O escritor Ricardo Adolfo vai estar presente na Livraria Portuguesa para uma sessão de apresentação do seu mais recente livro, “A Chefe dos Maus”, já na próxima segunda-feira. Munido do mesmo tom sarcástico e mordaz que revelou nas suas obras anteriores, o autor apresenta uma crítica às convenções sociais japonesas e ao mundo corporativo global, onde as directrizes de diversidade coexistem, muitas vezes, com uma boa dose de hipocrisia. “Além de senhoras a trabalhar, temos de ter mais pessoas de mais cores e uns poucos deficientes”, anuncia o chefe de uma organização mafiosa japonesa a um grupo de homens atónitos. E assim começa uma viagem pelos cantos mais obscuros do Japão
Tóquio é uma cidade de camadas. Há a
capital dos transportes públicos limpos e pontuais; das escadas rolantes em que
se segue invariavelmente pela esquerda; da educação automática, quase maquinal,
embutida nos “obrigados” e nas vénias de quarenta e cinco graus. Por baixo da
educação polida à exaustão, esconde-se tudo aquilo que não convém discutir
abertamente e que fica reservado para a intimidade. A vida nocturna. A
sexualidade. O crime organizado.
Mas, na Tóquio moderna, até o submundo do crime tem de
manter uma fachada apresentável. É este o ponto de partida para A Chefe dos
Maus, o novo livro de Ricardo Adolfo: uma empresa de criminosos que tenta
parecer legítima, ao ponto de até se esforçar por adoptar as mesmas políticas
de diversidade que começam a ser exigidas pelo Japão fora. Entre bares de
alterne, actividades ilícitas e manipulação, a revolução vem de onde menos se
espera. Não dos clientes extorquidos, não das autoridades: no final, é uma
mulher insegura e submissa quem desconstrói a hipocrisia deste submundo
aparentemente inabalável.
Para Ricardo Adolfo, a escolha do tema do livro foi
natural. Trabalha há cerca de vinte anos na área da publicidade, os últimos dez
passados em Tóquio, e tem observado em primeira mão as mutações constantes do
mundo corporativo – mas também a resistência feroz às mesmas. “O trabalho está
a mudar, e tem de mudar. No entanto, ainda há muita resistência e muitos
hábitos mais tradicionais, sobretudo num país como o Japão”, observa o escritor
português, em conversa com o Ponto Final.
Os ventos da mudança, porém, fazem-se sentir por todo o
mundo – e a Ásia Oriental não é excepção. “Há uma modernidade que entrou pelos
nossos dias e deixou algumas empresas numa espécie de estado de choque. Todas
estas coisas são novas, diferentes, e pensei que seria interessante explorar
esta tensão”.
Ao tema da nova roupagem dos quadros de chefia,
acrescenta-se uma sátira inteligente sobre as hierarquias patriarcais e os
estereótipos de género e uma visão inédita sobre as empresas criminosas que
proliferam no Japão. As ideias pré-concebidas dos ‘gangsters’ japoneses
cobertos de tatuagens dos pés à cabeça talvez precisem de uma reinvenção mais
adequada ao século XXI, segundo relata Ricardo Adolfo.
“Um dos grandes atractivos para a história foi perceber
que estas empresas existem mesmo e que estão a fazer de tudo para parecerem
normais, legítimas. Foi dito aos gangues: vocês não podem estar na rua, não
podem ser bandidos à moda antiga; têm de pôr um fato e gravata, ter uma morada,
pagar impostos”. E é o que tem acontecido. O submundo do crime sai das sombras,
toma banho, perfuma-se e veste-se a rigor para continuar as suas condutas
imorais, desta vez escondidas a céu aberto. “O cúmulo do fingimento é esse: até
fingem a questão da diversidade. Fingem tudo. Foi essa mentira em cima da
mentira que eu achei interessante”.
Como português radicado no Japão, Ricardo Afonso tem uma
perspectiva observadora e atenta dos hábitos japoneses, incluindo aqueles que
poderão passar despercebidos a um habitante autóctone. A “cultura muito
específica, cerimoniosa, com ainda maiores cerimónias e formalidades à volta de
uma mesa de reunião” foi retratada de forma fiel e espirituosa no livro, fruto
de uma experiência imersiva de uma década. Os aspectos mais sensíveis, como as
organizações criminosas e o seu funcionamento interno, exigiram outra
abordagem.
“Foi uma mistura entre pesquisa teórica e pesquisa de
terreno”, conta o autor. “Uma parte da pesquisa veio de livros e filmes, porque
o Japão tem uma cultura muito rica de ficção à volta destes grupos criminosos.
Quanto à outra, foi mesmo ir ao terreno e tentar falar com pessoas e descobrir
algumas histórias. Há uma parte destas actividades menos legais que é feita à
vista de toda a gente. A forma como eles emprestam dinheiro com taxas de juros
muito elevadas… apesar de não ser legal, é público”.
Tal como os bares nocturnos em Kabukicho que a
protagonista visita ao longo da sua jornada, onde é possível arrendar a
companhia – e a ilusão temporária de intimidade – de jovens rapazes de
aparência andrógena, rostos maquilhados e cabelos tingidos de loiro. “Há o
Japão da rua, que toda a gente vê. Depois, entras numa porta e já não sabes
onde estás. Essa exploração das várias camadas foi algo que adorei fazer. Gosto
muito desse Japão que não está na rua”.
O universo masculino saqueado por uma mulher
“O seu universo estava prestes a ser saqueado por uma
mulher”, lê-se na primeira metade do livro. A estagiária recém-promovida tinha
acabado de chegar à sua primeira noite de formação num destes bares de ‘hosts’,
para desagrado do Chefe de Entretenimento – um dos muitos chefes com quem teria
de lidar nas páginas seguintes.
Dentro deste mundo hiper-masculino, foi dada voz a uma
protagonista feminina. A assistente do Chefe dos Chefes sabe que não deve falar
de forma inoportuna – isto é, sempre que não lhe seja expressamente pedido. As
suas opiniões não importam. A sua presença é ignorada, na maior parte das
vezes, e indesejada, quando começa a sua série de “estágios” em diferentes
vertentes criminosas. Tudo em nome da diversidade, e não do valor que (não) lhe
reconhecem.
Ricardo Adolfo não é estranho à perspectiva feminina,
como o público já sabe desde os tempos de Mizé – Antes Galdéria do que
Normal e Remediada, obra publicada em 2006. Apesar de ser “sempre um
desafio” escrever sob o ponto de vista do sexo oposto, o autor reconhece nas
suas personagens mulheres uma potencialidade dramática especial, assim como uma
oportunidade para salientar “problemas sociais” ainda por extinguir.
“Acho que há problemas femininos mais interessantes e
relevantes para serem debatidos hoje em dia. Não quer dizer que não haja
problemas masculinos interessantes, mas quando se põe um ao lado do outro ainda
há uma urgência maior em tentar contar histórias de um ponto de vista feminino,
porque há desafios que só acontecem a uma mulher. E isso dá mais energia,
relevância e contemporaneidade às histórias”.
Mizé é determinada, ambiciosa, cheia de confiança e
amor-próprio. A estagiária, criada vinte anos depois no outro lado do mundo, é
obediente e sossegada como exige a educação japonesa. Foi este o principal
desafio do autor: não está apenas a escrever uma mulher, mas uma mulher
japonesa. “Demorei muito tempo a escrever do ponto de vista japonês, apesar de
já cá viver há muitos anos. Sempre tive algum receio”.
A Chefe dos Maus é o segundo dos seus romances a usar o Japão como pano
de fundo para o desenrolar da acção. Um pano de fundo rico e dinâmico, cheio de
detalhes inexistentes em qualquer outro lugar do mundo, que acaba por se tornar
personagem própria. No entanto, se Tóquio Vive Longe da Terra, de 2015,
conta a alienação de um estrangeiro numa cultura distante, o enredo do livro
mais recente é construído a partir da perspectiva de uma mulher nascida e
criada neste mundo paralelo.
“O ponto de vista de um homem estrangeiro era mais fácil…
Foram precisos muitos anos a tentar ganhar coragem para escrever uma personagem
feminina japonesa”. Publicado o livro, resta agora conhecer o ‘feedback’
das leitoras do Japão. “Acho que, do ponto de vista não japonês, a personagem
feminina resulta. Agora tenho ainda de ouvir a segunda parte, que é a parte de
cá”.
O primeiro dos seus livros a ser traduzido para japonês, Depois
de Morrer Aconteceram-me Muitas Coisas, foi “surpreendentemente” bem
acolhido pela comunidade local, apesar de o autor ser – por enquanto –
“desconhecido” no Japão. “Como esse correu bem, este pode ter algumas
hipóteses…” A expressão de Ricardo Adolfo abre-se num sorriso hesitante.
“Apesar de ser um bocadinho crítico da sociedade japonesa, não é?”.
A sessão de apresentação de A Chefe
dos Maus decorre na próxima segunda-feira, dia 22 de Dezembro, a
partir das 18h30, com a presença do próprio autor. Carolina Baltazar – Macau
in “Ponto Final”
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