Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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domingo, 23 de novembro de 2025

“Natal à Beira-Rio”
















“Natal à Beira-Rio”

 

É o braço do abeto a bater na vidraça?

E o ponteiro pequeno a caminho da meta!

Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,

A trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.

Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!

E o Menino nascia a bordo de um navio

Que ficava, no cais, à noite iluminado...

É noite de Natal, que travo a maresia!

Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.

E quanto mais na terra a terra me envolvia

E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me

à beira desse cais onde Jesus nascia...

Serei dos que afinal, errando em terra firme,

Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

 

David Mourão-Ferreira - Portugal

in Obra Poética” (Editora Assírio & Alvim)


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David Mourão-Ferreira - (Lisboa, 24 de fevereiro de 1927 - Lisboa, 16 de junho de 1996), poeta, ficcionista, ensaísta e crítico literário, traduzido em mais de dez línguas –, foi um dos grandes escritores do século XX português. Atravessam a sua obra o Amor, a História e o Mundo, o Tempo e a Morte. E o eco de uma vida de leitura, escrita e ensino (foi professor da Faculdade de Letras de Lisboa durante mais de três décadas e divulgou a poesia na rádio e na televisão). Com o gosto do passado feito presente e a paixão do presente a fazer-se futuro. Entre um Ofício de Escreviver e A Arte de Amar. Tem uma Cátedra David Mourão-Ferreira do Camões, I.P. no Centro de Estudos Lusitânia de Bari (Itália). In “Wook”





 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Voto de Natal

Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!

Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!

Como quem na corrida entrega o testemunho,

passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.



E a corrida que siga, o facho não se apague!

Eu aperto no peito uma rosa de cinza.

Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,

para sentir no peito a rosa reflorida!



Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,

como a casca do ovo ao latejar-lhe vida...

Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:

dentro de mim não sei qual é que se eterniza.


Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!

O calor destas mãos nos meus dedos tão frios?

Acende-se de novo o Presépio nas almas.

Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.


David Mourão-Ferreira - Portugal


domingo, 29 de novembro de 2020

Barco negro

 








Vamos aprender português, cantando

 

Barco negro

 

São loucas! São loucas! São loucas

 

Eu sei, meu amor

que nem chegaste a partir

pois tudo em meu redor

me diz que estás sempre comigo

 

De manhã, que medo, que me achasses feia!

Acordei, tremendo, deitada na areia

mas logo os teus olhos disseram que não

e o sol penetrou no meu coração

mas logo os teus olhos disseram que não

e o sol penetrou no meu coração

 

Vi depois, numa rocha, uma cruz

e o teu barco negro dançava na luz

vi teu braço acenando, entre as velas já soltas

dizem as velhas da praia que não voltas

 

São loucas! Loucas

 

Eu sei, meu amor

que nem chegaste a partir

pois tudo em meu redor

me diz que estás sempre comigo

eu sei, meu amor

que nem chegaste a partir

pois tudo em meu redor

me diz que estás sempre comigo

 

No vento que lança areia nos vidros

na água que canta, no fogo mortiço

no calor do leito, nos bancos vazios

dentro do meu peito, estás sempre comigo

no calor do leito, nos bancos vazios

dentro do meu peito, estás sempre comigo

 

Eu sei, meu amor

que nem chegaste a partir

pois tudo em meu redor

me diz que estás sempre comigo

eu sei, meu amor

que nem chegaste a partir

pois tudo em meu redor

me diz que estás sempre comigo

 

Mariza – Portugal

Letra - David Mourão-Ferreira – Portugal

Música - Caco Velho (Mateus Nunes) – Brasil

                Piratini (António Amábile) - Brasil