Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 2 de abril de 2024

Matos Gomes: Autobiografia dos que foram da ditadura à democracia

O escritor e ex-militar Carlos de Matos Gomes define o seu novo livro, “Geração D”, como uma homenagem e uma autobiografia da sua geração, a que conheceu a ditadura, a Guerra Colonial e fez o 25 de Abril de 1974.

“Esta geração protagonizou a grande mudança da História de Portugal, a que acabou com a ditadura, com a guerra, com as leis da sociedade patriarcal… Mas continuou a conviver com a ideia de um glorioso passado, em simultâneo com a ilusão de um futuro maravilhoso”, lê-se na obra publicada pelo Porto Editora.

Foi uma geração que viveu as grandes transformações do pós-Segunda Guerra Mundial, a nível económico e social, que assistiu ao termo das possessões coloniais francesas e britânicas, à eclosão de conflitos na Argélia e no Vietname, que atravessou as décadas de 1950 e 1960.

Era uma geração aberta ao exterior, por oposição ao “orgulhosamente sós” de Oliveira Salazar e da sua ditadura. Era uma geração que via na violência da luta pelas independências, o reflexo da violência das autoridades coloniais portuguesas sobre as populações africanas.

No seu novo livro, Matos Gomes explica que a “Geração D” é a geração da “Democracia, da Deserção, da Descolonização, das Doutrinas e do Doutrinar, da Discussão, da Dialética, do Desmistificar, do Desmobilizar, da Denúncia, da Desobediência, do Divórcio”, a geração que “viveu sob um regime de ‘doidos do império’” e dele se libertou.

“Calhou-lhe – prossegue – ser a primeira geração que, pela liberdade e universalidade do voto, foi inteiramente responsável pelo seu presente e pelo seu futuro.” E conclui: “O D dos Dilemas é também do Desafio e o do Desprezo pelos Desprezíveis da Geração D”.

“Geração D”, o livro, toma a forma de uma “autobiografia ficcionada de uma geração”. Não é um romance. Por isso, o autor quis assumi-lo com o seu nome de baptismo, Carlos de Matos Gomes: “É uma assunção desta pessoa que sou eu e que faz esta ficção tendo como narrador a personagem principal, que também sou eu”, disse à agência Lusa.

Carlos de Matos Gomes, 78 anos, assinou vários romances em que estava patente a temática africanista, sob o pseudónimo Carlos Vale Ferraz, como “Nó Cego” (1983), a sua estreia, “Soldadó” (1988) e “Os Lobos Não Usam Coleira” (1991).

“’Geração D’ é o reverso do ‘Nó Cego’, o primeiro romance que escrevi, em que pretendi transmitir aos outros o que a minha geração tinha passado durante a Guerra Colonial [1961-1974]. Como cada um de nós, que vínhamos de vários sítios – e cada um agregado numa e determinada unidade militar, que tinha sido sujeita a várias forças de dissolução -, como aquele grupo, que representava a minha geração, tinha reagido e enfrentado uma situação tão crítica”, afirmou.

“Passados 42 anos, é o retrato da minha geração depois de ter passado pelo pós-Guerra [Mundial], pela guerra [colonial], pelo 25 de Abril, pelo 25 de Novembro [de 1975], pela construção desta sociedade que se ligou depois, [que] voltou a integrar-se na Europa, fez a descolonização e viveu os dilemas todos, do fim de uma epopeia. Nós tínhamos ainda sido educados na epopeia d’’Os Lusíadas’, e esta história é o fechar d’’Os Lusíadas’”, afirmou o autor “sem querer ser pretensioso”.

Matos Gomes deu conta das muitas conversas que teve com o seu amigo Salgueiro Maia, o capitão de Abril que tinha sido seu colega na Escola Nun’Álvares, em Tomar, com o qual reflectia sobre o dever “para com os portugueses em geral”, o dever de “restituir-lhes a liberdade e a dignidade”.

“A guerra [colonial] tinha sido determinada por um regime que os portugueses nunca tinham legitimado, e nós entendíamos que, se queremos fazer a guerra, os portugueses [tinham] de [a] legitimar”, disse enfatizando: “Nós fomos a primeira e a única geração que conheceu África no seu interior porque nos anteriores 400 anos, a África era bordejada”, vivida nas margens do continente, sobretudo no litoral, na costa.

“A violência que as autoridades portuguesas exerciam sobre as populações africanas reflectia-se na violência com que a guerrilha nos respondia [aos militares]”, disse Matos Gomes à Lusa, referindo-se à situação nos diferentes países, então sob administração portuguesa, durante a guerra colonial.

“Isto levou-nos a perguntar o que nós fazíamos ali. Em segundo lugar, a perguntar em que sociedade vivíamos, em que não éramos informados nem nos pediam opinião”.

Segundo Matos Gomes, “havia um conflito” entre a sua geração, “a geração militar, e a geração política, dos estudantes, dos trabalhadores”, com o regime. “Já não tínhamos nenhuma ligação ideológica nem vínculo ao regime que tinha sido estabelecido por [António de Oliveira] Salazar em 1933 e que vinha desde 1926”, quando, em Maio desse ano, se deu o golpe militar liderado pelo general Gomes da Costa.

Estas nova geração política, militar entendia-se como europeia. “Nós ouvíamos as mesmas músicas que se ouviam em Londres, conhecíamos os casos de Maio de 1968, as questões que estavam a ser colocadas na Alemanha [Federal] nos ‘anos de chumbo’ e também em Itália”, afirmou.

No caso dos militares, conheciam ainda a situação na Indochina, que culminaria na Guerra do Vietname – “e nesse sentido os livros do Jean Lartéguy foram muito importantes” -, e depois a situação na Argélia, que levaria à independência da antiga colónia francesa em 1962, quando a guerra colonial estava ainda no começo.

“Portanto, pertencíamos já a uma geração aberta ao exterior”, afirmou Matos Gomes. “O dilema que existia era: temos de nos integrar [no regime] ou derrubá-lo.”

“Para percebermos a História de um país ou de uma sociedade, uma das fontes, é exactamente a ficção. Há coisas que dizemos com mais facilidade através da ficção, e são mais próximas da verdade do que a História” que se baseia em estatísticas, relatórios e outros documentos, explicou.

“A literatura permite-me entrar dentro do pensamento dos protagonistas”, argumentou. A escrita reflecte assim “a literatura como uma história”, e “a história também como uma parte da literatura”.

Para escrever “Geração D”, Matos Gomes recorreu a diferentes fundos documentais, como o Arquivo de Defesa Nacional.

“A nossa forma de estar no mundo é a integração europeia. A descolonização está na zona do mito: havia o mito do império, apesar de o império antes da guerra [colonial] ser muito pequeno. Havia antes o imaginário da Índia, que acabou antes de 1961. Tinha havido o imaginário do Brasil, que se mantinha e ainda se mantém um pouco. E, finalmente, havia o império de África e das colónias, etc… Porque em termos económicos – os interesses económicos – eram dominados pelos ingleses e pelos norte-americanos, pois as colónias africanas nunca foram de povoamento”.

Actualmente, diz Matos Gomes, o que nos define é “a integração europeia”.

Sobre as celebrações do 25 de Abril, o ex-militar reconheceu que “há um esforço muito grande de as levar à sociedade o mais alargada possível, nomeadamente aos jovens”, mas “há sempre uma parte da sociedade que fica fora, há as classes visíveis e as invisíveis”, afirma.

“Quando aparecem fenómenos como a recente votação no Chega [nas legislativas do passado 10 de Março], o das claques [desportivas], nós perguntamos de onde estes tipos vêm. Vêm das classes invisíveis, e é aí que devemos fazer um esforço de lá chegar, explicar, e saber quem são eles”. Nuno Lopes – Agência Lusa in “Jornal Tribuna de Macau”





 

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Angola - Quer relançamento do processo de paz do Saara Ocidental

Angola instou, segunda-feira, em Nova Iorque, o Comité Especial de Descolonização das Nações Unidas a apoiar "activamente" os esforços do Secretário-Geral da ONU para relançar o processo de paz no Saara Ocidental


O Saara Ocidental consta da lista das Nações Unidas como um dos 17 Territórios Não Autónomos do mundo, há aproximadamente 58 anos (desde Dezembro de 1963).

Era ocupado pela Espanha, até 1975, ano em que cedeu o controlo administrativo do território a Marrocos.

A Frente Polisário, que luta para a independência do território, proclamou a República Árabe Saaraui Democrática (RASD), em 27 de Fevereiro de 1976, com um governo no exílio, na Argélia.

Numa intervenção durante uma reunião do Comité de Descolonização, a representante permanente de Angola junto das Nações Unidas, embaixadora Maria de Jesus Ferreira, considerou imprescindível a nomeação de um novo enviado da ONU para o Sahara Ocidental, a fim de acelerar a realização de um referendo para o povo saaraui.

Para a diplomata, negociações "directas e substantivas" entre a Frente Polisário e o Reino de Marrocos permitiriam ao povo saaraui exercer livre e democraticamente o seu direito à autodeterminação, por via de uma solução justa e duradoura, em conformidade com as resoluções do Conselho de Segurança da ONU.

"Angola une-se a todos os que promovem as iniciativas do Conselho de Segurança das Nações Unidas, da União Africana e da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral, que visam devolver o direito à autodeterminação ao povo saaraui", declarou.

A embaixadora Maria de Jesus Ferreira enfatizou que o processo deve decorrer de forma pacífica e em cumprimento do direito internacional e do respeito pelas fronteiras herdadas do período colonial, conforme previsto no Acto Constitutivo da União Africana (UA).

Neste sentido, encorajou a implementação do Plano de Resolução da ONU e da Organização da União Africana (OUA), hoje União Africana, aceite por ambas as partes e aprovado pelo Conselho de Segurança, em 1990 e 1991, para a concretização do mandato da Missão das Nações Unidas para o referendo no Saara Ocidental (MINURSO).

"A independência, soberania e unidade dos Estados representam direitos legítimos de todos os povos. No entanto, (...) nem todos os territórios beneficiam dos compromissos da Declaração sobre a Concessão da Independência aos Países e Povos Coloniais, conforme a Resolução 1514 da Assembleia Geral da ONU de 14 de Dezembro de 1960", sublinhou Maria de Jesus. In “Novo Jornal” - Angola