos e sobressaltos, quis libertar-se de um ambiente sem futuro. Tinha um primo na Índia. Embarcou numa caravela com destino a Setúbal. A certa altura o barco foi aprisionado por corsários franceses.

Os passageiros, açoitados, roubados e todos nus, conseguiram chegar à praia alentejana de Melides. Esta a primeira grande provação que o atingiu, até que seguiu para a Índia. Tinha 18 anos incompletos e, de março de 1537, até 1557, confrontou-se com as maiores incertezas e os mais diversos imprevistos, quantas vezes em luta frontal com a morte.


Várias gerações de investigadores, em arquivos e bibliotecas portuguesas e estrangeiros, ocuparam-se da autenticidade do texto da Peregrinação, para esclarecer localizações geográficas, fatos históricos, as relações com a Companhia de Jesus, os contatos com São Francisco Xavier. Um fato, porém, é notório: há saltos evidentes no texto, no decurso da sequência da narrativa.

Até ao fim da vida, – e mesmo depois da morte –, Fernão Mendes Pinto ficou sob a vigilância dos jesuítas. Ao saberem que redigia a Peregrinação, a pretexto de uma consulta, os jesuítas são acusados de retirar do manuscrito do livro inúmeras referências de tudo que diz respeito à Companhia de Jesus. Assim se pronunciaram, em obras, devidamente fundamentados, vários historiadores e ensaístas, entre os quais António José Saraiva, que publicou estudos de consulta obrigatória.

Regresso a Portugal

Ao voltar a Portugal, Fernão Mendes Pinto passou pelos Açores, tal como se verificou com Vasco da Gama e Luís de Camões. Esteve, possivelmente, na ilha Terceira. Gaspar Frutuoso, nas Saudades da Terra (livro VI), foi categórico ao afirmar que a Baía de Angra era, em pleno Atlântico, a “universal escala do mar poente e por todo o mundo celebrada”.

Chegou a Lisboa a 22 de setembro de 1558. Durante quatro anos e meio, procurou retomar a vida. Malograram-se as possibilidades. Casado e com filhos, instalou-se na margem sul do Tejo. Adquiriu uma casa no Pragal, onde escreveu muito do que viu, e do que ouviu e lhe aconteceu do Extremo Oriente: na Abissínia, na Arábia, em Malaca, em Java, no Pegu, em Sião, na China e no Japão, até regressar a Portugal. Contemporâneo de Camões, nasceu antes dele, (c. 1509/1514 - 1583) e faleceu depois de Camões (1524/1525 - 1579/1580). Fernão Mendes Pinto ultrapassou o itinerário de Camões no Oriente e as fatalidades que o atingiram em Goa e em Moçambique. A Peregrinação faz parte das obras indicadas como paradigmas da literatura portuguesa de viagens na expansão marítima que se verificou nos séculos XVI e XVII, desde Os Lusíadas até a História Trágico Marítima

“Fascinação Irresistível”

Entre as obras e escritores portugueses que Teixeira Gomes mais considerava, incluía Camões: “o melhor exemplo de uma repentina e salutar renascença, de pureza de formas e claridade de ideias e de estilo”. Embora o grande público continue a ignorar que “foi e é o maior autor dos tempos modernos”. Mencionava depois Fernão Mendes Pinto: “figura que, no meu espírito, sempre exerceu fascinação irresistível, e pela qual conservo ainda hoje a mesma admiração”.

“Não é só pelo encanto das suas peregrinações – insistia Teixeira Gomes – mas, sobre tudo, pela graça, e cristalina simplicidade do seu estilo, que parece de agora, e pela riqueza e propriedade dos seus vocábulos. Ele introduziu na nossa língua centenas de preciosos e úteis neologismos, que ficaram”.

A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, que se lê com a fluência, a agilidade e o imprevisto que deparamos numa grande reportagem – é, sem dúvida, uma das obras mais notáveis da literatura portuguesa e da literatura universal. Encontra-se traduzida nas principais línguas europeias. Revela o homem em toda a sua dimensão e em todas as circunstâncias. Transmite-nos, com “a simplicidade sempre tão difícil de conseguir” o que lhe aconteceu ver no contato direto com o mundo.

A ausência do Brasil

Fez parte de uma das primeiras expedições portuguesas que logrou alcançar o Japão em 1542. A chegada de portugueses ao Japão foi muito celebrada e perdura ainda na memória cultural japonesa, também porque permitiu a introdução das armas de fogo naquele país. O próprio Fernão Mendes Pinto descreveu o espanto e o interesse das autoridades locais, quando viram um dos seus companheiros disparar uma arma enquanto caçava.

Ainda pequeno, um tio trouxe-o para Lisboa, onde o pôs ao serviço da casa de D. Jorge de Lencastre, duque de Aveiro, filho bastardo do rei D. João II. Manteve-se aqui durante cerca de cinco anos, dois dos quais como moço de câmara do próprio D. Jorge.

Em 1537, partiu para a Índia, ao encontro dos seus dois irmãos. De acordo com o que relatou na sua obra Peregrinação, foi durante uma expedição ao mar Vermelho – em 1538 – que participou num combate naval com os otomanos, tendo sido feito prisioneiro e vendido a um grego. Este vendeu-o por sua vez a um judeu, que o levou para Ormuz, onde foi resgatado por portugueses.

Acompanhou Pedro de Faria a Malaca, de onde fez o ponto de partida para as suas aventuras, tendo percorrido, durante 21 acidentados anos, as costas da Birmânia, Sião, arquipélago de Sunda, Molucas, China e Japão, grande parte desse tempo ao lado do pirata António de Faria. Numa das suas viagens, conheceu São Francisco Xavier e, influenciado pela sua personalidade, decidiu entrar para a Companhia de Jesus e promover uma missão jesuíta no Japão.

Em 1554, depois de libertar os seus escravos, foi para o Japão como noviço da Companhia de Jesus e como embaixador do vice-rei D. Afonso de Noronha. Esta viagem constituiu um desencanto para ele. Desgostoso, abandonou o noviciado e regressou a Portugal.

Com a ajuda do ex-governador da Índia Francisco Barreto, conseguiu arranjar documentos comprovativos dos feitos realizados pela pátria, que lhe deram direito a uma tença, que nunca recebeu. Desiludido, foi para a Quinta de Palença, em Almada, onde se manteve até à morte e onde escreveu, entre 1569 e 1578, a obra que nos legou, a Peregrinação. Esta só viria a ser publicada cerca de 30 anos após a sua morte, receando-se que o original tenha sofrido alterações, às quais não seriam alheios os jesuítas. O livro (de 700 páginas) passou também o crivo da Inquisição.

Deixou-nos um relato tão extraordinário que, durante muito tempo, não se acreditou na sua veracidade. De tal modo, que até se fazia um jocoso jogo de palavras com o seu nome: “Fernão Mendes Minto” ou então “Fernão, mentes? Minto!”. A Peregrinação, porém, tornou-se um sucesso, tendo rapidamente dezenove edições em seis línguas.

Na atualidade, Fernão Mendes Pinto é considerado um dos maiores escritores da literatura portuguesa e mundial. Ele contribuiu, ao lado de Luís de Camões, para enriquecer e fazer evoluir a língua portuguesa. A sua vida e obra têm sido tema regular para estudos universitários, um pouco por todo o mundo, nas áreas de História, Antropologia, Geografia, Sociologia, Semântica e Literatura.

Existem ruas com o seu nome em Lisboa, Porto, Montemor-o-Velho, Guimarães, Portimão, Ovar, Freixo de Espada à Cinta e Loures, em Portugal; no Rio de Janeiro e São Paulo, no Brasil; em Luanda (Angola), no Maputo (Moçambique) e na China. António Valdemar – Portugal in “saojoaodel-rei.blogspot” com “Jornal de Letras”

(Texto publicado originalmente no Jornal de Letras nº 294, Rio de Janeiro, 2 de agosto, 2023)


 



terça-feira, 5 de março de 2013

Vagamundos

O Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto
 
Sinopse

Fernão  Mendes Pinto é o exemplo vivo do aventureiro português do Século XVI, que embarcava para o Oriente com o fito de enriquecer. Curioso, inteligente, ardiloso e hábil, capaz de todas as manhas para sobreviver, vai tornar-se num homem dos sete ofícios, sendo embaixador, mercador, médico, mercenário, marinheiro, descobridor e corsário dos sete mares – Roxo, da Arábia, Samatra, China, Japão, Java e Sião – por onde, durante vinte anos, navegou e naufragou, ganhou e perdeu verdadeiros tesouros, fez-se senhor e escravo, amou e foi amado, temido e odiado.

Herói polémico e marginalizado, Fernão participa em campanhas de paz e guerra, da Etiópia à China, sendo também um dos primeiros portugueses a visitar o Japão, onde introduz os mosquetes ali desconhecidos e fica nas crónicas locais como o noivo do primeiro matrimónio de uma japonesa com um ocidental.

Através de Fernão Mendes Pinto e dos testemunhos das personagens com quem se cruza, na sua peregrinação pelo Oriente longínquo, a autora faz ainda a narrativa dos principais episódios da grande saga dos Descobrimentos Portugueses, como as conquistas de Goa e Malaca, o heróico cerco de Diu ou as campanhas do Preste João na Etiópia.

Em sete mares se divide o romance, por onde o leitor, na pele das personagens, fará uma intrigante viagem no Tempo, ao encontro de si próprio e de mundos e povos antigos, tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes, uma peregrinação na busca incessante de fortuna, encarnada na demanda da mítica Ilha do Ouro.

Deana Barroqueiro – Escritora de romances históricos sobre o período dos Descobrimentos - Portugal - Estará presente na 2ª Edição da Rota das Letras - Festival Literário de Macau, no próximo dia 11 de Março de 2013 pelas 18H locais, na Fundação Rui Cunha, no painel sobre Literatura de Viagens com Joaquim Magalhães de Castro, Alexandra Lucas Coelho, Bárbara Bulhosa e Sheng Keyi. O moderador é Hélder Beja.
                      
Deana Barroqueiro é escritora, professora, contadora de histórias, autora de O Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto; Tentação da Serpente; O Romance da Bíblia; D. Sebastião e o Vidente; O Navegador da Passagem; O Espião de D. João II; Prémio Máxima de Literatura 2007 - Prémio Especial do Júri para o romance "D. Sebastião e o Vidente"