Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Contos repassados de lirismo

Novo livro do jornalista e escritor Hugo Almeida traz textos que fixam perplexidades do ser humano diante do mistério da vida  

                                                                      

                                                            I

Quinze narrativas que deixam no ar um enigma. É o que o leitor irá encontrar em A vizinha das sete cordas (São Paulo, Editora Sinete, 2026), de Hugo Almeida, que traz ainda um percuciente prefácio da escritora mineira Eltânia André, radicada em Lisboa, e textos de apresentação da poeta Lara Vaz-Tostes e do escritor e editor Whisner Fraga. São contos repassados de lirismo, que não trazem reflexões de um ensaísta, mas de um ficcionista-poeta, que procura fixar a solidão do homem e da mulher modernos, seus sonhos e perplexidades diante do mistério da vida.

Foram escritos ao longo dos últimos dez anos e construídos com uma arquitetura narrativa marcada pela concisão e pela força imagética que já estavam presentes em obras anteriores do autor, como Mil corações solitários (São Paulo, Editora Scipione, 1988) e Vale das ameixas (São Paulo, Editora Sinete, 2024), romances, e Certos casais (São Paulo, Editora Laranja Original, 2021), contos.

Tudo isso dotado deuma rara qualidade que reside na força temática, emocional e imagética e se traduz nos cortes, nas frases breves e precisas”, como observa Eltânia André no prefácio “Por quem as cordas vibram”, destacando também a conexão do contista “com obras e autores, tanto nos diálogos intertextuais e nas epígrafes que representam um nexo temático, quanto nas dedicatórias, que se convertem em homenagem e reconhecimento afetivo àqueles que cruzaram sua trajetória literária, acadêmica e existencial como inesgotáveis referências”.

Dos quinze textos, divididos em três partes – “Dentro de casa”, com cinco contos, “Fora de casa”, com sete, e “Além – tributo a três eternos”, com três –, já haviam sido publicados três: “O canto do sonho” em Nove, novena: variações (São Paulo, Olho d´água, 2016), coletânea organizada pelo autor em homenagem a  Nove, novena (1966), narrativas, do escritor pernambucano Osman Lins (1924-1978); “O canto de Clarice” em Feliz aniversário, Clarice (São Paulo, Autêntica Editora, 2020), coletânea organizada pelo autor em homenagem ao centenário da romancista, contista e ensaísta ucraniana-brasileira Clarice Lispector (1920-1977) e aos 60 anos de seu Laços de família (1960), contos, obra que foi incluída no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), do Ministério da Cultura, de 2021, para o ensino médio;  e “O casal do farol”, que saiu na antologia Quando não estávamos distraídos (São Paulo, Editora Sinete, 2023). Trata-se do décimo sétimo livro do autor e o quinto de contos.

 

                                                   II

No texto que abre o livro, “Nas nuvens”, o que se lê é a dúvida de um casal a caminho da senectude diante da iminência de trocar o conforto de uma velha e ampla casa térrea por um apartamento num dos andares mais altos de um prédio recém-construído, provavelmente insuflados pelo medo de serem assaltados quando abrissem o portão da garagem. Com humor e escrita elegante, Hugo Almeida reproduz com fidelidade o que, nesses momentos, passa pelas mentes de todo casal diante da iminência de mudar de vida:

“Comprar é mais fácil e rápido do que vender. Dezenas de interessados visitaram a nossa casa. Ofertas reais, duas. Inaceitáveis. Carro velho no meio, um bocado em dólar (por que não trocavam no banco?), cota de clube. Cash, mané, pouco, ou quase nada. Só faltavam oferecer vale-transporte e vale-refeição. Trinta anos de sacrifícios a troco de quê?”

Como se vê pelo trecho acima, o contista se vale do material de suas memórias para percorrer o labirinto da alma, mesmo nos pequenos acontecimentos da vida, e desencavar lembranças de momentos pelos quais talvez tenha passado ou tema vir a passar, acompanhado ou não. São “memórias” que, na verdade, perpassam o crivo do autor em que fatos íntimos se misturam com os fatos vividos por ele ou terceiros. Nesse caso, o memorialista parece buscar e recuperar o tempo perdido, que inclui pessoas e fatos que lhe povoam as lembranças. Ou, como diz Eltânia André no prefácio, “o autor realiza, num claro viés ontológico, a sondagem das vidas rotineiras envoltas num cotidiano de névoas, impulsos e contradições, retratando situações e sentimentos, confidências, medos e apreensões, sonhos e pesadelos”.

É o que se vê no conto “Duas estrelas”, que consta da segunda parte da obra, em que se conhece um episódio em que um casal e seu filho pequeno conseguem sair da rotina para passar uns dias confortáveis num hotel simples sem fazer nada, graças a um dinheirinho que o pai obtivera fazendo uma fezinha no jogo do bicho. Ou, provavelmente, em algo ainda mais irregular. Por isso, o desenlace é surpreendente porque, afinal, como conclui o contista, “a vida é peregrinação”.

 

                                                           III

Já no conto que dá título ao livro, Mira, uma professora que anda às voltas com pesquisas para a sua pós-graduação, vê a sua vida transformada ao passar a conviver com uma vizinha, Elvira, que, prestativa, cuida de seu animal de estimação e de seu apartamento, quando ela viaja, e acaba por lhe ensinar que sons e cores também ajudam a organizar a vida. Mas o que a vizinha apronta no fim surpreende Mira e os leitores.

No último texto da terceira parte, “O poeta e a estrela da manhã”, em que há uma epígrafe em homenagem ao poeta Manuel Bandeira (1886-1968), lê-se o testemunho de uma aluna de nome Soraya que vai à casa do professor Manuel, um solteirão que também é poeta. Interessada em escrever sobre o professor-poeta, sua vida e obra, ela acaba por conhecer a mãe dele, dona Francelina, conhecida como Dona Santinha, uma velhinha quase encarquilhada, que fala francês e gosta de citar Baudelaire, Valéry, Rimbaud e Mallarmé. O desfecho não se conta aqui para que o leitor não perca o prazer da surpresa, mas se adianta um pouco do que o professor-poeta disse à aluna-entrevistadora:

“A vida é um milagre. Cada pássaro é um milagre. Tudo é milagre. Ouvi um dia que sou mais antigo do que o som. Não me incomodo, caminho para o fim, hoje sou quase um silêncio. Na minha vida de poeta os meus contatos têm sido sempre com gente moça, o que talvez explique por que eu venha envelhecendo devagar. Vi que você sabe de uma coisa importante: escrever não é um martelo de ferreiro, não é um cântico de certezas. Para mim, como dizia um poeta francês, o Mallarmé, escrever poesia é fazer música com a dor”. 

Em outras palavras: como observa Whisner Fraga na contracapa, estes contos “reforçam que toda a vida é travessia e, nas sombras das veredas, pulsa um lampejo de espanto, fé e humanidade”. Enfim, o que se pode acrescentar é que, nestes contos, constata-se também a saudável influência de Osman Lins, cuja obra serviu como tema para a tese de doutoramento do autor, que, por sua vez, segue a rigorosa inovação estética e formal empreendida pelo escritor pernambucano.

 

                                                           IV

Mineiro radicado em São Paulo desde 1984, Hugo Almeida (1952), jornalista formado em 1976 pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), obteve o doutoramento em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), em 2005. Fez sua estreia em 1975 com Globo da morte, contos. Dez anos depois, publicou o segundo livro de contos, Em teu seio Liberdade (São Paulo, EMW Editores).  Com o romance Mil corações solitários conquistou o Prêmio Nestlé de 1988 e o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de 1987, este com o título de Carta de navegação, obra que chegou em 2025 em sua quarta edição, pela Editora Sinete, de São Paulo, e alcança agora, em 2026, a quinta edição pela mesma editora.

As outras saíram pela Editora Scipione, em 1991 e 1994. Desta vez, a obra traz prefácio do escritor e crítico Álvaro Cardoso Gomes, professor titular da USP, mantém o posfácio do escritor mineiro Ronaldo Cagiano, radicado em Portugal, além de incluir ensaio de Lara Vaz-Tostes, resenhas do livro já publicadas na imprensa e comentários de leitores.

Filho de engenheiro e professora, ele baiano, ela mineira, Hugo Almeida nasceu em Nanuque, em Minas Gerais, mas deixou a cidade natal antes de completar dois meses. Passou a maior parte da infância em Jequié, na Bahia, cidade banhada pelo rio de Contas, que aparece em Viagem à lua de canoa (São Paulo, Nankin Editorial, 2009), reedição de Mais rápido do que a luz (São Paulo, Editora FTD, 1988), livro selecionado pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), do Ministério da Educação, em 2011.

Depois, viveu um ano em Alagoinhas, também na Bahia, e, aos 9 anos, mudou-se com a família para Belo Horizonte, onde morou 22 anos. Sempre trabalhou como jornalista profissional, com longa carreira na redação do jornal O Estado de S. Paulo.

É autor também de A voz dos sinos – o sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins (São Paulo, Editora Sinete, 2024), seu décimo sexto livro e o primeiro de estudos literários. Também publicou a novela juvenil Porto Seguro, outra história (São Paulo, Nankin Editorial, 2005), os livros infantis Todo mundo é diferente (São Paulo, Lê Editora, 1996), Pare, olhe, siga: boa viagem (São Paulo, Editora Ícone, 2000) e Que dia será o dia? (São Paulo, Nankin Editorial, 2007), além da novela Meu nome é Fogo (Belo Horizonte, Editora Dimensão, 2009) e Menino anjo capeta beija-flor (Ananindeua-PA, Edições 1/4, 2019). É autor ainda de Cinquenta metros para esquecer, contos (São Paulo, Didática Paulista, 1996) e de Minha estreia no crime – Estação 111 (São Paulo, Lê Editora, 1997), romance inspirado no massacre do Carandiru, ocorrido a 2 de outubro de 1992, em São Paulo.

É um dos participantes da antologia Quando não estávamos distraídos (São Paulo, Editora Sinete, 2023). Organizou e prefaciou Osman Lins: o sopro na argila (2004), ensaios; e com Rosângela Felício dos Santos organizou Quero falar de sonhos (São Paulo, Hucitec Editora, 2014), reunião de artigos do autor de Avalovara. Adelto Gonçalves - Brasil

Mantém o site https://hugoalmeidaescritor.com.br 

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A vizinha das sete cordas, contos, de Hugo Almeida. São Paulo: Editora Sinete, 1ª edição, 152 páginas, R$ 60,00, 2026. Site: www.editorasinete.com.br E-mail: editorasinete@gmail.com

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e Estados Unidos.  E-mail: marilizadelto@uol.com.br

 



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