Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

São Tomé e Príncipe - Dias Cardoso apresenta “Ellyzé Autópsia da Alma” no Centro Cultural Guimarães Rosa

O escritor são-tomense José Maria Dias Cardoso lançou, na terça-feira, 23 de dezembro, a sua obra literária Ellyzé, Autópsia da Alma, numa cerimónia realizada no Centro Cultural Guimarães Rosa, da Embaixada do Brasil em São Tomé e Príncipe, reunindo representantes familiares, amigos, escritores, leitores e membros da comunidade académica.

Trata-se da primeira obra publicada pelo autor e é dedicada à memória da sua filha, falecida aos 26 anos na Inglaterra, enquanto frequentava o ensino universitário.

O livro assume-se como um memorial literário que transforma a experiência da perda numa reflexão profunda sobre a vida, a existência e a condição humana, recorrendo a uma escrita romanceada, de tom poético e introspectivo. “É um livro sobre a luta, sobre a vida do migrante. Muitas vezes, quem está no país de origem não tem noção da dureza da imigração. Procurei partilhar essa realidade, marcada por desafios constantes”, afirmou o autor da obra.

Nascido em 1963, na Ilha de São Tomé, Dias Cardoso iniciou a sua vida profissional aos 18 anos, como professor do ensino primário – actividade suspensa em 1984 para cumprir o serviço militar obrigatório. O seu percurso é marcado por uma diversidade de experiências nas áreas da Educação, Jornalismo, Administração Pública e Ativismo Cívico. Foi repórter da Rádio Nacional no distrito de Mé-Zóchi, participou ativamente no processo de democratização do país enquanto secretário de uma comissão eleitoral distrital e integrou estruturas do Estado ligadas à segurança e à migração.

Paralelamente à atividade profissional, investiu de forma contínua na sua formação, participando em seminários e cursos nas áreas da Educação, Administração Pública e Jornalismo, em São Tomé e Príncipe e no estrangeiro. Em 1997, realizou formação profissional em Aljustrel, Portugal. Atualmente, é colaborador regular do jornal digital Téla Nón, onde publica artigos de opinião.

No plano literário, Dias Cardoso foi distinguido, em 2004, com menção honrosa no prémio “Escrever em Português”, promovido pelo Instituto Camões e pela UNEAS, tendo posteriormente conquistado o primeiro prémio em duas participações consecutivas, reconhecimento que consolidou a sua ligação à escrita.

Durante a apresentação da obra, o autor explicou que Ellyzé, Autópsia da Alma foi escrita nos primeiros três a quatro meses após a perda da filha, embora o processo de edição e publicação tenha exigido cerca de um ano até à sua concretização. “O conteúdo estava praticamente estruturado, mas o processo editorial foi mais complexo. Levei cerca de um ano até conseguir firmar-me junto da editora”, explica.

Estruturado em sete a oito capítulos, o livro propõe um diálogo entre o passado, o presente e o futuro, evitando uma abordagem centrada exclusivamente no luto e alargando a reflexão à realidade da vida do migrante, marcada por desafios, rupturas e recomeços. “Esta obra é inteiramente dedicada à minha filha. É um tributo à sua memória”, afirma o autor.

A obra já foi lançada em Lisboa, encontra-se disponível na FNAC e integra atualmente cerca de 268 páginas, número que, segundo o autor, continua a crescer. “Gosto de dizer que é uma viagem em ziguezague, que permite ao leitor afastar-se do luto direto”, esclarece.

O lançamento em São Tomé e Príncipe reveste-se de um carácter simbólico particular, por coincidir com as celebrações dos 50 anos da Independência Nacional, representando, nas palavras do escritor, um regresso às origens e ao público do seu país natal. “Este momento em São Tomé e Príncipe é considerado como um terceiro lançamento simbólico, especialmente por coincidir com as celebrações dos 50 anos da independência”, sublinha.

O autor revela ainda que possui vários manuscritos guardados. “No baú existem três ou quatro livros prontos para seguir para a editora. O desafio agora é decidir qual será o próximo”, concluiu, agradecendo a Deus e a todos os presentes.

A Directora do Centro Cultural Guimarães Rosa, Leyla Quaresma, ressaltou a importância da literatura como ferramenta de reflexão social, promoção do pensamento crítico e fortalecimento das identidades culturais, sublinhando o compromisso da instituição com a valorização da língua portuguesa, da cultura brasileira e do apoio à criação literária são-tomense. “Criamos espaços de diálogo, de aprendizagem e de aproximação com as nossas comunidades e com os nossos saberes. A literatura, foco deste encontro, é essencial para o desenvolvimento da sociedade, pois amplia horizontes, estimula o pensamento crítico e conecta pessoas através de ideias e emoções”, disse.

Ellyzé, Autópsia da Alma afirma-se, assim, como uma obra que transcende o testemunho pessoal, propondo ao leitor uma reflexão sensível e profunda sobre a memória, a perda e a condição humana, através da palavra literária. Waley Quaresma – São Tomé e Príncipe in “Téla Nón”


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