Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Contos repassados de lirismo

Novo livro do jornalista e escritor Hugo Almeida traz textos que fixam perplexidades do ser humano diante do mistério da vida  

                                                                      

                                                            I

Quinze narrativas que deixam no ar um enigma. É o que o leitor irá encontrar em A vizinha das sete cordas (São Paulo, Editora Sinete, 2026), de Hugo Almeida, que traz ainda um percuciente prefácio da escritora mineira Eltânia André, radicada em Lisboa, e textos de apresentação da poeta Lara Vaz-Tostes e do escritor e editor Whisner Fraga. São contos repassados de lirismo, que não trazem reflexões de um ensaísta, mas de um ficcionista-poeta, que procura fixar a solidão do homem e da mulher modernos, seus sonhos e perplexidades diante do mistério da vida.

Foram escritos ao longo dos últimos dez anos e construídos com uma arquitetura narrativa marcada pela concisão e pela força imagética que já estavam presentes em obras anteriores do autor, como Mil corações solitários (São Paulo, Editora Scipione, 1988) e Vale das ameixas (São Paulo, Editora Sinete, 2024), romances, e Certos casais (São Paulo, Editora Laranja Original, 2021), contos.

Tudo isso dotado deuma rara qualidade que reside na força temática, emocional e imagética e se traduz nos cortes, nas frases breves e precisas”, como observa Eltânia André no prefácio “Por quem as cordas vibram”, destacando também a conexão do contista “com obras e autores, tanto nos diálogos intertextuais e nas epígrafes que representam um nexo temático, quanto nas dedicatórias, que se convertem em homenagem e reconhecimento afetivo àqueles que cruzaram sua trajetória literária, acadêmica e existencial como inesgotáveis referências”.

Dos quinze textos, divididos em três partes – “Dentro de casa”, com cinco contos, “Fora de casa”, com sete, e “Além – tributo a três eternos”, com três –, já haviam sido publicados três: “O canto do sonho” em Nove, novena: variações (São Paulo, Olho d´água, 2016), coletânea organizada pelo autor em homenagem a  Nove, novena (1966), narrativas, do escritor pernambucano Osman Lins (1924-1978); “O canto de Clarice” em Feliz aniversário, Clarice (São Paulo, Autêntica Editora, 2020), coletânea organizada pelo autor em homenagem ao centenário da romancista, contista e ensaísta ucraniana-brasileira Clarice Lispector (1920-1977) e aos 60 anos de seu Laços de família (1960), contos, obra que foi incluída no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), do Ministério da Cultura, de 2021, para o ensino médio;  e “O casal do farol”, que saiu na antologia Quando não estávamos distraídos (São Paulo, Editora Sinete, 2023). Trata-se do décimo sétimo livro do autor e o quinto de contos.

 

                                                   II

No texto que abre o livro, “Nas nuvens”, o que se lê é a dúvida de um casal a caminho da senectude diante da iminência de trocar o conforto de uma velha e ampla casa térrea por um apartamento num dos andares mais altos de um prédio recém-construído, provavelmente insuflados pelo medo de serem assaltados quando abrissem o portão da garagem. Com humor e escrita elegante, Hugo Almeida reproduz com fidelidade o que, nesses momentos, passa pelas mentes de todo casal diante da iminência de mudar de vida:

“Comprar é mais fácil e rápido do que vender. Dezenas de interessados visitaram a nossa casa. Ofertas reais, duas. Inaceitáveis. Carro velho no meio, um bocado em dólar (por que não trocavam no banco?), cota de clube. Cash, mané, pouco, ou quase nada. Só faltavam oferecer vale-transporte e vale-refeição. Trinta anos de sacrifícios a troco de quê?”

Como se vê pelo trecho acima, o contista se vale do material de suas memórias para percorrer o labirinto da alma, mesmo nos pequenos acontecimentos da vida, e desencavar lembranças de momentos pelos quais talvez tenha passado ou tema vir a passar, acompanhado ou não. São “memórias” que, na verdade, perpassam o crivo do autor em que fatos íntimos se misturam com os fatos vividos por ele ou terceiros. Nesse caso, o memorialista parece buscar e recuperar o tempo perdido, que inclui pessoas e fatos que lhe povoam as lembranças. Ou, como diz Eltânia André no prefácio, “o autor realiza, num claro viés ontológico, a sondagem das vidas rotineiras envoltas num cotidiano de névoas, impulsos e contradições, retratando situações e sentimentos, confidências, medos e apreensões, sonhos e pesadelos”.

É o que se vê no conto “Duas estrelas”, que consta da segunda parte da obra, em que se conhece um episódio em que um casal e seu filho pequeno conseguem sair da rotina para passar uns dias confortáveis num hotel simples sem fazer nada, graças a um dinheirinho que o pai obtivera fazendo uma fezinha no jogo do bicho. Ou, provavelmente, em algo ainda mais irregular. Por isso, o desenlace é surpreendente porque, afinal, como conclui o contista, “a vida é peregrinação”.

 

                                                           III

Já no conto que dá título ao livro, Mira, uma professora que anda às voltas com pesquisas para a sua pós-graduação, vê a sua vida transformada ao passar a conviver com uma vizinha, Elvira, que, prestativa, cuida de seu animal de estimação e de seu apartamento, quando ela viaja, e acaba por lhe ensinar que sons e cores também ajudam a organizar a vida. Mas o que a vizinha apronta no fim surpreende Mira e os leitores.

No último texto da terceira parte, “O poeta e a estrela da manhã”, em que há uma epígrafe em homenagem ao poeta Manuel Bandeira (1886-1968), lê-se o testemunho de uma aluna de nome Soraya que vai à casa do professor Manuel, um solteirão que também é poeta. Interessada em escrever sobre o professor-poeta, sua vida e obra, ela acaba por conhecer a mãe dele, dona Francelina, conhecida como Dona Santinha, uma velhinha quase encarquilhada, que fala francês e gosta de citar Baudelaire, Valéry, Rimbaud e Mallarmé. O desfecho não se conta aqui para que o leitor não perca o prazer da surpresa, mas se adianta um pouco do que o professor-poeta disse à aluna-entrevistadora:

“A vida é um milagre. Cada pássaro é um milagre. Tudo é milagre. Ouvi um dia que sou mais antigo do que o som. Não me incomodo, caminho para o fim, hoje sou quase um silêncio. Na minha vida de poeta os meus contatos têm sido sempre com gente moça, o que talvez explique por que eu venha envelhecendo devagar. Vi que você sabe de uma coisa importante: escrever não é um martelo de ferreiro, não é um cântico de certezas. Para mim, como dizia um poeta francês, o Mallarmé, escrever poesia é fazer música com a dor”. 

Em outras palavras: como observa Whisner Fraga na contracapa, estes contos “reforçam que toda a vida é travessia e, nas sombras das veredas, pulsa um lampejo de espanto, fé e humanidade”. Enfim, o que se pode acrescentar é que, nestes contos, constata-se também a saudável influência de Osman Lins, cuja obra serviu como tema para a tese de doutoramento do autor, que, por sua vez, segue a rigorosa inovação estética e formal empreendida pelo escritor pernambucano.

 

                                                           IV

Mineiro radicado em São Paulo desde 1984, Hugo Almeida (1952), jornalista formado em 1976 pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), obteve o doutoramento em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), em 2005. Fez sua estreia em 1975 com Globo da morte, contos. Dez anos depois, publicou o segundo livro de contos, Em teu seio Liberdade (São Paulo, EMW Editores).  Com o romance Mil corações solitários conquistou o Prêmio Nestlé de 1988 e o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de 1987, este com o título de Carta de navegação, obra que chegou em 2025 em sua quarta edição, pela Editora Sinete, de São Paulo, e alcança agora, em 2026, a quinta edição pela mesma editora.

As outras saíram pela Editora Scipione, em 1991 e 1994. Desta vez, a obra traz prefácio do escritor e crítico Álvaro Cardoso Gomes, professor titular da USP, mantém o posfácio do escritor mineiro Ronaldo Cagiano, radicado em Portugal, além de incluir ensaio de Lara Vaz-Tostes, resenhas do livro já publicadas na imprensa e comentários de leitores.

Filho de engenheiro e professora, ele baiano, ela mineira, Hugo Almeida nasceu em Nanuque, em Minas Gerais, mas deixou a cidade natal antes de completar dois meses. Passou a maior parte da infância em Jequié, na Bahia, cidade banhada pelo rio de Contas, que aparece em Viagem à lua de canoa (São Paulo, Nankin Editorial, 2009), reedição de Mais rápido do que a luz (São Paulo, Editora FTD, 1988), livro selecionado pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), do Ministério da Educação, em 2011.

Depois, viveu um ano em Alagoinhas, também na Bahia, e, aos 9 anos, mudou-se com a família para Belo Horizonte, onde morou 22 anos. Sempre trabalhou como jornalista profissional, com longa carreira na redação do jornal O Estado de S. Paulo.

É autor também de A voz dos sinos – o sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins (São Paulo, Editora Sinete, 2024), seu décimo sexto livro e o primeiro de estudos literários. Também publicou a novela juvenil Porto Seguro, outra história (São Paulo, Nankin Editorial, 2005), os livros infantis Todo mundo é diferente (São Paulo, Lê Editora, 1996), Pare, olhe, siga: boa viagem (São Paulo, Editora Ícone, 2000) e Que dia será o dia? (São Paulo, Nankin Editorial, 2007), além da novela Meu nome é Fogo (Belo Horizonte, Editora Dimensão, 2009) e Menino anjo capeta beija-flor (Ananindeua-PA, Edições 1/4, 2019). É autor ainda de Cinquenta metros para esquecer, contos (São Paulo, Didática Paulista, 1996) e de Minha estreia no crime – Estação 111 (São Paulo, Lê Editora, 1997), romance inspirado no massacre do Carandiru, ocorrido a 2 de outubro de 1992, em São Paulo.

É um dos participantes da antologia Quando não estávamos distraídos (São Paulo, Editora Sinete, 2023). Organizou e prefaciou Osman Lins: o sopro na argila (2004), ensaios; e com Rosângela Felício dos Santos organizou Quero falar de sonhos (São Paulo, Hucitec Editora, 2014), reunião de artigos do autor de Avalovara. Adelto Gonçalves - Brasil

Mantém o site https://hugoalmeidaescritor.com.br 

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A vizinha das sete cordas, contos, de Hugo Almeida. São Paulo: Editora Sinete, 1ª edição, 152 páginas, R$ 60,00, 2026. Site: www.editorasinete.com.br E-mail: editorasinete@gmail.com

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e Estados Unidos.  E-mail: marilizadelto@uol.com.br

 



domingo, 9 de agosto de 2026

Reino Unido - Publicou poesia ou prosa? O Grande Prémio de Literatura Portuguesa na Diáspora é para si

O jornal “As Notícias”, com sede no Reino Unido, lançou o Grande Prémio de Literatura Portuguesa na Diáspora, uma iniciativa com inscrições gratuitas e de âmbito internacional destinada a “reconhecer, valorizar e promover a criação literária de autores portugueses residentes fora de Portugal”, em duas categorias: Prosa e Poesia


De acordo com os seus organizadores, “com periodicidade anual, o prémio pretende afirmar-se como uma referência cultural da diáspora portuguesa, distinguindo obras de elevada qualidade escritas em língua portuguesa e incentivando a produção literária das comunidades portuguesas espalhadas pelos cinco continentes”, tendo como objetivo ainda “valorizar a ligação à língua e à cultura portuguesas através da escrita”.

A iniciativa destina-se a cidadãos com nacionalidade portuguesa residentes atualmente no estrangeiro, com idade mínima de 18 anos.

As obras a concurso devem ter sido publicadas entre 5 de maio de 2024 e 6 de setembro de 2026, não podem estar vinculadas a outros concursos nem terem sido já premiadas noutras oportunidades. Não são elegíveis autores residentes em Portugal, ainda que tenham sido emigrantes no passado. O encerramento das candidaturas acontece dia 6 de setembro 2026.

Serão atribuídos prémios pecuniários para os vencedores em cada categoria, no valor de 500 libras. Os trabalhos serão avaliados por um júri composto por personalidades de reconhecido mérito no panorama literário e cultural português.

“Mais do que um concurso literário, o projeto pretende dar visibilidade a autores que, muitas vezes longe dos grandes circuitos editoriais, contribuem de forma significativa para a riqueza e diversidade da literatura em português”, disseram os responsáveis.

A primeira edição culminará com a cerimónia de entrega dos prémios em Thetford, na Inglaterra, dia 6 de novembro de 2026, integrada nas celebrações do 20.º aniversário do jornal As Notícias, quando “deverão estar presentes os concorrentes ou se fazerem representar”.

“Ao longo de décadas de emigração, milhões de portugueses construíram histórias de vida que fazem parte da memória coletiva do país. O Grande Prémio de Literatura Portuguesa na Diáspora nasce precisamente para preservar esse património humano, cultural e histórico, incentivando a escrita como veículo de memória, identidade e aproximação entre Portugal e as suas comunidades no estrangeiro”, afirmaram esses mesmos responsáveis pelo jornal localizado no Reino Unido, que sublinharam que, numa primeira fase, o projeto conta com a colaboração de vários órgãos de comunicação social da diáspora portuguesa, entre os quais o Bom Dia além do apoio da Direção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas (DGACCP).

O regulamento pode ser consultado aqui.

As candidaturas devem ser feitas online aqui. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo




A baronesa do Forte Coimbra

Minha filha, Letícia, questionou-me o porquê de somente ela ter sido registrada com um dos sobrenomes da família de seu pai, o Portocarrero. É mesmo belo esse Portocarrero de origem espanhola, ligado às regiões de Castela e da Estremadura. Significa algo como “porto”: passagem e “carrero”: carreiro, caminho de carros. As rodas das carroças sulcando as antigas estradas ibéricas.


Em Mato Grosso do Sul, Portocarrero lembra um episódio da Guerra do Paraguai (1864-1870), o maior conflito armado da América Latina. O Paraguai se opôs à Tríplice Aliança, formada por Brasil, Argentina e Uruguai, num confronto mortífero, de dor e destruição. Combates, fome, doenças. Países esgotados espiritual e financeiramente. Esse foi o saldo da cruenta guerra.

O tenente-coronel Hermenegildo de Albuquerque Portocarrero (1818-1893) foi enviado para inspecionar o Forte Coimbra, localizado às margens do rio Paraguai, município de Corumbá. Esse forte foi construído em 1775, no período colonial, pelos portugueses, para proteger a fronteira oeste e controlar a navegação. Todo branco, imponente, cercado por grossas muralhas, onde pousam garças e tuiuiús. Dos mirantes avista-se a paisagem pantaneira. As ilhas de camalotes com flores roxas que descem o rio. É patrimônio histórico e destino turístico.

Era o princípio da guerra. Ao anoitecer do dia 26 de dezembro de 1864, surgiu a poderosa esquadra do coronel paraguaio, Vicente Bárrios: 11 navios de guerra, 29 peças de artilharia, 3200 homens. No forte, a guarnição brasileira possuía dois canhões, 250 pessoas, entre elas, 115 soldados e civis, 70 mulheres, crianças e 10 indígenas guaicurus. Portocarrero assume a defesa. Quando recebeu um ultimato para render o forte, recusou-se a capitular e declarou que resistiria “até o último cartucho”. Seguiram-se dois dias de intenso bombardeio. Foi nesse momento que se levantou a liderança de sua esposa, a uruguaiana Ludovina Portocarrero (1825-1912). Ludovina organizou parte das mulheres para fabricarem buchas de munição com pedaços de suas saias. Algumas cozinhavam. Outras escalavam na escuridão da noite as íngremes barrancas para buscar água em latas. Outras ainda prestavam assistência aos feridos. Nenhuma gritava. Nenhuma chorava. Mantinham, firmes, o moral dos soldados. Entre as heroínas, a maioria anônimas, destacaram-se duas mulheres do povo, as negras Aninha Cangalha e Maria Fuzil.

Ludovina, cheia de fé (e a fé move os obstáculos), retirou a faixa de comandante do uniforme do marido e a colocou aos pés da imagem de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do forte. Confiou simbolicamente o governo daquelas vidas a algo sobrenatural, extraordinário. Depois, deu ordem ao soldado músico, o Verdeixas, para subir no ponto mais alto da muralha e mostrar a imagem. O gesto abalou a sensibilidade religiosa dos paraguaios. Todos aplaudiam, deliravam, bradavam vivas. Uma verdadeira comoção. Enquanto isso, a população de Corumbá, em pânico, fugia pelas matas. Muitos foram massacrados. Portocarrero ordena a retirada durante a noite, numa embarcação chamada “Amambaí”. Ninguém ficou para trás. O barco não fez barulho, não soltou faíscas, não bateu remos nas pedras. Envolto na bruma, sumiu na correnteza do rio.

Anos mais tarde, Ludovina e Portocarrero receberam das mãos de Dom Pedro II os títulos de Barão e Baronesa do Forte Coimbra. Era 1889, final melancólico do império. Ludovina ficou viúva aos 68 anos. Perdeu oito de seus 15 filhos. Mergulhou em sua digna velhice. Faleceu aos 87 anos, no Rio de Janeiro.

Descendente direta do casal foi Tônia Carrero (1922-2018), Maria Antonieta Portocarrero Thedim, a sedutora atriz, filha do neto, general Hermenegildo Portocarrero e de Dona Zilda. A estrela de tantos filmes, peças teatrais e novelas. Mais de seis décadas de dedicação à dramaturgia. Morreu de hidrocefalia, aos 95 anos, cercada por filho e netos. Seu brilho permanece. Era azul, divino, de diva.

Por que coloquei o sobrenome Portocarrero em você, filha? Tornei-a LP, Letícia Portocarrero, como era ela, Ludovina Portocarrero. O anagrama LP bordado no linho do enxoval que se encontra até hoje no Forte Coimbra. Uma coincidência? Um chamado? Uma sugestão? Um augúrio? Um legado? Não sei, mas desejo que você tenha a mesma coragem dela para enfrentar as guerras. Raquel Naveira – Brasil in “saojoaodel-rei.blogspot”

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Raquel Naveira (1957), nascida em Campo Grande, formada em Direito pela Universidade Católica Dom Bosco (1976), em sua cidade natal, é mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2001), de São Paulo. Graduou-se em Língua e Literatura Francesa pela Universidade de Nancy (1981), da França, e em Letras pela Universidade Católica Dom Bosco (1994), onde deu aulas de Literaturas Brasileira, Latina e Portuguesa por 19 anos e aposentou-se.

Residiu no Rio de Janeiro, onde lecionou na Universidade Santa Úrsula e, em São Bernardo do Campo-SP, na Faculdade Anchieta. Deu também aulas na pós-graduação da Universidade Nove de Julho (Uninove), de Comunicação Aplicada na Faculdade de Tecnologia em Hotelaria, Gastronomia e Turismo (Hotec) e na pós-graduação da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo.

Ministrou palestras e cursos em escolas e em várias instituições culturais como Casa das Rosas, Casa Guilherme de Almeida e Casa Mário de Andrade, em São Paulo. Na Academia Paulista de Letras, participou do Ciclo de Memória da Literatura, discorrendo sobre o trabalho das romancistas Maria de Lourdes Teixeira (1907-1989) e Stella Carr (1932-2008).

É autora de mais de 40 títulos de poesia, crônicas, ensaios e romances, entre eles: Abadia, poemas (Editora Imago,1996), e Casa de Tecla, poemas, obra indicada ao Prêmio Jabuti de Poesia, pela Câmara Brasileira do Livro. Escreveu o livro infanto-juvenil Pele de Jambo (1996) e o de ensaios Fiandeira (1992).

Publicou os romanceiros Guerra entre irmãos (1993), poemas inspirados na Guerra do Paraguai (1864-1870), e Caraguatá (1996), inspirados na Guerra do Contestado (1912-1916), conflito armado entre os Estados de Santa Catarina e Paraná, a partir de luta entre posseiros e pequenos proprietários pela posse de um território, livro que inspirou o filme de curta-metragem Cobrindo o Céu de Sombra, monólogo com a atriz Christiane Tricerri.

É autora também de: Via Sacra (1989); Fonte Luminosa (1990); Nunca-Te-Vi (1991); Sob os Cedros do Senhor (1994); Canção dos Mistérios (1994); Mulher Samaritana (1996); Maria Madalena (1996); O Arado e a Estrela (1997); Rute e a Sogra Noemi (1997); Intimidades Transvistas (1997); e Senhora (1999), que recebeu o prêmio Jorge de Lima-Brasil 500 anos, concedido pela Academia Carioca de Letras e pela União Brasileira de Escritores (UBE), seção do Rio de Janeiro, em 2000.

Publicou ainda: Stella Maia e Outros Poemas (2001); Xilogravuras (2001); Maria Egipcíaca (2002); Casa e Castelo (2002); Tecelã de Tramasensaios sobre interdisciplinaridade (2005); Portão de Ferro (2006); Literatura e Drogase outros ensaios (2007); Guto e os Bichinhos (2012); Sangue Português (2012); Álbuns de Lusitânia (2012); e Jardim Fechadouma antologia poética (2016), livro comemorativo dos seus 30 anos de carreira literária, entre outros.

Em 2002, lançou o CD Fiandeiras do Pantanal, em que declama seus poemas, acompanhada por craviola e pela voz da cantora Tetê Espíndola. Fiandeira foi indicado como leitura obrigatória do vestibular da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Este livro e mais Jardim Fechado: uma antologia poética foram eleitos como os representativos de Mato Grosso do Sul pelo portal G1.

Nos últimos tempos, lançou Leque Aberto (2020), Romanceiro de Cabeza de Vaca: o andarilho das Américas (2020) e Manacá (2021), crônicas em que mescla em prosa poética tradição e modernidade. Em 2022, publicou No Mundo Encantado de Luciana, infanto-juvenil e, em 2023, Mundo Guaranifragmentos de uma alma da fronteira, obra de memória que está entre a crônica, a novela e o romance e obteve o Prêmio João do Rio, da UBE, do Rio de Janeiro, narrativa que traz à tona o universo da fronteira entre o Brasil e o Paraguai, em que recupera suas vivências com a herança indígena ainda extremante forte na cidade de Bela Vista, na fronteira com o Paraguai, à beira do rio Apa.

Em 2024, lançou Ponto de Fuga & Outros Poemas (São Paulo, Inmensa Editorial), coletânea de poemas originalmente publicados em dez de seus livros, que reúne também peças inéditas, os chamados poemas “vegetais”, gênero que, aliás, já estava presente em obras anteriores.

Pertence à Academia Sul-mato-grossense de Letras, à Academia Cristã de Letras, de São Paulo, à Academia de Letras do Brasil, de Brasília, à Academia de Ciências de Lisboa e ao PEN Clube do Brasil. Escreve para várias revistas e jornais como Correio do Estado-MS, Jornal de Letras-RJ, Linguagem Viva-SP, Jornal da ANE-DF e O Trem-MG, entre outros. Adelto Gonçalves - Brasil



Que pena


















Vamos aprender português, cantando

 

Que pena

 

Esqueceste-me

andas às voltas na minha mão

vendeste-me

andas perdido em solidão

tu lembras-te

do meu perfume, da minha voz?

Perdeste-me

agora eu escrevo sobre nós

 

Eu não preciso que me atendas

enrolada nos teus esquemas

sou tão fraca que te tornei especial

andas com tudo controlado

mentes bem e tens piada

era uma pena se algo te corresse mal

 

Que pena, que pena que eu teria

se caísses e partisses o nariz

ai, que pena

que pena, acordares sem um dente

e o teu dentista estava fora do país

ai, que pena

que pena, encontrares a mulher com que sonhaste

e ter a vida que eu nunca consegui ter

que pena, que pena que eu teria

pena e tanta covardia

de odiar o amor do amor da tua vida

 

Quando me ouves, ainda pensas que eu só escrevo sobre nós

diz-lhe a ela que é a sério e não gostas da minha voz

que as letras que eu invento nunca são originais

que vocês são tão diferentes e nós demasiado iguais

que eu nunca fui perfeita, nunca fui bem p'ra ti

a vida que vivias, tornei-a só sobre mim

tinhas os mesmos medos e eu não puxava por ti

agora és tu e ela até ao dia que fugires

 

Que pena, que pena que eu teria

se caísses e partisses o nariz

ai, que pena

que pena, acordares sem um dente

e o teu dentista estava fora do país

ai, que pena

que pena, encontrares a mulher com que sonhaste

e ter a vida que eu nunca consegui ter

que pena, que pena que eu teria

pena e tanta covardia

de odiar o amor do amor da tua vida

 

Esqueceste-me

andas às voltas na minha mão

vendeste-me

andas perdido em solidão

 

Que pena, que pena que eu teria

se caísses e partisses o nariz

ai, que pena

que pena, acordares sem um dente

e o teu dentista estava fora do país

ai, que pena

que pena, encontrares a mulher com que sonhaste

e ter a vida que eu nunca consegui ter

que pena, que pena que eu teria

pena e tanta covardia

de odiar o amor do amor da tua vida

 

Ai, que pena

 

Francisca Borges - Portugal

 

sábado, 8 de agosto de 2026

Guiné Equatorial e Cuba ampliam a sua cooperação com novos projetos nas áreas de energia e pesca

O fortalecimento da cooperação bilateral foi o foco da audiência que o Vice-Presidente da República concedeu ao embaixador de Cuba na Guiné Equatorial

Os governos da Guiné Equatorial e de Cuba reafirmaram o seu compromisso de continuar a consolidar as suas relações de cooperação, após constatarem o progresso alcançado nos diversos projetos que ambos os países estão desenvolvendo em conjunto.

A avaliação foi feita durante uma reunião realizada na quinta-feira na residência oficial do chefe de Estado em Malabo, entre o vice-presidente da República, Nguema Mangue, e o embaixador cubano, Ángel Cordero.

Durante a reunião, que contou também com a presença dos Ministros de Estado dos Negócios Estrangeiros, da Cooperação Internacional e da Diáspora, Simeon Angué, e da Defesa, Victoriano Okomo, as delegações analisaram o grau de implementação dos acordos bilaterais, com especial atenção aos setores da agricultura, da educação e da saúde, considerados pilares da cooperação entre os dois países.

Na esfera social, Nguema Mangue destacou a contribuição dos profissionais cubanos que atuam na Guiné Equatorial, especialmente médicos e professores, cujo trabalho fortaleceu a saúde e a formação acadêmica no país. Ambos os lados também elogiaram o programa de bolsas de estudo que permite aos estudantes guineenses cursar o ensino superior em Cuba.

Como resultado do encontro, a Guiné Equatorial e Cuba manifestaram a sua vontade de expandir a cooperação para novos setores estratégicos, incluindo energia e pesca, com o objetivo de diversificar a colaboração bilateral e fortalecer uma relação diplomática que se mantém há mais de cinco décadas. Sinfórica Esodja – Guiné Equatorial in “Real Equatorial Guinea”


Guiné Equatorial - Concurso Literário Feminino reforça a formação das suas participantes com uma oficina sobre bem-estar emocional ministrado pela UNICEF

O evento contou com a presença do Diretor Geral de Centros Culturais, Bibliotecas e Imagem, como parte do programa de treino do concurso


A Biblioteca Nacional da Guiné Equatorial acolheu um novo dia de formação da II Edição do Concurso Literário Feminino da Guiné 2026, com foco na promoção do bem-estar emocional e do desenvolvimento pessoal das participantes.

A oficina foi conduzida por Cristina Matos, especialista da UNICEF Guiné Equatorial, que compartilhou com os participantes ferramentas focadas no autocuidado, fortalecimento da autoestima, gestão das emoções e criação de ambientes seguros e saudáveis, aspectos considerados fundamentais para o seu crescimento pessoal e académico.

A atividade contou com a presença do Diretor-Geral dos Centros Culturais, Bibliotecas e Imagem, que transmitiu uma mensagem de apoio e motivação aos participantes, destacando o papel da cultura, da literatura e da educação como elementos essenciais para a formação de uma juventude preparada e comprometida com o desenvolvimento da Guiné Equatorial.

Durante o evento, a equipa organizadora expressou a sua gratidão à UNICEF Guiné Equatorial pela colaboração no desenvolvimento do workshop e, em particular, à sua representante, Shelly, pelo apoio a esta iniciativa. Agradeceram também o apoio do Ministério da Informação, Imprensa, Cultura e Turismo para a realização do evento.

Os organizadores também expressaram a sua gratidão pelo apoio contínuo de pais, professores, tutores e colaboradores, enfatizando que a educação dos jovens é um investimento fundamental para o futuro do país. Catalina Nchama – Guiné Equatorial in “Real Equatorial Guinea”


Itália - Antiga domus é revelada sob obra de restauração em Roma

Um projeto de restauração de rotina no Monte Célio, em Roma, levou à descoberta de um antigo edifício romano decorado com mosaicos, afrescos e tetos pintados. Arqueólogos descobriram oito cómodos que datam do século II d.C.


O que começou como um projeto de engenharia de rotina no Monte Célio, em Roma, transformou-se numa das descobertas arqueológicas mais significativas da cidade nos últimos tempos.

Arquitetos que reforçavam uma antiga muralha romana na Villa Celimontana descobriram inesperadamente os restos de um grande edifício da época romana, decorado com mosaicos elaborados, afrescos e tetos pintados. Os arqueólogos identificaram até agora oito cómodos, cinco dos quais foram totalmente escavados, enquanto vários outros se estendem para além da área de escavação atual.

A arqueóloga-chefe Simona Moretta disse que a equipa esperava encontrar vestígios antigos, dada a localização do sítio arqueológico próximo ao Fórum Romano, mas não em tal escala.

"Estando no coração da Roma antiga, a um passo do Fórum Romano, a possibilidade de haver algo antigo ali era algo que certamente havíamos considerado, mas não com esta importância. Encontrámos um edifício com cinco cómodos completos, além de outros oito cómodos cujas paredes se estendem até à área da seção de escavação, mas que não pudemos escavar. Trata-se, portanto, de um edifício bastante grande, especialmente com valiosas decorações de superfície, pois, em particular, no cómodo 'V', sobrepusemos dois mosaicos – um do século III d.C. e o inferior, por sua vez, do século II d.C."

As equipas de escavação estão agora a limpar e catalogar centenas de artefactos, incluindo fragmentos de mármore, cerâmica, mosaicos e gesso pintado. Os restauradores também estão a reconstruir um teto ricamente decorado, recuperado em grandes seções.

Moretta afirmou que a preservação do teto superou as expectativas.

"Também temos alguns fragmentos de afrescos e, especialmente no mosaico mais recente que encontrámos nesta sala, encontrámos partes da pintura do teto em grande escala, que conseguimos examinar com a ajuda de excelentes restauradores."

Ela acrescentou: "Agora, guardamos tudo e depois será reconstruído. Acho que teremos mais de 50% da sala inteira. Um teto lindo, pintado com círculos vermelhos e azuis e molduras de estuque branco com dentículos."

A descoberta obrigou os engenheiros a expandir o que havia sido originalmente planeado como um projeto de estabilização simples. A arquiteta Alessandra Centroni, diretora de obras, afirmou que a escavação rapidamente se tornou muito mais extensa do que o previsto.

"Obviamente, sendo esta uma descoberta excepcional, aprofundamos a escavação que não estava planeada para esta entidade, mas fomos gradualmente mais fundo, precisamente para tentar entender o que tínhamos diante de nós, em suma, o que estávamos a descobrir."

Segundo Daniela Porro, Superintendente Especial de Roma para Arqueologia, o complexo data do século II d.C. e foi posteriormente modificado durante o século III.

"Existem oito salas, das quais cinco foram completamente escavadas e três parcialmente escavadas, as quais, no entanto, revelaram uma decoração de grande valor com mosaicos no piso. Uma dessas salas possui um belo mosaico geométrico, cujo centro apresenta um emblema representando um golfinho e peixes ao redor de uma cratera."

Os investigadores ainda não determinaram a função original do edifício. A sua decoração refinada sugere que ele pode ter pertencido a uma família romana influente, embora outra possibilidade seja que tenha servido como quartel ligado ao antigo corpo de bombeiros da cidade.

Porro afirmou que serão necessárias mais pesquisas antes que se possa chegar a conclusões definitivas.

"Poderia ter sido uma domus pertencente a uma família importante, que teria uma decoração tão elegante, ou também poderiam ser quartéis ligados ao corpo de bombeiros da Roma antiga. E sobre este ponto, os estudos ainda estão em andamento e certamente acabarão por nos revelar algo mais."

A escavação faz parte dos trabalhos de restauração financiados pelo Plano Nacional de Recuperação e Resiliência (PNRR) da Itália, com o apoio da União Europeia. Os arqueólogos esperam que as escavações e os trabalhos de conservação em andamento forneçam novas informações sobre a história da Roma Antiga. Euronews.culture