O escritor são-tomense José Maria Dias Cardoso lançou, na terça-feira, 23 de dezembro, a sua obra literária Ellyzé, Autópsia da Alma, numa cerimónia realizada no Centro Cultural Guimarães Rosa, da Embaixada do Brasil em São Tomé e Príncipe, reunindo representantes familiares, amigos, escritores, leitores e membros da comunidade académica.
Trata-se da primeira obra publicada pelo autor e é
dedicada à memória da sua filha, falecida aos 26 anos na Inglaterra, enquanto
frequentava o ensino universitário.
O livro assume-se como um memorial literário que
transforma a experiência da perda numa reflexão profunda sobre a vida, a
existência e a condição humana, recorrendo a uma escrita romanceada, de tom
poético e introspectivo. “É um livro sobre a luta, sobre a vida do migrante.
Muitas vezes, quem está no país de origem não tem noção da dureza da imigração.
Procurei partilhar essa realidade, marcada por desafios constantes”, afirmou o
autor da obra.
Nascido em 1963, na Ilha de São Tomé, Dias Cardoso
iniciou a sua vida profissional aos 18 anos, como professor do ensino primário
– actividade suspensa em 1984 para cumprir o serviço militar obrigatório. O seu
percurso é marcado por uma diversidade de experiências nas áreas da Educação,
Jornalismo, Administração Pública e Ativismo Cívico. Foi repórter da Rádio
Nacional no distrito de Mé-Zóchi, participou ativamente no processo de
democratização do país enquanto secretário de uma comissão eleitoral distrital
e integrou estruturas do Estado ligadas à segurança e à migração.
Paralelamente à atividade profissional, investiu de forma
contínua na sua formação, participando em seminários e cursos nas áreas da
Educação, Administração Pública e Jornalismo, em São Tomé e Príncipe e no
estrangeiro. Em 1997, realizou formação profissional em Aljustrel, Portugal.
Atualmente, é colaborador regular do jornal digital Téla Nón, onde
publica artigos de opinião.
No plano literário, Dias Cardoso foi distinguido, em
2004, com menção honrosa no prémio “Escrever em Português”, promovido pelo
Instituto Camões e pela UNEAS, tendo posteriormente conquistado o primeiro
prémio em duas participações consecutivas, reconhecimento que consolidou a sua
ligação à escrita.
Durante a apresentação da obra, o autor explicou que Ellyzé,
Autópsia da Alma foi escrita nos primeiros três a quatro meses após a perda
da filha, embora o processo de edição e publicação tenha exigido cerca de um
ano até à sua concretização. “O conteúdo estava praticamente estruturado, mas o
processo editorial foi mais complexo. Levei cerca de um ano até conseguir
firmar-me junto da editora”, explica.
Estruturado em sete a oito capítulos, o livro propõe um
diálogo entre o passado, o presente e o futuro, evitando uma abordagem centrada
exclusivamente no luto e alargando a reflexão à realidade da vida do migrante,
marcada por desafios, rupturas e recomeços. “Esta obra é inteiramente dedicada
à minha filha. É um tributo à sua memória”, afirma o autor.
A obra já foi lançada em Lisboa, encontra-se disponível
na FNAC e integra atualmente cerca de 268 páginas, número que, segundo o autor,
continua a crescer. “Gosto de dizer que é uma viagem em ziguezague, que permite
ao leitor afastar-se do luto direto”, esclarece.
O lançamento em São Tomé e Príncipe reveste-se de um carácter
simbólico particular, por coincidir com as celebrações dos 50 anos da
Independência Nacional, representando, nas palavras do escritor, um regresso às
origens e ao público do seu país natal. “Este momento em São Tomé e Príncipe é
considerado como um terceiro lançamento simbólico, especialmente por coincidir
com as celebrações dos 50 anos da independência”, sublinha.
O autor revela ainda que possui vários manuscritos
guardados. “No baú existem três ou quatro livros prontos para seguir para a
editora. O desafio agora é decidir qual será o próximo”, concluiu, agradecendo
a Deus e a todos os presentes.
A Directora do Centro Cultural Guimarães Rosa, Leyla
Quaresma, ressaltou a importância da literatura como ferramenta de reflexão
social, promoção do pensamento crítico e fortalecimento das identidades
culturais, sublinhando o compromisso da instituição com a valorização da língua
portuguesa, da cultura brasileira e do apoio à criação literária são-tomense.
“Criamos espaços de diálogo, de aprendizagem e de aproximação com as nossas
comunidades e com os nossos saberes. A literatura, foco deste encontro, é essencial
para o desenvolvimento da sociedade, pois amplia horizontes, estimula o
pensamento crítico e conecta pessoas através de ideias e emoções”, disse.
Ellyzé, Autópsia da Alma afirma-se, assim, como uma obra que transcende o
testemunho pessoal, propondo ao leitor uma reflexão sensível e profunda sobre a
memória, a perda e a condição humana, através da palavra literária. Waley
Quaresma – São Tomé e Príncipe in “Téla Nón”
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