Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Uma visão melancólica da vida

Em novo livro, Silas Corrêa Leite reúne poemas e textos poéticos repassados de lirismo

                                                                              

                                                                                I

Escritor extremamente produtivo, Silas Corrêa Leite (1952), depois de novas experiências nos gêneros romance e contos e minicontos, volta a exercitar o ofício de poeta com Coquetel MolotovDrinks para a morte (São Paulo, Namíbia Editora, 2026) em que reúne poemas e textos em prosa poética que “percorrem a dor, a morte, o amor, a solidão e os abismos do cotidiano”, como se lê na apresentação na contracapa.

São poemas repassados de lirismo, em que o fluxo de consciência escorre de maneira livre, em forma de solilóquio, como se o poeta estivesse sozinho a falar em voz alta, expressando seus pensamentos, sentimentos e reflexões íntimas, conversando com a consciência. E, na maioria, o que passam é uma visão melancólica da vida, como se constata nos versos do poema “Flores amarelas”: “(...) Eu faço versos como quem morre / Dando cicuta ao meu ser / Em dor-poesia vazo. Escorre / A minh’alma nesse “escreviver”...”

Afinal, se como diz no texto poético “Efemérides”, “poesia é toque humano, é epiderme letral da alma entre escombros e sedas com sangue”, são poemas que funcionam como confissões realizadas no calor dos acontecimentos e que resultaram do abalo que representou para o autor o desaparecimento de Rosangela Silva (1956-2026), sua “estrela bailarina”, sua musa, a quem a obra é dedicada in memoriam. E que é explicitamente evocada no poema “Não quero que você seja triste”, onde se lê

          “(...) Eu nasci triste, vivi triste, escrevo triste / Você é quem colocou nuvens de algodão doce em minha alma entrevada / Agora você triste me faz ter medo de me perder de mim / Quando você é a meiguice e o remanso de afeto e ternura (...) / Porque duas pessoas tristes não vão a lugar nenhum, afundam e morrem juntas / E o seu brilho, sua delicadeza, foram minha âncora, meu estrelário, meu motivo de continuar lutando e sobrevivendo com as mãos limpas (...)”.

Em uma peça de prosa poética ou mesmo poema em prosa, “Se queres partir”, em que reconstitui o passado, convertendo sua experiência de vida em matéria literária, o poeta deixa claro o que sentia diante da possibilidade de perder a musa de seus versos, como se lê aqui nestas palavras finais: “(...) Se vamos dizer adeus / Cada um levará o outro no longe / E assim longe e ausência formarão / Um esconderijo de lágrimas”.

 

                                                                               II

Mais adiante, o poeta evoca o burgo que o viu crescer, Itararé, na divisa do Estado de São Paulo com o Paraná, lembrando o tempo em que a cidade correu o risco de ser destruída, à época do golpe militar de 1930, quando tropas vieram do Sul para depor o presidente Washington Luís (1869-1957), considerado paulista, embora nascido em Macaé, no Estado Rio de Janeiro, e colocar no poder o gaúcho Getúlio Vargas (1882-1954), como resultado de uma divergência entre as elites que sempre (mal) comandaram o País.

E a comparou a Guernica, imortalizada em 1937 em pintura a óleo pelo pintor, poeta, dramaturgo e escultor espanhol Pablo Picasso (1881-1973), cidade basca bombardeada pela aviação alemã em 26 de abril de 1937, durante a Guerra Civil espanhola (1936-1939). Diz o poeta: “(...) Eu sou essa “Itararé-Guernica” com meus poemas de tristeza / e dor, e guardo essa bandeira de lutas: Quiseram destruir Itararé” / E cantando-a, porque sempre haverá Itararé, muito além de mim, de minha dor / Cada filho com fibra desse bem-querer / Ainda defende Itararé nas artes, no amor / Porque morrer por Itararé ainda é viver!”

Da Itararé dos nossos dias, o poeta recorda um episódio de 2019 que testemunhou, no dia 9 de julho, feriado civil estadual em São Paulo, que marca o início da chamada Revolução Constitucionalista de 1932 em que as elites paulistas tentaram se levantar (sem êxito) contra a ditadura de Getúlio Vargas. E observa, ao lamentar a atitude de um oficial militar: “(...) Bebidas, drinques, chocolate, luxuoso banquete / A autoridade emperiquitada e oficial ali / estupidamente disse não, disse Fora, Fora / Tocou a criança do evento comemorativo / Enquanto se ouvia o Hino Nacional Brasileiro / E a bandeira paulista / Era hasteada ao som de clarins / Pelas autoridades constituídas... Anchieta morreria de vergonha.”

Isto posto, à guisa da explicação, é de se lembrar que o título do livro é uma referência irônica a uma arma artesanal e incendiária feita com uma garrafa de vidro contendo um líquido inflamável (como gasolina ou álcool) e um pavio de pano. E que esse nome surgiu na Guerra de Inverno (1939), quando os finlandeses batizaram ironicamente a bomba caseira em homenagem a Vyacheslav Molotov (1890-1986), então ministro soviético da Relações Exteriores e braço-direito do ditador Josef Stalin (1878-1953), que dizia que soviéticos não estavam bombardeando cidades da Finlândia, mas sim jogando alimentos. 

Mas o poeta explica, em versos, que o seu é um coquetel “que perfuma, não explode / Em terra de leite e mel / Nem que o ódio açode”.       E, em outro poema, observa: “Meu Coquetel Molotov / Até que o amor seja muito além do love / E que na prática se prove / Do que, afinal, seria / no meu amargurado reino além da fantasia?”

No prefácio, o poeta, ensaísta e curador de arte português Luís Serguilha, depois de relacionar um grande número de filósofos-maiores e pensadores famosos que tiveram um encontro pouco pacífico com a morte, diz que “... a filosofia nunca nos ensinou a morrer: a loucura foi industrializada, perdemos completamente o animal em nós! O animal sempre soube morrer!”. Palavras que resumem a poesia deste livro de Silas Corrêa Leite.

 

                                                III

Além de contista e romancista, com mais de 30 livros publicados, Silas Corrêa Leite é poeta, letrista, professor, bibliotecário, desenhista, jornalista, ensaísta, blogueiro e membro da União Brasileira de Escritores (UBE).  Começou a escrever aos 16 anos, passando a produzir crônicas para o jornal O Guarani, de Itararé, tendo apenas o curso primário. Foi garçom num botequim e aprendiz de marceneiro, além de engraxate, boia-fria e vendedor de doce de groselha. Ainda em Itararé, foi aprovado num concurso para locutor na Rádio Clube local.

Em 1970, migrou para São Paulo, onde morou em pensões, cortiços, passou fome e dormiu na rua.  Já empregado, formou-se em Direito e Geografia, sendo especialista em Educação pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, além de ter cursado pós-graduações nas áreas de Educação, Filosofia, Inteligência Emocional, Jornalismo Comunitário e Literatura na Comunicação, curso este que fez na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). É professor de Geografia e atuou na rede pública e em escolas privadas na cidade de São Paulo.

Venceu alguns concursos com seus romances, artigos, poemas, letras de blues e críticas literárias. Ganhou o Concurso Lygia Fagundes Telles para Professor-Escritor, da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Foi pesquisador e bolsista em Culturas Juvenis pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), vencedor do Primeiro Salão Nacional de Causos de Pescadores e premiado em outros concursos, como os promovidos pela Fundação Petrobrás, Biblioteca Mário de Andrade, Instituto Piaget (Portugal) e União Brasileira de Escritores (UBE), seção do Rio de Janeiro.

Lançou Campo de trigo com corvos (Jaraguá do Sul, Design Editora, 2007); Gute-Gute, barriga experimental de repertório (Rio de Janeiro, Editora Autografia, 2015); Goto, a lenda do reino encantado do barqueiro noturno do rio Itararé (Florianópolis, Clube de Autores Editora, 2013); Tibete, de quando você não quiser ser gente (Rio de Janeiro, Editora Jaguatirica, 2017); Ele está no meio de nós (Curitiba, Kotter Editorial, 2018); O Marceneiro – a última tentativa de Cristo (Maringá, Editora Viseu, 2019),  O lixeiro e o presidente (Curitiba, Kotter Editorial, 2019); e Desjardim –  muito além do farol do final do mundo (Belo Horizonte, Editora Caravana, 2023).

Nos últimos tempos, lançou Transpenumbra do Armagedon (São Paulo, Desconcertos Editora, 2021); Cavalos selvagens, romance imaginativo (Curitiba, Kotter Editorial/Taubaté, Letra Selvagem, 2021); A Coisa: muito além do coração selvagem da vida (Cotia, Editora Cajuína, 2021); Lampejos (Belo Horizonte, Sangre Editorial, 2019); Leitmotiv: a longa estrada de fogueiras da cor de laranja: diário da paixão secreta de Anne Frank (Curitiba, Kotter Editorial, 2023), Vaca profana: microcontos (Cotia, Editora Cajuína, 2023); H2Opus (Cotia, Editora Cajuína, 2023); e Porto Garcia: no quarto escuro do meu ego sem respostas (Ouro Preto, Caravana Grupo Editorial, 2025).

É autor ainda de Bendito Filhoromance sobre a infância do Menino Jesus (Araraquara, Opera Editorial, 2023); Alucilâminas: poemas plathônicos, versos atemporais da redoma de vidro de Sylvia Plath (Cotia, Editora Cajuína, 2023); Ensaios gerais:  compêndio de críticas lítero-culturais (Belo Horizonte, Editora Caravana, 2024); Alfa & Betoda poética das palavrashistorial poético das letras (Cotia, Editora Cajuína, 2024); Rua Frida Kahlo (São Paulo, Editora Calêndula, 2024); O ano em que faremos contato com o elo perdido (São Paulo, Namíbia Editora, 2024); e O sequestro do sonho (São Paulo, Editora Calêndula, 2024).

É autor do primeiro livro interativo da rede mundial de computadores, o e-book O rinoceronte de Clarice (Rio de Janeiro, Editora Autografia, 2024), que foi tema de teses de mestrado e doutorado na Universidade Brasília (UnB) e na Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

Publicou também Porta-lapsos, poemas (São Paulo, Editora All-Print, 2005); O Homem que virou cerveja, crônicas (São Paulo, Giz Editorial, 2009); e Favela stories, contos (Cotia-SP, Editora Cajuína, 2022). Seus trabalhos constam em mais de cem antologias, inclusive no exterior, como na Antologia Multilingue de Letteratura Contemporanea, de Treton, Itália, e Christmas Anthology, de Ohio/EUA. Adelto Gonçalves - Brasil

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Coquetel MolotovDrinks para a morte, de Silas Corrêa Leite, com prefácio do poeta, ensaísta e curador de arte Luís Serguilha. São Paulo, Namíbia Editora, 172 páginas, R$ 96,00; 2026.  E-mails do autor: poesilas@terra.com.br; poesilas@gmail.com.  Sites do autor: www.poetasilascorrealeite.com.br; www. silascorrealeite.com Site da editora: www.namibiaeditora.com.br E-mail da editora: namibiaeditorial@gmail.com

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Adelto Gonçalves, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e  doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), publicado nos Estados Unidos e na Inglaterra.  E-mail: marilizadelto@uol.com.br


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