Construída no século XIX, a Casa do
Mandarim tornou-se o maior complexo residencial de Macau e, nas décadas de 1920
e 1930, instalaram-se ali dezenas de famílias de vários estratos sociais,
transformando aqueles quatro mil metros quadrados num microcosmo da sociedade
local. Um microcosmo de tal forma complexo que ali coexistiam artistas e
operários, mas também uma dezena de cabras e colmeias para extrair mel, ou
ainda uma fábrica de pimenta. Antes dessa transformação e arrendamento em
diferentes compartimentos, na Casa do Mandarim viveu Zheng Guanying, defensor
da democracia representativa e dos direitos das mulheres, que desde 2011 dá o
nome a uma escola pública macaense, pioneira num sistema de ensino bilingue que
coloca o português lado a lado com o mandarim.
Entra-se nesta escola com um espanto ainda maior do que
na Escola Portuguesa de Macau. A maioria das crianças que escolhe aprender
português não tem qualquer ligação a Portugal. A diversidade e a multiplicação
de sentidos são para elas naturais, porque desde cedo falam quatro línguas - o
cantonês, o mandarim, o inglês e o português. Algumas cruzam todos os dias a
fronteira das Portas do Cerco, da China para esse pedaço de outra coisa chamado
Macau, porque os pais os querem em contacto com várias línguas que, somadas,
são porta para a maior parte do mundo.
É fácil, em Macau, ficarmos embevecidos com a herança
portuguesa, com a arquitetura que identificamos, a calçada imensamente regular
e cuidada, os nomes das ruas tão nossos. É fácil, em Macau, irmos atrás do que
nos soa familiar, até porque - como canta Caetano - Narciso acha feio o que não
é espelho. Mas Macau ganha tamanho quando deixamos essa lente e olhamos o
território na sua fusão de culturas e na profusão de cores. A terra escolhida e
protegida por A-Má, pisada por Camões como por tantos outros poetas chineses,
ingleses e franceses, habitada por tantas tradições e ainda assim não uma
Babel, mas a Terra de Lebab que Fernando Sales Lopes descreve num livro editado
pelo Instituto Português do Oriente em 2008. A diversidade que nos acrescenta e
nos torna verdadeiramente do mundo, não no sentido nostálgico do que fomos, mas
do tanto que podemos ser - e que outros veem em nós e na nossa língua. Inês
Cardoso – Portugal in “TSF”