Novo
livro do jornalista e escritor Hugo Almeida traz textos que fixam perplexidades
do ser humano diante do mistério da vida
I
Quinze narrativas que deixam no ar um enigma. É o que o leitor irá encontrar em A vizinha das sete cordas (São Paulo, Editora Sinete, 2026), de Hugo Almeida, que traz ainda um percuciente prefácio da escritora mineira Eltânia André, radicada em Lisboa, e textos de apresentação da poeta Lara Vaz-Tostes e do escritor e editor Whisner Fraga. São contos repassados de lirismo, que não trazem reflexões de um ensaísta, mas de um ficcionista-poeta, que procura fixar a solidão do homem e da mulher modernos, seus sonhos e perplexidades diante do mistério da vida.
Foram escritos ao longo dos últimos dez anos e construídos
com uma arquitetura narrativa marcada pela concisão e pela força imagética que
já estavam presentes em obras anteriores do autor, como Mil corações
solitários (São Paulo, Editora Scipione, 1988) e Vale das
ameixas (São Paulo, Editora Sinete, 2024), romances, e Certos casais
(São Paulo, Editora Laranja Original, 2021),
contos.
Tudo isso dotado de “uma rara
qualidade que reside na força temática, emocional e imagética e se traduz nos
cortes, nas frases breves e precisas”, como observa Eltânia André no prefácio
“Por quem as cordas vibram”, destacando também a conexão do contista “com obras
e autores, tanto nos diálogos intertextuais e nas epígrafes que representam um
nexo temático, quanto nas dedicatórias, que se convertem em homenagem e
reconhecimento afetivo àqueles que cruzaram sua trajetória literária, acadêmica
e existencial como inesgotáveis referências”.
Dos quinze textos, divididos em três partes – “Dentro de
casa”, com cinco contos, “Fora de casa”, com sete, e “Além – tributo a três
eternos”, com três –, já haviam sido publicados três: “O canto do sonho” em Nove,
novena: variações (São Paulo, Olho d´água, 2016), coletânea organizada
pelo autor em homenagem a Nove, novena
(1966), narrativas, do escritor pernambucano Osman Lins (1924-1978); “O canto
de Clarice” em Feliz aniversário, Clarice (São Paulo,
Autêntica Editora, 2020), coletânea organizada pelo autor em homenagem ao
centenário da romancista, contista e ensaísta ucraniana-brasileira Clarice
Lispector (1920-1977) e aos 60 anos de seu Laços de família
(1960), contos, obra que foi incluída no Programa Nacional do Livro e do
Material Didático (PNLD), do Ministério da Cultura, de 2021, para o ensino
médio; e “O casal do farol”, que saiu na
antologia Quando não estávamos distraídos (São
Paulo, Editora Sinete, 2023). Trata-se do décimo sétimo livro do autor e o
quinto de contos.
II
No texto que abre o livro, “Nas nuvens”, o que se lê é a
dúvida de um casal a caminho da senectude diante da iminência de trocar o
conforto de uma velha e ampla casa térrea por um apartamento num dos andares
mais altos de um prédio recém-construído, provavelmente insuflados pelo medo de
serem assaltados quando abrissem o portão da garagem. Com humor e escrita
elegante, Hugo Almeida reproduz com fidelidade o que, nesses momentos, passa
pelas mentes de todo casal diante da iminência de mudar de vida:
“Comprar é mais fácil e rápido do que vender. Dezenas de
interessados visitaram a nossa casa. Ofertas reais, duas. Inaceitáveis. Carro
velho no meio, um bocado em dólar (por que não trocavam no banco?), cota de
clube. Cash, mané, pouco, ou quase nada. Só
faltavam oferecer vale-transporte e vale-refeição. Trinta anos de sacrifícios a
troco de quê?”
Como se vê pelo trecho acima, o contista se vale do
material de suas memórias para percorrer o labirinto da alma, mesmo nos
pequenos acontecimentos da vida, e desencavar lembranças de momentos pelos
quais talvez tenha passado ou tema vir a passar, acompanhado ou não. São “memórias”
que, na verdade, perpassam o crivo do autor em que fatos íntimos se misturam
com os fatos vividos por ele ou terceiros. Nesse caso, o memorialista parece
buscar e recuperar o tempo perdido, que inclui pessoas e fatos que lhe povoam
as lembranças. Ou, como diz Eltânia André no prefácio, “o autor realiza, num
claro viés ontológico, a sondagem das vidas rotineiras envoltas num cotidiano
de névoas, impulsos e contradições, retratando situações e sentimentos,
confidências, medos e apreensões, sonhos e pesadelos”.
É o que se vê no conto “Duas estrelas”, que consta da
segunda parte da obra, em que se conhece um episódio em que um casal e seu
filho pequeno conseguem sair da rotina para passar uns dias confortáveis num
hotel simples sem fazer nada, graças a um dinheirinho que o pai obtivera
fazendo uma fezinha no jogo do bicho. Ou, provavelmente, em algo ainda mais
irregular. Por isso, o desenlace é surpreendente porque, afinal, como conclui o
contista, “a vida é peregrinação”.
III
Já no conto que dá título ao livro, Mira, uma professora
que anda às voltas com pesquisas para a sua pós-graduação, vê a sua vida
transformada ao passar a conviver com uma vizinha, Elvira, que, prestativa,
cuida de seu animal de estimação e de seu apartamento, quando ela viaja, e
acaba por lhe ensinar que sons e cores também ajudam a organizar a vida. Mas o
que a vizinha apronta no fim surpreende Mira e os leitores.
No último texto da terceira parte, “O poeta e a estrela da
manhã”, em que há uma epígrafe em homenagem ao poeta Manuel Bandeira
(1886-1968), lê-se o testemunho de uma aluna de nome Soraya que vai à casa do
professor Manuel, um solteirão que também é poeta. Interessada em escrever
sobre o professor-poeta, sua vida e obra, ela acaba por conhecer a mãe dele,
dona Francelina, conhecida como Dona Santinha, uma velhinha quase
encarquilhada, que fala francês e gosta de citar Baudelaire, Valéry, Rimbaud e
Mallarmé. O desfecho não se conta aqui para que o leitor não perca o prazer da
surpresa, mas se adianta um pouco do que o professor-poeta disse à aluna-entrevistadora:
“A vida é um milagre. Cada pássaro é um milagre. Tudo é
milagre. Ouvi um dia que sou mais antigo do que o som. Não me incomodo, caminho
para o fim, hoje sou quase um silêncio. Na minha vida de poeta os meus contatos
têm sido sempre com gente moça, o que talvez explique por que eu venha
envelhecendo devagar. Vi que você sabe de uma coisa importante: escrever não é
um martelo de ferreiro, não é um cântico de certezas. Para mim, como dizia um
poeta francês, o Mallarmé, escrever poesia é fazer música com a dor”.
Em outras palavras: como observa Whisner Fraga na
contracapa, estes contos “reforçam que toda a vida é travessia e, nas sombras
das veredas, pulsa um lampejo de espanto, fé e humanidade”. Enfim, o que se
pode acrescentar é que, nestes contos, constata-se também a saudável influência
de Osman Lins, cuja obra serviu como tema para a tese de doutoramento do autor,
que, por sua vez, segue a rigorosa inovação estética e formal empreendida pelo
escritor pernambucano.
IV
Mineiro radicado em São Paulo desde 1984, Hugo Almeida
(1952), jornalista formado em 1976 pela Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG), obteve o doutoramento em Literatura Brasileira pela Universidade de São
Paulo (USP), em 2005. Fez sua estreia em 1975 com Globo da morte,
contos. Dez anos depois, publicou o segundo livro de contos, Em teu
seio Liberdade (São Paulo, EMW Editores). Com o romance Mil corações solitários
conquistou o Prêmio Nestlé de 1988 e o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de 1987,
este com o título de Carta de navegação, obra que chegou em 2025 em sua
quarta edição, pela Editora Sinete, de São Paulo, e alcança agora, em 2026, a
quinta edição pela mesma editora.
As outras saíram pela Editora Scipione, em 1991 e 1994. Desta
vez, a obra traz prefácio do escritor e crítico Álvaro Cardoso Gomes, professor
titular da USP, mantém o posfácio do escritor mineiro Ronaldo Cagiano, radicado
em Portugal, além de incluir ensaio de Lara Vaz-Tostes, resenhas do livro já
publicadas na imprensa e comentários de leitores.
Filho de engenheiro e professora, ele baiano, ela mineira,
Hugo Almeida nasceu em Nanuque, em Minas Gerais, mas deixou a cidade natal
antes de completar dois meses. Passou a maior parte da infância em Jequié, na
Bahia, cidade banhada pelo rio de Contas, que aparece em Viagem à lua de
canoa (São Paulo, Nankin Editorial, 2009), reedição de Mais rápido
do que a luz (São Paulo, Editora FTD, 1988), livro
selecionado pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), do Ministério
da Educação, em 2011.
Depois, viveu um ano em Alagoinhas, também na Bahia, e, aos
9 anos, mudou-se com a família para Belo Horizonte, onde morou 22 anos. Sempre
trabalhou como jornalista profissional, com longa carreira na redação do jornal
O Estado de S. Paulo.
É autor também de A voz dos sinos –
o sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins (São Paulo, Editora
Sinete, 2024), seu décimo sexto livro e o primeiro de estudos literários. Também
publicou a novela juvenil Porto Seguro, outra história (São Paulo,
Nankin Editorial, 2005), os livros infantis Todo mundo é diferente (São
Paulo, Lê Editora, 1996), Pare, olhe, siga: boa viagem (São Paulo,
Editora Ícone, 2000) e Que dia será o dia?
(São Paulo, Nankin Editorial, 2007), além da novela Meu nome é Fogo
(Belo Horizonte, Editora Dimensão, 2009) e Menino anjo capeta
beija-flor (Ananindeua-PA, Edições 1/4, 2019). É autor ainda de Cinquenta
metros para esquecer, contos (São Paulo, Didática Paulista, 1996) e de Minha
estreia no crime – Estação 111 (São Paulo, Lê Editora, 1997), romance
inspirado no massacre do Carandiru, ocorrido a 2 de outubro de 1992, em São
Paulo.
É um dos participantes da antologia Quando não
estávamos distraídos (São Paulo, Editora Sinete, 2023). Organizou
e prefaciou Osman Lins: o sopro na argila
(2004), ensaios; e com Rosângela Felício dos Santos organizou Quero falar
de sonhos (São Paulo, Hucitec Editora, 2014), reunião de artigos
do autor de Avalovara. Adelto Gonçalves - Brasil
Mantém o site https://hugoalmeidaescritor.com.br
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A vizinha das sete cordas, contos, de Hugo Almeida. São Paulo: Editora Sinete, 1ª edição, 152 páginas, R$ 60,00, 2026. Site: www.editorasinete.com.br E-mail: editorasinete@gmail.com
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Adelto
Gonçalves, jornalista, mestre em
Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras
na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor
de Gonzaga, um poeta do Iluminismo
(Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999;
Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003;
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras,
2012), Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp,
2015), Os vira-latas da madrugada
(José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o
poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019),
entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on
Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na
Inglaterra e Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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