Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Macau - 12.º Festival Literário

Vem aí o 12.º Festival Literário de Macau: entre os dias 6 e 15 de Outubro, Macau vai acolher os autores Francisco José Viegas, Valério Romão e Yara Monteiro, depois de três anos sem um programa internacional. No dia 14 de Outubro, a ópera samba “Samba de Guerrilha”, de Luca Argel, vai ser apresentada no Teatro Broadway, e o festival contará ainda com as habituais apresentações de livros de autores locais, exposições, projecções de filmes, e ainda com homenagens póstumas a Luís de Camões, Henrique de Senna Fernandes, Pablo Neruda, W’H Auden e J.R.R. Tolkien


Entre os dias 6 e 15 de Outubro, a cidade volta a abraçar a literatura lusófona e não só, com mais um Festival Literário de Macau. Na sua 12ª edição, há três anos que o Rota das Letras não acolhia artistas internacionais. A ópera samba do brasileiro Luca Argel é o espectáculo de destaque: “Samba de Guerrilha – História do Brasil em três actos” subirá ao palco do Teatro Broadway a 14 de Outubro, com legendas em chinês e inglês. Os bilhetes já se encontram à venda.

A organização do festival revelou os primeiros nomes de escritores lusófonos que vêm a Macau:  Francisco José Viegas, Valério Romão e Yara Monteiro. Estes e outros escritores vão participar em diversas palestras que este ano irão decorrer maioritariamente na Casa Garden e na Livraria Portuguesa. A programação do Festival Literário incluirá ainda diversos eventos de lançamento de livros de autores locais, projecções de filmes, e exposições, num programa que será divulgado nos próximos meses, indicou a organização.

Como habitualmente, o festival também vai celebrar escritores conceituados do passado:  Luís de Camões, Henrique de Senna Fernandes, Pablo Neruda, W’H Auden e J.R.R. Tolkien são os autores de relevo na edição deste ano. O festival vai celebrar o 500.º aniversário do nascimento do maior poeta português, Luís de Camões, o autor da obra épica ‘Os Lusíadas’, que foi parcialmente escrita em Macau. Henrique de Senna Fernandes, respeitado escritor macaense e contador de histórias do Macau antigo, como na célebre obra “A Trança Feiticeira”, completaria 100 anos de idade no dia 15 de Outubro, data em que o festival também encerra. O legado de Pablo Neruda, W’H Auden e J.R.R. Tolkien, três escritores e poetas que coincidentemente faleceram há 50 anos, também será assinalado no Rota das Letras.

Ópera samba

Música, história e imagem irão conjugar-se em cena para contar a História do Brasil, e a luta das populações negras e periféricas em busca de reconhecimento, direitos e dignidade. O espectáculo conta com a narração de Nádia Yracema, cenografia multimédia desenhada em tempo real por António Jorge Gonçalves, e música a cargo de Luca Argel e a sua banda, que estarão no palco do Teatro Broadway no próximo dia 14 de Outubro. Com bilhetes já à venda, e com descontos “early-bird”, “Samba de Guerrilha – História do Brasil em três actos”, de Luca Argel, funde música e literatura.

O espectáculo criado pelo artista carioca radicado no Porto,  é “uma ópera-samba” dividida em três actos: composto por versões de clássicos do samba, que se revelam um “interessante instrumento de pesquisa histórica”, “Samba de Guerrilha” parte da premissa de demonstrar como “as velhas questões dos tempos coloniais e dos primeiros anos do Brasil enquanto nação, em especial a escravatura, continuam, ainda hoje, a condicionar a vida de milhões de pessoas, sob a forma de racismo, pobreza e todo o tipo de discriminação social”, indicou a organização em nota.

O primeiro acto começa com o “Samba do Operário, tema escrito pelo mítico Cartola em parceria com um português de Alfama, chamado Alfredo, que se estabeleceu no morro da Mangueira em fuga à ditadura de Salazar”.  Cada canção é antecedida por uma narração que faz a contextualização histórica e social de cada momento. “O contraste entre a voz que canta, de um homem branco e brasileiro, e a que conta, de uma mulher negra e africana, é bastante simbólico”, destacou a organização. O segundo acto recorda a abolição da escravatura, mas os dois “jongos” (estilo musical anterior ao samba) que se seguem demonstram “como tudo ficou quase igual, ou pior, levando ao êxodo para as grandes cidades, onde a marginalização continuou, como se percebe ao ouvir ‘Direito de Sambar’ ou ‘Agoniza mas Não Morre’”. No terceiro acto, os espectadores são introduzidos a João Cândido, marinheiro negro que, em 1910, liderou a Revolta da Chibata contra os castigos físicos ainda em vigência na armada. O “almirante negro” ficaria imortalizado no samba com o mesmo nome, samba proibido na altura pela censura, por a patente de almirante não poder ser associada à palavra negro.

Luca Argel nasceu em 1988 no Rio de Janeiro, Brasil, e é licenciado em música pela UNIRIO e mestre em Literatura pela Universidade do Porto. Tem livros de poesia publicados no Brasil, Espanha e Portugal, um dos quais foi semi-finalista do Prémio Oceanos 2017. Entre o trabalho como vocalista e compositor, seja em projectos colectivos ou bandas sonoras para cinema e dança, e a assinatura de programas de rádio dedicados à música brasileira, tem vindo a desenvolver a sua carreira a solo a um ritmo consistente e crescente, com êxitos como “Samba de Guerrilha” e “Anos Doze”.

António Jorge Gonçalves é um autor português de banda desenhada, cartoonista, performer visual, ilustrador, cenógrafo e professor. É autor de várias obras de desenho gráfico, e tem colaborado com vários escritores como Rui Zink, Ondjaki ou Mário de Carvalho na criação de livros onde texto e imagem se relacionam de forma exploratória. Recebeu em 2013 o Prémio Nacional de Ilustração em Portugal pelo livro “Uma escuridão bonita”, com Ondjaki. Fez cenografia e figurinos para várias peças de teatro. Através do método de Desenho Digital em Tempo Real e da manipulação de objectos em Transparency Overhead Projetor, tem criado espectáculos com músicos, actores e bailarinos. Recentemente, escreveu e realizou o filme/espectáculo “Lisboa quem és tu?” para ser projectado nas paredes do Castelo de São Jorge em Lisboa.

Nádia Yracema nasceu em Luanda, Angola. Começou a aprender e a representar com o Teatro Universitário de Coimbra, concluindo a sua formação no ano lectivo de 2007/2008, enquanto frequentava a licenciatura em Direito na Universidade de Coimbra. Ingressou no curso de representação da Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa em 2012. Rita Gonçalves – Macau in “Ponto Final”




quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Macau – Valério Romão vai fazer uma residência literária durante o mês de Novembro

O escritor português vai fazer uma residência literária em Macau, durante todo o mês de Novembro, co-organizada pela agência Capítulo Oriental e a Casa de Portugal, com o apoio da Fundação Oriente. Depois de uma breve passagem pelo território em 2017, no âmbito das celebrações dos 150 anos de Camilo Pessanha, Valério Romão prepara-se agora para explorar, sozinho, uma cidade “extremamente interessante do ponto de vista literário”



“Eu gostava muito de escrever qualquer coisa que tivesse a ver com Macau, não sei em que âmbito, não sei com que extensão, mas gostava de digerir essa experiência e transformá-la em qualquer coisa de literário. Ainda não sei bem, mas provavelmente proporcionar-se-á graças às experiências que terei aí”, começou por dizer Valério Romão ao Ponto Final. O escritor regressa a Macau no próximo mês com a expectativa de explorar um território “extremamente interessante do ponto de vista literário”. E é neste ambiente ‘suis generis’ que Romão espera recolher experiências para depois as transformar em matéria literária.

“Não sei exactamente o que vou encontrar, mas estou curioso para descobrir. A coisa do desterrado também é um bocado o sentimento clássico das pessoas que estão em Macau, porque às vezes vão para ficar uma semana e acabam por ficar dez anos, ou mais, sendo que Macau acaba por ser um enclave privilegiado onde as pessoas estão, e não estão. E em todos esses sentidos, eu acho que isso é extremamente interessante do ponto de vista literário, os pontos de passagem”, disse o escritor ao Ponto Final.

Para além da residência literária, Valério Romão irá participar numa série eventos ao longo do próximo mês, nomeadamente uma sessão pública no auditório do Consulado de Portugal, para falar da sua trilogia denominada, pelo próprio, de “paternidades falhadas”. O autor fará também uma visita à Escola Portuguesa, ao Instituto Politécnico de Macau e ao Departamento de Português da Universidade de Macau, para um encontro com alunos portugueses e estudantes da língua portuguesa.

“A minha expectativa agora, para além das coisas que vou fazer no âmbito da conferência de escritores e tradutores da Ásia-Pacífico, e das apresentações e conversas na Escola Portuguesa e na Faculdade, é estar mais em contacto e de forma mais próxima com a cultura chinesa e tentar imergir um pouco mais nesse mundo”, frisou Valério Romão.

“Vou tentar alargar o património de experiências, acho eu, e ser mais arrojado. Descobrir mais, estar mais sozinho. Eu quando fui aí [em 2017] fiquei uns dez dias, mas estava no âmbito das comemorações dos 150 anos de Camilo Pessanha, e de facto estava muito acompanhado. Estava sempre em grupo. Agora, sozinho, vou tentar estar mais exposto ao que está à minha volta”, acrescentou o escritor português ao Ponto Final.

Sobre o processo criativo, Valério Romão assume que tem dois momentos e que só depois de passar por uma fase embrionária, e de se lançar ao mundo, é que arranca para a recolha e materialização das experiências. “Tenho dois momentos. Há um momento em que eu não estou no processo criativo, ou estou mas embrionariamente, e estou lançado às coisas e ao mundo e aos outros. E depois o momento da recolha em que faço essa digestão, digamos”, assinalou.

Questionado sobre se pode acontecer em Macau uma súbita vontade de dar início ao processo criativo, o autor assume: “Pode e podemos chamar-lhe uma emergência criativa”. In “Ponto Final” – Macau

pontofinalmacau@gmail.com