Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Fotógrafa

“Eu defino-me simplesmente como fotógrafa”

Macau é o ponto de partida e de retorno de “Ponte de Luz”, que reúne 188 fotografias de vestígios portugueses na Ásia registados a preto e branco por Carmo Correia. Em entrevista, a fotógrafa conta como desenvolveu o projecto, que inclui um livro, uma exposição e um documentário. A apresentação acontece na próxima terça-feira às 18h30, na Casa Garden.

Durante dois anos, a fotógrafa portuguesa Carmo Correia retractou a preto e branco vestígios da presença portuguesa em Goa, Damão, Diu, Cochim, Malaca, Timor-Leste, Japão, Sri Lanka, Tailândia, Indonésia e Macau. O resultado é um livro com 240 páginas e 188 fotografias, bem como textos do historiador Jorge Santos Alves e do escritor e jornalista Carlos Morais José. O livro é uma edição numerada manualmente e limitada a 2500 exemplares. O projecto complementa-se com uma exposição de 50 imagens a preto e branco e um documentário realizado por Susana Gomes, da produtora Inner Harbour Films. Este é o terceiro livro de fotografia de Carmo Correia, que vive em Macau desde 2000 e trabalha como freelancer para a agência LUSA e diversos meios locais.

- Como é que surgem os teus projectos pessoais, tens um plano, uma trajectória, metas a cumprir?

Carmo Correia – Vou tendo ideias de coisas que gostaria de fazer, relativamente a Macau, que é onde estou baseada. Acho que neste campo onde tenho trabalhado, especialmente nestes projectos de lançamento de livros e de alguns produtos que tenho, como as colecções de postais, acho que são coisas que fazem muita falta no mercado e que me dão muito prazer a desenvolver.

- Qual é o peso que estes projectos pessoais têm no conjunto do teu trabalho?

C.C. – Para a minha realização pessoal são uma parte bastante importante, mas financeiramente é difícil viver apenas dos projectos. O primeiro livro que lancei era sobre o património classificado pela UNESCO em Macau [em 2007], achei que era uma coisa que faltava no mercado, dos 25 lugares classificados como património mundial, 20 são de arquitectura portuguesa e achei que, naquele momento, era importante e que deveria ser o meu primeiro trabalho. Acabei até por, com esse livro, receber uma menção honrosa do [Pilsner Urquell] International Photo Awards na categoria de livros documentais, o que foi bastante bom. Em 2009 fiz um segundo livro, sobre Macau também, foi um trabalho a cores, numa vertente um pouco mais comercial. Estes livros são projectos cem por cento meus, todo o conceito do trabalho é meu. Claro que depois contrato pessoas para a execução nas áreas específicas, a nível de textos, de design. Mas, todo o conceito do projecto é meu, para além da fotografia.

- Quando é que começaste a pensar no livro e na exposição “Ponte de Luz”?

C.C. - O livro que fiz agora era um projecto que eu tinha na cabeça desde há muito tempo. Mas, precisava de ter a experiência de fazer trabalhos mais pequenos antes de me aventurar, porque este projecto envolvia muita produção, muito tempo de trabalho, muitos custos e era difícil partir para uma coisas destas sem ter algum currículo, sem as pessoas conhecerem o meu trabalho. Ninguém vai apostar em ti se caíres do céu. É importante, de facto, ter experiência e “know-how” para nos aventurarmos num trabalho desta dimensão.

- Pode-se dizer que começaste a preparar-te para este livro desde que chegaste a Macau?

C.C. – Não é uma coisa que eu tenha planeado, o que aconteceu é que os outros dois livros foram saindo e achei que agora era o momento certo para este projecto sair. Achei que tinha confiança suficiente em mim própria para poder ir bater às portas [para pedir patrocínios] e arrancar com um projecto desta dimensão. O resultado está a vista e acho que o livro está bastante bom.

- Tiveste a liberdade que querias para concretizar o projecto?

C.C. – Tive toda a liberdade para o fazer, o que eu fiz foi o que eu fiz com os outros. Elaborei o projecto, depois comecei à procura de patrocinadores, podendo dizer já à partida qual o produto que iria apresentar. O projecto inclui um livro de luxo, tem 240 páginas, com 188 fotografias, de oito países. Tem a parte da exposição de fotografia, que inaugura no dia do lançamento do livro e vai estar aberta ao público até 19 de Janeiro de 2014 na Casa Garden. Isto é um projecto muito especial, que levou dois anos a desenvolver, comecei em Janeiro de 2012 e estou a terminar agora em Dezembro de 2013. E, como as pessoas têm sempre a curiosidade de saber porque um trabalho destes demora tanto tempo, achei que teria algum interesse e despertaria o interesse das pessoas mostrar o processo de desenvolvimento do projecto. Daí que, decidi acrescentar um documentário de vídeo, que é uma espécie de “making-of” do projecto. Essa parte deixei encarregue à equipa de vídeo. Disse o que pretendia e passei para as mãos das pessoas que, de facto, sabem do assunto.

- Quem realizou o vídeo?

C.C. – Susana Gomes. O vídeo vai estar sempre a ser projectado em “loop” durante todo o tempo em que a exposição estiver aberta e depois vai estar também na Internet, através do meu website. O objectivo do vídeo foi dar alguma dinâmica à exposição.

- O que é que se pode ver no vídeo?

C.C. – O vídeo, por questões orçamentais, não inclui os países todos. Optámos por escolher três locais mais emblemáticos do projecto e aí fizeram-se as filmagens. É um filme curto. Fizemos filmagens em Goa, Malaca e em Macau. Inclui, também, a produção, a selecção de imagens, a parte gráfica, discussões em termos de design. Mostra um bocadinho de tudo.

- Como é que defines o teu trabalho enquanto fotógrafa?

C.C. – As pessoas gostam muito de me pôr aquela estampa de “fotojornalista”, que é a coisa que eu menos gosto de fazer e é a coisa que eu menos faço quase. Eu defino-me simplesmente como fotógrafa. Aqui em Macau nunca vi que tivesse sequer a possibilidade ou nem sei se gostaria de fazer uma especialidade única e exclusivamente na fotografia. Eu, para mim, sou fotógrafa. Mas, aquilo que as pessoas dizem que sou é o que eu menos gosto ou que estou sempre a dizer que não sou, que é fotojornalista. Também há áreas da fotografia que eu não domino, por exemplo, fotógrafa de moda, não sou. É uma área muito específica da fotografia, a moda tem muito que se lhe diga. Por exemplo fotografar produtos em estúdio. Tens muito bons fotógrafos a nível de produtos, que são áreas muito especializadas. Acho que deve ser desafiante, mas nunca me despertou muito interesse.

- Este livro é um trabalho documental?

C.C. – Na nossa linguagem de fotógrafos chamamos um misto de fotografia artística e o “street photography”, que é aquela fotografia que vem um bocadinho da ideia que temos do [Henri] Cartier-Bresson. Fotografia de situações de rua, mas que é vendida nas galerias, é a junção das duas coisas. Claro que aqui há, também, um fundo documental, algo, mas não muito. Porque este projecto para mim, apesar de ser sobre a presença portuguesa no Oriente, nunca teve como objectivo fazer um levantamento exaustivo do património português que existe na Ásia. Há muitos sítios ou monumentos, que são muito importantes, mas que não constam do livro. Alguns deles, não porque não os tenha fotografado, mas simplesmente porque eu achei que a imagem não era suficientemente forte para aquilo que eu pretendia fazer do livro. O que eu quis sempre fazer foi criar uma linha visual que fosse dinâmica, mas que fossem imagens fortes que me dissessem alguma coisa. Não era simplesmente, olha está ali um forte então vamos fotografar e vai ter que aparecer o forte todo. Às vezes, até pode ser uma coisa pequenina, mas se a fotografia é boa, vale pelo todo. Há muitos lugares em que se vê só pequenas coisas. Muitas imagens são pequenas coisas. Tentei conciliar não só a arquitectura, mas os costumes, as festividades, coisas marcantes que ainda estão ligadas à nossa presença, ao nosso contacto com estes países e que ali ainda se celebram.

- Qual foi o teu percurso?

C.C. – Macau é o ponto de partida e de expansão. Passei pela Índia, em cinco locais diferentes, Sri Lanka, Tailândia, Malásia Indonésia, Japão e Timor-Leste. Procurei os lugares onde os portugueses chegaram, onde houvesse qualquer coisa marcante e que, de facto, mostrasse uma ligação, um marco identificativo, uma coisa qualquer que me levasse a fazer uma foto.

- A presença portuguesa nestes lugares foi o pretexto para o projecto?

C.C. – Foi o meu pano de fundo. O que eu queria em cada país era tentar ao máximo incluir uma presença humana. Ou seja, que as pessoas olhassem para a imagem e sem irem à legenda conseguissem identificar o sítio, pelas pessoas, pelas roupas, por qualquer detalhe. Se pensarmos no que existe em termos de presença portuguesa no Oriente, hoje em dia, grosso modo em termos de arquitectura, 90 por cento, se calhar, são fortificações, fortalezas e igrejas. Ninguém tem paciência para pegar num livro de 240 páginas para ver fachadas de igrejas, nem eu como fotógrafa teria paciência para isso. Foi um desafio bastante grande conseguir dar a volta a este facto. Estou muito satisfeita com o trabalho. Cheguei a um ponto que até achei que me faltavam igrejas de tanto que eu as queria evitar. Acho que está na dimensão certa, está um livro muito dinâmico, muito variado em termos de imagens e era de facto esse o meu objectivo. Consegue-se ver um bocadinho de cada coisa, consegui diferenciar os vários países. Mas, não é um livro documental. A parte de textos coube a um historiador português especialista na expansão portuguesa no Oriente, que é o Jorge Santos Alves, que fez o texto inicial. E há um texto de Carlos Morais José que fecha o livro.

- Cumpriste um objectivo que tinhas na tua vida?

C.C. – Cumpri um objectivo na minha vida, sim.

- Estás satisfeita?

C.C. – Sim, muito. Foi um desafio muito grande, este projecto foi exaustivo. Eu é que acabei por fazer praticamente tudo. Em termos de produção, pesquisa, procura de informação, marcação e gestão de viagens, de lugares para ficar. Para tratar de tudo isto quase que seria necessário outra pessoa. Depois, toda a parte de fotografar, além disso, eu tinha que conciliar este projecto com o trabalho que tenho em Macau, durante dois anos. Eu tinha que conseguir conciliar tudo. Foi exaustivo. Cláudia Aranda – Macau in “Ponto Final”


Para melhor conhecer o trabalho da fotógrafa Carmo Correia aceda aqui. Baía da Lusofonia

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