Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

“Mil Corações Solitários”: O Silêncio que Respira

O título do romance de Hugo Almeida não funciona como metáfora exagerada, mas como diagnóstico sensível. Há, de fato, muitas solidões caminhando juntas


Comecei a ler Mil Corações Solitários, de Hugo Almeida, como quem se aproxima de uma casa antiga – uma casa feita de ecos e memória, onde o ar carrega vozes que nunca deixaram de falar. Antes mesmo da primeira página, senti que havia um ritmo próprio: algo na linguagem respirava. Há livros que não se leem apenas com os olhos, mas com a pele; livros cuja matéria é silêncio e cuja vibração se sustenta nas pausas. O romance de Hugo Almeida pertence a essa linhagem rara: obras que escutam. 

Desde as primeiras linhas, percebe-se que há um subterrâneo sustentando cada gesto do enredo. Não se trata apenas de personagens, mas de pulsações. Hugo escreve com o ar entre os verbos, confiando na força das suspensões, dos intervalos em que o sentido se forma antes de ser dito. Sua escrita entende que o silêncio não é ausência, mas presença que excede a palavra; e que, às vezes, é o silêncio que conduz o leitor.

Níobe, a figura central, encarna esse modo de existir. Suas cartas à mãe não são confissões, nem busca de explicação – são respiração. Escrever, para ela, é um modo de impedir que o tempo a dissolva. Há uma coragem particular na forma como tenta sustentar a própria vida através da linguagem; como transforma o gesto da escrita em contenção e sobrevivência. A carta, para Níobe, é abrigo e limite: o mesmo movimento que a ampara é o que a aprisiona dentro de si. Hugo captura essa ambivalência com precisão sutil, sem dramatização: apenas deixando que a dor se mova na página sem ser violentada pelo excesso.

À volta dela, Gamaliel – personagem construído com uma delicadeza ética rara. Seu silêncio não é indiferença, mas impossibilidade. Um silêncio que pesa, que guarda uma densidade própria, que devolve a Níobe uma sombra de si mesma. Entre os dois há um amor suspenso, feito de gestos que quase se completam, de presenças que se roçam sem se fundir. Hugo trata essa relação com pudor narrativo: não invade, não explica demais, apenas observa com compaixão.

A estrutura epistolar cumpre, no romance, uma função dupla e profunda. Ao mesmo tempo em que cria um espaço íntimo, expõe aquilo que só a solidão pode formular. As cartas de Níobe ecoam tradições distintas – Flaubert, Clarice Lispector, Raduan Nassar – mas Hugo desvia desses modelos ao não usar a carta como descoberta interior. Aqui, a carta é o próprio lugar onde o sujeito continua existindo. Níobe não escreve para compreender o que sente, mas para continuar sentindo; sua escrita é o gesto que impede o apagamento. 

Existe, em todo o romance, uma contenção formal que o dignifica. Hugo não desperdiça sílabas: escolhe cada palavra como quem escolhe uma pedra para não romper o silêncio da água. Seu texto se aproxima de uma música de câmara: pausas calculadas, nuances mínimas, ecos que se entrelaçam. Essa contenção é estética, mas também ética – não invadir o interior dos personagens é tratá-los com respeito.

O título – Mil Corações Solitários – não funciona como metáfora exagerada, mas como diagnóstico sensível. Há, de fato, muitas solidões caminhando juntas: fragmentos de vidas que batem em ritmos distintos, mas que se reconhecem no silêncio. Cada personagem carrega uma possibilidade interrompida, um rumor de vida que poderia ter sido outra. E é nesse rumor que reside a beleza do romance: a melancolia que se sustenta não na dor explícita, mas naquilo que resta. 

Níobe atravessa a narrativa como tempo encarnado. Sua escrita percorre o passado e o presente, tentando recompor uma memória ameaçada pela ausência. Há nela uma sabedoria antiga: a de quem compreende que o amor, para durar, precisa aprender a existir mesmo quando não há reciprocidade imediata. Suas cartas são mapas íntimos, tentativa de manter viva a chama de uma existência muitas vezes invisível. 

E é justamente essa invisibilidade que o romance ilumina: a solidão como condição de escuta. Hugo propõe que só quem aprendeu a estar só consegue ouvir verdadeiramente. Seu livro aposta na lentidão, na presença, na atenção – e essa aposta é política, no melhor sentido. Em tempos de cacofonia, escrever com silêncio é um gesto de resistência.

Há uma dimensão corpórea na leitura. Em certo ponto, percebi que não lia mais com os olhos: lia com a pele. O texto altera a respiração do leitor, desacelera o olhar, reorganiza o espaço interno. Poucas obras conseguem produzir esse efeito – o de transformar o estado de consciência de quem lê. Neste romance, o silêncio não é apenas tema: é método, é atmosfera, é corpo. 

Quando a narrativa chega ao fim, o silêncio que permanece não é vazio. É um silêncio pleno, como o que fica após uma confidência verdadeira. O leitor sai do livro não com respostas, mas com uma companhia. O romance continua respirando depois de fechado; permanece como uma presença que não se impõe, mas que não se retira. 

Mil Corações Solitários é um livro raro: delicado sem ser frágil, rigoroso sem ser árido, emocional sem ser sentimentalista. Acredita no amor como forma de lucidez – e talvez seja essa a sua grande revelação. Quando o amor se torna lucidez, o silêncio se torna luz. Lara Vaz-Tostes - Brasil

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Mil Corações Solitários, de Hugo Almeida. 4ª edição. São Paulo: Editora Sinete, 228 páginas, R$ 65,00, 2025. Site: https://www.editorasinete.com.br ; E-mail: editorasinete@gmail.com

Site do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br

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Lara Passini Vaz-Tostes – Natural de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais, onde nasceu a 04 de Maio de 1998, é escritora, advogada pela UFMG (2022) e pesquisadora. Autora de O Lugar que Não Existe (mas sou eu) (Minimalismos, 2025) e Por dentro, onde os nomes nascem (Terra da Garoa, 2025) e outros livros. Desenvolve pesquisas nas interseções entre literatura, ética e escuta, com ênfase em Dostoiévski e filosofia da linguagem. Publica poesia, contos e ensaios críticos em revistas e portais literários.


quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Uma obra na linhagem dos grandes escritores

“Mil corações solitários”, livro que marca a estreia de Hugo Almeida como romancista, é novamente reeditado e chega à quarta edição                                                                                  

 

                                                           I

Trinta e sete anos depois da primeira edição publicada pela Editora Scipione, de São Paulo, o romance Mil corações solitários, de Hugo Almeida, que conquistou o Prêmio Nestlé de 1988 e o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de 1987, este com o título de Carta de navegação, chega a sua quarta edição, agora pela Editora Sinete, também de São Paulo. As outras duas edições saíram pela Scipione, em 1991 e 1994. A obra, desta vez, traz posfácio do escritor mineiro Ronaldo Cagiano, radicado em Portugal, bem como um adendo, uma carta do autor, notícias e artigos sobre o romance, em ordem cronológica.

Para Cagiano, trata-se de “uma obra de tamanha força imagética e carga semântica” que significa “um alento e um frescor no meio do lixo literário ungido pelo mercado editorial”. De fato, é um livro que mantém o seu vigor, assumindo-se como um romance diferenciado em que o autor se vale de várias técnicas ficcionais, utilizando outras formas de prosa, como monólogo, diálogos e entrevista, e poesia, sem deixar de fluir o fluxo de consciência.

Em breves palavras, o que se pode acrescentar é que a obra conta a sofrida história de vida de Níobe, por meio de cartas que ela escreve, num estilo livre e até num português pouco culto, mas fiel à personalidade da personagem (com o tempo, a linguagem e a personalidade dela ganharam vigor), sobre a infeliz e decepcionante existência que passa a levar depois do casamento com Gamaliel Carvalho, um tipo silencioso e enigmático (mais tarde parece ser alguém ligado à polícia ou aos ditadores da época), mas que poderia lhe dar uma sobrevivência garantida, como assim imaginou o pai dela, ao forçá-la a se casar com ele.

Para sobreviver àquele casamento abusivo e sem saída, cuja consumação no leito demorou tempos para se dar, Níobe escreve essas cartas dirigidas à própria mãe, o que continuou a fazer mesmo depois da morte da genitora, como se continuasse a ter contato com ela no além. Para se ter uma ideia do estilo sóbrio, seguro e inventivo de Hugo Almeida, basta a leitura deste trecho:

          “(...) Mãezinha é assim mesmo, o homem demora para dormir sem roupa com a mulher depois que casa? Ele vai esperar quanto tempo? Me responda logo porque eu não tenho ninguém aqui para conversar sobre essas coisas e aí nem pensei em perguntar porque eu nem sabia que isso ia acontecer. Eu não sabia mesmo era de nada como agora. Papai decidiu tudo rápido, nem adiantou eu bater o pé a Senhora lembra. Mas eu aceito ser casada mas só que eu não vivo ainda assim como mulher casada, quer dizer nem mulher de verdade eu não sou até agora.

 

                                                          II

Fosse como fosse, um dia, haveria a consumação do ato carnal e Níobe seria mãe de René e Ana, que constituiriam também parte das rememorações da vida insípida que ela continuaria a viver com Gamaliel, este sempre enfurnado em seu escritório, homem de mentalidade arredia, que só podia oferecer à mulher uma casa vazia de sentimentos. Como diz José Carlos Garbuglio, professor aposentado de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP), em texto publicado nas abas das três primeiras edições do livro e reproduzido no adendo da quarta, “as cartas constituem um longo monólogo” com o mundo imaginário da personagem.

Porém, mais que isso, a obra, fragmentária e perpassada por momentos poéticos, oferece flagrantes de um Brasil que ficou no passado, como o suicídio do então presidente Getúlio Vargas (1882-1954) e outros episódios marcantes da história brasileira dos anos 50 até o início dos anos 80 do século passado, que marca a abertura política depois de 21 anos de uma ditadura civil-militar (1964-1985) que só infelicitou e atrasou o desenvolvimento da Nação.          

Avalizado por dois grandes prêmios literários, com esta obra, como observa a escritora, ensaísta e psicanalista Ana Cecília Carvalho, no texto de apresentação que consta da “orelha” do livro, Hugo Almeida “alcança a linhagem de grandes escritores brasileiros contemporâneos”. O que, de fato, tem sido confirmado pelos seus mais recentes livros, como o romance Vale das ameixas (São Paulo, Editora Sinete, 2024; reeditado agora em 2025), que tem elos com a obra do escritor Osman Lins (1924-1978).

É de se ressaltar que o romancista e contista Hugo Almeida é autor da tese de doutoramento “Osman Lins: a chama grega do cárcere Brasil”, defendida em 2005 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da USP, sob a orientação do professor doutor Valentim Aparecido Facioli (1942-2024), em que analisa aspectos até então pouco estudados de A rainha dos cárceres da Grécia (1976).

Já o romancista e crítico literário Álvaro Cardoso Gomes, professor titular da FFLCH-USP, que participou do júri do Prêmio Nestlé de 1988, em recente recensão do livro publicada no site Baía da Lusofonia, de Lisboa, observou que “Hugo Almeida talvez seja o escritor brasileiro que manifesta em sua obra os sinais mais visíveis da ruptura do convencional na prosa, de certa forma, dando continuidade aos experimentos geniais de Osman Lins, em Nove, Novena e Avalovara”. Para o professor, com este romance inovador, o autor, ao emular com ironia a escrita sentimental dos folhetins, “irrompeu no panorama da literatura brasileira moderna com audácia e coragem, dando assim um vigor novo à nossa ficção”.

 

                                                          III

Mineiro radicado em São Paulo desde 1984, Hugo Almeida (1952), jornalista formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1976, é autor também de Certos casais, contos (São Paulo, Editora Laranja Original, 2021), e A voz dos sinos – o sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins (São Paulo, Editora Sinete, 2024), seu décimo sexto livro e o primeiro de estudos literários.    

Filho de engenheiro e professora, ele baiano, ela mineira, Hugo Almeida nasceu em Nanuque, em Minas Gerais, mas deixou a cidade natal antes de completar dois meses. Passou a maior parte da infância em Jequié, na Bahia, cidade banhada pelo rio de Contas, que aparece em Viagem à lua de canoa (São Paulo, Nankin Editorial, 2009), reedição de Mais rápido do que a luz (São Paulo, Editora FTD, 1988), livro selecionado pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), do Ministério da Educação, em 2011. Depois, viveu um ano em Alagoinhas, também na Bahia, e, aos 9 anos, mudou-se com a família para Belo Horizonte, onde viveu 22 anos e estreou na literatura com Globo da morte, contos (Edição Alternativa, 1975).

Também publicou Em teu seio Liberdade, contos (São Paulo, EMW Editores, 1985), a novela juvenil Porto Seguro, outra história (São Paulo, Nankin Editorial, 2005), os infantis Todo mundo é diferente (São Paulo, Lê Editora, 1996), Pare, olhe, siga: boa viagem (São Paulo, Editora Ícone, 2000), e Que dia será o dia? (São Paulo, Nankin Editorial, 2007), além da novela Meu nome é Fogo (Belo Horizonte, Editora Dimensão, 2009), de Menino anjo capeta beija-flor (Ananindeua-PA, Edições 1/4, 2019) e dos infantojuvenis Cinquenta metros para esquecer, contos (São Paulo, Didática Paulista, 1996) e de Minha estreia no crime – Estação 111, romance (São Paulo, Lê Editora, 1997), inspirado do massacre do Carandiru, ocorrido a 2 de outubro de 1992, em São Paulo.

É um dos participantes da antologia Quando não estávamos distraídos (São Paulo, Editora Sinete, 2023). Organizou e prefaciou Osman Lins: o sopro na argila (2004), ensaios; e com Rosângela Felício dos Santos organizou Quero falar de sonhos, reunião de artigos do autor de Avalovara (São Paulo, Hucitec Editora, 2014).

Organizou as coletâneas de contos Nove, novena: variações (São Paulo, Olho d’Água, 2016), que reúne narrativas inspiradas na obra de Osman Lins, e Feliz aniversário, Clarice: contos inspirados em Laços de família (Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2020), obra da romancista e contista Clarice Lispector (1920-1977), que foi incluída no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), do Ministério da Cultura, de 2021, para o ensino médio. Profissionalmente, sempre trabalhou como jornalista, com longa carreira na redação do jornal O Estado de S. Paulo. Mantém o site https://hugoalmeidaescritor.com.br. Adelto Gonçalves – Brasil

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Mil corações solitários, de Hugo Almeida. São Paulo: Editora Sinete, 4ª edição, 228 páginas, R$ 65,00, 2025. Site: www.editorasinete.com.br E-mail: editorasinete@gmail.com

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e Estados Unidos.  E-mail: marilizadelto@uol.com.br


quarta-feira, 27 de agosto de 2025

A Solidão Compartilhada

Ou as almas solitárias de Mil Corações Solitários, de Hugo Almeida

           

Em 1988, fui convidado pela então Fundação Nestlé de Cultura a participar como jurado do Prêmio Nestlé de Literatura, na época, uma prestigiosa premiação que, ao longo dos anos, veio revelando grandes autores da poesia e da prosa brasileiras.

Quando recebi em casa mais ou menos 150 originais datilografados (à época, os escritores ainda usavam máquina de escrever), que enchiam parte da minúscula sala de meu apartamento de então, fui tomado pelo desânimo. Tinha que partilhar meu escasso e precioso tempo de professor e escritor com a que me pareceu penosa tarefa de escolher entre tantas histórias aquelas que mereceriam os prêmios de primeiro, segundo e terceiro lugares do concurso. Assentado em almofadas, lápis a mão, comecei a trabalhar, lendo com rigor os originais e fazendo anotações críticas à margem dos textos, para que pudesse me orientar ao fim do processo de análise. Não demorou para eu perceber que a maioria dos livros era ruim, não só pela escrita tatibitate, sem obedecer às regras elementares da gramática, mas também pelo conteúdo do que se pretendia narrar.

Já ao ler as primeiras linhas de alguns deles, veio-me à cabeça a famosa e irônica frase de Paul Valéry sobre o incipit dos maus romances, que costumavam se iniciar com “A marquesa saiu às cinco horas”, determinando assim o que se esperar do resto, enquanto promessa de má e superada literatura. De fato, aqueles romances que devia ler, para poder escolher os três melhores, primavam, na maioria dos casos, pela ruindade: eram histórias de redenção pelo amor, como as que se estampavam nas páginas da revista Sabrina, uma publicação que se vendia em bancas de jornal, de amor erótico, primando pelos palavrões a dar ênfase ao sexo pelo sexo, como nos piores filmes da série Emanuelle, eram narrativas regionalistas, com fundo social, emulando, por baixo, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz. E todos demonstrando a falta de cuidado com a linguagem – o sujeito no plural e o verbo do predicado no singular, frases nominais irrompendo do nada nas narrativas, a presença obsedante da primeira pessoa, em confissões de estados de espírito particulares.

Em sendo assim, foi fácil me livrar de um autêntico lixo, bastando pôr os olhos na primeira frase “Era um dia ensolarado...”, “Jennifer sentia-se muito só naquele entardecer...”, “O caboclo cavoucou com o enxó o solo árido da catinga...”. E a pilha dos descartáveis ia aumentando num canto da saleta, enquanto, sobre a mesa, em destaque, alguns poucos descansavam. Mas nada que entusiasmasse, até que...

...até que fui premiado com a leitura de um romance com o original título Mil Corações Solitários e o pseudônimo Nathanael e cujo início indiciava, ao mesmo tempo, uma síntese e uma busca:

 

Teia

 

Níobe olha a mão, Ana esquece o filho, René ergue a xícara, Gamaliel dorme. Zero grau.

 

Uma receita

 

Primeira frase a mais custosa. (Pudesse manejar bico de pássaro, graveto por graveto.) Talvez seja esta a palavra: the key. É como se, vítima à frente, se ofertasse boa semente de uma conversa comprida, sem adeus. Desta forma, o sopro de um texto, duma história. Um tigre comparou o título a uma piscada ao leitor. Perfeito. Só que, após a imagem, vem o verbo. Sedução concluída? Falta pouco. Título e primeira frase: ou se mergulha naquilo ou larga de vez. (Mil Corações Solitários. 4ª ed., São Paulo: Sinete, 2025, p. 15)


Mas o que me deixou bastante impressionado também foi o fato de o primeiro capítulo ser intitulado com a expressão “É o fim”, apontando para uma aparente idiossincrasia em que, temporalmente, no início da história, já se prenunciava o seu término. Ainda: como sempre foi de praxe em meu hábito de leitura, movido pela curiosidade, procurei folhear o romance, ao acaso, e notei que este era feito de módulos narrativos numerados, alguns curtíssimos, formados de uma só frase, outros mais longos, fragmentos de diálogos soltos, missivas em itálico, talvez para acentuar seu caráter bem pessoal. Mais adiante, com a leitura rigorosa do livro, na ordem em que se me oferecia, percebi que a coisa era mais complexa, ou seja, a narrativa era costurada, obedecendo ao princípio de uma narração “sem fio”, como nos melhores e mais inspiradores experimentos surrealistas.

Mesmo assim, logo me inteirei do chamado plot, do enredo propriamente dito, que tem sua abertura concentrada numa família, formada pela inocente, e por causa disso mesmo, ignorante Níobe, casada por imposição do pai com Gamaliel Carvalho, um homem taciturno, seco, fechado em seus hábitos. Desse conluio sem amor, nascem os filhos Ana e René, que contracenam com outros personagens que terão sua importância à medida que a história se desenvolve. Habitando um país desumano e sem identidade, andam por cidades, onde os viadutos foram construídos apenas para que os carros passem embaixo, num flagrante desvio de função, em que o humano sempre fica em secundaríssimo plano. “Divorciados da realidade, da vida nacional e do mundo, da questão política. Nada entendem, nada conhecem.” O que os leva a serem apenas sobreviventes, viajantes solitários e sem rumo.

Mas o curioso é que a trama não flui placidamente como as águas correntes de um rio. Pelo contrário, o que o leitor tem diante de si é uma sequência de peças de um jogo, em que os espaços em branco, junto com os espaços manchados da escrita, exigem ser preenchidos não só pelo autor da obra (afinal quem é o autor da obra?), mas pelo(s) leitor(es) que, para aplacar a solidão oferta pelo ato da leitura: – eu – livro – outros eus – deseja(m) comungar com sujeitos diferentes de sua(s) própria(s) pessoa(s), para ter uma compreensão mais abrangente – e, portanto, mais significativa – do mundo. Tais sujeitos seriam os responsáveis por revelar e sobrevalorizar a transcendência das narrativas, que existem apenas para dar sentido ao caos da realidade, do mundo. E esse caos é representado, entre outras coisas, pelo background do romance, o pano de fundo, no caso, os idos do Golpe de 64, entrevisto, em meio a fragmentos, mas mostrando sua importância, ao interferir de maneira oblíqua e dissimulada nas vidas desencontradas dos personagens.

É bem verdade que este sempre foi o pressuposto das narrativas de todos os tempos, somente que, na tradição literária convencional, esta tentativa de dar sentido ao sem-sentido, à desordem, implicou criar um constructo de tal maneira organizado que entre a realidade e sua representação cavou-se um abismo, pois, nelas, domesticava-se a vida, a tal ponto que se reduziam ou se aprisionavam as pulsões fundamentais para a compreensão do humano. Vem daí que, na modernidade, o que se procurou fazer foi pôr de lado a narração psicológica ou realista, para dar força, volume a essas pulsões. Um autor como Édouard Dujardin, em 1888, em seu romance Les lauriers sont coupés (Os loureiros estão cortados), que teve grande influência sobre Joyce, foi quem primeiro utilizou do fluxo de consciência, para representar o que se passaria no complexo mundo da consciência dos seres. Daí as frases aparentemente soltas, em longos solilóquios, procurando expressar o caos da interioridade. Mais adiante, Proust, com sua busca do tempo perdido, Joyce, com sua labiríntica reconstrução da cidade mítica de Dublin, Virgínia Woolf, com o ensimesmamento da sua Miss Dalloway, buscando aprisionar os momentos iluminados da existência, levarão bem adiante esses experimentos, influenciando uma vasta gama de escritores da Europa e das Américas.

Nessa superação do tradicional/convencional, acontece uma extraordinária revolução, pois os autores agora não visam a encarcerar o fluxo vital para mostrá-lo como uma borboleta presa a um alfinete, mas, sim, aproximar o leitor o máximo dele, como se o contemplasse no momento mesmo de sua eclosão. É o que se nota de modo exemplar no monólogo de Molly Bloom, de Ulisses, em que a figura feminina, num longo fluxo, tenta libertar a sua voz da prisão do narrador em terceira pessoa, fazendo com que o leitor a ouça ao vivo, no momento em que a parte consciente da mulher cede espaço para a manifestação de seus desejos secretos e volições. Dá-se desse modo a recuperação de instantes mágicos, autênticas epifanias, que revelam o que há de mais essencial numa existência, que o peso material da existência, somando-se à tirania da consciência, da razão, sufocou ou tentou sufocar. É o que acontece com o jovem de Em Busca do Tempo Perdido, que tenta recuperar um tempo mágico, imemorial, não pelo esforço da memória voluntária, mas da involuntária que traz à tona da vida puras sensações – visuais, olfativas, táteis – que o ajudam a reerguer o iluminado palácio das recordações. E o elemento deflagrador disso tudo é uma prosaica madeleine mergulhada numa xícara de chá, cujo gosto, ligado ao olfato, faz que o diáfano passado se imponha vivamente ao personagem ancorado num presente anódino.

Inúmeras são as técnicas romanescas utilizadas na modernidade para representar essas tendências, a mais conhecida de todas, como vimos, o stream of counsciosness. Mas podemos pensar também na questão da polifonia, vozes que, substituindo o narrador princeps, propõem-se a expor diferentes pontos de vistas, conflitantes ou não, dos acontecimentos e também diferentes linguagens, desde o discurso elevado até o popular e o chulo e, sobretudo, o diálogo entre diversos autores, com a apropriação “indébita” de discursos, como acontece no chamado dialogismo. Nesse último recurso, percebe-se que os autores não se fecham mais em ilhas, pois, por vezes, procuram estabelecer frutíferos diálogos entre autores da tradição clássica e moderna, por meio de empréstimos de estilemas e mesmo de temas. É o caso, entre muitos outros, do escritor português Almeida Faria que, exemplarmente, incorpora em seu discurso narrativo versos ou reflexões de Camões, Bocage, Drummond e Guimarães Rosa, na composição da sua Tetralogia Lusitana.

O romancista e contista Hugo Almeida talvez seja o escritor brasileiro que manifesta em sua obra estes sinais mais visíveis da ruptura do convencional na prosa, de certa forma, dando continuidade aos experimentos geniais de Osman Lins, em Nove, Novena e Avalovara. Com este romance inovador, Mil Corações Solitários, ao emular com ironia a escrita sentimental dos folhetins, irrompeu no panorama da literatura brasileira moderna com audácia e coragem, dando assim um vigor novo à nossa ficção. Seu romance, como também em Vale das Ameixas (Sinete, 2024), ao pôr de lado os traços mais confortáveis da tradição – o enredo linear, a exploração do tempo cronológico, a descrição estática dos personagens, a recuperação, por meio de flash-backs, de instantes do passado que tentam explicar o presente – é composto de uma variada gama de materiais: esboços de narrativas, diálogos soltos, correio amoroso, cartas, anúncios, notícias de jornal, descrições cartográficas, questões sobre a Física, e, por isso mesmo, mais desorienta do que oferece um sentido, na medida em que busca representar em seu aparente caos o caótico que impera no real.

O título hiperbólico serve para acentuar, enfatizar um sentimento fundamental do ser humano, qual seja, aquele que entra em contradição com a essência do homem, no caso, a solidão. O romance de Hugo trata dela, como se fosse uma entidade ou uma divindade, ao condensar, em vidas exemplares, o esfacelamento das relações de afetos e, sobremaneira, de amor, pois, embora seus personagens vivam juntos – em círculos familiares e de amizade, em organizações de trabalho –, experimentam o ato de ficar a sós em mais alto grau. Desse modo, a estrutura do romance, em vez de apresentar uma linha contínua narrativa, apenas registra pequenos quadros, enumerações de nomes e coisas díspares, descrições cartográficas, que servem para mimetizar esta separação entre as pessoas. Ao cabo, elas se procuram, sem saber que, ao fim de seu périplo existencial, terminam por se ausentar de si mesmas, encerradas nesta Geena, para que foram condenadas ao nascer. Essa falta de comunicação entre os seres ou a comunicação que se dá com a interferência do ruído, tem sua manifestação mais elevada nas cartas que Níobe envia a mãe, mesmo depois do que esta morre. Como não há diálogo possível com o frio e distante marido que lhe foi imposto e que, inclusive, a submete aos suplícios dos estupros cotidianos, encontra na mãe morta um eco para sua própria voz que se alteia, para tentar entender e dar um mínimo significado para uma existência pobre da perspectiva espiritual e sem a presença gratificante e amorosa do Outro. Nesse desamparo de Níobe, verifica-se que certas regras da vivência humana acabam sendo subvertidas, pois, enquanto “a vida é a angústia, o desconhecido. A morte, o alívio, a revelação”. Daí o fato de ela ter que se corresponder com uma morta, seu espelho em negro, sua semelhante, sua irmã.

Mas é preciso levar em consideração que não só os personagens é que experimentam navegar num mar de escolhos, que dificultam o encontro de um porto, pois também os destinatários do romance enfrentam o mesmo problema. Movendo-se entre fragmentos, bombardeados por vozes que se sucedem, se alternam de página para página, deslocam-se os leitores, sem jamais ter o aporte de uma voz onipresente e onisciente que os oriente, pois ele é coagido a participar da construção do romance, a preencher os “brancos” entre as manchas negras, de modo que o equilíbrio da composição se ofereça por meio de sua imaginação também criadora. E, como se poderá observar, eles terão que pôr de lado o conforto de ter um guia, uma espécie de Beatriz, para entrar nesse labirinto de significados, sem a esperança, porém, de chegar ao Paraíso. Puras sensações, por vezes, é que servem de fio-condutor na narrativa, como no exemplo da imagem recuperada da avenida Brasil “ – mau cheiro, barulho e calor – trouxe o deputado à terra”, enquanto, por sua vez, Ana bebe solitária a paisagem. Aliás, esse adjetivo – “solitária” – se oferece várias vezes ao longo do romance, como a especificar o que determina o quid do ser humano – não as experiências iluminadoras e significativas do amor, mas as da solidão plena, fria, em que diferentes sujeitos procuram o Outro, não para experimentar sentimentos comuns, mas apenas para negá-lo. E aqui se entende, portanto, a hipérbole do título em toda sua dimensão: os seres afogam-se na solidão, pois vivem a vida, sem estímulos ou motivos significativos, o que faz que passem a ver a existência como fragmentos desassociados ou como um chão composto por fragmentos de ladrilho, sem unidade e sem o mínimo de transcendência. Álvaro Gomes - Brasil

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Mil Corações Solitários, de Hugo Almeida. 4ª edição. São Paulo: Editora Sinete, 228 páginas, R$ 65,00, 2025.

Site: https://www.editorasinete.com.br

E-mail: editorasinete@gmail.com

Site do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br

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Álvaro Cardoso Gomes é Professor Titular da Universidade de São Paulo (USP), romancista e crítico literário. Autor dos romances Os rios inumeráveis (1997), Concerto Amazônico (2008), Panarquia (2021) e O evangelho segundo Satã, a sair em breve pela Editora Contra o Vento, do Grupo Alta Books. Publicou os ensaios A Poesia como Pintura (2015), O Simbolismo: uma revolução poética (2016) e dezenas de outros livros.