Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 27 de abril de 2021

Macau – Apresentação do livro “Seis reitores do liceu de Macau” do investigador António Aresta

“Seis Reitores do Liceu de Macau”, assim se intitula a obra que António Aresta vai publicar e que será apresentada dia 30 na Escola Portuguesa de Macau. O investigador revelou ao Jornal Tribuna de Macau alguns pormenores sobre a história desta escola e defendeu que os seis “ajudaram, cada um a seu modo, a consolidar a identidade e o prestígio da comunidade portuguesa no Extremo Oriente”. Aresta considera que cada um deles merecia, por si só, uma monografia. A edição é de Rogério Beltrão Coelho, sendo o prefácio escrito por Cecília Jorge

O investigador e historiador António Aresta vai lançar a obra “Seis Reitores do Liceu de Macau”, que será apresentada na Escola Portuguesa de Macau a 30 de Abril, e, mais tarde, em Setembro, em Lisboa. Ao Jornal Tribuna de Macau, o autor sublinha que, até ao fim do século passado, Macau possuiu três estabelecimentos de ensino “verdadeiramente emblemáticos e com objectivos educativos diferenciados”: o Seminário de S. José, a Escola Comercial Pedro Nolasco e o Liceu Nacional Infante D. Henrique, mais conhecido por Liceu de Macau.

António Aresta refere que as três escolas tiveram “uma importância nuclear na construção da história cultural de Macau”, tendo todas “ultrapassado os cem anos de ininterrupta actividade” e formado “milhares de jovens dentro de um grande espectro multicultural”. “Mas, ao mesmo tempo, também ajudaram a modelar a identidade cultural de Macau, vincando a sua face europeia e luso-chinesa, mas também latina e cristã. O emérito historiador de Macau, Monsenhor Manuel Teixeira, foi professor nessas três escolas e sobre elas escreveu páginas decisivas. Mas, como é evidente, ainda muito ficou por dizer e por historiar”, acrescenta.

Os reitores do Liceu de Macau sobre os quais Aresta se debruça são José Gomes da Silva (que nasceu em 1853 e morreu em 1905), natural do Porto e médico militar; Manuel da Silva Mendes (1867-1931), de Vila Nova de Famalicão, que estudou Direito; Carlos Borges Delgado (1887-1941), de Chaves, que enveredou pela área da Matemática; Énio da Conceição Ramalho (1916-2013), natural de Macau, da área das línguas Germânicas; António Maria da Conceição (1910-1985), também natural de Macau e que seguiu línguas Românicas; e, por fim, o lisboeta Túlio Lopes Tomaz (1910-1995), que se formou em Físico-Química.

“Estes seis reitores, que, a traços largos, são apresentados neste livro, perfilham esta filosofia da educação, foram personalidades marcantes em Macau e ajudaram, cada um a seu modo, a consolidar a identidade e o prestígio da comunidade portuguesa no Extremo Oriente”, afirma. António Aresta diz mesmo que, com excepção de Manuel Silva Mendes, que é já bastante estudado, cada um deles “merecia um trabalho monográfico onde se pudesse evidenciar a sua vida, o seu pensamento e a sua obra”.

Recordando que o Liceu de Macau teve três dezenas de figuras que ocuparam a função de reitor, o autor frisa que houve também “professores que deveriam ter sido reitores e por caprichos do destino não o foram”. Aponta, por exemplo, o professor Fernando Lara Reis, “figura ímpar a quem o Liceu e Macau muito devem”.

“A dimensão ultramarina da educação portuguesa tem sido pouco estudada, não só pelas controvérsias ideológicas que lhe estão associadas mas sobretudo pelo descaminho do imenso património documental e arquivístico, o que tem impedido o aparecimento de trabalhos de investigação com a constância que seria desejável”, defende Aresta. “Já estou a dar continuidade a este trabalho, abrangendo mais dez figuras que ocuparam as funções de reitor. É um trabalho lento, feito nos ócios do ofício”, acrescenta, em declarações a este jornal.

O Liceu de Macau foi fundado em 27 de Julho de 1893. A inauguração foi feita a 28 de Setembro de 1894, com 57 alunos, altura em que o território era governado por José Maria Horta e Costa.

“O Liceu teve sempre uma vida muito atribulada, misturando-se um pouco de tudo: escassez de alunos, polémicas na imprensa, insuficiência de recursos, querelas políticas com deputados e senadores, problemas com o Leal Senado, quezílias com o Governador, invejas com o Seminário e com a Escola Comercial. Mas conseguiu superar todas as malquerenças e vicissitudes e lá foi singrando com acerto e competência”, recorda. Por outro lado, o corpo docente era “muito bom” nesses “tempos áureos”, representando a “intelligentzia portuguesa expatriada em Macau”.

António Aresta diz que a obra é dedicada a “uma multidão”: a todos os que trabalharam, estudaram e ensinaram no Liceu de Macau, desde 1894 até 1998.

Rogério Beltrão Coelho, da “Livros do Oriente”, editou o livro. Ao Jornal Tribuna de Macau, disse que “não houve um desafio específico relativo a esta edição”. “Há um desafio global e constante, quando se fala hoje na edição de livros em Português em Macau. O diminuto número de potenciais leitores locais, que raramente chega à centena, não permite recuperar os encargos com a edição através da venda de exemplares”, apontou.

Beltrão Coelho sublinhou que, não havendo uma política de apoio à edição no território, “qualquer obra que surja será sempre fruto do sacrifício do editor ou da sorte de se ver bafejado por um patrocínio ocasional”.

A divulgação e distribuição do livro em Portugal resume-se à Livraria da Delegação Económica e Comercial de Macau, em Lisboa, que se encontra encerrada devido à pandemia.

O prefácio é de Cecília Jorge, onde escreve que o que distingue António Aresta “além de uma erudição patente nos seus escritos, é o rigor e a seriedade da comunicação assente em factos e em documentos”, “fugindo aos sensacionalismos, e ao relato que apenas se fundamenta na ficção”. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


Cagiano, uma poesia moldada de desespero

                                                                   I

Observatório do caos (São Paulo, Editora Patuá), livro de poesias de Ronaldo Cagiano, publicado em 2016, é uma continuação do inventário lírico de uma trajetória literária que, a rigor, começou com Palavra engajada, publicado em 1989, e havia sido rastreada até O sol nas feridas, de 2012, obra já de sua estada de dez anos na cidade de São Paulo, depois de uma trajetória de 28 anos em Brasília.


Em 2016, porém, o autor se aposentou após uma larga carreira como advogado de um banco estatal, transferindo-se para Portugal, depois de algumas experiências pessoais traumáticas nas ruas de São Paulo, em busca de um lugar que oferecesse paz ao cidadão. Talvez por isso este livro já mostre algumas das influências literárias que o poeta sofreu em solo português, o que está mais acentuado ainda nos quatro livros que publicou depois de estabilizado em terras lusas.

Como observa o poeta, ensaísta e crítico literário português Victor Oliveira Mateus no ensaio “Sociedade e ética na poesia de Ronaldo Cagiano”, que abre o livro à guisa de prefácio, esta obra constitui “um olhar meticuloso e arguto não só sobre o homem nas suas mundividências, mas também  sobre a sociedade que o cerca e que ao poeta se mostra recorrentemente como um território polimorfo, ardiloso e que, o mais das vezes, ameaça aquilo que no ser humano faz dele algo singular e único neste planeta em que fomos chamados a estar”.

É o próprio Mateus quem traça essas influências, ao perceber que o fazer poético de Cagiano se aproxima desde cedo da obra de Fernando Pessoa e seu heterônimo Álvaro de Campos na maneira como busca se libertar dos paradigmas metafísicos. E se acentua na citação que ele faz de Florbela Espanca no poema “Viagem às vísceras do inacontecido”, que traz também uma referência a um “beijo negado no espalhar das cinzas do futuro no cais tenebroso desse Tejo de tantas ausências”.

Outra presença emblemática da literatura de língua portuguesa é a do moçambicano Mia Couto, com quem o autor estabelece um diálogo direto com seus poemas ou versos, como observa Matheus em seu rico ensaio. No poema “Releitura de um poema de Mia Couto”, Cagiano diz: (...) Apenas agora / venci a escuridão dos silêncios / a sisudez dos lutos / a ignomínia das lutas, / porque sua energia intocável, / incendiou meus passos. / Sigamos, amada minha, / de peito aberto e alma desnuda / sobre a vida /desnudando a vida.

O poema “Memória” traz também como epígrafe esta frase de Mia Couto: “o tempo, esse animal que defeca memória”. Além disso, em sua preocupação em dialogar com outros autores, Cagiano faz referência a versos do poeta português Gastão Cruz: Estou certo, ainda, / aprés versos de Gastão Cruz / que na tritura / da moe(n)da dos dias / o homem esfarelado / descansará do inútil abismo /de onde / a luta versátil e imponderável / o luto perseverante e indolente / semearam seus ovos / & nos enredaram / em insondáveis caminhos.

Já em “Vão território”, a epígrafe é um verso de outro poeta moçambicano, o jovem Amosse Mucavele: “a voz do rio seca torna-se num eterno guardador de silêncios”. Nessa poesia, diz: (...) Corpo à deriva / tentando entender no ronco das marés / o rude aprendizado / da impalpável mudez da madrugada, / onde esconde-se a enxúndia da morte.

 

                                                                  II

A exemplo de O sol das feridas, nesta obra o poeta faz, uma vez mais, de seu ofício um diálogo com o cotidiano, procurando recuperar imagens da infância, como no poema “Trajeto” em que traz à tona as lembranças do pai, que tinha como profissão a de barbeiro numa cidade pequena, a Cataguases dos anos 60: A vida perdida / nos quilômetros de rostos / depurados com perícia / Ele desconhece Dédalus / não sabe como sair de seu labirinto, / Teseu acorrentado / com fígado de Prometeu / Na hora medida do almoço / os mesmos passos contados / o mesmo perfume de Água Velva / legitimando a rotina insossa.

No poema que leva o título “O barbeiro” faz outra homenagem ao pai: De suas hábeis mãos / ele interroga as faces úmidas / no bailar da lâmina / desbasta o jardim de pelos / corrige / as voçorocas da pele. (...) artesanato de mãos / que nunca se fatigam / nem enferrujam: / máquina de vincar rostos / tão despidos de outros / encantos. As lembranças estão ainda no poema “Resquícios” em que diz: Do pai / restou o olhar migrante / perdido no vazio da casa / entre silêncios e vertigens / De carências e não-diálogos / fez-se o gesto-lâmina / que guardo junto com / a navalha espanhola, / única herança de estranho afeto.

São poemas em que o poeta não disfarça que procura seguir também os passos de outros grandes poetas brasileiros, como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, o que fica claro em “Poema em linha torta” em que diz: Ainda tenho medo / do chapéu de meu avô / (mas eu nunca tive avô) / de suas orelhas de abano / e seu silêncio antigo como o tempo / (feito o silêncio de seu filho). Um poema que é dedicado ao poeta uruguaio Leonardo Garet, autor de O livro dos suicidas (Editora Letra Selvagem, Taubaté, 2019), cujo texto de apresentação na edição brasileira foi Cagiano quem escreveu.

Outro tema que permanece nos poemas de Observatório do caos é a (má) relação do poeta com a religião – ou a ausência desta em sua vida, substituída pelo culto à literatura e aos seus nomes universais. Feita e moldada de desespero, sua poesia questiona sempre o sentido da vida para concluir que “todas as manhãs / o sol traz um novo luto, versos que encerram o poema “Abismos”.

É o que se constata também em “...onde estava Ele” que começa com a repetição de versos que já estavam no poema “Ad nauseam” de O sol nas feridas: ... quando Hitler avançou / com seus coturnos, seus chuveiros letais / seus campos de concentração / sobre toda a humanidade? Depois, o poeta enumera uma série de desastres e monstruosidades ocorridas no Brasil e no mundo e pergunta: (...) Onde está Deus? / cujo poder não exercita? cuja vontade não realiza? Cujas bênçãos nunca vêm? / Onde está Deus / que não faz nada? Perguntas que, hoje, muitos ateístas e mesmo muitos crentes repetem diante das perdas diárias de numerosas vidas ceifadas pela pandemia do coronavírus (covid-19).

                                                                 III

Nascido em 1961 na mítica cidade de Cataguases, no interior de Minas Gerais, Ronaldo Cagiano é escritor, ensaísta e crítico literário. Embora vivendo há cinco anos em Portugal, mantém a ligação com a terra brasílica, publicando em diversos jornais e revistas do País e do exterior, dentre os quais Hoje em Dia, de Belo Horizonte, Jornal de Brasília, Jornal Opção, de Goiânia, Correio Braziliense, O Estado de S. Paulo e Revista Cult, de São Paulo.

Estreou-se com o livro de poesias Palavra engajada (1989). Desde então, publicou Colheita amarga & outras angústias (poesias, São Paulo, 1990), Exílio (poesia, São Paulo, 1990), Palavracesa (poesia, Brasília, 1994), O prazer da leitura, em parceria com Jacinto Guerra (contos juvenis, Editora Thesaurus, Brasília, 1997), Prismas – literatura e outros temas (crítica literária, Editora Thesaurus, Brasília, 1997), Canção dentro da noite (poesia, Editora Thesaurus, Brasília, 1999), Espelho, espelho meu, em parceria com Joilson Portocalvo (infanto-juvenil, Brasília, 2000), Dezembro indigesto (contos, Brasília, 2001), primeiro lugar no concurso Bolsa Brasília de Produção Literária de 2001, Concerto para arranha-céus (contos, LGE Editora, Brasília, 2005), Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, Rio de Janeiro, 2006), Moenda de silêncios (novela em parceria com Whisner Fraga, Dobra Ideias, São Paulo, 2012), O sol nas feridas (poesia, Editora Dobra, São Paulo, 2012), finalista do Prêmio Portugal Telecom de 2013, e Eles não moram mais aqui (contos, Editora Patuá, São Paulo, 2016; Editora Gato Bravo, Lisboa, 2018), terceiro lugar no Prêmio Jabuti de 2016.

Depois de Observatório do caos, publicou ainda Diolindas, em parceria com Eltânia André (novela, Editora Penalux, São Paulo, 2017), Os rios de mim (poesia, Editora Urutau, Pontevedra, Espanha, 2018), O mundo sem explicação (poesia, Editora Coisas de Ler, Lisboa, 2019), e Cartografia do abismo (poesia, Editora Laranja Original, São Paulo, 2020). Organizou as coletâneas Antologia do conto brasiliense (Projecto Editorial, Brasília, 2001), Poetas mineiros em Brasília (Varanda Edições, Brasília, 2001) e Todas as gerações – O conto brasiliense contemporâneo (LGE Editora, Brasília, 2006). Adelto Gonçalves – Brasil 

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Observatório do caos, de Ronaldo Cagiano. São Paulo, Editora Patuá, 180 págs., R$ 38,00, 2016. E-mail: editorapatua@gmail.com Site: www.editorapatua.com.br

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Adelto Gonçalves, jornalista, é mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp)/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br



segunda-feira, 26 de abril de 2021

Timor-Leste – Organização Mundial de Saúde disponibiliza equipamentos de resposta à covid-19 e apoio humanitário


Díli – A Organização Mundial de Saúde (OMS) ofereceu a Timor-Leste equipamentos de combate à covid-19 e apoio humanitário destinado às vítimas das cheias de 4 de abril. O material chegou num voo My Jet Express fretado pela OMS.

O auxílio desta organização internacional consiste em equipamento de resposta à covid-19 e ajuda de emergência, num total de mais de 13,25 toneladas, o equivalente a cerca de um milhão de dólares americanos.

O Representante da OMS, Arvind Mathur, declarou que o apoio concedido hoje provém do escritório regional para o Sudeste Asiático e da sede em Genebra da OMS.

“A ajuda que chega hoje inclui material de resposta à covid-19, como equipamento de proteção individual (EPI), e de ajuda pós-inundação, como testes de diagnóstico de cólera, medicamentos para a diarreia e materiais para cirurgias urgentes”, afirmou o responsável, no aeroporto de Díli.

Já a Ministra da Saúde, Odete Maria Freitas Belo, afirmou que os equipamentos fornecidos pela OMS visam auxiliar as vítimas das cheias, sobretudo as que se encontram doentes.

“Na altura, tentámos apoiar os nossos pacientes afetados pelas inundações e solicitámos apoio aos nossos parceiros”, referiu. Nelia Fernandes – Timor-Leste in “Tatoli”


 

Macau - Livro “Macau: Novas Leituras” será apresentado amanhã na Livraria Portuguesa


A obra “Macau: Novas Leituras”, editado pela Tinta da China em Portugal, será apresentada amanhã, 27 de Abril, na Livraria Portuguesa entre as 18h30 e as 20h. A sessão será transmitida online em simultâneo em Portugal, no horário entre as 11h30 e as 13h, via Facebook. A moderação estará a cargo de Ricardo Pinto, gestor da Livraria Portuguesa, e Marta Pacheco Pinto. A sessão conta ainda com as participações de Ana Paula Laborinho, co-organizadora da obra, Inês Hugon, da Tinta da China e Gonçalo Cordeiro, outro co-organizador do livro.

Seguem-se apresentações de personalidades como Fernanda Gil Costa, Dora Nunes Gago, Maria do Carmo Piçarra e Carlos André. Serão feitas também algumas leituras de autores como Carlos Morais José, Yao Jingming e Joe Tang. “Macau. Novas Leituras” é um livro que “assinala os 20 anos da transferência da administração portuguesa de Macau para a República Popular da China, celebrados em 2019 e também eles marcando o fim do ciclo colonial português”.

Com esta edição “propõe-se uma reflexão abrangente sobre alguma da produção literária e cultural mais relevante dedicada a Macau desde a transferência, privilegiando a escrita em língua portuguesa, mas sem descurar outras vozes e tradições literárias”. In “Hoje Macau” – Macau

«Podemos ir

só a ponte

é difícil»

Alberto Estima de Oliveira (inédito)

Macau: Novas Leituras assinala os 20 anos da transferência da administração portuguesa de Macau para a República Popular da Chi­na, celebrados em 2019 e também eles marcando o fim do ciclo colonial português. Propõese uma reflexão abrangente sobre alguma da produção literária e cultural mais relevante dedicada a Macau desde a transferência, privilegiando a escrita em língua portuguesa mas sem descurar outras vozes e tradições literárias. Partilhamse estudos e testemunhos tanto de quem investiga como de quem escreve Macau e oferecese uma breve recolha de textos representativos desta fase mais recente do delta literário e cultural de Macau.

«Macau — hoje Região Administrativa Especial de Macau — sempre se caracterizou pela capacidade de acomodar mudanças e, tal como um frágil edifício de bambu resistindo à força do tufão, conseguiu chegar a 2020 mantendo a sua diferença e alimentando a sua especificidade. […]

Passados 20 anos da transferência de Macau para a administração chinesa, faltam 29 anos para o fim deste ciclo, e a cidade prosseguirá as mudanças em função dos seus habitantes e dos hábitos que conservarem. Até agora, continuamos a ter uma comunicação social em português (além dos canais de televisão e rádio, publicamse no território quatro jornais em língua portuguesa), o ensino do português aumentou, as traduções portuguesas da literatura chinesa de Macau vão crescendo, a literatura portuguesa vaise tornando cada vez mais visível em tradução para chinês, e há portugueses que ali vivem, trabalham e sonham. Do cinema às artes plásticas, da música à literatura, Macau ainda se escreve em português. Deixemos o tempo e os seus atores contarem a história do futuro.»

Ana Paula Laborinho | Marta Pacheco Pinto in “Tinta-da-china editora”



 

Brasil - Agregar valor ao agronegócio

Na maioria, foram convidados por conchavos e pelo contato do principal mandatário com a caserna. A rigor, esses pretensos ministros, se tivessem autocrítica e realmente estivessem preocupados com o desenvolvimento do País, jamais aceitariam a responsabilidade de administrar aquilo que efetivamente não conhecem

São Paulo - Como quarta economia do mundo, o Brasil não depende – e ainda bem – do governo central para dar andamento a sua economia, mas que suas ações podem atrapalhar não há dúvida. E, infelizmente, é o que vem ocorrendo com frequência. Com exceção dos ministérios da Fazenda e da Agricultura e do Banco Central, administrados por titulares de alto nível técnico e formação acadêmica invejável, os demais órgãos, com raras exceções, são conduzidos por profissionais que estão longe de serem os mais bem preparados. 

Na maioria, foram convidados por conchavos e pelo contato do principal mandatário com a caserna. A rigor, esses pretensos ministros, se tivessem autocrítica e realmente estivessem preocupados com o desenvolvimento do País, jamais aceitariam a responsabilidade de administrar aquilo que efetivamente não conhecem. Na verdade, mostram-se tão despreparados para a função que é possível imaginar que tenham sido convidados para encobrir mais a falta de talento administrativo e político do presidente da República do que por outra razão mais nobre. Seja como for, o que se lamenta é que a soberba impeça que se deem conta do quanto sua incompetência vem prejudicando o País.

Em que pesem trapalhadas governamentais e atitudes do presidente que fogem à luz da razão, o empresariado nacional tem sabido como se portar, assimilando as informações e os movimentos econômicos e administrativos do governo que são dignos de serem levados em conta. E assim o País, apesar dos sobressaltos causados pela pandemia de coronavírus (covid-19), segue firme em busca da retomada da produção e da normalidade econômica para fazer frente a um mercado consumidor que deve chegar em 2030 como o quinto maior do mundo, com um potencial previsto de US$ 2,5 trilhões, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Basta ver que, mesmo em meio à pandemia, em 2020, no acumulado do ano, a balança comercial registrou superávit de US$ 50,9 bilhões, com exportações de US$ 209,9 bilhões e importações de US$ 158,9 bilhões, tendo a corrente de comércio chegado a US$ 368,8 bilhões, segundo dados do Ministério da Economia.

Obviamente, esses números foram sustentados pelo agronegócio e pela mineração com a produção que alcançaram, mas não se pode deixar de reconhecer que esses setores também ajudaram o segmento industrial com a compra de máquinas, tratores e até aviões para o trabalho de pulverização da lavoura. Enfim, há uma grande gama de produtos industrializados que são exigidos para o plantio e a colheita de safras gigantescas.

Isso significa que, para que a balança continue superavitária, é preciso agregar cada vez mais valor ao agronegócio. Ou seja, é fundamental que a indústria de transformação invista em tecnologia e em novos processamentos para que possa atender ao agronegócio em sua necessidade de escoar ainda mais e aumentar o número de vendas para o mundo. Além disso, é essencial que o governo federal, por meio do Ministério da Infraestrutura, continue a investir em obras que possam facilitar o escoamento da produção, o que inclui o reaparelhamento de portos e aeroportos.

Por fim, não se pode deixar de lado a tão decantada reforma tributária que, segundo o ministro da Economia, Paulo Guedes, haverá de ser ainda aprovada neste ano e que tem por objetivo ampliar a base de arrecadação para conseguir reduzir alíquotas de impostos.  O que se espera é que essa reforma venha também a contribuir para o desenvolvimento não só do comércio exterior como daqueles outros setores que a ele estão ligados. Adelto Gonçalves – Brasil

 

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Adelto Gonçalves, jornalista, é assessor de imprensa do Grupo Fiorde, constituído pelas empresas Fiorde Logística Internacional, FTA Transportes e Armazéns Gerais e Barter Comércio Internacional (trading company). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br


Portugal - Equipa da Universidade de Coimbra cria embalagens comestíveis a partir de resíduos da indústria agroalimentar

Uma equipa da Universidade de Coimbra (UC), com a colaboração da Escola Superior Agrária de Coimbra (ESAC), desenvolveu um conjunto de embalagens comestíveis a partir de diferentes resíduos do setor agroalimentar e da pesca, uma alternativa sustentável ao plástico.

Na prática, estas embalagens comestíveis são filmes obtidos a partir de resíduos de diferentes alimentos, nomeadamente cascas de batata e de marmelo, fruta fora das características padronizadas e cascas de crustáceos, que, além de revestirem os alimentos, prolongando a sua vida útil na prateleira do supermercado, também podem ser ingeridos.

As embalagens desenvolvidas pelas investigadoras Marisa Gaspar, Mara Braga e Patrícia Almeida Coimbra, do Centro de Investigação em Engenharia dos Processos Químicos e dos Produtos da Floresta (CIEPQPF), da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), foram pensadas essencialmente para revestir frutas, legumes e queijos, incorporando na sua matriz compostos bioativos/nutracêuticos, tais como antioxidantes e probióticos, com potenciais efeitos benéficos para a saúde.

Podemos imaginar, por exemplo, cozinhar brócolos ou espargos sem ser necessário retirar a embalagem, uma vez que a película que os envolve é composta por nutrientes naturais com benefícios para a saúde.


«Produzimos composições diferenciadas de filmes, usando os resíduos quase integralmente, que contêm compostos com propriedades diferentes. Por exemplo, a casca de batata tem mais amido e a casca de marmelo mais pectina, ou seja, temos dois materiais poliméricos estruturais que, combinados, vão gerar um filme simples, sem processamentos complexos», explicam Marisa Gaspar, Mara Braga e Patrícia Almeida Coimbra.

No entanto, antes de conseguir obter filmes/revestimentos quer na forma de película quer na forma de spray (aplicado na fase líquida e seca no alimento), a equipa, que juntou vários grupos de investigação da UC e da ESAC, teve de superar várias fases. «O maior desafio é encontrar os materiais ideais para que as formulações tenham as características desejadas. Por isso, foi necessário estudar os filmes do ponto de vista físico, como por exemplo as propriedades mecânicas, de forma a servirem de embalagem / revestimento; estudar as propriedades bioativas dos filmes, ou seja, se alguns compostos apresentam benefícios para a saúde quando ingeridos; avaliar as reações quando se juntam diferentes compostos; análise microbiológica e sensorial dos filmes selecionados; e avaliar a compatibilidade do alimento com o sistema comestível produzido», resumem as três investigadoras da FCTUC.

Marisa Gaspar, Mara Braga e Patrícia Almeida Coimbra consideram que a solução proposta pela sua equipa pode ser «muito vantajosa tanto para indústria como para o consumidor. É uma abordagem centrada na economia circular. Não só aumenta a vida útil do produto na prateleira, como também evita o desperdício, reduz a produção de lixo plástico, um grave problema ambiental, e gera um novo produto que confere um adicional nutritivo ao alimento», concluem.

Iniciada em 2018, no âmbito do projeto “MultiBiorefinery”, financiado pelo COMPETE 2020, esta investigação foi recentemente distinguida com um prémio de 20 mil euros pelo programa “Projetos Semente de Investigação Interdisciplinar - Santander UC”, atribuído a equipas multidisciplinares lideradas por jovens investigadores na Universidade de Coimbra. Foi ainda premiada no concurso de ideias LL2FRESH, que visa procurar novas soluções de embalagem, métodos de tratamento de alimentos e aditivos de última geração.

No âmbito deste projeto foi publicado um artigo científico na revista Food Packaging and Shelf Life, disponível: aqui. Universidade de Coimbra - Portugal



domingo, 25 de abril de 2021

Cabo Verde - São Vicente recorda os “aviadores” que há cem anos iam a caminho do Brasil

O hidroavião “Lusitânia”, de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, fez história em abril de 1922 ao ligar o Atlântico, mas a passagem dos “aviadores” por São Vicente permanece na memória daquela ilha cabo-verdiana, que prepara as comemorações do centenário


“Foi o primeiro voo que Cabo Verde recebeu”, começou por contar à Lusa o engenheiro civil cabo-verdiano Carlos Monteiro, responsável em São Vicente pelas comemorações do centenário da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, preparadas em conjunto com a associação Lusitânia 100, fundada em Portugal em 2013 com a finalidade de divulgar aquela viagem histórica.

No final do dia 05 de abril de 1922, o hidroavião Fairey III D Mkll – o primeiro de três usados naquela histórica travessia - amarou na baía do Mindelo, ilha de São Vicente, depois de uma viagem de 10 horas e 43 minutos para percorrer 1572 quilómetros, desde as Canárias, que tinham sido a primeira paragem após a saída de Belém, Lisboa, em 30 de março.

Aos comandos seguiam Gago Coutinho, experiente cartógrafo da Marinha, e Sacadura Cabral, piloto com larga experiência, conhecimentos complementares e tidos como decisivos para o sucesso da viagem.

“Vendo esse circuito, os quilómetros que foram feitos - no total cerca de 8300 -, a uma velocidade média de 143 quilómetros por hora, dá uma ideia das dificuldades”, recordou Carlos Monteiro.

Segundo os relatos da altura, os dois aviadores portugueses foram recebidos, triunfantes, pela população de São Vicente.

As autoridades municipais do Mindelo mandaram mesmo construir no local onde aportaram um padrão – destruído na década de 1980 e edificado outro cerca de dez anos depois – e a poucas dezenas de metros um obelisco numa praça, a que deram o nome de Gago Coutinho, o qual ficou conhecido como “O Pássaro”, ainda hoje ponto obrigatório de passagem de quem chega a São Vicente.

“Muita gente apareceu aqui para ver. Foi algo de extrema importância (…) Está na memória coletiva de São Vicente e de Cabo Verde em geral”, explicou, apontando ao local onde São Vicente entrou para a história da aviação.

Com o imponente obelisco de fundo, aquela área, junto à baía do Mindelo ficou mesmo conhecida como a “avenida dos aviadores”, tal foi a importância do feito dos dois, recebidos em 06 de abril de 1922 na Câmara Municipal da cidade, que se reuniu em sessão solene para os homenagear publicamente.

Em São Vicente, Gago Coutinho e Sacadura Cabral permaneceram mais de dez dias, em reparações do hidroavião "Lusitânia". A etapa seguinte foi curta, até à Praia, ilha de Santiago, e aconteceu em 17 de abril, com 315 quilómetros percorridos em pouco mais de duas horas. Pouco mais do dobro do tempo das ligações aéreas atuais, praticamente cem anos depois.

“O avião esteve cá, aportou nesta zona, e ainda tentaram ir a Santo Antão [ilha vizinha de São Vicente]. Foram de barco analisar e chegaram à conclusão que não. Foram para a Praia”, recordou Carlos Monteiro que, aos 65 anos, já reformado, se tornou num entusiasta desta aventura. A mesma que conheceu pela primeira vez, na escola, sem então lhe passar pela cabeça que estaria na organização do centenário da viagem, quase seis décadas depois.

“Não imaginava. De facto, na escola, estudei, como todos nós, e na altura já achava um feito interessante, um feito único, que acabou por levar Cabo Verde à história, ao pontapé de saída da aviação. E agora estou cá, deste lado, abraçando este projeto”, brincou.

O 99.º aniversário da chegada dos aviadores ao Mindelo já foi assinalado na cidade em 05 de abril - e na Praia em 17 de abril – com a colocação de uma coroa de flores com as cores das bandeiras dos quatro países ligados pela viagem (Portugal, Espanha, Cabo Verde e Brasil) junto ao padrão na baía.

Contudo, foi apenas o “pontapé de saída” para a preparação das comemorações do centenário, em abril de 2022.

“Estamos a congregar esforços para fazer algo conjunto, Portugal e Cabo Verde, logicamente envolvendo as Canárias, Espanha, e o Brasil (…) Em Cabo Verde queremos envolver a população, a ideia é desenvolver várias atividades, essencialmente ao nível do mar, dos desportos náuticos, alguns espetáculos e cultura”, explicou Carlos Monteiro, que foi diretor de aviação na vertente de abastecimento, pelo que sempre se teve o “bichinho” dos aviões.

No arquipélago, o programa das comemorações do centenário, no Mindelo e na Praia, foi batizado de “Cabo Verde: Os caminhos da História” e tem três vertentes: Educação, cultura e cidadania, envolvendo entidades públicas e privadas locais, incluindo conferências internacionais a dinamizar conjuntamente com as universidades cabo-verdianas.

Os dois aviadores deixaram a ilha de Santiago em 18 de abril de 1922 para a o troço mais longo da viagem. Levaram 11 horas e 21 minutos para percorrer os 1682 quilómetros até amarar no arquipélago de São Pedro e São Paulo, um conjunto de pequenos ilhéus rochosos do estado brasileiro de Pernambuco, mas ainda a quase 1000 quilómetros da costa continental.

Ali trocaram para o Fairey N.º 16, batizado de “Pátria”, mas este sofreu uma avaria no motor em 04 de maio, na viagem a caminho do arquipélago de Fernão de Noronha, e os aviadores foram forçados a amarar de emergência.

Já no terceiro hidroavião, o Fairey N.º 17, batizado "Santa Cruz", Gago Coutinho e Sacadura Cabral chegaram ao Rio de Janeiro em 17 de junho de 1922, o destino final.

“Teve grande impacto não só em termos de Portugal, mas também no mundo e logicamente em Cabo Verde (…) Acabou por nos introduzir no seio da aviação civil, teve uma grande importância para Cabo Verde”, reconheceu Carlos Monteiro. In “Expresso das Ilhas” – Cabo Verde com “Lusa”