Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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domingo, 29 de março de 2026

Lágrimas










Lágrimas

 

Na taberna: por entre o murmurinho

Das cantigas, dos berros, das risadas,

Dois homens – almas cheias de facadas,

Falam das privações do lar mesquinho,

 

E relembrando as mágoas já passadas,

Narram da vida a aspereza do caminho

E contam as suas lágrimas choradas,

Na estreiteza que dá a dor e o vinho!

 

Um diz: Sou pobre! mas oh! dor! oh! espanto!

Eu inda tenho filhos! no entretanto

Não sei quem foi meu pai… talvez ninguém…

 

Torna o outro: compreendo a dor infinda

Mas há dor mais cruel do que essa ainda:

Eu tive pai, mas nunca tive mãe!

 

Barros de Seixas – Portugal

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José Miguel Barros de Seixas nasceu em Lisboa a 15 de Outubro de 1853, na rua de São Bernardo nº 26, poeta, comerciante, defensor dos ideais republicanos, publicou o livro de poesia Cantos Modernos em 1879 onde dedica vários poemas a colegas escritores portugueses, entre eles o amigo e vizinho Cesário Verde. O livro foi editado pela Livraria Cruz & Cª, rua Augusta, Lisboa. Era sobrinho pelo lado materno do maestro, compositor, professor, músico, Joaquim Thomaz Del Negro.

Faleceu jovem, com 28 anos, vítima de doença, tuberculose, a 28 de Dezembro de 1881, em Santo Antão do Tojal, na altura concelho de Olivais, deixando um descendente, Rafael Rocha Barros de Seixas com apenas 8 meses.

Posteriormente à sua morte foi editado por Arnaldo Bordalo em 1897 o monólogo A Orphã, um poema recitado pelo actor Augusto de Mello nos principais teatros de Lisboa e Porto. Baía da Lusofonia

A Portugal – Poema de Barros de Seixas publicado no Brasil, nas comemorações do tricentenário de Luís Vaz de Camões pelo Retiro Litterario Portuguez no Rio de Janeiro.

Os cães

 

domingo, 10 de agosto de 2025

Os cães


 








Os cães

 

Noite velha. Nos quartos majestosos

Dos soberbos palácios, docemente,

Sobre um leito suavíssimo, atraente,

Na indolência fantástica dos gozos,

 

Descansa a virtuosa, a boa gente,

Sonhando uns belos casos misteriosos,

-- No ardor dos pensamentos caprichosos!

-- Na placidez d’um sono sorridente!

 

Dormem talvez os últimos convivas

Das saturnais devassas e lascivas,

Nas contorções dos vícios execráveis!...

 

E sem ter pão, famintos, macilentos,

Expostos ao rigor dos quatro ventos

Dormem na rua os cães: -- os miseráveis!

 

Barros de Seixas – Portugal

José Miguel Barros de Seixas nasceu em Lisboa a 15 de Outubro de 1853, na rua de São Bernardo nº 26, poeta, comerciante, defensor dos ideais republicanos, publicou o livro de poesia Cantos Modernos em 1879 onde dedica vários poemas a colegas escritores portugueses, entre eles o amigo e vizinho Cesário Verde. O livro foi editado pela Livraria Cruz & Cª, rua Augusta, Lisboa. Era sobrinho pelo lado materno do maestro, compositor, professor, músico, Joaquim Thomaz Del Negro.

Faleceu jovem, com 28 anos, vítima de doença, tuberculose, a 28 de Dezembro de 1881, em Santo Antão do Tojal, na altura concelho de Olivais, deixando um descendente, Rafael Rocha Barros de Seixas com apenas 8 meses.

Posteriormente à sua morte foi editado por Arnaldo Bordalo em 1897 o monólogo A Orphã, um poema recitado pelo actor Augusto de Mello nos principais teatros de Lisboa e Porto. Baía da Lusofonia

A PortugalPoema de Barros de Seixas publicado no Brasil, nas comemorações do tricentenário de Luís Vaz de Camões pelo Retiro Litterario Portuguez no Rio de Janeiro.


sábado, 20 de julho de 2013

A Portugal

 
“Esta é a ditosa pátria minha amada”
Camões – Lusíadas
 
Destaca-se o passado. A nossa história
Tem páginas de luz: os vastos mares;
Tem nas lutas ingentes a victória
Nos combates estranhos, não vulgares;
Tem, sobretudo, a não mentida glória
Dos glandílocos factos seculares,
Abrindo ao mundo os largos mundos novos
Ligando as terras e estreitando os povos.
 
Sucedem-se os heróis no tempo antigo;
Ergue-se a pátria á voz d’altivos feitos;
Enquanto as armas batem o inimigo
E pulsão corações de satisfeitos;
No silêncio da noite, sem abrigo,
Caminha a grande tribo dos eleitos,
Não como aves que emigram. Como heróis
Buscando a luz de novos arrebóis.
 
Porque assim como se erguem os condores
A’ mor altura e a águia corta o espaço,
Assim também nós outros, vencedores
A quem nunca afrouxou o hercúleo braço,
Não como a abelha voa d'entre as flores
Porém a baila entre armaduras d'aço,
O mundo percorremos, como e quando
Fortes fomos a pátria celebrando.
 
Abriu-se á nossa frota o mar distante
E também as paragens gloriosas
D'outros povos que vimos no levante
Após o mar, em ondas procelosas!
Quando o mundo assombrado e suplicante
Viu aos céus levantando as mãos piedosas
Medirem-se em combates e em reveses
Dois gigantes: o mar e os portugueses!
 
Hoje, porém, ó doce pátria amada,
Vais no ocaso da vida, que declina,
Como um doente, olhando a madrugada
Sem ver a luz formosa e matutina!
Que te resta d'outrora? A sombra, o nada,
D'uma glória, que foi. Quase divina;
Que outro sangue te corre e que outra vida;
Que vencedora foste e vais vencida?
 
Pátria! Pátria! Relembra a tua história
E ergue-te á luz dos novos ideais!
Não te faltam exemplos, nem memória
De heróis num povo, que inda vale os mais;
Se é que há em nós a sede dessa glória,
Que estas praias banhou, ocidentais,
E que hoje se traduz num feito novo:
A liberdade alevantando o povo.
 
Se é já próximo o dia e jaz latente
O novo renascer na estreita liga
Da justiça, como árvore virente
A cuja sombra o forte só se abriga,
E da moderna ciência a cuja frente
Vai a ideia espalhando a luz amiga,
Té que fecunde a nossa árida praia
E o grito — Enfim — das consciências saia!
 
E então, ergue-te ó pátria! Atenta o norte
Da nova senda alegre e redentora!
Ergue-te á vida e não receie a morte
Quem grande, e livre e forte, em tempos fora;
Quem foi guia e fanal! E desta sorte,
Que outros digam. Mercê consoladora:
— Avé povo de heróis! — E nós — Nações,
Esta é a pátria que cantou Camões!
 
Barros de Seixas – Portugal in “Descripção
da Festa Commemorativa do Tricentenário de Camões
Celebrada no dia 11 de Junho de 1880 pelo Retiro Litterario
Portuguez no Rio de Janeiro" – Brasil
 
Se pretender aceder a esta publicação pode consultar aqui