Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 17 de março de 2017

Galiza, reintegracionismo e senso comum histórico

Numha sucessom sem fim de polémicas sobrepostas entre defensores do espanhol, do galego e todo um espectro entre ambas as posiçons, o passar do tempo tem vindo a assentar nos últimos anos um novo senso comum em volta da questom lingüística galega, determinado sobretodo pola própria materialidade histórica do processo.

Há três décadas, quando principiava a minha militáncia pola língua, existia umha crença que, já na altura, tinha escassa correspondência com a realidade. Muitas pessoas costumavam afirmar que o galego “estava na moda” e mesmo que cada vez se falava mais.

Lembro também que, naqueles anos, o nacionalismo galego parecia acreditar no caráter eterno ou atemporal da condiçom maioritária do galego na nossa sociedade. Eram séculos a certificar aquela crença e faltava só, dizia-se, contarmos com um governo nacionalista que reconhecesse ao galego o papel que lhe correspondia, ultrapassando assi o que em tom sentencioso se carimbava como “situaçom de diglossia”.

Também naqueles anos, a ideologia isolacionista gozava de bastantes adeptos entre os sectores mais favoráveis à língua, seguramente por vender um produto ancorado em variedades dialetais e noutra crença: a de que pretendia representar o “galego vivo”.

Quanto ao herético reintegracionismo, era condenado como inimigo da normalizaçom, tanto polo espanholismo como por boa parte das elites culturais galegas.

Acho que, com a perspetiva que dam os anos transcorridos, já podemos dizer que o senso comum histórico tem mudado, acompanhando umha transformaçom de fundo que reduziu o galego à mínima expressom quantitativa (falantes) e sem grandes avanços no aspeto qualitativo (consideraçom e utilidade).

Para já, hoje fica difícil basear a defesa do galego no seu objetivo caráter maioritário. A deserçom massiva do nosso povo, nada espontánea e ainda em marcha, é um facto. O processo de transculturaçom tem hoje expressons muito claras nas mais diversas áreas da reproduçom social, incluída a língua.

O escassíssimo alcance de medidas governativas de apoio a umha língua funcionalmente mutilada, num país sem soberania e atrelado a umha corrente cultural da potência que a espanhola tem ficou também em evidência. A ingenuidade da identificaçom entre “governo nacionalista” e “normalizaçom lingüística” numha sociedade em processo de avançada desnacionalizaçom é reconhecida já até polos nacionalistas galegos mais “possibilistas”.

Quanto à “ameaça lusista” a que as autoridades académicas apelavam para defender a sua posiçom de poder na autonomia galega, ficou também totalmente diluída à medida que a parcela de poder a conservar por aquelas elites isolacionistas ia minguando, devido à reduçom do papel do galego como “arma política”.

Entretanto, umha parte do movimento reintegracionista fai esforços nos últimos anos para obter algum reconhecimento por parte do “poder lingüístico”. Conformando-se com a difusom do português como segunda língua, garante que nom irá contestar a “devida” hegemonia do espanhol e, para aliciar esse poder, larga lastro identitário e evita qualquer compromisso com a reivindicaçom soberanista em termos lingüísticos, culturais e políticos.

Assi sendo, e recorrendo ao tópico, pode-se afirmar que estamos hoje numha situaçom “de impasse”, em que a condena da heresia lusista ficou démodé e a prática totalidade da intelectualidade autonómica assume um discurso inócuo de diálogo com o “português-língua-estrangeira-mais-próxima”.

Nesse novo senso comum que está a estender-se, a proposta é de convívio entre o galego “normativo” (isolacionista) e aquilo que umha parte do reintegracionismo batizou como “galego internacional”, em referência ao português, entendido como complemento do galego e evitando atritos com o domínio do espanhol.

Um reintegracionismo despossuído do seu potencial na construçom nacional mostra-se disponível para desproblematizar o conflito lingüístico, assumindo a posiçom subsidiária do galego e reduzindo as reivindicaçons lingüísticas a um diálogo “bem entendido” entre a Galiza e Portugal, com a devida bençom oficial.

Seguramente nom seria justo responsabilizar esse reintegracionismo do “New Deal” polo novo senso comum em que estamos a instalar-nos. As limitaçons de um movimento patriótico que pudesse propor e praticar a soberania galega para além das palavras abriu espaço para visons relativistas que tentam “salvar os móveis” num processo histórico desnacionalizador como o que vivemos.

Tampouco vale a pena discutir se era isso que a corrente histórica reintegracionista pretendia, pois ela foi sempre um magma que arrastou visons muito diversas do que a Galiza deveria aspirar a ser em termos de política lingüística e de país.

Entendida nesses termos, a contraditória linha atual do “magma reintegracionista” nom deixa de refletir a real correlaçom de forças que o configuram como movimento social, num processo que, apesar da difícil situaçom que como país atravessamos, nom concluiu. Maurício Castro – Galiza in “Associaçom de Estudos Galegos”

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Galiza pela Soberania

A tarde do sábado dia 20 de julho serviu na capital da Galiza para a apresentaçom pública pendente da 'Galiza pola Soberania', iniciativa suprapartidária lançada por 200 pessoas adscritas a diferentes organizaçons políticas, sindicais, feministas, ambientalistas, culturais, desportivas e, em geral, dos movimentos sociais galegos.

Na assembleia constituinte que decorreu no dia 6 deste mês, o plenário da GpS  decidira fazer umha apresentaçom pública antes da jornada patriótica do 25 de julho. A data escolhida pola Coordenadora da iniciativa foi este dia 20 e o local a praça das Pratarias da capital galega.

Em torno de umha bandeira da Galiza de grandes dimensons que ocupava boa parte da escadaria ao pé da catedral, a centena longa de participantes vestia camisolas reivindicativas dos diferentes conflitos e movimentos sociais galegos: a língua, o feminismo, o ensino público, o direito ao trabalho, às seleçons próprias, contra a megamineraçom e contra os despejos... um mosaico colorido e reivindicativo unido pola reclamaçom da soberania plena, do Estado galego, como saída para as multicrise que sofre a nossa naçom.



O ato começou com a música de A Quenlha, seguida da leitura do manifesto fundacional por parte de Ana Costoia. A seguir, Maurício Castro avançou informaçons sobre as linhas de intervençom aprovadas para os próximos meses, que incluirám a interlocuçom com coletivos de todo o tipo, trabalho de socializaçom das ideias soberanistas e mobilizaçons específicas em datas referenciais que serám anunciadas proximamente.

Marta da Costa concluiu as intervençons das porta-vozes da Coordenadora com um apelo à participaçom do povo galego nas iniciativas soberanistas convocadas para o Dia da Pátria, encorajando também à exibiçom da bandeira galega nas ruas e fachadas do nosso país.

Novamente, A Quenlha cantou para as centenas de pessoas congregadas na praça das Pratarias, para a seguir concluir o ato com o canto coletivo do Hino da Galiza e a salva de palmas geral. In “Diário da Liberdade” - Galiza

domingo, 2 de dezembro de 2012

Digital

     Encontra-se disponível em formato digital, o livro “Galiza vencerá!” da autoria de Maurício de Castro, que colige 28 textos sobre língua e construção nacional publicados na imprensa galega de 1999 a 2009. Esta obra já tinha sido editada em edição impressa no ano de 2009, pela Abrente Editora, encontrando-se esgotada.

     Maurício de Castro, autor de “Galiza vencerá!” é natural de Ferrol onde nasceu em 1970, é licenciado em Filologia Galego-Portuguesa pela Universidade de Compostela, exercendo na actualidade a docência de português na Escola Oficial de Idiomas de Ferrol. É autor de diferentes ensaios, principalmente de temática linguística e sociolinguística, como a História da Galiza em Banda Desenhada (1995), Manual de Iniciação à Língua Galega (1998), Galiza e a diversidade linguística no mundo (2001), o Manual Galego de Língua e Estilo (2007). Primeiro presidente da Fundação Artábria, na actualidade é membro da Comissão Linguística da AGAL e da Direcção Nacional de NÓS-Unidade Popular, colaborando com algumas publicações periódicas. Baía da Lusofonia

Ligação para o livro digital “Galiza vencerá!”:

http://issuu.com/fromgaliza/docs/galiza vencera?mode=window&backgroundColor=%23222222

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Galego

“Leio nas páginas do Galicia Confidencial umha informaçom sobre os problemas e riscos para o galego na era digital, feita a partir de um estudo realizado por investigadoras galegas para umha instituiçom europeia.

Polos vistos, o tal informe lamenta a escassa presença do galego no mundo das novas tecnologias e da internet, advertindo da ameaça que a globalizaçom supom para a sobrevivência do nosso património lingüístico e cultural. Como noutros estudos parecidos, conclui que é preciso investir mais em criar recursos em galego, investigar, inovar e desenvolver.

Nom é objeto destas linhas analisar tal estudo, muito menos despachá-lo a partir dumha notícia inevitavelmente superficial. Unicamente, aproveito para advertir sobre a focagem errada com que na Galiza vimos tratando os problemas, carências e desafios que a nossa comunidade lingüística enfrenta no ámbito das novas tecnologias e nom só.

Deveria ser já umha vulgar obviedade afirmar que pertencemos a umha comunidade lingüística nom só internacional, mas intercontinental, formada por um número crescente de falantes, estimado já nos últimos estudos em 240 milhons de pessoas. Umha das maiores comunidades lingüísticas do mundo, nascida muito tempo atrás neste canto do planeta chamado Galiza.

A esse facto soma-se um outro nom menos importante: o principal e mais populoso país dos que formam esse grande espaço, o Brasil, tem um peso crescente no cenário internacional e umha presença especialmente significativa no mundo das novas tecnologias, especialmente na internet.

Esta obviedade que acabei de formular é totalmente desconsiderada pola maioria de entidades e pessoas participantes, de umha forma ou outra, na política lingüística existente na Galiza. Somos, da comunidade de países de fala galega ou portuguesa, o país que mais necessita do reforço dessa comunidade internacional de falantes mas, paradoxalmente, somos o único cujas instituiçons públicas a desprezam ao ponto de continuarmos sem fazer parte do organismo institucional que os agrupa: a CPLP.

Todo um disparate que ninguém entende a partir de parámetros galegófilos e de puro utilitarismo num contexto de grave ameaça para a continuidade da nossa comunidade lingüística. Apelar a particularismos evidentes ou a barreiras artificiais como a ortográfica para manter o galego isolado do seu campo de jogo natural é condená-lo à precariedade e à morte lenta a que todos e todas assistimos.

Porém, a quem afirma que a ortografia é secundária e que mesmo dentro da escrita castelhanizante praticada polas instituiçons atuais é possível dar umha orientaçom diferente às relaçons entre a Galiza e a lusofonia,  deveremos responder que até agora a ortografia tem funcionado como umha clara e efetiva fronteira visual. De facto, hoje vemos como os defensores de um suposto possibilismo ortográfico combinado com um reintegracionismo teórico aderem acriticamente a campanhas pola galeguizaçom em ámbitos como o do software informatico ou as redes sociais, quando o bom senso deveria impor-se e reconhecer que nesse terreno temos já todo o caminho andado.

Eis a importáncia fundamental de umha verdadeira reforma ortográfica. Adiar a adoçom de umha ortografia substancialmente comum ao campo lusófono continuará a favorecer este absurdo isolamento auto-imposto e um gasto de energias preciosas em iniciativas totalmente estéreis, como a interminável produçom de materiais já existentes na nossa língua. Mudar a ortografia e, em simultáneo, fazer circular na Galiza todo o tipo de produtos culturais em português é dar um oxigénio imprescindível à nossa língua no seu território originário e permitirá umha rápida mudança na consciência social, valorizando as grandes potencialidades do galego como língua útil para o nosso povo.

Digamo-lo mais umha vez: o galego nom sofre nengumha ameaça. É um dos poucos idiomas em forte expansom demográfica, privilegiado pola globalizaçom em curso e cuja sobrevivência está garantida num futuro mais que imediato. O que está em causa é a própria comunidade lingüística e nacional galega.

A reorientaçom imediata da estratégia normalizadora poderá reincorporar-nos ao nosso espaço próprio sem perdermos a nossa milenária identidade galega. O continuísmo atual garante o nosso final como povo, nos braços de um regionalismo tam inofensivo como assimilável pola “riqueza e diversidade espanhola”. Maurício Castro – Galiza     in “Portal Galego da Língua”