Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Universidade da Califórnia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Universidade da Califórnia. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Brasil - A Amazónia está a entrar num estado "hipertropical" nunca visto em milhões de anos

Um novo estudo publicado na revista Nature sobre a floresta amazónica descobriu que a região está a transformar-se num estado "hipertropical", à medida que as secas se tornam mais longas, mais quentes e mais frequentes.


Segundo a equipa internacional de investigadores responsável pelo estudo, estas condições "não têm paralelo atualmente". As árvores estão sendo expostas a níveis de estresse sem precedentes, e a capacidade da Amazónia de absorver dióxido de carbono também está sendo reduzida.

As alterações contemporâneas e iminentes são tão drásticas, com base em dados coletados na Amazónia ao longo de mais de três décadas, que os investigadores criaram um termo: "hipertropical". Estamos a falar de condições que não existiam na Terra há milhões de anos.

Os Investigadores analisaram como as árvores e o solo em que estão enraizadas reagem a períodos de altas temperaturas e seca. À medida que esses períodos se intensificam, eles oferecem uma breve visão do que poderá ser o novo normal nos próximos 100 anos.

"Quando ocorrem estas secas intensas, esse é o clima que associamos a uma floresta hipertropical, porque está além dos limites do que consideramos floresta tropical atualmente", afirma o geógrafo Jeff Chambers, da Universidade da Califórnia, Berkeley.

Modelos criados a partir dos dados coletados por Chambers e pelos seus colegas mostram que estas secas extremas provavelmente serão ainda mais comuns até 2100 e ocorrerão durante todo o ano – inclusive durante a estação chuvosa (por volta de dezembro a maio ).

Prevê-se que as árvores morram em taxas mais elevadas devido à redução da humidade do solo, o que pode desencadear dois problemas relacionados: falha hidráulica , em que bolhas de ar bloqueiam o transporte de água dentro das árvores, e privação de carbono , em que o fechamento dos poros das folhas, numa tentativa de economizar água, afeta a fotossíntese.

Medições de campo mostram que isso já está a acontecer agora, nos extremos do clima atual da Amazónia. Se o clima tornar-se hipertropical, esses extremos ocorrerão com muito mais frequência, podendo aumentar a taxa de mortalidade das árvores em 55%.

"Demonstramos que as árvores de crescimento rápido e baixa densidade da madeira eram mais vulneráveis, morrendo em maior número do que as árvores de alta densidade da madeira", afirma Chambers.

"Isso implica que as florestas secundárias podem ser mais vulneráveis ​​à mortalidade induzida pela seca, porque possuem uma fração maior desses tipos de árvores."

Parte do estudo focou em dois locais específicos da Amazónia afetados pelas secas de 2015 e 2023, que foram impulsionadas por eventos El Niño excepcionalmente quentes. O limiar crítico de água foi o mesmo nos dois locais e nos dois anos – sugerindo uma possível mudança generalizada.

A maioria das florestas hipertropicais surgirá na região amazónica, preveem os investigadores, embora também seja provável que apareçam na África e na Ásia. Essas florestas podem deixar de ser sumidouros de carbono e tornarem-se emissoras de carbono, à medida que as árvores morrem.

Estas projeções são baseadas em dados abrangentes e servem como mais um lembrete preocupante da importância das florestas para o equilíbrio da atmosfera – e do que acontece se elas forem perdidas.

"Tudo depende do que fizermos", diz Chambers. "Cabe a nós decidir até que ponto vamos realmente criar esse clima hipertropical."

"Se continuarmos emitindo gases de efeito estufa à vontade, sem nenhum controlo, criaremos esse clima hipertropical mais cedo." David Nield – Reino Unido in “Science Alert”


terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Estados Unidos da América - Os macaenses na diáspora têm uma identidade cultural forte, conclui estudo

Para avaliar a identidade cultural da comunidade na diáspora, o Projecto de Estudos Macaenses e Portugueses da Universidade da Califórnia analisou as respostas a um inquérito de 327 macaenses, espalhados por 10 países e 200 cidades



Apesar de em diferentes pontos do mundo, os macaenses na diáspora mantêm ligações familiares, sobretudo através da Internet, e têm uma forte identidade cultural. São as principais conclusões de um estudo do Projecto de Estudos Macaenses e Portugueses da Universidade da Califórnia, que avaliou, de 30 de Junho até agora, 327 pessoas, em 10 países. Os resultados vão ser publicados no início do próximo mês, mas o Ponto Final conversou antes com o director deste departamento, Roy Xavier.

Com o objectivo de determinar quantos descendentes de macaenses da diáspora mantêm as suas ligações familiares e identidade cultural, foi distribuído um inquérito com 11 perguntas a milhares na diáspora, com a ajuda do Conselho das Comunidades Macaenses e das 13 Casas de Macau espalhadas pelo mundo. “Encontrei também muitos macaenses através da Internet, das redes sociais e da minha correspondência pessoal”, acrescenta Roy Xavier.

Uma identidade forte com recurso à tecnologia

A principal conclusão que o investigador retira é que a “identidade cultural da comunidade macaenses é muito forte”, apesar dos 500 anos de história e de migrações. Afinal, cerca de 70 por cento dos inquiridos identificou-se logo como “macaense e luso-asiático”.

Em segundo lugar, conclui ainda que estavam bastante conscientes de onde vinham as suas famílias no que toca à história. “Muitas das pessoas que inquiri olham para a sua história através dos antepassados, da história e, muitas vezes, do meu trabalho”, diz, acrescentando: “Estão muito conscientes de onde vêm as suas famílias, seja de Portugal, Goa, Macau, Hong Kong, Xangai ou outros sítios.”

Outro ponto interessante deste estudo diz respeito à dimensão das famílias, importante para estimar a “dimensão da população luso-asiática” no mundo. “Percebemos que a média era de 30 ou 35 membros vivos, família imediata ou alargada, enquanto 20 por cento têm mais de 100 membros vivos, muitos espalhados pelo mundo”, diz. Mas como mantêm o contacto? “Percebemos que usam especialmente as redes sociais — fazem-no, sobretudo, por divertimento, mas também para manter o contacto”, refere, explicando que “isto é particularmente relevante para uma comunidade na diáspora, que está espalhada em diferentes países”. É assim que conseguem “manter a sua identidade cultural”, recorrendo à tecnologia para conseguirem “a consciência história” do seu local de origem. “E, muitas vezes, isso é traduzido ou comunicado aos seus filhos”, acrescenta.

As principais diferenças referiam-se ao tipo de população, se é activa ou se já está reformada. “Neste caso, tivemos uma participação de mais de 50 por cento de reformados”, diz, explicando que isso é “compreensível”, já que se trata do grupo “com mais interesse em aprender sobre a história e passar a mensagem à geração seguinte”.

Como a população parece estar mais velha, o uso dos média parece mais proeminente. E, se o primeiro inquérito, realizado em 2012, foi feito, sobretudo, por email e distribuído em papel, “agora tudo foi feito através da Internet e das redes sociais”, permitindo que mais pessoas possam participar. O número de pessoas que responderam, ainda que não pareça muito grande, “é bastante bom”.

Sobre o sítio onde se encontram, a maioria parece estar concentrada nos Estados Unidos, Austrália, Brasil e Europa, enquanto uma menor percentagem está na Ásia. “Ficámos surpreendidos por perceber que 10 por cento da comunidade ainda se encontra, de alguma maneira, no sudeste asiático”, refere, acrescentando: “Menos estão em Macau, mas mais em Hong Kong e à volta do sudeste asiático.”

Sobre os motivos que o levam a coordenar este estudo, Roy Xavier realça que se trata de um esforço para “apurar a identidade e de que forma esta consegue manter-se ao longo dos anos”, mas também, considerando os últimos desenvolvimentos políticos em Macau e Hong Kong, torna-se particularmente importante a percepção que existe nas duas regiões administrativas especiais. “Muitas pessoas na diáspora, especialmente a geração mais jovem, os que têm entre 20 e 55 anos, trabalham em sectores ligados à tecnologia e penso que é uma das chaves do seu interesse na China”, diz, explicando que o gigante asiático, especialmente na Grande Baía, tem um grande foco nesta área. “Por isso, parte do estudo é perceber se a identidade cultural dos macaenses pode traduzir-se numa forma de ligar o Ocidente e o Oriente”, conclui.

O que se procurou avaliar

Ao inquérito responderam macaenses (ou luso-asiáticos), definidos no estudo como “descendentes de portugueses mestiços da Ásia com ligações familiares na China, Sudeste Asiático e Índia, e especificamente de Goa, Macau, Hong Kong, Xangai, Cantão, Japão, Malásia, Singapura ou Timor”. Os seus antepassados não precisavam de ser de Macau, mas devia haver uma ligação cultural na sua família com os portugueses na Ásia durante os últimos 500 anos.

O inquérito contém 11 perguntas, em português e em inglês, preparadas pelo Projecto de Estudos Portugueses e Macaenses, da Universidade da Califórnia, e pela Escola de Saúde Pública da Universidade do Estado da Geórgia, ambas nos Estados Unidos.

As primeiras oito perguntas procuraram recolher informação demográfica e determinar as identidades culturais no seio das comunidades macaenses (ou luso-asiáticas) espalhadas pelo mundo. As últimas perguntas pretenderam aferir as condições físicas e mentais de todos os inquiridos.

Procurando perceber se a identidade e memória, através da família, se mantinha ou, como refere Roy Xavier, se se identificavam com a identidade cultural, procurou perceber em que categorias os inquiridos se enquadravam — euro-asiáticos, luso-asiáticos, europeus, chineses, americanos. “Estávamos a tentar perceber se eles retinham a identidade cultural de Macau, como luso-asiáticos, no geral, e macaenses, em particular, e queríamos ver onde eles se enquadravam e ter uma ideia do tamanho da população”, diz. No inquérito, perguntaram-lhes, numa escala, onde eles se situavam, para além da faixa etária e género. “Inquirimos sobre a identidade, onde estão localizados, de onde vêm as famílias — Portugal, Goa, Macau, Xangai, Hong Kong, até ao Sudeste Asiático, incluindo Timor”, acrescenta.

Este estudo, que já tinha sido realizado três ou quatro vezes anteriormente, desta vez incluía duas perguntas sobre saúde. “Uma sobre saúde em geral, por se tratar de uma população activa, mas também reformada”, refere, acrescentando que a outra diz respeito à saúde mental. “Se sentem ansiedade e coisas do género, quantos dias por mês não se sentem bem”, diz.

Os motivos do estudo

Na introdução dos resultados preliminares do estudo, divulgados em Agosto no site Macstudies.net, o investigador Roy Xavier, também ele macaense, explica os motivos, pessoais e profissionais, que o levam a querer estudar esta comunidade. “Para perceber os papéis que os macaenses (luso-asiáticos) tiveram no desenvolvimento de Macau, Hong Kong, Xangai e outras regiões do sudeste asiático, e a sua migração para outros países depois da Segunda Guerra Mundial”, diz. Outro motivo é “para documentar as histórias dos membros da comunidade, passada e presente, cujas biografias e escritos testemunham o desenvolvimento colonial, a expansão do comércio da China e as origens da actual economia global”, declara ainda, acrescentando um último item: “Usar o Projecto de Estudos Portugueses e Macaenses e as redes sociais para envolver qualquer pessoa que esteja interessada em perceber, contribuir e preservar a história cultural dos macaenses de origem portuguesa.”

Tratando-se esta da quarta vez que realiza um estudo do género, Roy Xavier, afirma que “este tem sido refinado ao longo dos anos”. Luciana Leitão – Portugal in “Ponto Final” 


domingo, 28 de fevereiro de 2021

Estados Unidos da América - Bateria sólida de sódio supera 1000 ciclos pela primeira vez


Baterias sólidas

Especialistas afirmam que já não é mais uma questão de "se", mas de "quando" as baterias de sódio começarão a substituir as baterias de lítio.

Essa possibilidade ficou ainda mais próxima da realidade com o desenvolvimento de um novo condutor para baterias de sódio de estado sólido, uma das tecnologias mais promissoras nesse campo - existem ainda protótipos de baterias de íons de sódio, baterias sódio-ar e baterias de sódio-enxofre.

Erik Wu e seus colegas da Universidade da Califórnia em San Diego criaram um eletrólito sólido de alta voltagem que melhorou dramaticamente as marcas registradas até agora por essa tecnologia.

Um protótipo de bateria construído com o novo material superou os 1000 ciclos de carga e descarga - o patamar considerado necessário para se chegar a um produto comercial - e ainda retendo 89,3% da sua capacidade, um desempenho não alcançado até agora por nenhuma outra bateria de estado sólido.

As baterias de estado sólido são mais seguras, mais baratas e mais duráveis. A química de íons de sódio é particularmente promissora porque o sódio é barato e abundante, ao contrário do lítio das baterias atuais, que é raro e tem ficado cada vez mais caro. O objetivo é construir baterias que possam ser usadas em aplicações de armazenamento de energia em rede em grande escala, especialmente para armazenar energia gerada por fontes intermitentes, como solar e eólica, para lidar com os picos de demanda.

Bateria de sódio

Para chegar ao novo material, Wu executou uma série de simulações computacionais usando um modelo de aprendizado de máquina para selecionar qual química teria a combinação certa de propriedades para uma bateria de estado sólido com um cátodo de óxido de sódio.

Depois que um material foi selecionado como um bom candidato, a equipe sintetizou-o, testou e caracterizou experimentalmente para determinar suas propriedades eletroquímicas.

Em idas e vindas entre os resultados experimentais e as simulações, a equipe selecionou uma classe de condutores de haleto de sódio composta de sódio (Na), ítrio (Y), zircônio (Zr) e cloro (Cl). O material, que agora responde pelas iniciais de seus componentes - NYZC - mostrou-se eletroquimicamente estável e quimicamente compatível com os catodos de óxido usados em baterias de íons de sódio de alta voltagem.

"A indústria quer que as baterias em nível de célula custem de US$ 30 a US$ 50 por kWh, cerca de um terço a um quinto do que custa hoje," disse a professora Shirley Meng, coordenadora da equipe. "Não vamos parar até chegarmos lá." In Inovação Tecnológica” – Brasil

Bibliografia:

Artigo: A stable cathode-solid electrolyte composite for high-voltage, long-cycle-life solid-state sodium-ion batteries

Autores: Erik A. Wu, Swastika Banerjee, Hanmei Tang, Peter M. Richardson, Jean-Marie Doux, Ji Qi, Zhuoying Zhu, Antonin Grenier, Yixuan Li, Enyue Zhao, Grayson Deysher, Elias Sebti, Han Nguyen, Ryan Stephens, Guy Verbist, Karena W. Chapman, Raphaële J. Clément, Abhik Banerjee, Ying Shirley Meng, Shyue Ping Ong

Revista: Nature Communications

Vol.: 12, Article number: 1256

DOI: 10.1038/s41467-021-21488-7


 

domingo, 26 de julho de 2020

Estados Unidos da América - Algoritmos têm responsabilidade pela violência contra mulheres e pessoas negras, diz pesquisadora da Universidade da Califórnia

Safiya Noble estuda o racismo e o sexismo nos algoritmos do Google. Ela afirma que não existe imparcialidade nas ferramentas de busca e que as “Big Tech” devem reparações para as “muitas pessoas que foram prejudicadas por práticas de negócios que fomentam a desigualdade social e racial”



Já imaginou que qualquer pesquisa que faça no Google ou em outra ferramenta de busca na internet está mediada pelos mesmos preconceitos e vieses inconscientes que pautam as nossas relações sociais? Ao notar que a busca por Black girls (meninas negras) sempre resultava em imagens hipersexualizadas e até pornográficas de mulheres negras americanas, a americana Safiya Noble decidiu estudar o funcionamento dos algoritmos que estão por trás dessas ferramentas.

Seis anos de pesquisas resultaram no livro “Algorithms of Oppression” (Algoritmos da opressão, ainda sem tradução brasileira), lançado em 2018, em que examina como as ferramentas de busca, o Google em particular, reforçam o racismo e o sexismo das sociedades. Professora do Departamento de Estudos da Informação na Universidade da Califórnia, onde dirige o Centro para Investigação Crítica da Internet, ela afirma que a opressão e os preconceitos algorítmicos existem também nas redes sociais.

Safiya Noble participou do Festival Oi Futuro, evento online e gratuito, que foi transmitido em tempo real na passada semana no canal do Oi Futuro no Youtube, onde ficou disponível após o evento. Safiya esteve na mesa Ética e Humanidade na Inteligência Artificial, ao lado de Sérgio Branco.

Em entrevista à #Celina, ela conta que a decisão tomada por grandes empresas de não mais anunciar no Facebook porque a gigante da tecnologia não faz o suficiente para conter o discurso de ódio em suas plataformas é importante, mas alerta: “O modelo de negócios do Facebook, de muitas maneiras, depende da perpetuação da desinformação, da pouca informação e do discurso de ódio. É por isso que eles são tão relutantes em solucionar o problema.” Leia a entrevista completa a seguir:

CELINA: Como os algoritmos reproduzem ou até aumentam o racismo e o sexismo nas sociedades?

SAFIYA NOBLE: Em sentido amplo, um algoritmo é um conjunto de instruções para um computador. Isso abrange tecnologias que vão de ferramentas de busca a programas que controlam os mercados financeiro e industrial, passando por reconhecimento facial e biométrico e condução assistida. Em diversos setores, vemos cada vez mais confiança em decisões tomadas com base em algoritmos e inteligência artificial; seu impacto é enorme. Eu escrevi sobre a relação entre o modelo de negócios do Google e os estereótipos racistas e sexistas, mas também vemos como a opressão e os preconceitos algorítmicos existem fora dessa plataforma, por exemplo, nas mídias sociais.

Estamos testemunhando o desenvolvimento de decisões algorítimicas para lidar com a crise da Covid-19, o que inclui automatizar algumas das decisões de médicos e administradores hospitalares, sobretudo o uso de recursos. Esses algoritmos indubitavelmente envolvem fatores de classe e raça, já que racismo, sexismo e divisões de classe estão na estrutura da Medicina. Nunca temos a oportunidade de confrontar os processos de tomada de decisão a partir de uma cama de hospital, então agora precisamos pensar como as tecnologias aprofundam as desigualdades sociais. Precisamos de políticas de proteção e, em alguns casos, de deixar de usar certas tecnologias até compreendermos melhor os danos causados por elas.

Algoritmos afetam mais as mulheres negras?

Quero enfatizar que os algoritmos afetam as mulheres negras de maneiras que estão profundamente enraizadas na nossa História e na opressão profunda que encontramos desde cedo no comércio transatlântico de pessoas negras, na colonização e na escravização de africanos e na dolorosa e contínua privação dos direitos das mulheres negras. Quando comecei a minha pesquisa sobre o racismo nas ferramentas de busca, eu percebia nelas as mesmas ideias racistas que estão na estrutura da sociedade americana, mas que chegam diretamente a nós por esse tipo onipresente de tecnologia. Isso inclui respostas hipersexualizadas e pornográficas quando pesquisamos o termo “meninas negras”. O que é particularmente insidioso sobre o processo de busca é a persistente combinação de “negra”, “latina” e outras mulheres não-brancas com conteúdo hipersexualizado, o que perpetua essas ideias racistas como algo natural.

Existe imparcialidade ou neutralidade nas ferramentas de busca?

Não existe. As ideias de neutralidade e imparcialidade costumam ser usadas conceitualmente como uma maneira de protelar a responsabilidade de empresas, designers, técnicos, programadores e anunciantes, entre outros. É especialmente danoso quando as ferramentas de busca reivindicam neutralidade e parcialidade porque isso reforça sua imagem como confiáveis e de certa forma até mesmo como acima de qualquer julgamento. Mas sabemos que cada estágio do design e do desenvolvimento inclui interpretações, escolhas e valores. Esse ponto é crucial porque ele muda a nossa orientação sobre essas ferramentas; uma pesquisa é uma série ativa de decisões.

É possível aos usuários desviar dos preconceitos das ferramentas de busca? O que gigantes da mídia como o Google podem fazer para melhorar essas ferramentas? Fazem o suficiente?

Há muitas maneiras de pensar sobre isso. Quando os problemas são estruturais, as soluções também precisam ser. Isso começa com a compreensão de como funcionam os mecanismos por trás das buscas; desnaturalizar e contextualizar o processo de busca é um passo. Mas, para mudar, precisamos pensar de maneira mais ampla e estrutural sobre como operam a cultura e os negócios em volta das tecnologias. Não é uma surpresa que os sistemas de valor que as “Big Tech” refletem seja como é, já que elas têm legados de racismo e sexismo em seus produtos e em suas culturas. Essas empresas estão fazendo o suficiente? Não.

Buscar informações online é um ato político?

A busca por informações é definitivamente política. Na verdade, buscar afeta a nossa habilidade de conectar informação e também de ver aquele conteúdo como respeitável e confiável. A busca envolve o processo de colocar pessoas em categorias para que os anunciantes das ferramentas de busca possam combinar essas informações com projetos e indústrias que pagaram por isso. Esse processo também acontece nas mídias sociais.

Escolas e universidades voltadas à tecnologia deveriam incluir racismo e questões de gênero em seus currículos acadêmicos?

Claro que sim! Qualquer um envolvido com o design, a construção ou o uso de qualquer forma de tecnologia está fundamentalmente participando de um tipo de construção do mundo. A tecnologia molda e é moldada pelo mundo e por quem está nele. Desse modo, os currículos acadêmicos em Ciências da Computação e em Ciências de Dados deveriam refletir essa realidade. Em particular, os estudantes deveriam colocar o seu trabalho em contexto diante da História e das comunidades, de modo a entender como a tecnologia pode amplificar o racismo e as doenças sociais de muitas maneiras. Isso inclui, por exemplo, o uso de tecnologias de vigilância de maneira assimétrica contra pessoas negras, buscas que retornam resultados racistas e a falha das mídias sociais em proteger seus usuários. A tecnologia não opera no vácuo.

Recentemente, grandes empresas cancelaram publicidade alegando falta de ação do Facebook na repressão ao discurso de ódio. Como eliminar esse tipo de discurso?

Uma das dificuldades nisso é o modelo de negócios do Facebook, que, de muitas maneiras, depende da perpetuação da desinformação, da pouca informação e do discurso de ódio. É por isso que eles são tão relutantes em solucionar o problema. Além disso, há o problema da capacidade — se uma mídia social tem ou não a capacidade de lidar com o volume desses fenômenos. Conforme vemos a pressão dos anunciantes, também vemos respostas do Facebook, por exemplo, ao usar marcações e checagem básica. Mas, como ficou evidente pela resposta das lideranças que participaram das reuniões com o Facebook — quando chamaram o encontro de “frustrante” — podemos ver que, como a maioria das empresas de tecnologia, o Facebook procura soluções simples que não alteram substantivamente o seu modelo de negócios.

Algoritmos sexistas e racistas têm responsabilidade nas diferentes formas de violência contra mulheres e pessoas negras? Há quem argumente que as “Big Tech” deveriam fazer reparações.

Os algoritmos têm tanto responsabilidade direta quanto difusa pela violência contra mulheres e pessoas negras. Quando vemos o manifesto do assassino Dylann Roof [supremacista branco que, em 2015, matou nove pessoas negras em uma igreja na cidade de Charleston, nos EUA], nós imediatamente entendemos a conexão entre busca, propaganda racista e violência. No Centro para Investigação Crítica da Internet, na Universidade da Califórnia, temos pesquisado como tornar visível ao público o que é devido pelas empresas cujos modelos de negócio se beneficiam da extração de valor do público em uma economia que parece sobreviver e lucrar com o racismo, o sexismo, o nacionalismo, o fanatismo religioso e a homofobia. Muitas dessas empresas estão implicadas no crescimento de regimes autoritários ao redor do mundo, então, sem dúvidas, as “Big Tech” devem reparações para as muitas pessoas que foram prejudicadas pelas práticas de negócios que fomentam a desigualdade social e racial. Renata Izaal – Brasil “O Globo” através do “Portal Geledés”

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Estados Unidos - Girassóis artificiais podem substituir células solares



Fototropismo artificial

Painéis solares poderão trocar as tradicionais células solares por fileiras de pequenos girassóis artificiais, que se inclinam automaticamente em direção à luz.

Como eles se movimentam autonomamente, a equipe da Universidade da Califórnia de Los Angeles batizou seu girassol artificial de SunBOT, uma contração de sol e robô.

Cada SunBOT consiste em um "caule" feito de um material que reage à luz, que se movimenta por fototropismo, e uma "flor" de captação de energia na parte superior, feita a partir de um material absorvedor de luz comumente usado em células solares.

Cada SunBOT tem menos de 1 milímetro de largura.

Quando o caule é exposto à luz, a parte que é iluminada aquece e encolhe, fazendo o SunBOT se dobrar e apontar a flor artificial em direção à luz. A haste pára de dobrar quando o SunBOT está alinhado com a luz porque a curvatura cria uma sombra que permite que o material esfrie e pare de encolher.

Outras equipes já haviam criado substâncias artificiais que acompanham a luz, mas essas substâncias tipicamente se movem e param. Já os SunBOTs se autorregulam, movendo-se continuamente para a posição ideal para absorver a luz solar. Isto permitiu à equipe afirmar que seus caules de girassol artificiais são os primeiros materiais artificiais a apresentar fototropismo.

A equipe fabricou painéis solares com e sem o material flexível, o que revelou que os SunBOTs foram capazes de captar até 400% mais energia solar do que as "flores" sem cabo. In “Inovação Tecnológica” - Brasil

Bibliografia:

Artigo: Artificial phototropism for omnidirectional tracking and harvesting of light
Autores: Xiaoshi Qian, Yusen Zhao, Yousif Alsaid, Xu Wang, Mutian Hua, Tiphaine Galy, Hamsini Gopalakrishna, Yunyun Yang, Jinsong Cui, Ning Liu, Michal Marszewski, Laurent Pilon, Hanqing Jiang, Ximin He
Revista: Nature Nanotechnology
Vol.: 14, pages 1048-1055
DOI: 10.1038/s41565-019-0562-3

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Estados Unidos da América – Protótipo tira água do ar até no deserto


Colhendo água

Com a escassez de água tornando-se um problema crescente em todo o mundo, pesquisadores têm-se esforçado em busca de soluções sustentáveis e de baixo impacto ambiental.

Nikita Hanikel e seus colegas da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos EUA, vêm dedicando seus esforços há alguns anos para coletar água diretamente da umidade do ar.

O protótipo de coletor de água mais recente construído pela equipe recolheu 1,3 litro por dia para cada quilograma (l/kg/dia) de material absorvedor em uma região com baixa umidade. Em um teste ainda mais rigoroso, feito no deserto de Mojave, na Califórnia, ele produziu 0,7 l/kg/dia em média, e 0,2 l/kg/dia no dia mais seco, com umidade de 7%.

O material ativo é uma estrutura metal-orgânica, mais conhecida como MOF (metal-organic framework), um material extremamente poroso. Dependendo de sua estrutura e do tamanho de seus poros, as estruturas metal-orgânicas permitem apenas a passagem de moléculas, o que faz com que a água "cole" em suas superfícies internas. Um leve aquecimento transforma essa água em vapor, que é então coletada por um condensador.



Água como direito humano

Os resultados foram tão bons que a equipe já fundou uma empresa para comercializar a tecnologia. Eles estão trabalhando em um modelo do tamanho de um forno de micro-ondas que poderá fornecer de 7 a 10 litros de água totalmente limpa por dia.

Uma versão ainda maior do coletor, do tamanho de uma geladeira pequena, fornecerá de 200 a 250 litros de água por dia, o suficiente para uma família beber, cozinhar e tomar banho. E, em alguns anos, os empreendedores esperam ter uma colhedeira de água de escala comunitária, capaz de produzir 20.000 litros de água potável por dia. Tudo funcionando com painéis solares e uma bateria, para garantir uma colheita de água 24 horas por dia.

"Estamos produzindo água ultra-pura, que potencialmente pode ser disponibilizada amplamente sem conexão com a rede de distribuição de água," disse o professor Omar Yaghi, coordenador da equipe. "Essa mobilidade da água não é apenas crítica para aqueles que sofrem de estresse hídrico, mas também possibilita o objetivo maior - que a água seja um direito humano". In “Inovação Tecnológica” - Brasil


Bibliografia:

Artigo: Rapid Cycling and Exceptional Yield in a Metal-Organic Framework Water Harvester
Autores: Nikita Hanikel, Mathieu S. Prévot, Farhad Fathieh, Eugene A. Kapustin, Hao Lyu, Haoze Wang, Nicolas J. Diercks, T. Grant Glover, Omar M. Yaghi
Revista: ACS Central Science
DOI: 10.1021/acscentsci.9b00745