Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Afogamento infantil: é possível evitar

Obra do pai de uma vítima fatal ajuda a prevenir acidentes com crianças em piscinas

 

                                                                                I

Se o afogamento infantil fosse apontado como a causa da morte de milhares de crianças em todo o mundo, os números de óbitos seriam alarmantes e medidas de emergência mais severas já teriam sido adotadas na área de saúde pública. O problema é que, muitas vezes, a criança sobrevive alguns dias e a causa mortis apontada acaba sendo outra. Por isso, os números do afogamento infantil ficam reduzidos.

É o que aponta o agente de viagens Alex Ferrarini Delgado, 51 anos, na obra Afogamento infantil: você pode evitar!, e-book que escreveu depois que perdeu sua filha Susan, em 2017, vítima de afogamento, e decidiu transformar sua dor em luta. Fundador do projeto Susan Forever, desde então, ele vem fazendo palestras e concedendo entrevistas a veículos de comunicação, não somente em todo o Brasil, mas também em países como Portugal, Israel e Estados Unidos.

“Meu objetivo é disseminar o conhecimento a respeito da prevenção ao afogamento infantil, atingindo o maior número possível de pessoas em todo o mundo, rompendo qualquer barreira física, política ou linguística, em prol da preservação da vida”, diz, lembrando que, depois de muita luta e articulação no Congresso Nacional, foi promulgada a lei nº 14.936, de 26 de julho de 2024, que instituiu o Dia 14 de Abril como o Dia Nacional de Prevenção ao Afogamento Infantil – Lei Susan Delgado em homenagem a sua filha.

Alex, que tinha residência fixa na cidade de Orlando, na Flórida, estado norte-americano com maior índice de afogamentos infantis, conta, em seu livro, que, naquele dia fatídico, mesmo com todos os cuidados, Susan, de apenas dois anos, afogou-se na piscina de sua casa. “A piscina era cercada, mas em fração de segundos, a tragédia aconteceu, depois que uma de duas amigas de minha mulher que estavam em visita a minha casa, sem perceber, deixou aberto um pequeno portão de acesso à piscina”, rememora. 

 

                                                                    II

Naquele dia, a mãe chegou a procurar Susan dentro de casa, em lugares onde ela costumava se esconder, mas, infelizmente, encontrou-a já a debater-se dentro da piscina. Alex não estava em casa no momento e quando chegou viu bombeiros à beira da piscina tentando reanimar sua filha. Foram mais de 14 horas de sofrimento no hospital até ela vir a falecer. A vida dele, então, mudou radicalmente. E, não suportando a dor, a família mudou-se para a Inglaterra.

Antes disso, porém, o pai teve de enfrentar muitos dias de tribulação porque a mãe da criança queria sepultá-la em Goiânia, sua cidade natal. Segundo ele, foram 43 dias lutando com as autoridades norte-americanas para liberar o corpo. Até que o corpo pôde ser encaminhado ao Brasil. Houve, então, outro drama a ser enfrentado porque a polícia federal brasileira não queria deixar o corpo entrar no País, já que a criança não dispunha de passaporte.

Foi mais de um mês de tribulação, enquanto o corpo permanecia numa câmara frigorífica. Quando, por fim, foi liberado, os pais ainda tiveram de enfrentar outros problemas: perderam o voo para Goiânia e o corpo da criança teve de ser transportado de carro numa viagem de mais de mil quilômetros.

Depois de tanto sofrimento, Alex, ao compartilhar o sofrimento com outras famílias também vítimas de tragédia semelhante, decidiu, em 2019, criar o projeto Susan Forever, por meio do qual começou a difundir informações sobre afogamento infantil e a orientar as famílias sobre os meios de se evitar “esses episódios que mudam a vida de todos em segundos”.

Na obra, Alex lembra que a Organização das Nações Unidas (ONU) proclamou, em 2021, o dia 25 de julho como o Dia Mundial da Prevenção do Afogamento. “Essa iniciativa procura despertar a necessidade de se introduzir medidas que previnam este tipo de acidente, mas, infelizmente, não vemos repercussão desse dia, que nem é destacado pela mídia”, lamenta.

Por insistência de Alex junto a congressistas em Brasília, em 2022, foi feito o projeto de lei nº 1944, ainda em tramitação, que estabelece ações incisivas e proativas voltadas para prevenir o afogamento infantil. E, em 2024, foi sancionada a lei nº 14.936, que estabelece o Dia 14 de Abril como o Dia Nacional de Prevenção ao Afogamento Infantil, em homenagem à sua filha Susan Delgado.

Na obra, Alex reproduz dados do Boletim Epidemiológico de Afogamentos no Brasil, de 2020, que mostram que afogamento é a primeira causa de óbito de crianças com idades entre 1 e 4 anos e a segunda causa de óbito entre crianças de 5 a 9 anos. Segundo o levantamento, a cada três dias uma criança morre afogada no País.  Ainda de acordo com a Agência Brasil, são registradas, em média, três mortes de crianças e adolescentes por afogamento por dia, de acordo com dados da Sociedade Brasileira de Pediatria, que analisou os registros de óbitos entre os anos de 2021 e 2022.



                                                    III

Diante desse quadro trágico, o autor observa que, embora existam mecanismos que auxiliam a manter a criança em segurança, nada substitui o olhar atento do adulto responsável. Como é sempre possível uma distração com tarefas domésticas, o autor enumera vários mecanismos que auxiliam na prevenção de afogamento infantil, como a instalação de cerca em torno da piscina, portão automático que dificulta a entrada de uma criança, alarme com sensores, ralos anti-sucção que evitam que cabelos fiquem presos no equipamento, piso antiderrapante na borda da piscina e evitar o uso de boias, entre outros.

“É importante também levar a criança a aulas de natação”, ressalta o autor, sem deixar de fazer uma advertência: “Mesmo com a criança tendo aulas de natação, não podemos desviar o olhar, pois tudo acontece muito rápido, em frações de segundos. E se a criança não estiver próxima à borda ou se demorar a reagir, pode ser tarde demais”, diz, lembrando que “uma criança pequena leva menos de dez segundos para ter o seu pulmão cheio de água”.

Como se vê, trata-se de uma obra extremamente importante que deve ser lida especialmente por pais e mães que têm filhos pequenos e que deveria ser discutida e analisada no âmbito universitário em faculdades de medicina e outros cursos ligados à saúde pública. Adelto Gonçalves - Brasil 

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Afogamento infantil: você pode evitar!, de Alex Ferrarini Delgado (e-book em português).  Orlando, Flórida, Estados Unidos, 55 páginas, R$ 4,99 (Amazon),  2025 (Susan, Susan, do Papai https://a.co/d/0fgUaIgr)

E-mail: alex@revival-tours.com

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Ac5demia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br