Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Camões, autopsiado por Aquilino Ribeiro

As comemorações nacionais do V Centenário do Nascimento de Camões deverão constituir uma efeméride de incontestável relevância cultural e cívica. Entre outros acontecimentos já em curso, destaca-se a reedição num único volume da obra de Aquilino Ribeiro, Camões Fabuloso e Verdadeiro (1950), onde procedeu à clarificação de análises deturpadas e ao esclarecimento de situações romanescas para conseguir efeitos de exaltação patriótica e de arrebatamento sentimental.

Aquilino provocou, na altura, uma das polémicas literárias mais ruidosas que marcaram a segunda metade do século XX: pretendeu esvaziar os mitos, os lugares-comuns, as ideias convencionais que se consolidaram, ao longo dos séculos. Capítulo a capítulo foi “varrendo teias de aranha”, “removendo entulhos”, “demolindo túmulos”. Em suma: todo um “romance mal urdido, falso no que respeita à pessoa e destituído de senso quanto à verdade local”. Também era um ataque direto aos intelectuais e aos políticos que zelavam pela continuidade do regime de Salazar, a mais antiga ditadura da Europa. Aquilino não escondeu o objetivo de romper não apenas com “aquilo que se ensinava na escola”, mas desmontar a imagem de um filme de Leitão de Barros, destinado a “inebriar as almas simples e megalómanas dos portugueses”, a fim de exibir um Camões “fidalgo, palaciano, valente, denodado, heróico, belo homem”.

Foi ainda muito mais explícito: Camões Fabuloso e Verdadeiro representava uma oposição frontal às efabulações publicitárias dos que se “sentam à mesa do Círculo Eça de Queiroz, hóspedes de António Ferro” para fazerem em Portugal e, sobretudo, no estrangeiro, a propaganda política e cultural do salazarismo que fabricava um Camões, tão diferente do que fora, pois “viveu pobre e miseravelmente e assim morreu, segundo a legenda gravada na sua sepultura”.

As três cartas

Aquilino declarou, sem margem de equívocos, que não se alicerçara em materiais inéditos. Limitara-se a “ler com olhos atentos” o que escreveram Teófilo Braga, José Maria Rodrigues, Willerm Stork (traduzido por Carolina Michaelis), Hernâni Cidade e José Régio. A principal fonte – assim o declarou – residiu nas “três cartas particulares que restam do poeta”. “Não foi empresa fácil” – confessou – “são verdadeiras e intrincadas charadas, naquela forma criptográfica de dizer coisas qui ferait rougir un singe, e porque esse hermetismo era de moda nas letras”.

Desmontou, através de Camões Fabuloso e Verdadeiro, a origem aristocrática da família para retratar o “espadachim de vielas de má nota nas horas vagas, com entrada no paço, tu cá, tu lá com os grandes, amante feliz de umas açafatas, enamorado de outras, estro sempre pronto para glosar um mote, numa palavra um gentil homem pobre, mas invejável”. Examinou, em pormenor, tudo quanto respeitava às primeiras edições d’ Os Lusíadas e à atividade profissional do editor. Salientou algumas questões prioritárias: “o livro sempre foi uma indústria precária em Portugal”. Os nomes celebrados n’ Os Lusíadas e os seus descendentes, na esmagadora maioria “interessavam-se por cavalos, galgos e mulheres e não sabiam cortar letra redonda. Nas escrituras e atos tabelionais assinavam de cruz. O Padre Capelão supria-lhes a ignorância em tudo o que contendia com as necessidades do espírito”. Vivia-se uma época, “propícia à floração das letras”, pois “estava no choço a grande e louca aventura” que terminaria na tragédia de Alcácer Quibir.

Existiam – recorda Aquilino – “54 livreiros com balcão de venda em Lisboa; esta designação compreendia os mestres afins, como cartonadores, brochadores, tendeiros de folhetos de cordel, papeleiros etc. Cada exemplar d’ Os Lusíadas foi taxado à razão de um cruzado, o que era um preço alto, proibitivo, acessível apenas às bolsas endinheiradas”.

Camões optou por António Gonçalves com oficina própria, na Costa do Castelo. Não tinha o prestígio de outros impressores que lançaram obras de personalidades de relevo oficial. Os Lusíadas, publicados em 1572, não incluíram qualquer prefácio ou dedicatória. Apenas se lê na primeira página: “Com privilégio real. Impressos em Lisboa com licença da Sancta Inquisição e do Ordinário: em casa de António Gonçalvez, Impressor”. Outro pormenor comentado até à exaustão pelos investigadores e analisado por Aquilino: a disposição do pelicano, no alto da portada, o pelicano com o bico voltado para a direita de quem olha; na outra edição possível do mesmo ano o pelicano tem o bico voltado para a esquerda.

Vinte mil diferenças

Logo nas primeiras estrofes, verifica-se que houve alterações. Possivelmente erros de impressão ou modificações que o poeta quis introduzir no texto? José Maria Rodrigues (1930) e Gondim da Fonseca (1972) detetaram numerosas gralhas e desacertos. Trinta anos após a morte de Aquilino, numa pesquisa efetuada por David Jackson – professor da Universidade de Yale – ao consultar 34 exemplares d’ Os Lusíadas de 1572 existentes não só em Portugal e no Brasil, mas em bibliotecas públicas e privadas dos Estados Unidos, Inglaterra, Itália, Espanha, França e Alemanha, encontrou mais de duas mil diferenças. Numa longa entrevista que me concedeu para o Diário de Notícias, David Jackson, concluiu que apesar da colocação do pelicano para a direita ou para a esquerda, houve uma única edição em 1572, possivelmente interrompida, devido a correções realizadas pelo próprio punho de Camões.

Duas censuras

Vivendo Aquilino num regime de censura, que cortava ou proibia indiscriminadamente o conteúdo dos livros, dos jornais e revistas, as peças de teatro e as produções do cinema – tal como no tempo da Inquisição – ocupou-se da atitude dúplice do censor d’ Os Lusíadas, o dominicano Frei Bartolomeu Ferreira que adotou dois comportamentos diferentes: por sua iniciativa ou por ordem da Inquisição. Para a primeira edição, no entender de Aquilino, houve conversações e reajustamentos entre o censor e o autor. No despacho que exarou Bartolomeu Ferreira pode ler-se: “não achei neles (Os Lusíadas) cousa alguma escandalosa, nem contrária à fé e aos bons costumes”.

A propósito das narrativas pagãs, de versos incendiados de exaltação sexual, nomeadamente no Canto IX, relativo à ilha dos Amores, o censor escreveu: “como, isto é, poesia e fingimento, e o autor, como poeta, não pretende mais que ornar o estilo poético, não tivemos por inconveniente ir esta fábula na obra. E por isso me parece o livro digno de se imprimir, e o autor mostra nele muito engenho e muita erudição nas ciências humanas”.

Contudo, já depois da morte de Camões, numa segunda censura para a chamada “edição dos Piscos”, publicada no domínio espanhol, no reinado de Filipe I denunciou-se escandalosamente “a mão imperiosa e teologal” do mesmo Bartolomeu Ferreira (...) que “emendou, transcreveu, suprimiu” (...), introduzindo n’ Os Lusíadasversos aleijados e de mau gosto”.

Camões: antes e depois

Aquilino não se cansa de enaltecer “o poeta de sopro universalista e de alma multimoda e eterna”. E também assinalava que, até Camões “nunca a língua fora manejada com aquela agilidade e limpidez, aqueles ritmos de avena culta, com flexões novas, pedidas ao latim, que lhe imprimiram elegância, sem perda de vigor e com ganho de harmonia”. Portanto: estamos perante duas línguas portuguesas – antes e depois de Camões.

Considerava Os Lusíadas o “tombo poético da pátria portuguesa e um monumento à nacionalidade”, “o poema da energia máscula, pagão e sensualista”, tendo inscrito essa energia voluptuosa, e erótica na “ilha dos Amores”. Considerava, ainda, que Luís de Camões nos legou “os sonetos mais admiráveis da nossa língua” e as líricas “que, quanto mais se leem, mais perfume de beleza se exala, daqueles ritmos de ouro e de cristal”.

A obra de Aquilino, agora reeditada, pela Bertrand, num único volume, coordenado por Eduardo Boavida, capa de Álvaro Carrilho e um prefácio da minha autoria, integra um índice onomástico e um índice toponímico, para facilitar a consulta e a leitura deste livro e localizar muitos aspetos primordiais. Os Lusíadas, além da narrativa histórica, geográfica e mitológica, é um exemplo, a todos os títulos notável, da sobriedade e nitidez dos conceitos, sem resvalar na profusão de minudências e futilidades, na exuberância de jogos vocabulares.

Ao contrário de todas as outras epopeias universais, Os Lusíadas oferecem-nos uma visão crítica das situações concretas do quotidiano, que por motivos políticos, religiosos e literários têm sido, voluntariamente, desfigurados. As palavras em Camões têm o poder de dialogar com os outros, de estabelecer as aproximações necessárias para resistir às adversidades, e promover os valores cívicos e culturais a fim de contribuir para a formação de uma consciência coletiva. António Valdemar – Portugal in Blog de São João del-Rei” com “O Figueirense”

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António Valdemar - Jornalista-carteira profissional número Um e investigador;  sócio efetivo da Academia das Ciências de Lisboa e sócio correspondente português para a ABL-Academia Brasileira de Letras-cadeira nº 3



domingo, 25 de abril de 2021

Portugal - Álbuns de José Afonso lançados entre 1968 e 1981 vão ser reeditados


Os 11 álbuns de José Afonso lançados originalmente entre 1968 e 1981 vão ser reeditados, anunciou hoje a família do músico, que vai avançar para o projecto em parceria com a editora Lusitanian Music.

Num comunicado enviado à agência Lusa, a família de José Afonso revelou que, “neste 25 de Abril, o lançamento digital do ‘single’ ‘Coro da Primavera’ marca o regresso às edições discográficas da obra de José Afonso”.

“A família de José Afonso decidiu, em parceria com a editora Lusitanian Music, avançar com a edição dos 11 álbuns de José Afonso originalmente editados entre 1968 e 1981 mas indisponíveis há vários anos, assumindo a importância cultural de disponibilizar esta música ao mundo”, pode ler-se no texto.

José Afonso lançou em 1968 o seu disco de estreia na editora Orfeu, de Arnaldo Trindade, sob o título “Cantares do Andarilho”, que incluía temas como “Natal dos Simples” e “Vejam Bem”.

Até 1981, editou uma série de álbuns que se tornaram marcos da música portuguesa, desde “Contos Velhos Rumos Novos” (1969) a “Fados de Coimbra e Outras Canções” (1981), passando por “Traz Outro Amigo Também” (1970), “Cantigas do Maio” (1971), “Eu Vou Ser Como a Toupeira” (1972), “Venham Mais Cinco” (1973), “Coro dos Tribunais” (1974), “Com as Minhas Tamanquinhas” (1976), “Enquanto há Força” (1978) e “Fura Fura” (1979).

Segundo o mesmo comunicado, “o projecto prevê uma sequência de edições, nos formatos clássicos (CD e vinil) e no ecossistema digital, lançadas sob um novo selo, agora criado pela Lusitanian para divulgar esta obra única no panorama da música nacional e internacional”.

Os 11 discos já haviam sido alvo de reedição pela Orfeu, entre 2012 e 2013, para assinalar os 25 anos da morte do compositor.

Na altura, os 11 álbuns foram restaurados e remasterizados digitalmente pelo engenheiro de som António Pinheiro da Silva, e a edição contava com novos textos que contextualizam o momento em que foram feitos, no percurso de José Afonso.

Em setembro do ano passado, a Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) abriu o processo de classificação da obra fonográfica do músico José Afonso por considerar que representa “valor cultural de significado para a Nação”.

De acordo com o anúncio então publicado em Diário da República, foi determinada a abertura do procedimento de classificação de um conjunto de 30 fonogramas da autoria do compositor e intérprete José Afonso, bem como de 18 cópias digitais de ‘masters’ de produção de um conjunto de cassetes gravadas pelo autor e de um conjunto de entrevistas.

Esta foi a primeira vez que a DGPC iniciou um processo de classificação de uma obra fonográfica, revelou o Ministério da Cultura, acrescentando que ajudará a “consolidar informação relativa à obra gravada, publicada ou não, do artista”.

A decisão surgiu um ano depois de o parlamento ter aprovado um projeto de resolução do Partido Comunista Português (PCP) que recomendava ao Governo a classificação da obra de José Afonso como de interesse nacional, com vista à sua reedição e divulgação.

Na altura, em nota divulgada à Lusa, a família de José Afonso, detentora dos direitos da obra musical, manifestava o apoio à classificação da obra e recordava que estava a “colaborar directamente com o Ministério da Cultura, desde 2018”, para que se desenvolvesse o processo.

Ainda em 2019, a ministra da Cultura, Graça Fonseca, afirmava publicamente que não foi por falta de vontade que o processo de classificação não se iniciou mais cedo, mas porque não existia acesso às ‘masters’ e ao conteúdo das gravações originais de José Afonso.

Quando foi lançada a petição de pedido de salvaguarda, o presidente da AJA, Francisco Fanhais, explicava que se estava perante “um imbróglio jurídico”, porque a Movieplay, a editora que detém os direitos comerciais da obra de José Afonso, estava “em situação de insolvência” e não se sabia “do paradeiro dos ‘masters’ das músicas gravadas pelo Zeca Afonso”, comprometendo a sua reedição.

José Afonso nasceu em 02 de agosto de 1929 em Aveiro e começou a cantar enquanto estudante em Coimbra, tendo gravado os primeiros discos no início dos anos 1950 com fados de Coimbra, pela Alvorada, “dos quais não existem hoje exemplares”, refere a AJA na biografia oficial do músico.

Autor de “Grândola, Vila Morena”, uma das canções escolhidas para senha do avanço das tropas, na Revolução de Abril de 1974, que hoje assinala 47 anos, José Afonso morreu em 23 de fevereiro de 1987, em Setúbal, de esclerose lateral amiotrófica, diagnosticada cinco anos antes. In “Lux 24” - Luxemburgo