Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 8 de março de 2019

Macau - Nasce agência literária dedicada a autores asiáticos e lusófonos

A Capítulo Oriental, agência literária focada na Ásia e nos países e territórios de língua portuguesa, foi hoje oficialmente lançada

Nasceu para aproximar literaturas. A Capítulo Oriental, primeira agência literária sediada em Macau, quer servir de ponte entre a Ásia e os países e territórios de língua portuguesa. Para já, representa cerca de 60 nomes de mais de uma dezena de países e regiões. O agenciamento dos direitos autorais, a promoção da participação dos escritores em festivais e feiras do livro e a publicação de antologias multilingues em Macau são alguns dos objectivos da agência, oficialmente lançada.

À frente do projecto está Hélder Beja, jornalista, fundador e antigo director de programação do festival literário de Macau Rota das Letras. “Era uma ideia que já me acompanhava há alguns anos e que se me apresentava como um desenvolvimento natural do trabalho que venho fazendo há quase uma década, sempre ligado à literatura dos países de língua de portuguesa e da Ásia. Além disso, não havia nenhum projecto com este cariz, realmente dedicado a estes dois mundos, com foco nas línguas portuguesa e chinesa mas também capaz de olhar para os outros espaços em volta, no continente asiático”, revelou o director da agência ao Extramuros.

A Capítulo Oriental, que já assinou acordos com outras agências literárias, como é o caso das portuguesas Bookoffice e Storyspell e da brasileira MTS Agência, oferece ainda serviços de tradução entre chinês, inglês, português e outros idiomas, maioritariamente para publicações de arte e instituições artísticas, escolas e universidades, e ainda traduções literárias para editoras e autores.

A literatura chinesa “ainda é bastante desconhecida dos leitores de língua portuguesa”

Han Shaogong, Sheng Keyi, Lijia Zhang, Hong Yin, btr e Yu Jian são para já os nomes dos autores do Interior da China representados pela Capítulo Oriental. Ao Extramuros, Hélder Beja realça que a literatura chinesa tem ainda pouco espaço no universo de língua portuguesa. “Ainda é bastante desconhecida dos leitores de língua portuguesa. Há honrosas excepções, como a recente publicação de Yu Hua em Portugal, mas ainda muitos e bons autores cuja obra continua a simplesmente não existir para quem vive em Portugal, no Brasil e noutras paragens. A Capítulo Oriental representa alguns desses nomes, como Sheng Keyi [Interior da China] e Xu Xi [Hong Kong], e outros se juntarão em breve. Se conseguirmos levar estas autoras para a língua portuguesa, será qualquer coisa importante e bonita”, salienta.

O reforço da literatura de e sobre Macau é também uma das ambições da agência, que lança em paralelo uma editora com a missão de publicar “sobretudo obras de autores de Macau ou que se dediquem a escrever sobre o território, bem como antologias multilingues com autores dos espaços de língua portuguesa e chinesa”.

Os primeiros títulos a serem publicados são da autoria de dois autores locais. A obra “A Humidade dos Dias” de Luís Mesquita de Melo, vai ser lançada ainda este mês, e “Vidro Imaculado”, livro trilingue [chinês, inglês e português] de poesia de Jenny-Lao Phillips chega às bancas em Abril. Catarina Domingues - Macau In “Extramuros”

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Brasil – Feira Literária Internacional de Paraty

O curador da Festa Literária de Paraty, Paulo Werneck, quer apresentar novos autores ao público brasileiro. A pequena cidade costeira recebe dezenas de escritores até domingo.

À hora em que a edição de hoje dos jornais de Macau chega à banca, a pequena cidade de Paraty estará vivendo ainda a noite do dia de ontem, quarta-feira, 30 de Julho de 2014, e apreciando a actuação de Gal Costa, que encerra o primeiro dia da 12ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP).

A FLIP, maior evento literário do Brasil, está de volta para cinco dias em que mais de 40 escritores estarão em contacto com milhares de pessoas que todos os anos acorrem à pequena cidade entalada entre a mata atlântica e o oceano. “O festival cumpriu a vocação da cidade, que é ser um centro cultural a céu aberto”, diz o curador da edição deste ano, o jornalista e editor Paulo Werneck. “Frequento Paraty desde antes da FLIP existir. Sempre foi muito bonito e gostoso, mas às vezes parecia quase estéril. Cada cidade histórica brasileira, não apenas Paraty, tem agora essa vocação, com vários festivais. Havia um problema crónico no Brasil, que era a dependência do eixo Rio-São Paulo. Isto é uma forma de pulverizar a oferta cultural.”

Em Paraty, que conserva um centro histórico imaculado mas tem também problemas sociais de vária ordem (pobreza, crime) em bairros mais recentes, toda a gente fala da FLIP. Os empregados de mesa – muitos deles argentinos – sabem que está para chegar; as pessoas na rua querem ver Gal Costa; os barqueiros que vivem dos passeios nas suas escunas gostam mas dizem que “tem muita liturgia” e que nesses dias o povo não vai para o mar em passeio, ficando por terra “para ver os famosos”.

Os “famosos”, este ano, podem não ter tanto peso quanto em outras edições – a FLIP já teve convidados como J.M. Coetzee, Amos Oz, Toni Morrison e Chico Buarque – mas há muito por onde escolher.

“O que são nomes de peso? Por um lado havia todos aqueles prémios Nobel, quando a FLIP foi criada, que topavam viajar. Esses foram convidados e vieram. Outros estão sendo convidados e conforme a sorte do curador aceitam ou não”, prossegue Werneck. “Mas eu acho que a Flip cria nomes de peso. Teve gente que veio para cá e ninguém sabia quem era. O Valter Hugo Mãe é o exemplo que sempre uso. De repente ele virou um cara que arrasta multidões”.

“Acho que esta nossa programação tem nomes de peso”, aponta, referindo-se a escritores como o israelita Etgar Keret, a indo-britânica Jhumpa Lahiri, o mexicano Juan Villoro ou o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Estes e outros, aposta o curador, “vão ter um papel forte na cultura daqui em diante”. “Especulando de maneira totalmente safada, poderia dizer que acho que tem um futuro prémio Nobel entre estes escritores”, ri-se. “Às vezes essa coisa de nomes de peso fica restrita aos prémios. Acho bobagem, porque os prémios já foram injustos com muitos escritores. Mas, para quem gosta de prémios, este ano temos um Óscar, o Pulitzer, o Booker… Temos quase todos os prémios importantes.”

Para o curador, a FLIP deve conservar esse papel de apresentar escritores aos brasileiros. “A gente vive num certo isolamento. Na América do Sul a gente está separada linguisticamente e mesmo geograficamente. Então, alguns autores que a gente está trazendo, como o Villoro, Etgar Keret ou o russo [Vladimir] Sorokin, já são grandes autores na Europa, nos EUA, têm publicação em diversos países, com estudos universitários. Aqui é a primeira vez que está saindo um livro deles. O Brasil tem muito a descobrir e a FLIP ajuda”, acredita.

A Millôr homenagem

Millôr Fernandes é, desde a criação do festival, o primeiro autor que já passou pela FLIP (este na primeira edição) a ser homenageado. Falecido em 2012, o criador dos míticos “Pif-Paf” e “O Pasquim” começa agora a ser redescoberto, através de várias edições e reedições, e também através deste tributo. “A gente tinha uma série de autores possíveis [de serem homenageados este ano] e foi submetendo essa lista a um grupo de interlocutores bem informal, que são pessoas que fizeram parte da FLIP, a própria Liz Calder [mentora do festival], pessoas que participaram de diferentes maneiras, nos bastidores ou no palco”, explica Paulo Werneck. “A cada vez que a gente falava no Millôr, os olhos brilhavam. Você sabia que tinha uma novidade, tinha uma força o facto de ele ter sido contemporâneo das pessoas que estavam ali, de ele ter participado da FLIP. E mudava um pouco o tipo de homenagem que a gente estava fazendo, que eram sempre autores já consagrados postumamente. Nos pareceu interessante poder participar do processo de consagração póstuma. Não é uma homenagem que já esteja pronta, de certa forma. A gente meio que participou do zero nesse processo.”

A homenagem começou no sábado passado, com a inauguração de uma exposição dedicada ao artista na Casa da Cultura, um dos vários espaços que, além da tenda principal da FLIP, receberão eventos paralelos.

“Millôr foi um artista polivalente. Genial é o adjectivo que as pessoas costumam usar para ele – em diversas áreas, desde o cartoon até à tradução de Shakespeare. Foi dramaturgo, foi jornalista, um super artista plástico e gráfico. Era um homem que transitava em todos os campos da cultura, à vontade”, refere o curador.

Paulo Werneck vê a homenagem a Millor como algo “muito importante, com uma vibração forte”. Da programação destaca ainda o que chama de “núcleo amazónico da programação”. “São quatro autores ligados aos índios brasileiros, que têm uma cultura riquíssima e muito pouco conhecida pelos brasileiros. Temos o David Kopenawa. Temos o Eduardo Viveros de Castro, um dos grandes pensadores contemporâneos. O conjunto me agrada bastante.”

Chegar ao conjunto sólido que deve ser a programação de um evento deste género é um processo complexo, que Werneck não centraliza e que, entre muitas outras pessoas, partilha com o director da FLIP, o arquitecto Mauro Munhoz.

“Participei de quase todas as FLIP, como editor, como jornalista, como filho de um dos autores convidados, como público apenas. Para mim foi muito natural esse convite [para fazer a curadoria]. É uma coisa um pouco intuitiva. Você parte naturalmente do seu repertório de leitura e do seu gosto pessoal mas é preciso ir muito além dele para conseguir fazer uma FLIP interessante”, nota. “Procurei ouvir muitas pessoas, leitores, amigos. Você vai descobrindo escritores novos. A maioria desses escritores convidados, eu não tinha ouvido falar. Então eu descobri e isso foi interessante”, admite.

A festa literária, que parte da grande tenda onde acontecem os principais eventos para se ramificar por toda a cidade, conta ainda com outras áreas de programação, como a FlipMais (que terá por exemplo Adriana Calcanhotto); a Flipinha (para crianças) e a Flipzona (para jovens). Além disso, há ainda iniciativas paralelas, como o festival Off Flip, que traz largas dezenas de convidados a Paraty durante os mesmos dias. Resultado: a cidade “fica fervendo de actividade”, diz Werneck, que também convidou um autor português, Almeida Faria, para a edição deste ano. “Se cair uma bomba em Paraty, a cultura literária brasileira acaba, porque o que vai ter de escritor brasileiro aqui nos próximos dias não é brincadeira.”



Convidados em destaque

Etgar Keret

Segundo Amos Oz, os contos de Etgar Keret “são ferinos, engraçados, cheios de energia e perspicácia, e ao mesmo tempo frequentemente profundos, trágicos e muito comoventes”. Para Salman Rushdie, Keret é “a voz da nova geração”. Com livros traduzidos para mais de 30 línguas, o autor também trabalha como argumentista televisivo e cineasta, tendo dirigido junto com a mulher o filme “Jellyfish”, vencedor do Caméra d’Or no Festival de Cannes em 2007.

Jhumpa Lahiri

Filha de imigrantes indianos, Jhumpa Lahiri foi criada em Rhode Island, nos Estados Unidos, e recentemente fixou-se em Itália com a família. Desde a sua festejada estreia em livro, com a colectânea “Intérprete de males” (2001), que lhe valeu o prémio Pulitzer, a condição de estrangeira é uma questão central nos seus romances e contos. A capacidade de narrar a vida de imigrantes que não se identificam nem com a cultura de origem nem com a cultura de adopção concilia uma perspectiva ampla, que cobre mais de uma geração, a uma atenção a detalhes miúdos do quotidiano.

Eleanor Catton

Aos 28 anos, em 2013, a escritora neozelandesa nascida no Canadá tornou-se a pessoa mais jovem a ganhar o Man Booker Prize, com o seu segundo romance, “Os Luminares”. O livro foi também a obra mais extensa a ganhar o prémio nos seus 45 anos de história. No mesmo ano, foi nomeada membro da Ordem de Mérito da Nova Zelândia.

Vladímir Sorókin

Primeiro autor russo a visitar a FLIP, Vladímir Sorókin viu-se obrigado a publicar os seus primeiros livros, nos anos 1980, em França e na Alemanha, ainda sob a censura soviética. Múltipla e iconoclasta, a sua obra ergue-se como um retrato da Rússia sob os anos da Perestroika, política de distensão levada a cabo por Mikhail Gorbachev, que conduziu ao fim do regime comunista e à queda da superpotência mundial. Recentemente, Sorókin firmou-se como um dos principais intelectuais na resistência ao regime de Vladimir Putin.

Paulo Mendes da Rocha

Pertencente à geração de arquitectos conhecida como Escola Paulista, defensora de uma arquitectura sintética e socialmente responsável, Paulo Mendes da Rocha (Vitória, 1928) destacou-se ainda jovem. Aos 29 anos, venceu o concurso para o ginásio do Clube Atlético Paulistano, o que lhe rendeu o Grande Prémio Presidência da República na VI Bienal Internacional de São Paulo, em 1961. Entre as suas obras estão o Museu Brasileiro da Escultura e a reforma da Pinacoteca do Estado, ambas em São Paulo. Nas últimas décadas, assumiu uma posição de destaque, tendo sido galardoado em 2006 com o prémio Pritzker, honraria máxima da arquitectura mundial – antes dele, o único brasileiro a ganhá-lo foi Oscar Niemeyer em 1988. Hélder Beja – Macau in “Ponto Final”

domingo, 22 de dezembro de 2013

Emprego pelo mundo

O site Emprego pelo Mundo divulga em português ofertas de trabalho em diferentes países. Diogo Lino Ribeiro, fundador, cresceu em Macau e estuda na República Checa. O projecto é seguido por mais de 172 mil pessoas no Facebook e recebe em média um milhão de visitas mensais online.

As boas ideias às vezes aparecem sem querer. Foi assim com Diogo Lino Ribeiro, jovem de 25 anos que em Fevereiro fundou o site Empregos pelo Mundo (www.empregopelomundo.com). Hoje, o portal recebe largos milhares de visitas todos os dias porque oferece, em português, informação sobre muitos postos de trabalho para aqueles que queiram largar mundo fora.

Diogo Lino Ribeiro
Diogo Lino Ribeiro, que passou parte da infância e adolescência em Macau, olhou para o desemprego jovem em Portugal, leu os sinais que lhe foram trazidos por um projecto familiar e resolveu avançar. Hoje conta com uma equipa de dez pessoas, divulga milhares de ofertas de emprego e, acredita, ajuda pessoas. Mesmo assim, continua os estudos no Instituto de Química de Praga, na República Checa. Não vê grandes melhorias para os portugueses nos próximos tempos.

- Como surgiu a ideia de criar o site Emprego pelo Mundo?

Diogo Lino Ribeiro – A ideia de criar este grupo de partilha de informações de emprego no estrangeiro e em Portugal, que ganhou visibilidade no Facebook, surgiu a partir de um pedido da minha família, para que colocasse para arrendar, em sites especializados, uma casa localizada em Búzios, no Brasil. Nessa altura, resolvi criar um blogue onde também promovia aquele destino. Inesperadamente, comecei a receber currículos de pessoas que me pediam emprego, pensando que se tratava de um resort ou de uma guest house. Muitos eram jovens que pediam com uma humildade, um desespero e uma vontade de trabalhar que não podiam deixar ninguém indiferente. Como tinha experiência na área da pesquisa, adquirida numa empresa onde trabalhei na República Checa, comecei a publicar no meu blogue oportunidades de emprego. O reconhecimento foi tal que o passo seguinte foi criar o Emprego pelo Mundo.

- Dê-nos alguns números do projecto. Quantas visitas recebe o site em média? E quantas ofertas de trabalho já publicou?

D.L.R. – O portal Emprego Pelo Mundo recebe em média um milhão de visitas e cerca de três milhões de visualizações por mês. Já publicámos milhares de ofertas de emprego dependendo das empresas e das áreas, publicamos cerca de 30 mil oportunidades por mês. Formamos uma equipa de dez jovens que trabalham segmentos de mercado diferentes. Uns mais vocacionados para as ofertas de trabalho individualizadas, outros em ofertas mais gerais que abarcam várias áreas numa só empresa, normalmente multinacionais. Não conseguimos ter uma estimativa das pessoas que já conseguiram oportunidades através do site, mas até hoje e desde que o site está activo já recebemos milhares de agradecimentos.

- Falemos da Ásia. Há muitas ofertas de trabalho para esta zona do globo? É um mercado com potencial para a mão-de-obra lusófona?

D.L.R. – Sendo nós portugueses um povo universalista, com uma história de relacionamento pacífico e mesmo amistoso com todos os povos do mundo, e tendo nós também das melhores universidades europeias que têm formado nas últimas décadas jovens comprovadamente talentosos, reconhecidos em todo o mundo, não será descabido pensar que esses jovens muito qualificados poderão ser uma mais-valia, em qualquer parte do mundo e aí também. Basta que lhes sejam oferecidos lugares onde possam não só desenvolver as suas capacidades criativas e o seu talento, como também colaborar através da troca de conhecimentos e visões do mundo, favorecendo a criação de soluções inovadoras e permitindo àqueles que neles confiam o acompanhamento eficaz das mudanças num mundo que anda cada vez mais veloz.

- Concretamente em relação a Macau, há oportunidades para portugueses que podem ser encontradas através do seu site? Alguns exemplos específicos?

D.L.R. – Apresento no meu site um link dedicado completamente a Macau. Como viver e trabalhar aí. Como procurar emprego. Tem sido muito visitado. Como esta crise veio para ficar e há cada vez mais desempregados, os portugueses têm tendência a procurar emprego nos países cujos povos partilharam connosco partes da sua história e que por isso lhes oferecem mais confiança por os julgarem amigos.

- Viveu em Macau. Quer recordações guarda desses tempos? Ainda é um lugar que o atraia, também do ponto de vista profissional?

D.L.R. – Vivi em Macau dos três aos 14 anos. Cresci em Macau. Passei a minha infância a percorrer as suas ruas, a correr para as suas escolas, a casa na Taipa. Os meus amigos de infância são daí, ou passaram por aí e continuam a estabelecer contactos regulares comigo. Macau faz parte de mim, dos meus sonhos, dos meus desejos, das minhas memórias, do meu ser. Será um lugar onde sempre voltarei… onde espero encontrar sempre símbolos dessas vivências que tive. Ou até personalidades que me tornaram feliz em criança pela amizade que me dedicaram. Por exemplo, o Domingos, ex-motorista do meu pai e meu grande amigo, que fazia comigo o totoloto de Hong Kong em sociedade. Mas não sei se voltarei para trabalhar aí. Por enquanto não faz parte dos meus planos. O meu projecto de vida não se encaminha para ser realizado por esses lados. Porém, como se costuma dizer, ‘o futuro a Deus pertence’.

- Considera que, regra geral, os portugueses que trabalham no estrangeiro são apreciados ou nem tanto?

D.L.R. – Acho que os portugueses são apreciados em todo o mundo. Como dizia um escritor inglês, “toda a gente gosta dos portugueses com excepção deles próprios”. Os portugueses são um povo bom, tolerante, com capacidade de se entregar a causas. São um povo leal, solidário e com uma capacidade de sofrimento e de resignação emocionantes. Veja o que está a acontecer nesta crise. As reacções dos portugueses e de outros povos são muito distintas. Só um povo muito bom é capaz de suportar com paciência isto e aguentar tanto sofrimento de modo resignado.

- Qual é o destino preferencial do português qualificado e sem emprego neste momento?

D.L.R. – As preferências dos portugueses são regra geral os países de língua portuguesa. Brasil e Angola têm sido grandes receptores do trabalho dos nossos imigrantes. Mas o maior número de jovens qualificados tem ido para a Europa, com a Alemanha, Noruega, Dinamarca, Inglaterra e Irlanda a aproveitarem esses talentos que Portugal desperdiça neste momento.

- Como olha para a situação actual em Portugal?

D.L.R. – Portugal vive um período muito crítico da sua história e não se vislumbra uma saída para a crise a curto prazo. Não temos indústria, agricultura, pescas. O comércio tornou-se monopólio de poucos. Sinceramente vejo tudo muito mal.

- Acaba por ser também um empreendedor, ao lançar este projecto. O site é já lucrativo para si, que o fundou?

D.L.R. – Para já o site paga-se a si próprio, pago o trabalho dos colaboradores e tenho estado a investir o resto. Vamos apresentar muito em breve uma nova versão mais moderna e prática que permitirá a empregadores e candidatos funcionalidades que facilitam o recrutamento. Hélder Beja – Macau in “Ponto Final”

sábado, 28 de setembro de 2013

Nova Macau

A nova cidade de Macau

O campus da Universidade de Macau na Ilha da Montanha já recebeu os primeiros alunos e em Novembro deve estar pronto para abrir as portas a todos os visitantes. O novo espaço é uma verdadeira cidade universitária, com salas de aula e laboratórios, mas também com piscinas, campos de futebol, um auditório para espectáculos, uma biblioteca, um quartel de bombeiros, lojas, serviços e muito mais. Tudo capaz de suportar dez mil alunos.

Em Macau o perto torna-se longe. A distância é psicológica e a escala do território convida a achar que uma viagem a Coloane é coisa para tirar um dia inteiro de fim-de-semana. Pensar numa visita ao novo campus da Universidade de Macau (UMAC), na Ilha da Montanha, parece ainda um cenário distante, um exotismo para momentos desocupados. Isso, no entanto, pode ter os dias contados.

A UMAC convidou a imprensa a visitar o novo campus, agora sob jurisdição de Macau, depois de ter sido entregue à RAEM a 20 de Julho pelas autoridades do Continente.

A viagem, feita na passada quinta-feira, começa no antigo campus da Taipa, do qual a universidade conservará no futuro apenas o edifício da biblioteca, ainda que não funcionando como tal. Menos de 15 minutos depois, o autocarro fretado para o efeito já deixou o Galaxy para trás e prepara-se para entrar no túnel subaquático que liga o Cotai à Montanha. Para já, apenas carros autorizados e o autocarro público U37 podem entrar no túnel e percorrer as quatro faixas de rodagem repartidas pelos dois sentidos. Futuramente, a via estará aberta a todos os veículos do território, sem check-points ou outros constrangimentos. Haverá também, espera-se que a partir de Novembro, uma segunda ligação pedonal e para bicicletas.



O lado de lá

O novo campus da UMAC é 20 vezes maior que o actual. Tem sensivelmente um quilómetro quadrado e a dimensão da cidade universitária percebe-se mal o autocarro deixa o túnel para entrar na Avenida da Universidade. Por agora, é esta a única paragem para transportes públicos em funcionamento e qualquer pessoa pode viajar até aqui. Dentro de alguns meses haverá outras. À saída do autocarro, o reitor da UMAC, Wei Zhao, e o vice-reitor, Rui Martins, cumprimentam todos os presentes com a nova biblioteca – o ex-líbris do novo campus – atrás de si.

O campus da UMAC foi desenhado por He Jingtang, arquitecto que nos últimos anos tem sido responsável pelos projectos da maioria das instalações universitárias no Continente e que foi também o autor do Pavilhão da China na Exposição Mundial de 2010, em Xangai. Em 2009, o arquitecto esteve em Macau a apresentar as grandes linhas do plano para o novo campus de Hengqin, assegurando que a conservação ambiental seria uma das principais preocupações do projecto. E o que agora salta à vista é o cuidado em criar zonas verdes, com muitas árvores a acompanharem o betão e com um grande lago rodeado de relva a funcionar como pulmão da cidade universitária.

Da Avenida da Universidade avista-se o Cotai e Coloane, para um lado, e a biblioteca, para o outro. A biblioteca, que tem capacidade para um milhão de publicações, é o centro de todo o complexo. Dali partem as diferentes artérias que conduzem à zona mais a norte, onde está situado o quartel dos bombeiros – o maior de Macau –, o grande auditório da UMAC, uma guesthouse com 110 quartos e a zona de centros de investigação e laboratórios. Para sul, ficam as residências dos estudantes de licenciatura, as casas dos alunos de pós-graduação e também os edifícios destinados a albergar os funcionários da universidade.

A biblioteca receberá todos os 600 mil exemplares agora guardados no antigo campus da UMAC, mais uma quantidade significativa de obras que a universidade está a adquirir. Haverá, pela primeira vez, uma área em funcionamento 24 horas, para que os alunos possam estudar durante a noite, à semelhança do que acontece em várias instituições de ensino europeias.

A Europa é, aliás, uma inspiração assumida do campus, também em termos arquitectónicos. Os muitos arcos e colunas dos edifícios, a juntar às cores quentes que se encontram em algumas fachadas e à calçada portuguesa que preenche o chão da grande praça diante da biblioteca, dão ao campus um toque europeu e sulista, várias vezes frisado durante esta visita.

O ano lectivo arrancou na passada segunda-feira e até agora há três edifícios completamente operacionais no campus que conta mais de 60 estruturas, depois de já terem passado nas inspecções públicas. Já há cerca de 2000 estudantes a viver no campus e este ano a UMAC deve receber cerca de oito mil alunos, com 80 por cento a residirem no novo complexo.

O principal edifício dedicado a aulas, onde se concentrarão disciplinas transversais à maior parte dos cursos, vários deles novos, tem capacidade para 3000 estudantes. A UMAC divide-se agora em oito faculdades, das Ciências da Saúde às Ciências Sociais.


Aberta à sociedade civil


O reitor Wei Zhao faz questão de reiterar o facto de várias das instalações do novo campus irem não apenas servir os alunos mas também toda a cidade. Boa parte da nova zona sob jurisdição de Macau estará aberta aos residentes, apesar de a circulação de carros ser circunscrita à área mais próxima do túnel, ficando o campus reservados a veículos autorizados, a bicicletas e a pedestres.

A nova UMAC tem 2500 lugares de estacionamento repartidos por várias áreas. Estarão disponíveis para todos quantos desejem usufruir da zona que, entre outras infra-estruturas, terá no seu centro cultural e no grande auditório, com capacidade para cerca de mil espectadores, uma das principais atracções. Wei Zhao explica que o objectivo é oferecer o espaço à Orquestra de Macau para que ali se torne residente, ensaiando com regularidade e também dando concertos. O auditório deve ainda receber outros eventos programados em parceria com o Instituto Cultural.

As instalações desportivas, com uma piscina olímpica, um campo de futebol e uma pista de atletismo com medidas oficiais para receberem qualquer tipo de competição, estarão também articuladas no futuro com a gestão do Instituto do Desporto.

Nada disto seria possível sem o crescimento do número de funcionários da universidade, que de acordo com o site da instituição está situado nos 750 e que quase triplicará; e do corpo docente, que duplicará para perto de 800 professores. Para este novo ano lectivo, a UMAC a recebeu mais 1520 alunos do que no ano anterior e o objectivo é ir gradualmente crescendo até aos dez milhares de estudantes.

Os edifícios de investigação, situados junto ao quartel dos bombeiros, somam mais de 300 laboratórios e 20 centros de investigação. O autocarro que transporta a imprensa dá a volta ao campus, passa junto do estádio e do complexo desportivo com um pavilhão com capacidade para 3000 pessoas e vários campos para badminton e outras modalidades, e entra na Avenida dos Alunos, que dá acesso às residências de estudantes de licenciatura, de acordo com a UMAC as maiores da Ásia. Ao longe vê-se o muro que separa o campus do restante território da Montanha, esse sob jurisdição das autoridades do Continente. Recorde-se que recentemente soube-se que os cidadãos do Continente que entrarem no novo campus da Universidade de Macau saltando a vedação do complexo serão punidos por travessia ilegal de fronteira. A revelação foi feita por um funcionário da fronteira do Continente ao diário Global Times.

É num dos edifícios destinados à residência de alunos de licenciatura – que terão também à sua disposição vários serviços, como supermercados, cafés, farmácias e clínicas – que Wei Zhao fala à imprensa, fazendo uma apresentação das principais novidades que a UMAC introduz neste ano lectivo. O reitor apresenta os novos cursos e o modo como o campus da Montanha funcionará. Diz desconhecer a alegada investigação do Comissariado Contra a Corrupção ao processo de atribuição de casas no novo campus (ver texto nestas páginas) e garante que o processo está a decorrer com normalidade.

De volta ao autocarro, a viagem de volta à Taipa faz-se em poucos minutos. O campus e o novo túnel parecem agora mais perto. A nova cidade de Macau continua a crescer ali ao lado, maior que todos os casinos do território. Hélder Beja – Macau in “Ponto Final”