Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 28 de março de 2024

Eduardo Fontes: poesia em tempos de covid-19

Poeta, que sobreviveu a muito custo à pandemia, arranca versos da tragédia e mostra que é possível fazer poesia mesmo em situações de desafio

                                                                                         

                                                          I

Autor de vastíssima obra, que inclui 24 obras publicadas e mais três por publicar, Eduardo Fontes (1947), poeta cearense bastante conhecido no Nordeste, talvez porque em seus versos nada herméticos e extremamente líricos sempre se mostrou muito preocupado em exaltar suas origens, está de novo no mercado com um livro de poemas, escrito entre os anos de 2020 e 2022, como resultado da reclusão forçada pela incidência da pandemia de coronavírus (covid-19), que também o atingiu, mas da qual a muito custo escapou. Por isso, dedica a obra às vítimas da pandemia, “sobreviventes da hecatombe, tratada como mimimi”, mas que matou mais de 700 mil pessoas no Brasil.

O título, A poesia nos tempos da Covid (Fortaleza, RDE Editora, 2024), faz lembrar e constitui uma homenagem a O amor nos tempos de cólera (1985), do colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), como reconhece o próprio autor. Como seria previsível, a simplicidade que faz evocar os menestréis nordestinos está mais uma vez presente nesta obra, mas, como assinalou o poeta Anderson Braga Horta, ao analisar seu livro anterior, Poemas de amor e êxtase (2022), a composição de seus versos tornou-se “mais direta, precisa, enxuta”. É o que se pode constatar neste excerto do poema “Variações sobre o amor” em que diz:

(...) Amor dos poetas e ascetas / Que cantam nos seus versos, / Aquele desejo de estar perto / De suas musas esbeltas... / E nos tempos da cruel Covid / Quantos perderam / O amor de suas vidas, / O amor-companheiro, / O amor-entrega, / O amor-desejo, / O amor-certeza, / O amor-amante, / O amor-irmão, / O amor-papai, / O amor-mamãe, / O amor da vovó, / O amor do vovô, / O amor-órfão / À procura de quem lhe dê a mão... / O amor dos noivos / Que se queriam em comunhão / E que foram levados num batel / E viraram estrelas  no céu!...”

 

                                                         II

No texto de apresentação que escreveu para a sua própria obra, Fontes diz que esteve entre as primeiras vítimas do mortal vírus e que chegou a um ponto em que os médicos só lhe davam dez por cento de vida. Mas, felizmente, sobreviveu para atuar, através da poesia, como testemunha de um tempo em que a imprevidência, a falta de vacinas e o deboche oficial estiveram presentes nos lares e em todos os quadrantes do País. E ele mesmo se questiona: como enxergar poesia em tais condições? E responde: “Sim, é possível, pois, em todas as situações de desafio e de sofrimento pelas quais passam as pessoas, existe sempre no fim do túnel a luz da Esperança, e mesmo contida é possível conciliar amor e dor, alegria e tristeza, solidão e comunhão, saudade e presença”.

Se poesia é emoção e pensamento, o poeta não deixa de olhar o futuro e clamar aos que o leem que esqueçam aqueles que só contribuíram, com seu negativismo, para que o mal crescesse por todo o País. É o que se sente no poema “O Sol volta a brilhar”:

“(,,.) Vamos sepultar / Os arautos da morte / E da maldade, / Os que não sabem chorar / Nem se indignar dos próprios atos!... / Vamos esquecer / Os salvadores da Pátria / Que nada salvam, / Além dos próprios bolsos!... /Vamos lavá-los nas águas / do Rio do Esquecimento / Para que Creonte os leve / Para o Nada na sua barca!...” 

Por isso, sem abandonar o lirismo telúrico que se tornou também marca tanto de seus breves como de seus mais extensos poemas, Fontes trata de extrair da vida poesia, fundindo o pictórico e o sonoro, mesmo que o mundo lhe seja adverso. Poeta da emoção, procura pensar por imagens, como se vê no poema “A Poesia”:

(...) A Poesia não morre, / Mesmo na morte, / Pois a Poesia é alma, / É perfume suave, / Brisa que perpassa / Pela manhã e à tarde!... / É estrela solitária / Que se mostra no céu, / Lembrando a pessoa amada!... / É o cantar dos pássaros, / O farfalhar do vento / Nas árvores, / É a Lua no céu / A pratear a mata! / É o mar / A se espreguiçar na areia / Da praia, / É a flor a se entreabrir / Por mãos invisíveis!... / É toda a beleza / Que existe / No ar, no mar, no espaço, / De graça, / Sem cobrar taxa!...”

 

                                                         III

Nascido em Fortaleza, filho e netos de poetas, Eduardo Fontes, bacharel em Direito e em Administração, trabalhou como analista de controle externo do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e administrador no Tribunal de Contas dos Municípios, no Ceará. Conciliando com as atividades de servidor público, atuou anos a fio em órgãos de imprensa do Ceará como redator e repórter, tendo acumulado vários prêmios. Como membro da Associação Cearense de Imprensa (ACI), recebeu, em sessão solene, medalha alusiva aos 50 anos de sócio efetivo da entidade.

É autor de Exaltação à vida (poesia, 1967), livro de estreia; O alpinista (poesia, 1970); O Lagamar que eu conheci (ensaio, 1974); Vitrais (poesia, 1979); O teatro de Carlos Câmara (1982); As pouco lembradas igrejas de Fortaleza (história, Prêmio João Brígido, 1983); Pequena história do Tribunal de Contas do Ceará, em parceria com Antônio de Pádua Saraiva Câmara (1985); Cantos do outono (poesia, 1995); Rua da Saudade (poesia, 1998); Pelas mãos da poesia (2000); Na esquina da vida (crônicas, 2007); Cancioneiro de mim (poesia, 2012)|; Último trem para Pasárgada (poesia, 2013); Relicário da saudade (poesia, 2014); O baile das palavras (poesia, 2015); Ciranda poética (2018); Devaneios (poesia, 2017); Jesus, Senhor da Vida e Rei do Universo (poesia, 2017); Poemas das bodas de ouro matrimoniais (2019); O teatro da vida (contos, 2021); Poemas de amor e êxtase (2022); e Contos fantásticos e outros contos (2023), entre outros.

Membro fundador da Academia Fortalezense de Letras, participou do grupo Sin de Literatura que, na década de 1960, sacudiu o movimento artístico-cultural de Fortaleza. É cronista do Diário do Nordeste, de Fortaleza. Adelto Gonçalves – Brasil

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A poesia nos tempos da Covid, de Eduardo Fontes. Fortaleza: RDE Editora, 108 páginas, 2024. E-mail da editora: rds1048@gmail.com E-mail do autor: eduardohumbertofontes@gmail.com

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Adelto Gonçalves é mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo-Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br




segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Eduardo Fontes: a poesia como evocação da infância

Poeta faz com versos nada herméticos uma viagem ao tempo da inocência

                                                                                                    

                                                                       I

Para comemorar o centenário de seus pais, os poetas Humberto Pinheiro Fontes e Maria do Carmo Alencar Oliveira Fontes, ambos nascidos em 1917, o poeta cearense Eduardo Fontes lançou Devaneios (Fortaleza, Editora Expressão Gráfica, 2017), seu 17º livro, que traz prefácio de Anderson Braga Horta, da Associação Nacional de Escritores (ANE), de Brasília, e ilustrações do artista plástico Descartes Gadelha. Poeta bastante conhecido no Nordeste, talvez porque em seus versos nada herméticos e extremamente líricos sempre se mostrou muito preocupado em exaltar suas origens, Fontes, mais uma vez, confirma sua opção por uma simplicidade que faz evocar nos leitores os anônimos menestréis de tempos mais amenos.

Como observa Braga Horta no prefácio, todas as qualidades de seus livros anteriores estão presentes nesta obra, especialmente a simplicidade, como o poeta cearense Francisco Carvalho (1927-2013) já havia ressaltado ao comentar Rua da Saudade (1998), destacando que Fontes “adota uma carpintaria extremamente simples na construção do vigamento de seus poemas, de tal forma que eles se nos apresentam com excepcional lucidez e transparência”. Um exemplo do que disseram estes poetas é o poema “Vozes celestiais”, que consta deste livro:

“Ouvi vozes celestiais / vindas do espaço: / – Delete a mágoa, / a desesperança, / a amargura! / Tudo o que nos desconjura! / Delete o coração duro, de pedra, / e abrace a ternura! / Delete o ódio, a vingança, / o ressentimento, / e crie uma página / no facebook da alma / para as virtudes do perdão / e da magnanimidade! / Jogue para a lixeira / todas as ofensas recebidas, / e olhe para o Alto / onde brilham os astros!...”

 

                                                                  II

Devaneios é também uma espécie de resposta do poeta à idade que avança sobre todos nós, ou seja, o lamento de um tempo perdido que ele deixou de aproveitar por comedimento ou por excessiva obediência aos pais e aos avós, que também foram poetas. Por isso, não fica a dourar a vida vivida, antes prefere se deixar ferrar pelo cravo da nostalgia, como se pode constatar no poema “Mocidade” em que diz:

“Se moço fora / quantos erros teria evitado! / Quantos erros teria cometido! Quantas infrações, quantos pecados, / quantos mais, quantos mais! / Quanto mais teria enxovalhado / os fiscais da vida, / as comadres e seus compadrios! / Quanto mais teria protestado... / Uma parte de mim se foi / por medo do padre da freguesia, / do vizinho e do confrade... / E por isso metade de mim / deixei pelo caminho... / Podia ter aprontado mais, / bebido mais, / namorado mais, / e não ser o homem contido / em suas potencialidades! / Podia ter sido mais, / muito mais!”   

A infância é mesmo tema recorrente na obra de Eduardo Fontes, pois, afinal, é do silêncio de uma época que a poesia se alimenta, como observou o grande crítico e ensaísta português Eduardo Lourenço (1923-2020) em suas Obras Completas. Tempo e Poesia, vol. III (Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2016, pág. 687), lembrando que “só a poesia revela aquilo mesmo que a própria ficção é obrigada a silenciar para existir”. Leia-se o poema “Crianças”:

“Amo as crianças / e sempre as amarei, / e me vejo nelas / em alguns instantes!... / Nos seus olhos, / na sua inocência, / na sua pureza! / Deus, quando nasceu, / se fez criança! / E não existe poeta / sem uma criança / escondida no seu eu!...”

A evocação da infância e, por conseguinte, da casa dos pais chega a ser mesmo uma marca especial na poesia de Fontes, como se comprova no poema “Devanear”, do qual saiu o próprio título da obra. Não constitui uma simples visão romântica, mas a representação de um sonho que parece persegui-lo e faz questão de lhe devolver ao tempo da inocência, como se pode ver no poema abaixo:

        “Devanear é sentir / o enlevo das coisas, / sem buscar os porquês... / E deixa a alma livre, plainar, / como pássaro, no espaço! / Sentir o vento / a bater nas faces, / e a reger a orquestra / farfalhante das árvores! / Devanear / é trazer da casa paterna / a algaravia dos sons / que o tempo não sepultou!...


                                                                  III

Bacharel em Direito e em Administração, Eduardo Fontes (1947) é autor de uma vintena de livros, entre os quais se destacam: Exaltação à vida (poesia, 1967); O alpinista (poesia, 1970); O Lagamar que eu conheci (ensaio, 1974); Vitrais (poesia, 1979); O teatro de Carlos Câmara (1982); As pouco lembradas igrejas de Fortaleza (história, Prêmio João Brígido, 1983); Pequena história do Tribunal de Contas do Ceará, em parceria com Antônio de Pádua Saraiva Câmara (1985); Cantos do outono (poesia, 1995); Rua da Saudade (poesia, 1998); Pelas mãos da poesia (2000); Na esquina da vida (crônicas, 2007); Cancioneiro de mim (poesia, 2012)|; Último trem para Pasárgada (poesia, 2013); Relicário da saudade (poesia, 2014); O baile da palavras (poesia, 2015); e Ciranda poética (2018).

Membro fundador da Academia Fortalezense de Letras, participou do grupo Sin de Literatura que, na década de 1960, mexeu com o movimento artístico-cultural de Fortaleza. É cronista do Diário do Nordeste, de Fortaleza. Adelto Gonçalves - Brasil

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Devaneios, de Eduardo Fontes, com prefácio de Anderson Braga Horta e capa e ilustrações de Descartes Gadelha. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 150 páginas, 2017. E-mail da editora: arte@expressaografica.com.br E-mail do autor: eduardohumbertofontes@gmail.com

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Adelto Gonçalves é mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo-Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br