Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Irão - Descoberta nova espécie de ‘tarântula dourada’

De nome comum tarântula-dourada-da-pérsia, a nova espécie de aracnídeo (Chaetopelma persianum) foi encontrada no nordeste do Irão. Um corpo repleto de pelos densos e dourados distingue-a de qualquer outra espécie que até então era conhecida da Ciência, pelo que os investigadores souberam de imediato que estavam perante algo totalmente novo.


Num artigo publicado esta terça-feira na revista “Zookeys”, Alireza Zamani, da Universidade de Turku, na Finlândia, e Rick West, investigador canadiano independente, revelam que apenas tiveram de recolher e estudar um espécime para saberem que se tratava de uma espécie que ainda não tinha sido descrita.

A tarântula-dourada-da-pérsia pertence ao género Chaetopelma, cuja distribuição se estende pelo Sudão, pela ilha grega de Creta e por parte do Médio Oriente. Segundo os cientistas, esse é um de apenas dois géneros de tarântulas que ocorrem na região do Mediterrâneo.

A nova espécie é a primeira do género Chaetopelma a ser identificada no Irão e a terceira espécie de tarântula a ser encontrada no país. A sua designação científica é uma referência ao nome pelo qual o Irão era conhecido no passado: Pérsia.

De acordo com os investigadores, esta tarântula vive em tocas que escava no solo e pode ser encontrada em zona montanhosas repletas de vegetação, sobretudo rasteira, como a região norte da Cordilheira de Zagros, onde os cientistas a descobriram.

A procura científica em busca da nova espécie foi catapultada por uma fotografia que Zamani recebeu de um naturalista amador iraniano, Mehdi Gavahyan. A imagem captava um macho, e Zamani percebeu que muito provavelmente era uma espécie desconhecida, tendo pedido a Gavahyan e a outro naturalista local, Amir Hossein Aghaei, que procurassem mais espécimes e que os enviassem para a Finlândia.

Contudo, a dupla de entusiastas da Natureza apenas conseguiu recolher um espécime, uma fêmea, que viria a confirmar que, realmente, era uma nova espécie do género Chaetopelma. Ainda assim, os investigadores receberam outras fotografias de tarântulas tiradas por cidadãos, no Irão e também no Iraque, que muito provavelmente seriam membros da nova espécie, mas não conseguiram ainda confirmá-lo.

Os cientistas acreditam que mais estudos na Arábia Saudita, na Síria, no Iraque, no leste da Turquia e no oeste do Irão poderão resultar em mais registos de espécies do género Chaetopelma ou até mesmo na descoberta de novas espécies. Filipe Rações – Portugal in “Green Savers”


sexta-feira, 27 de março de 2020

Internacional - Inverter a seta do tempo nem sempre é possível

Quando três ou mais corpos celestes interagem entre si, é impossível inverter o seu movimento. Esta é a descoberta de uma equipa internacional de investigadores, liderada por Tjarda Boekholt, do Centro de Física da Universidade de Coimbra (UC), através de simulações em computador do movimento de três buracos negros.

O estudo, que contribui para uma melhor compreensão “microscópica” da seta do tempo, um dos maiores mistérios da física, vai ser publicado na edição de abril da revista científica The Monthly Notices da Royal Astronomical Society.

A maioria das leis fundamentais da física não tem problemas com a direção em que elas ocorrem. Como os cientistas gostam de dizer, elas são simétricas no tempo. No entanto, todos sabemos que o tempo não pode voltar para trás. Um copo que cai e se parte não pode voltar inteiro para a nossa mão. Até aqui, os cientistas explicaram a quebra de simetria no tempo devido à interação estatística entre um grande número de partículas. Agora, os astrónomos Tjarda Boekholt (Universidade de Coimbra, Portugal), Simon Portegies Zwart (Universidade de Leiden, Países-Baixos) e Mauri Valtonen (Universidade de Turku, Finlândia) mostram que não são precisas muitas partículas, mas apenas três são suficientes para quebrar a simetria no tempo.

Os investigadores calcularam as órbitas de três buracos negros que interagem entre si. Fizeram dois tipos de simulações. Na primeira, os buracos negros estão inicialmente em repouso. Devido à gravidade, eles atraem-se mutuamente e cruzam-se percorrendo órbitas caóticas, até que um dos buracos negros escapa à atração dos outros dois. Na segunda simulação, o sistema começa com a situação final da simulação anterior, e tenta reverter o tempo de volta à situação inicial.

As simulações mostram que o tempo não pode ser revertido em 5% dos cálculos. Mesmo que o computador use mais de cem casas decimais, a simetria do tempo é interrompida pelo crescimento exponencial de perturbações do tamanho do comprimento de Planck, que é cerca de 10-35 metros. Estes 5% não são, por isso, uma questão de melhores computadores ou métodos de cálculo mais inteligentes, como se pensava anteriormente.

Os astrónomos explicam a irreversibilidade usando o conceito de comprimento de Planck. Este é um princípio conhecido na física que se aplica a fenómenos ao nível do átomo. O investigador principal, Tjarda Boekholt, diz que «o movimento dos três buracos negros pode ser tão caótico que algo tão pequeno quanto o comprimento de Planck entra em ação. A simetria do tempo é quebrada por distúrbios do tamanho do comprimento de Planck».

O coautor Portegies Zwart acrescenta que «não poder voltar para trás no tempo deixa de ser um argumento estatístico. Este fenómeno está oculto nas leis básicas da Natureza. Nenhum sistema de três objetos em movimento, grandes ou pequenos, planetas ou buracos negros, pode escapar à direção do tempo».

O principal resultado deste trabalho, destaca Tjarda Boekholt, «é mostrar que existem sistemas no Universo que são fundamentalmente imprevisíveis. Isso é consequência da teoria do caos e do crescimento exponencial de pequenas perturbações de tamanho do comprimento de Planck. Portanto, os astrónomos têm que tentar entender os sistemas de forma mais qualitativa».

Outra consequência, conclui o investigador da UC, «é que os sistemas se tornam assimétricos no tempo, mesmo que as equações subjacentes sejam simétricas no tempo. Agora há uma direção preferível, ou seja, podemos distinguir o futuro do passado. O nosso estudo é um primeiro passo para uma melhor compreensão “microscópica” da seta do tempo». Universidade de Coimbra - Portugal





Artigo Científico: “Gargantuan chaotic gravitational three-body systems and their irreversibility to the Planck length”. By: T.C.N. Boekholt, S.F. Portegies Zwart, M. Valtonen. In: Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, Volume 493, Issue 3, April 2020, Pages 3932–3937, https://doi.org/10.1093/mnras/staa452 (original)