Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 20 de maio de 2026

Na terra de Lebab

Construída no século XIX, a Casa do Mandarim tornou-se o maior complexo residencial de Macau e, nas décadas de 1920 e 1930, instalaram-se ali dezenas de famílias de vários estratos sociais, transformando aqueles quatro mil metros quadrados num microcosmo da sociedade local. Um microcosmo de tal forma complexo que ali coexistiam artistas e operários, mas também uma dezena de cabras e colmeias para extrair mel, ou ainda uma fábrica de pimenta. Antes dessa transformação e arrendamento em diferentes compartimentos, na Casa do Mandarim viveu Zheng Guanying, defensor da democracia representativa e dos direitos das mulheres, que desde 2011 dá o nome a uma escola pública macaense, pioneira num sistema de ensino bilingue que coloca o português lado a lado com o mandarim.

Entra-se nesta escola com um espanto ainda maior do que na Escola Portuguesa de Macau. A maioria das crianças que escolhe aprender português não tem qualquer ligação a Portugal. A diversidade e a multiplicação de sentidos são para elas naturais, porque desde cedo falam quatro línguas - o cantonês, o mandarim, o inglês e o português. Algumas cruzam todos os dias a fronteira das Portas do Cerco, da China para esse pedaço de outra coisa chamado Macau, porque os pais os querem em contacto com várias línguas que, somadas, são porta para a maior parte do mundo.

É fácil, em Macau, ficarmos embevecidos com a herança portuguesa, com a arquitetura que identificamos, a calçada imensamente regular e cuidada, os nomes das ruas tão nossos. É fácil, em Macau, irmos atrás do que nos soa familiar, até porque - como canta Caetano - Narciso acha feio o que não é espelho. Mas Macau ganha tamanho quando deixamos essa lente e olhamos o território na sua fusão de culturas e na profusão de cores. A terra escolhida e protegida por A-Má, pisada por Camões como por tantos outros poetas chineses, ingleses e franceses, habitada por tantas tradições e ainda assim não uma Babel, mas a Terra de Lebab que Fernando Sales Lopes descreve num livro editado pelo Instituto Português do Oriente em 2008. A diversidade que nos acrescenta e nos torna verdadeiramente do mundo, não no sentido nostálgico do que fomos, mas do tanto que podemos ser - e que outros veem em nós e na nossa língua. Inês Cardoso – Portugal in TSF