O homem, através dos tempos,
sempre sonhou com o retorno às suas raízes, ou seja, à terra de seus pais e
avós ou mesmo ao local onde nasceu e de onde saiu para ganhar o mundo. Talvez
tenha sido assim desde a Antiguidade, como se pode ler em A Odisseia, grande obra clássica e épica
do poeta grego Homero (século VIII a.C.), que conta a história de Ulisses
(Odisseu), rei de Ítaca, ilha supostamente localizada no mar Jônico, que seria casado
com Penélope e tinha um filho, Telêmaco.
Quando Páris, príncipe
troiano, raptou Helena, a mulher mais bela do mundo e esposa de Menelau, rei de
Esparta, preparou-se uma expedição contra Troia, na qual Ulisses tomou parte
ativa. Durante os dez anos do cerco a Troia, Ulisses teve um papel decisivo. Depois,
com as feridas cicatrizadas, levou mais dez anos para retornar a sua Ítaca,
onde estavam suas raízes, a pátria de seus sonhos. Mas o importante da história
não é o seu retorno, mas a longa e sobressaltada viagem que fez para voltar
para casa.
Com isso, parece que Homero
queria dizer que todo homem sempre sonha com o seu retorno às raízes, o eterno
retorno, de que dizia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Se
tudo retorna eternamente, o futuro já é um passado; e o presente é tão passado
quanto o futuro, dizia o filósofo. Em Assim
Falou Zaratustra (1883-85), Nietzsche retoma a ideia do devir formulada por
Heráclito (535a.C-475a.C), segundo a qual tudo flui, tudo muda, tudo passa e tudo retorna, girando assim a roda deste mundo.
Em A insustentável leveza do ser, Milan Kundera conta que, certa vez,
ao folhear um livro sobre Adolf Hitler (1889-1945), emocionou-se com algumas
fotos do ditador, pois lhe lembravam o tempo de sua infância. “Essa
reconciliação com Hitler trai a profunda perversão moral inerente a um mundo
fundado essencialmente sobre a inexistência do retorno, pois nesse mundo tudo é
perdoado por antecipação e tudo é, portanto, cinicamente permitido”, escreveu.
Já o filósofo romeno Mircea
Eliade (1907-1986), em O mito do eterno
retorno, lembra que este mito existe em todas as religiões, pois reconstitui
a passagem do tempo, o percurso entre o começo e o fim, a vida e a morte. Para
Eliade, ao narrar um mito, reatualizamos, de certa forma, o tempo sagrado no
qual se sucederam os acontecimentos de que falamos, como diz em Imagens e símbolos (1961) É esse tempo
sagrado que nos ficou na memória que, de certo modo, todo homem procura
reconstruir, ao buscar suas raízes.
Foi, aliás, o que este
crítico procurou fazer em janeiro de 1990, quase quarentão, depois de
entrevistar o escritor catalão Eduardo Mendoza, em Barcelona, para um trabalho
de mestrado na Universidade de São Paulo (USP), ao viajar de trem até Vigo, na
Galiza, e de lá de caminhoneta rumo ao Porto, para no dia seguinte buscar na
freguesia de Carvalhosa, comarca de Paços de Ferreira, no Norte de Portugal, o
lugar de Peias e possíveis vestígios da sua família paterna, 60 anos depois que
seu pai largara aquela terra para nunca mais vê-la. Levado por um parente
compungido, conhecido no local e na hora, porém, o que encontrou foram só os
retratos dos avós numa lápide do cemitério do vilarejo, imagens que já trazia
na lembrança, pois eram as mesmas fotografias que costumava ver nas mãos do
pai, que perdera aos 14 anos de idade.
De certo modo, é o relato de viagem
semelhante, ao interior de si mesmo e, portanto, de volta às raízes, o que o
leitor vai encontrar em Choro por Ti,
Belterra!, narrativa de Nicodemos Sena, publicado originalmente como
folhetim em 2014 no jornal O Estado do
Tapajós, de Santarém do Pará, na Amazônia brasileira, cidade natal do
escritor. A diferença é que Nicodemos Sena teve a oportunidade (e a felicidade)
de, cinquentão, em 2014, levar o pai Bernardino Sena, então com 78 anos de
idade, para ver o que restara, mais de seis décadas depois, do lugar em que
vivera “cinco inesquecíveis anos de sua vida juvenil”.
Em 19 episódios, Nicodemos
Sena reconstitui o dia em que fez essa viagem de retorno às origens em
companhia de seu pai, depois de um percurso de algumas horas pela rodovia
Santarém-Cuiabá, até entrar numa estradinha de terra que leva à Estrada Um e,
enfim, às ruínas da cidadezinha de Belterra, que na década de 1940 fora
dirigida pela Ford Motor Company, empresa do magnata norte-americano Henry Ford
(1863-1947), que, em plena Segunda Guerra Mundial (1939-1945), tentaria fazer
da extração da borracha uma atividade lucrativa, fornecendo os pneumáticos
necessários para movimentar os veículos militares.
Não se pode dizer que se
trata de um romance nem tampouco de um conto que se tenha derramado por causa
de uma prosa poética. Não é também uma simples reportagem, pois não constitui a
mera literalização dos acontecimentos de um dia na estrada. Neste caso, cada
encontro no caminho com esporádicos moradores perdidos naquelas paragens do
Brasil profundo serve como motivo para um ou mais comentários, como aquele
episódio em que o cronista depara-se, em meio ao tórrido calor do meio-dia
amazônico, dentro de um casebre em que não havia água encanada e muito menos
tratada, com uma menina que não parava de manipular a tela de um telefone
celular.
É, isso sim, um texto híbrido
que se assume como uma crônica repassada de lirismo, uma narração das
vicissitudes vividas pelo narrador em companhia do pai, que faz, com a ajuda do
filho, uma viagem de retorno à infância para reencontrar todos os fantasmas que
ainda assolam seus pensamentos.
Ou ainda uma narrativa
poética que, ao reunir musicalidade e metaforização, faz com que o narrador
desfie o novelo da memória, em tom de conversa com o leitor em que não dispensa
nem mesmo citações de autores, como o português Fernando Pessoa (1888-1935), o
colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), o mexicano Juan Rulfo
(1917-1986) e o norte-americano William Faulkner (1897-1962). Como se sabe, o
que une esses autores de nacionalidades tão distintas é a construção metafórica
de um lugar mítico, que existe só na alma do próprio autor, como “o rio da
minha aldeia” do heterônimo pessoano Alberto Caeiro. Em resumo, o texto dialoga
com o mito do eterno retorno, ao praticar a intertextualidade com discursos canônicos,
reconstruindo, dessa forma, metáforas da precária condição humana.
Autor de livros que já se
tornaram referências obrigatórias dentro da Literatura Brasileira, como os
romances A espera do nunca mais (1999),
A noite é dos pássaros (2003) e A mulher, o homem e o cão (2009), trilogia
que constitui uma saga amazônica, Nicodemos Sena mostra em Choro por ti, Belterra! que pode ser também considerado um cronista
da estirpe de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Rubem Braga (1913-1990)
ou Fernando Sabino (1923-2004).
A diferença é que, em vez da
fugacidade dos registros do cotidiano das ruas do Rio de Janeiro que se leem
nas crônicas daqueles grandes mestres, o que o leitor descobrirá nestes
episódios é não só Amazônia que é vista ainda como exuberante paraíso tropical,
mas também aquela que governantes corruptos permitiram que continuasse a ser
destruída, tomada por aventureiros “gananciosos e cruéis, os quais, sem
escrúpulos, saqueiam e depredam os bens da terra, auxiliados por ‘mucamas’ e
‘mordomos’ (degenerados filhos da terra) que, a troco de migalhas e posições,
passaram-se para o lado dos inimigos”. Adelto
Gonçalves - Brasil
Nota:
Apresentação escrita especialmente para o livro Choro por ti, Belterra! (págs. 7/11).
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Choro
por ti, Belterra!, de Nicodemos Sena, com apresentação de Adelto
Gonçalves. Taubaté-SP: Editora LetraSelvagem, 192 páginas, R$ 30,00, 2017.
E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br Site: www.letraselvagem.com.br
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Adelto Gonçalves, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana
e doutor
em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de
Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de
Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona
brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil,
2002), Bocage – o perfil perdido
(Lisboa, Editorial Caminho, 2003), Tomás
Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado
de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça
em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São
Paulo, 2015), entre outros.
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