Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Timor-Leste – Nações Unidas vê dupla crise como impulso para nova resposta à economia

A pandemia põe em xeque a década de aposta de Timor-Leste em tornar-se “uma nação próspera e forte de rendimento médio alto até 2030”. As recentes enchentes já mataram dezenas de pessoas e desalojaram mais de 30 mil famílias, segundo as Nações Unidas.

Este ano, a organização projeta que a economia timorense volte a recuar, depois de ter encolhido 7% em 2020. Outro fator de impacto é a redução global das remessas, que continuará afetando “muitas famílias no próximo ano e possivelmente mais além”.


Vulnerabilidades 

Para o coordenador residente das Nações Unidas em Timor-Leste, o duplo impacto da Covid-19 e das recentes inundações expôs ainda mais as vulnerabilidades da nação lusófona e coloca-a ainda mais distante de alcançar as ambições até ao fim da década. 

Roy Truvedi considera que as duas situações são “chamadas de alerta” sobre a necessidade de se investir na diversificação da economia, fortalecendo as infraestruturas, consolidando o capital humano mais qualificado e reforçando as redes de segurança social do país. 

Para construir resiliência a futuros choques, o coordenador residente defende que é preciso mais investimento em setores como agricultura e pesca, água potável e saneamento, energia renovável e saúde, educação e proteção social.

As declarações foram feitas na Reunião dos Parceiros de Desenvolvimento de Timor-Leste recentemente organizada pelo governo em Díli.

Prioridades 

No evento, o vice-primeiro-ministro timorense disse que deve ser alinhada a assistência com as prioridades governamentais. José Maria dos Reis ressaltou as seis áreas prioritárias que concentrarão as atenções do governo no próximo ano. 

Cooperando com as autoridades, a ONU atuará nessas seis vertentes, com destaque ao apoio à nutrição, segurança alimentar e agricultura sustentável. Outra é a promoção de oportunidades económicas sustentáveis e trabalho decente para todos.

O plano prevê ainda construir capital humano a partir do desenvolvimento da primeira infância e apoiar a aprendizagem e as habilidades ao longo da vida. A parceria promoverá cuidados de saúde e bem-estar de qualidade, o reforço de governança responsável, inclusiva e participativa e dos serviços públicos de qualidade. A ONU apoiará ainda a gestão sustentável de recursos naturais e a resiliência de Timor-Leste às alterações climáticas.

Emergência  

Ao declarar apoio às novas prioridades, as Nações Unidas destacaram o mais recente Relatório Económico do Banco Mundial estimando que a economia timorense deverá contrair em quase 5% até ao final deste ano.

A organização disse acreditar que esta contração pode ser ainda mais significativa em 2021. O estado de emergência devido à Covid-19 foi estendido e há uma grande probabilidade de que esse impacto seja sentido por vários anos.

Os gastos públicos limitados podem marcar o ano de 2021, refletindo um revés provocado pelo aumento significativo de casos na pandemia que ameaça a saúde pública, a recuperação e a retoma de uma trajetória de crescimento sustentável. ONU News – Nações Unidas      


Moçambique - Forte contingente para combater o terrorismo enviado pela África do sul para Cabo Delgado

A África do Sul começou a mostrar o seu músculo militar no norte de Moçambique com o primeiro contingente fortemente equipado, em número de homens e armamento, no quadro das decisões tomadas pela Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) para combater o terrorismo protagonizado pelos radicais islâmicos do al-shabbab que há anos mantêm a província de Cabo Delgado a ferro e fogo

A chegada das Força de Defesa Nacional da África do Sul (SANDF, na sigla em inglês), por terra, mar e ar, com perto de 1500 elementos no terreno, é uma resposta clara aos radicais islâmicos do al-shabbab, mas não só; é também uma clara demonstração de posição e demarcação de território face à presença, desde o início de Julho, de um igualmente forte contingente militar, que inclui forças de polícia, enviadas pelo Presidente Paul Kagame, do Ruanda e que provocou óbvio mal estar entre os países-membros da SADC.

O Ruanda, com cerca de mil homens, foi o primeiro país a colocar forças militares significativas em Cabo Delgado, a província do norte de Moçambique sujeita a uma tempestade de terror soprada pelo radicalismo islâmico nos últimos anos, e a evidente irritação na SADC decorre da demonstração de capacidade de mobilidade das forças ruandesas e da sua notória versatilidade de actuação no continente africano - já tem forte presença na República Centro-Africana (RCA) - face à até aqui inércia no interior da comunidade austral que detém dois dos mais robustos Exércitos africanos - África do Sul e Angola - e por se tratar de um país geograficamente fora do círculo político austral.

Após a antecipação de Kigali no envio de apoio a Maputo para combater os radicais islâmicos, dentro da SADC, ao mesmo tempo que se faziam ouvir vozes críticas da acção estratégica de Paul Kagame, aqui e ali deixando no ar a ideia de que o Ruanda correu para Cabo Delgado "a mando" da França que tem ali um investimento de biliões na exploração de gás natural pela Total, a petrolífera de referência gaulesa, os países da SADC mais capacitados operacionalmente, como Angola, apressaram-se a mostrar presença no local, embora a um nível mais ligeiro, o de conselheiros militares e ou na formação das forças moçambicanas.

Mas foi a África do Sul, que já ali manteve centenas de elementos da segurança de empresas civis (mercenários) e cidadãos a trabalhar - pelo menos dois foram mortos nos ataques à localidade de Palma, em Março deste ano, que deu o passo mais relevante, agora, com a colocação, como se pode ler numa fundamentada notícia do jornal sul-africano Mail & Guardian, de uma força militar que envolve meios aéreos, navais e terrestres, incluindo o navio de guerra SAS Makhanda, parte estrutural das suas forças especiais no terreno e que vai integrar as forças navais previstas pela SADC (SAMIM, na sigla em inglês) na costa norte de Moçambique.

Esta força sul-africana é maioritariamente constituída por elementos humanos e equipamento, incluindo dezenas de veículos blindados de combate e de transporte de tropas da 43ª Brigada, com sede a norte de Pretória, que foram escoltados por forças moçambicanas entre a fronteira com Moçambique e Cabo Delgado, para onde foram igualmente meios aéreos, incluindo dois C-130, avões multifacetados que podem ser utilizados em combate próximo do solo, no transporte de homens e ainda na deslocação rápida de material militar de vários tipos, e um aparelho especialmente equipado para vigilância aérea das movimentações dos grupos armados da al-shabbab no solo.

O Mail & Guardian revela que os dois C-130 têm estado, nas últimas semanas, a realizar voos permanentes entre Pretória e Pemba, a capital da província de Cabo Delgado, transportando equipamento militar, contendo toneladas de munições, o que revela que se trata de forças objectivamente preparadas para combater, transmissões, e um número indeterminado de membros das Forças Especiais da SANDF.

A par da África do Sul, também o Zimbabué (analistas admitem que possam ser três centenas de tropas enviadas por Harare) e o Botsuana (300 militares confirmados) - de fora do continente, Portugal e EUA enviaram grupos de conselheiros e formadores com o objectivo de treinar as forças moçambicanas em técnicas de anti-terrorismo - embora com menor peso, destacaram forças militares de relevo para Cabo Delgado nos últimos dias, tendo estes países optado, todavia, por não detalhar os objectivos das respectivas missões no contexto de combate aos grupos armados que operam nesta região moçambicana que faz fronteira com a Tanzânia.

Cabo Delgado, recorde-se, começou a ser fustigada por ataques de grupos armados denominados al-shabbab, que quer dizer em árabe "a juventude", com maior intensidade, a partir de 2017, coincidindo com o arranque do projecto de exploração de gás natural do Rovuma, envolvendo a francesa Total e a norte-americana Anadarko, que, entretanto, perdeu interesse no investimento antes da suspensão decidida pela Total.

Nos últimos anos, marcados claramente em densidade violenta pelos ataques de Março e Abril deste ano, em Palma, uma localidade de 40 mil habitantes, mais de 2 mil pessoas perderam a vida e dezenas de milhares deixaram as suas casas, muitas dela destruídas pelo fogo durante ataques a aldeias do al-shabbab.

A maior parte dos deslocados estão ainda hoje, apesar de muitos terem regressado às suas aldeias, em campos de acolhimento erguidos à pressa, nas proximidades de Pemba, capital provincial de Cabo Delgado.

Esta forte movimentação militar de países da SADC - Angola ainda só deslocou oficialmente conselheiros militares para Pemba mas estima-se que a presença angolana possa ser já ou vir a ser substancialmente mais alargada - visa, no capítulo político, criar condições para a normalização da vida comunitária em Cabo Delgado, expulsando os radicais da província.

A par deste objectivo, de rápida normalização da vida no norte de Moçambique, surge uma clara procura de enviar uma mensagem robusta de que o continente começa a criar mecanismos de resposta para as investidas dos grupos de radicais islâmicos, depois de anos a fio a chegar tarde às regiões onde isso foi evidente, como é o caso do Sahel, especialmente em países como o Mali e o Burkina Faso, onde estes grupos aparentam ser agora donos e senhores de vastos territórios.

E uma das mensagens pode mesmo ser para os movimentos islâmicos que operam no leste da RDC, país com fronteira extensa com Angola, como ficou, de resto, espelhado nos receios manifestados pelos bispos católicos do Congo numa recente reunião da Conferência Episcopal Nacional do Congo (CENCO). In “Novo Jornal” - Angola

 


terça-feira, 3 de agosto de 2021

Brasil – Assinado acordo para Portugal participar na Bienal do Livro de São Paulo como país convidado de honra

Portugal terá um pavilhão próprio na Bienal do Livro, com programação literária, cultural, turística e de negócios, para o intercâmbio de escritores, editores e público em geral


Durante visita do presidente português a São Paulo, aconteceu no Consulado Geral de Portugal em São Paulo a assinatura do Acordo de compromisso para a participação de Portugal como país convidado de honra da Bienal Internacional do Livro de São Paulo (BILSP), que ocorre entre 2 e 10 de julho de 2022.

O Acordo foi assinado por Vitor Tavares, Presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e Luís Faro Ramos, Embaixador de Portugal, em representação das entidades envolvidas na organização da participação portuguesa, Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P. e a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), no quadro de uma equipe interministerial que conta ainda com a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) e o Turismo de Portugal.

A cerimônia, no dia 31, contou com o Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, o Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, o Cônsul-Geral de Portugal em SP, Paulo Jorge Nascimento, a Diretora Executiva da CBL, Fernanda Gomes Garcia, e a gerente de Relações Internacionais, Fernanda Dantas.

“É com muito entusiasmo que assino este Acordo. Ter Portugal como país convidado de honra na 26.ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, além de ser um privilégio, acontece em um momento muito especial. O ano de 2022 é o bicentenário da independência do Brasil, então temos muito o que celebrar juntos”, explica Vitor Tavares, presidente da CBL.

“Aceitamos com especial satisfação este honroso convite para ser o país tema da 26.ª Bienal Internacional do Livro de S. Paulo, palco por excelência de difusão do conhecimento e de promoção de encontros e diálogos, que estamos empenhados em aprofundar em conjunto, num ano particularmente importante para o relacionamento entre Portugal e o Brasil” destaca João Ribeiro de Almeida, Presidente do Camões, I.P.

Silvestre Lacerda, Diretor-Geral da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, refere que “esta presença de Portugal enquanto país-tema, que considera uma honra, contribuirá certamente para uma maior divulgação da literatura portuguesa no Brasil, na qual a DGLAB se tem empenhado nos últimos anos, nomeadamente através do apoio regular à edição de autores portugueses no Brasil”.

A participação de Portugal na BILSP foi um convite da Câmara Brasileira do Livro e tem como objetivo fortalecer a presença portuguesa no mercado editorial latino-americano, especialmente no Brasil, além de ampliar a exportação de livros e direitos autorais entre Brasil e Portugal.

O país homenageado terá um pavilhão próprio, onde será desenvolvida uma programação literária, cultural, turística e de negócios, que possibilitará o intercâmbio entre escritores, editores e público em geral.

A participação de Portugal na Bienal de São Paulo tem ainda o objetivo de estreitar as relações e promover a cultura do convidado junto das mais de 600 mil pessoas que visitam o evento, entre editoras, livrarias, distribuidoras e outros profissionais do livro.

Segundo o Camões, o ano de 2022 será “muito relevante para o aprofundamento das relações bilaterais entre Portugal e o Brasil”. O Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Augusto Santos Silva, anunciou no início do mês, em Lisboa, durante visita do seu homólogo brasileiro, Carlos Alberto Franco França, a disponibilidade de Portugal se associar às comemorações do bicentenário da independência do Brasil. In “Mundo Lusíada” - Brasil


Moçambique - Universidades Politécnica e Joaquim Chissano assinaram acordo para a internacionalização e mobilidade académica


No âmbito da cooperação didáctica, científica e cultural, a Universidade Politécnica e a Universidade Joaquim Chissano (UJC) assinaram, terça-feira, 27 de Julho, em Maputo, um memorando de entendimento, que tem por objectivo a internacionalização e mobilidade académica entre professores, estudantes e investigadores. O acordo, que é regido pelas leis vigentes em Moçambique, preconiza o desenvolvimento de um conjunto de projectos e pesquisas, organização de jornadas científicas, cursos de curta duração, seminários, desenvolvimento de programas de bolsas de estudo, organização de actividades de carácter desportivo e publicações.

A cooperação ocorrerá numa base de igualdade e com proveito recíproco, de acordo com a capacidade, possibilidade e experiência de cada uma das partes. Na ocasião, Narciso Matos, reitor da Universidade Politécnica, referiu que o memorando assinado com a UJC é um instrumento que simboliza a vontade das duas instituições de trabalhar juntas, por existir um campo muito grande na área da pesquisa científica, formação de docentes e na troca de experiências entre os estudantes.

“Nós estamos muito empenhados em aprender convosco e poder contribuir com o conhecimento que ao longo dos 25 anos da existência da Universidade Politécnica pudemos acumular em algumas áreas científicas que são comuns e outras que são certamente complementares. Há regiões geográficas em que nós estamos presentes e há sombras brancas da UJC, que se espalham por todo o país. Há, sem dúvida, na Universidade Politécnica, um campo muito grande que podemos explorar”, referiu Narciso Matos.

Por sua vez, José Magode, reitor da Universidade Joaquim Chissano (UJC), explicou que a celebração do memorando entre as duas universidades reveste-se de sentido de racionalidade, que se traduz de forma inequívoca no interesse partilhado pela aproximação e pelas relações de amizade entre os membros de ambas as instituições, na troca de conhecimento e experiências sobre agendas de interesse comum.

“O memorando que celebramos hoje formaliza, o propósito destes ideais, a colaboração entre as nossas instituições e o desejo de fortalecermos a nossa cooperação institucional, especialmente neste momento de desafios a nível nacional e internacional como consequência do surgimento e rápido alastramento da pandemia da Covid-19”, concluiu José Magode. In “Olá Moçambique” - Moçambique


 

Timor-Leste - Ministério da Agricultura e Pescas e Universidade Nacional de Singapura assinam acordo de pesquisa sobre flora e fauna


Díli – O Ministério da Agricultura e Pescas (MAP) e o Museu de História Natural de Lee Kong Chian da Universidade Nacional de Singapura assinaram um memorando de entendimento para realizarem uma pesquisa sobre flora e fauna em Timor-Leste.

O Vice-Ministro da Agricultura e Pescas, Abílio Xavier de Araújo, afirmou que esta assinatura pretende fundamentar a capacitação e pesquisa em todas as áreas para descobrir os recursos naturais do país.

“Devemos criar as condições para conservarmos a flora e fauna e fundamentarmos a pesquisa no sentido de desenvolver os recursos naturais. O Estado de Timor-Leste depende, até à data, de recursos minerais. Contudo, o MAP tem potencial para responder às necessidades da economia do país e do povo”, disse o governante à margem da assinatura do memorando de entendimento, em Caicoli, Díli.

Também o Diretor da Conservação Internacional em Timor-Leste, Manuel Mendes, destacou a importância deste acordo para salvaguardar a biodiversidade e outras áreas relevantes.

“É um passo importante para o Ministério da Agricultura e Pescas. Comprometemo-nos a continuar o nosso apoio ao ministério”, concluiu. Isaura de Deus – Timor-Leste in “Tatoli”


 

Brasil - BR do Mar: muita indefinição

São Paulo – O projeto de lei que cria o Programa de Estímulo ao Transporte por Cabotagem (BR do Mar), legislação que pretende estimular a migração do transporte rodoviário para o marítimo, continua em compasso de espera no Senado, depois de ter sido aprovado pela Câmara dos Deputados ao final de 2020 e considerado prioritário pela equipe econômica e pelo Ministério da Infraestrutura. Depois de ter sido prometido para julho, a previsão agora é que até setembro deverá ser aprovado.

O programa busca aumentar a oferta da cabotagem, além de incentivar a concorrência, criar rotas e reduzir custos. Segundo dados do Ministério de Infraestrutura, o transporte marítimo de bens pela costa tem crescido 10% ao ano, mas, com a aprovação do BR do Mar, seria possível alavancar esse número para 30%, o que haveria de equilibrar a matriz de transporte, estimulando o uso de embarcações afretadas, além de reduzir custos e burocracia, aumentar a oferta e incentivar a concorrência.

De acordo com estudo realizado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), 162,9 milhões de toneladas são transportadas por ano por meio da cabotagem, 11% do mercado, enquanto o sistema rodoviário é responsável pelo transporte de 62% das cargas. Reduzir essa distorção e minimizar a ocorrência de roubo de cargas e de acidentes nas rodovias, além de diminuir os danos causados à malha rodoviária, estão também entre os objetivos do programa.

Mais: a legislação busca flexibilizar as regras para a navegação entre portos e ampliar a frota de embarcações, estimulando a concorrência através das mudanças nas regras de aluguel de embarcações estrangeiras. De acordo com o projeto original e as emendas a ele adicionadas pela Câmara, as empresas de navegação não terão a obrigatoriedade de possuir embarcações próprias, ao contrário do que prevê a legislação em vigor.

Em tese, isso contribuirá para que se aumente a disponibilidade do serviço, pois as empresas poderão fretar navios, inclusive estrangeiros, o que ajudará a ampliar a capacidade de transporte. Esse fretamento, na modalidade time charter (afretamento por tempo), poderá ser feito por seis meses, prorrogáveis por até 36 meses. E a legislação permitirá, inclusive, a contratação de tripulantes com contrato de trabalho regido por legislação estrangeira, o que hoje não é possível.

Com a abertura do modal para a participação de navios estrangeiros, o custo do frete deverá cair, permitindo a migração das cargas das rodovias para a cabotagem. Porém, o mais importante é que haja regularidade no serviço, pois o responsável pela carga precisa ter certeza de que a mercadoria chegará ao seu destino no tempo previsto, o que só será possível se houver uma oferta constante. Sem confiabilidade, está claro que o embarcador continuará a apostar no transporte rodoviário. E para a cabotagem continuará a sobrar apenas parte da carga de granéis líquidos e sólidos, que são de grandes volumes e baixo valor agregado.

Até agora ainda não foram discutidos pontos pleiteados pela indústria, como a redução do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para a aquisição de bunker, óleo combustível destinado ao abastecimento de navios de grande porte. Atualmente, o bunker é responsável 1/3 do custo da cabotagem, enquanto a embarcação de longo curso não é onerada. A indústria pede também redução de tributos, como o Imposto sobre Serviços (ISS), sobre a praticagem.

Obviamente, essas medidas irão acabar com a indústria de estaleiros, que, a rigor, não representa muito, pois, segundo dados do Ministério da Infraestrutura, em dez anos, apenas quatro navios foram construídos. Os trabalhadores marítimos nacionais também poderão ser prejudicados. Igualmente as empresas que já investiram no País podem vir a ser prejudicadas com a nova legislação, que permitiria a entrada no mercado de empresas de fora sem investimento, ou seja, apenas com o afretamento de embarcação estrangeira. Aparentemente, são essas as questões que estão impedindo o BR do Mar de sair do papel. Liana Martinelli - Brasil

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Liana Lourenço Martinelli, advogada, pós-graduada em Gestão de Negócios e Comércio Internacional, é gerente de relações institucionais do Grupo Fiorde, constituído pelas empresas Fiorde Logística Internacional, FTA Transportes e Armazéns Gerais e Barter Comércio Internacional. E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

 

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Internacional - Cientistas analisam os impactos da Covid-19 na atividade turística mundial


Mais de três dezenas de cientistas de todo o mundo (Portugal, Brasil, Rússia, Paquistão, Turquia, México, entre outros países) juntaram-se para analisar os vários impactos da Covid-19 no turismo, reconhecidamente um dos setores mais afetado pela atual pandemia, e perspetivar o futuro desta indústria global.

Todos os contributos estão reunidos no livro “Pandemics and Travel: COVID-19 Impacts in the Tourism Industry”, editado por um grupo de investigadores da Universidade de Coimbra (UC) e do Instituto Politécnico de Viseu (IPV). A obra, acabada de publicar pela editora de livros científicos Emerald Publishing, fornece uma análise profunda sobre os impactos de pandemias, doenças e surtos de vírus no turismo e na mobilidade em todo o mundo e considera os novos desafios que a indústria do turismo terá de enfrentar no futuro, focando, nos últimos capítulos, as estratégias de promoção, recuperação e resiliência em vários países para enfrentar a crise atual.

«Os estudos de caso incluídos neste livro, onde podemos perceber como vários países dos cinco continentes lidaram com a pandemia e os principais efeitos que esta teve na atividade e mercados turísticos, ajuda-nos a perceber os efeitos da Covid-19 de uma forma mais global e comparada e permite-nos aprender com as boas práticas implementadas», declara Cláudia Seabra, docente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e uma das editoras do livro.

Segundo os editores, a pandemia Covid-19 desafiou o setor do turismo mais do que nunca. A indústria turística «nunca mais será a mesma após a pandemia Covid-19, com uma crise que, contrariamente às anteriores, foi global e num mesmo período de tempo. A sensação de que a mobilidade individual (e, portanto, as viagens) tem um impacto direto na saúde e segurança individual e coletiva é algo que marca profundamente a vida de uma sociedade. No futuro, as viagens de lazer vão ser muito mais pensadas, avaliadas e calculadas. O turismo de negócios será fortemente afetado visto que o teletrabalho veio substituir a necessidade de deslocação. Os destinos turísticos precisam de se redimensionar, reformular e reestruturar em função disto», considera a especialista em risco e turismo.

Quanto aos desafios para o futuro do setor turístico, a investigadora do CEGOT considera que os níveis de segurança e higiene «terão de ser mais elevados do que nunca. Os grandes hotéis e resorts, as grandes cidades, museus e monumentos terão desafios acrescidos com os turistas a evitar locais com grandes aglomerações e contacto físico». Outro desafio, acrescenta, prende-se com «o equilíbrio entre a automatização e os procedimentos digitais e o contacto humano que, afinal, é o suporte da atividade turística. A sustentabilidade económica, social, ecológica e até política do turismo será o maior desafio de todos».

O estudo relativo a Portugal incluído no livro, realizado pela equipa de Cláudia Seabra, visou determinar as perceções de risco e segurança dos portugueses no contexto criado pela pandemia Covid-19 e, consequentemente, o seu comportamento de viagem, assim como a sua disponibilidade para aceitar as medidas de segurança e restrições implementadas.

Para tal, a equipa aplicou um questionário a indivíduos de ambos os sexos, residentes em Portugal e com idade igual ou superior a 18 anos, tendo obtido 1902 respostas válidas. O estudo foi realizado ao longo de um ano, de fevereiro de 2020 a fevereiro de 2021, abrangendo assim as perceções dos portugueses em 4 fases distintas: 1º vaga, verão de 2020, 2ª vaga e 3ª vaga da pandemia.

Os principais resultados do estudo mostram que a pandemia tem um impacto muito expressivo na perceção de segurança que os residentes portugueses associam atualmente às viagens. Mais de 90% dos inquiridos afirmaram que a segurança é um assunto sério em viagens nacionais ou internacionais e que, devido à pandemia, viajar é arriscado.

«Demonstraram altos níveis de perceção de risco associado a viagens e sentiram-se muito preocupados em viajar dentro do seu país, mas ainda mais desconfortáveis para viajar para destinos internacionais, sentimento que se foi agravando com o passar do tempo e o agravamento da doença. Esses sentimentos de insegurança foram maiores durante a 3ª vaga, mesmo para viagens domésticas», indica Cláudia Seabra.

Segundo o estudo, a importância atribuída às questões de segurança foi mais forte durante a 1ª e 3ª vagas, evidenciando que na 2ª vaga os portugueses se preocuparam menos com as questões de segurança. O mesmo padrão foi registado para atividades de lazer e turismo.

De acordo com a investigadora da UC, um resultado «surpreendente» foi obtido para atividades especificamente ligadas ao turismo ou envolvendo grandes multidões: «Os maiores níveis de insegurança foram observados durante o verão de 2020, quando o país registou menos casos de contágio e mortes. Esse resultado pode ser explicado pela grande procura turística que geralmente existe no nosso país no período de verão. Os residentes achavam que essas atividades poderiam atrair mais pessoas e, portanto, causar maior risco. Por outro lado, atividades que exigiam o uso de espaços fechados, e que atraem mais pessoas no outono e festas, foram consideradas menos seguras durante a 2ª vaga», esclarece.

No que se refere às perceções de segurança relacionadas com a vida quotidiana e planos futuros, os inquiridos revelaram que irão alterar vários aspetos da sua rotina diária e dos seus planos de férias futuras devido à Covid-19.

O medo de infeção foi maior durante a 1ª vaga, «talvez pelo facto de a doença ser ainda desconhecida. Ao longo do tempo esse medo foi diminuindo. Mas os níveis de nervosismo e insónia causados pela Covid-19 aumentaram novamente durante a 3ª vaga, provavelmente pelo facto de Portugal ser, durante aquele período, o país com maior número de casos de infeção e óbitos por milhão de habitantes em todo o mundo», comenta Cláudia Seabra.

No que respeita às restrições e medidas de segurança impostas pelo Governo, globalmente, os portugueses concordaram com a maioria delas. Contudo, opõem-se às medidas restritivas relativas à limitação da mobilidade entre países. Os níveis de aceitação mais elevados da maioria das restrições e medidas de segurança foram registados durante a 1ª e 3ª vagas.

Em suma, conclui Cláudia Seabra, este estudo mostra claramente que, «com o tempo, os portuguese consideraram as viagens domésticas menos arriscadas, especialmente até à 2º vaga. Além disso, as atividades ao ar livre e realizadas em ambiente natural são claramente as formas de lazer consideradas mais seguras pela população portuguesa. As organizações de turismo devem investir neste tipo de oferta no futuro. O nível mais alto de medo e preocupação é evidenciado pelas gerações mais velhas, portanto, esse segmento de mercado certamente precisará de mais tempo para se sentir seguro o suficiente para viajar novamente». Universidade de Coimbra - Portugal