Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Angola - 50 autores de literatura infantil recebem tributo pelo seu trabalho

O projecto “50 anos, 50 homenagens”, da biblioteca comunitária A.S Leitura ao Domicílio, encerrou o ano de 2025 com um percurso sólido, transformador e profundamente humano, afirmando-se como uma das iniciativas mais sensíveis de promoção literária e do pensamento crítico


O projecto da A.S Leitura ao Domicílio, levado a cabo num período marcado por desafios sociais, desigualdades de acesso ao livro e urgência de formação humana, homenageou 50 escritores de literatura infantil angolana, no âmbito dos 50 anos da Independência Nacional.

Entre os homenageados pela iniciativa, destacam-se escritores que escreveram maioritariamente para crianças e adolescentes, nomeadamente Cremilda de Lima, Maria Celestina Fernandes, Akiz Neto, Kudijimbe, Mário Moniz, Ondjaki, Elsa Bárber, Cavisita Lemos, Carla Severino, Domingas Monte, Marta Santos, Mira Clock, Boneca Africana, Alice Berenguel, Ombebwa e John Bela.

Em declarações ao Jornal de Angola, o coordenador do projecto “50 anos, 50 homenagens”, Aniceto da Silveira, afirmou que, ao longo do ano, a iniciativa se consolidou como uma acção cultural de impacto directo nas comunidades, levando a leitura além dos espaços convencionais, em bibliotecas, escolas e livrarias, assim como ao fazer do lar um território de encontro entre o livro, a palavra e a vida quotidiana.

De acordo com o responsável, o projecto apostou numa abordagem próxima, inclusiva e afectiva, reafirmando que a leitura não é um privilégio, mas um direito e uma ferramenta de emancipação.

Escuta e proximidade

A proposta do A.S Leitura ao Domicílio, segundo Aniceto da Silveira, está assente numa lógica simples, mas profundamente transformadora, que vai ao encontro das pessoas. “Ao invés de esperar que o leitor chegue ao livro, o projecto faz o caminho inverso, deslocando-se a residências, comunidades e contextos familiares diversos, criando momentos de leitura partilhada, diálogo e reflexão”.

Durante o ano, as sessões realizadas privilegiaram não apenas a leitura em voz alta, mas também a conversa, a escuta activa e a partilha de experiências, transformando cada encontro num espaço seguro de expressão e aprendizagem. “Crianças, jovens e adultos participaram activamente, reconhecendo-se nas histórias lidas e encontrando nelas espelhos das suas próprias vivências”, afirmou o responsável.

Impacto social e educativo

O coordenador do projecto sublinhou que a retrospectiva anual evidencia que a A.S Leitura ao Domicílio ultrapassou a dimensão simbólica e alcançou resultados concretos. Em muitos contextos, disse, o contacto regular com os livros despertou o interesse pela leitura em famílias onde ela não fazia parte da rotina, reforçando laços afectivos e estimulando o pensamento crítico desde a infância.

Para o interlocutor, o projecto contribuiu igualmente para o desenvolvimento de competências linguísticas, emocionais e cognitivas ao incentivar a interpretação de textos, a expressão oral e a capacidade de argumentação. “Mais do que formar leitores, a iniciativa ajudou a formar cidadãos atentos, sensíveis e conscientes do seu papel na sociedade”.

Literatura como instrumento de transformação

Ao longo de 2025, o projecto da A.S Leitura ao Domicílio apostou numa curadoria literária diversa, integrando obras da literatura infantil, juvenil e adulta, com destaque para autores nacionais e temáticas ligadas à identidade, valores humanos, cidadania, empatia e pertença cultural, de acordo com o seu coordenador.

“A literatura foi apresentada não apenas como entretenimento, mas como instrumento de transformação social e emocional”, disse Aniceto da Silveira, acrescentando que “cada leitura foi pensada como um gesto de cuidado e resistência cultural, sobretudo num contexto em que o acesso ao livro ainda enfrenta limitações estruturais. O projecto reafirmou, assim, a leitura como um acto político e humanizador, capaz de romper ciclos de silêncio, exclusão e desinformação”.

Desafios e aprendizagens

Para o coordenador do projecto, a retrospectiva anual não ignora os desafios enfrentados, como questões logísticas, limitações de recursos e a necessidade constante de sensibilização das comunidades que fizeram parte do percurso.

Esses obstáculos, realçou, tornaram-se em oportunidades de aprendizagem, reforçando a resiliência da equipa e a importância do trabalho colaborativo.

“O contacto directo com as famílias permitiu compreender melhor as realidades locais e adaptar as abordagens, tornando o projecto cada vez mais sensível às necessidades reais dos seus beneficiários”.

Um ano de sementes lançadas

Ao encerrar o ano, o projecto “50 anos, 50 homenagens” pode ser descrito, segundo o seu coordenador, como uma iniciativa que lançou sementes, algumas já germinadas, outras em processo de crescimento. “As histórias lidas ecoam para além dos encontros formais, prolongando-se no quotidiano das famílias, nas conversas, nas perguntas e no desejo de continuar a ler”.

Aniceto da Silveira concluiu que a iniciativa termina o ciclo anual com a convicção de que investir na leitura é investir no futuro, na dignidade humana e na construção de uma sociedade mais justa e consciente. “O balanço é positivo, não apenas pelos números ou sessões realizadas, mas sobretudo pelos vínculos criados, pelas mentes despertas e pelos horizontes ampliados”.

Este ano, revelou, a A.S Leitura ao Domicílio afirma-se como um manifesto silencioso, pois quando o livro entra em casa, a transformação começa por dentro. In “Jornal de Angola” - Angola


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