Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Brasil - Marçal: as redes sociais têm um limite

Talvez em nenhum outro lugar as redes sociais tenham sido utilizadas de uma maneira tão intensa e com resultados tão evidentes como na campanha eleitoral para a eleição do prefeito de São Paulo. Porém, ao mesmo tempo, ficou evidente que, apesar dos resultados surpreendentes, o controle da maioria do fluxo de redes sociais não é garantia de se impor o produto, no caso, o candidato.

Isso tem um significado bastante positivo em termos de não existir ainda uma maneira de se propor para impor à maioria da população um produto ou um tipo de comportamento voluntário tendo como base apenas um certo tipo de indução. Ou seja, o pesadelo de um mundo unificado, tipo 1984, sem o emprego paralelo da persuasão coercitiva e da punição ainda não é um risco fatal e definitivo. O teste a seguir será o do emprego da inteligência artificial, mas isso ainda vai levar algum tempo.

A campanha eleitoral paulistana online, nas redes sociais, nos canais youtube acabou se transformando num grande teste real ou ao vivo, em termos de sociologia, comportamento humano, controle coletivo, testes de indução, do qual vão também se beneficiar as empresas de publicidade nas campanhas de lançamento de novos produtos. Campanhas de produtos com condições de aplicar milhões na invasão das redes sociais com os chamados cortes, que podem ser frases, ilustrações, fotos, vídeos ou filmes.

Países com vocações ditatoriais também poderão se inspirar dos resultados obtidos por Pablo Marçal com suas redes sociais, sabendo que poderão conquistar o apoio do equivalente a um terço de uma população. É claro, as redes sociais são importantes mas não passam de um meio de utilização fácil para atingir milhões de pessoas. Elas só funcionam para quem tiver a mensagem, no caso a mensagem populista conservadora, inspiradora de segurança.

Mas só isso não basta é preciso o carisma, a sedução, o magnetismo, o fascínio possuído por certos líderes políticos ou religiosos, que atraem seguidores. foi o caso de Hitler, que arrastou os alemães para a guerra; do lider islâmico Khomeini, que derrubou o Xá Reza Pahlevi; do fenômeno social também surgido em São Paulo, Jânio Quadros, todos eles sem contarem com redes sociais.

E chegamos, então, ao novo líder surgido em São Paulo, Pablo Marçal, eliminado das eleições para prefeito, mas que se declara pronto para se lançar candidato à presidência ou à sucessão de Tarcísio de Freitas no governo de São Paulo.

A CNN convidou um especialista, Renato Dolci, especialista em ciência de dados e transformação digital para explicar o método aplicado por Marçal nas redes sociais, considerado como algo de novo. Esse método fez com que Marçal tivesse 600 milhões de visualizações, enquanto todos seus concorrentes juntos não passavam de 80 milhões.

O método inovador permitiu também a Marçal testar discursos para saber qual o formato a ser utilizado diante do público. Foi assim que percebeu serem seus discursos agressivos bem recebidos pelo eleitorado mais idoso e seus discursos centrados na prosperidade serem melhor recebidos pelos mais jovens, principalmente na periferia.

Mas nem tudo foi um sucesso nesse formato criado por Marçal na propaganda digital porque o sentimento negativo com relação ao candidato era maior que o positivo. Restou também a impressão de que a novidade Pablo Marçal surgida do nada, de repente, no começo da campanha, entrou numa fase de desgaste no decorrer da campanha. Assim, alçado à primeira posição nas primeiras prévias, dando mesmo a impressão de se eleger no primeiro turno, foi perdendo força até cair para o terceiro lugar nas votações e ser eliminado.

Mas sua derrota, que recolocou a campanha eleitoral entre Boulos e Nunes nos moldes tradicionais, não significa seu desaparecimento. Mais inteligente, mais preparado e mais ágil de linguagem que Bolsonaro, Marçal quebrou o monolitismo da extrema-direita e também limitou a presença evangélica nos seus discursos, provocando a ira do líder pastor Silas Malafaia. Se Marçal se mantiver e crescer como líder desse setor da direita e extrema-direita, isso irá se repercutir numa perda da presença e influência política dos pastores evangélicos. O populismo evangélico bolsonarista, que dominou as redes sociais durante anos, não tem a mesma velocidade digital do populismo de Marçal. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Brasil - Pablo Marçal não é o primeiro a atrair os paulistanos

A rápida ascensão política de Pablo Marçal na campanha eleitoral para a prefeitura de São Paulo não é novidade. Ainda sem as facilidades criadas pelas redes sociais digitais, houve um clima parecido de sensação eleitoral, em 1953, quando um deputado estadual, ex-vereador, decidiu enfrentar as forças políticas da época com uma campanha populista, na qual o símbolo era uma vassoura, para varrer a corrupção.

Outra coincidência, Jânio Quadros, o fenômeno eleitoral eleito prefeito com o voto dos bairros populares, não era paulistano mas matogrossense, quase da mesma região de Pablo Marçal, que é goiano.

Agora uma diferença, Jânio tinha sido vereador trabalhador e um tanto minucioso; como deputado combatia a corrupção e fazia a fiscalização dos gastos públicos. Em síntese, um populista de direita, com discurso conservador, preocupado com a pauta de costumes: era contra os jogos de azar, contra a prostituição e chegou a proibir o uso do biquini.

Apesar de Jânio ter frustrado seus seguidores com sua renúncia e de ser considerado um dos principais responsáveis pela instabilidade política brasileira que levou ao Golpe militar, Jânio manteve o rigor na defesa dos bens públicos e no combate à corrupção.

O retorno do populismo ao poder depois dos governos petistas de Lula e Dilma, foi com outra roupa, sem as caspas de Jânio, e o combate às corrupção ficou só nas palavras. Deixou de ser populismo de direita para se afirmar como populismo de extrema-direita, sem independência internacional, atrelado aos EUA e à política trumpista republicana, visando o desmantelamento do Estado e o enfraquecimento das regras republicanas, tudo consubstanciado na figura do ex-presidente Jair Bolsonaro. 

Esse novo populismo mais extremo veio acompanhado de um novo elemento também importado dos EUA, destinado a assegurar mais coesão e fidelidade entre os seguidores pertencentes às camadas mais pobres e menos instruídas: a presença religiosa invisível mas penetrante do evangelismo e suas variantes neopentecostais, capazes de obter contrôle e submissão sem um aparelho repressor visível.

É nesse quadro que surge Pablo Marçal, justamente quando havia a impressão ou esperança da sociedade civil estar se desembaraçando do populismo bolsonarista. Bolsonaro parece agora como um aprendiz de feiticeiro diante do esperto Marçal, conhecedor do funcionamento das redes sociais, capaz de se transformar em algumas semanas num dos prováveis eleitos para a prefeitura de São Paulo.

Ao mesmo tempo, o surgimento das redes sociais criou uma nova maneira de se fazer política com o investimento dos candidatos e dos partidos na publicidade digital. A intensa publicidade de Pablo nas redes levou-o à imprensa escrita e televisão, onde o candidato ganhou terreno e em pouco tempo, com promessas mirabolantes mas difíceis de realizar, alcançou os primeiros colocados Boulos e Nunes à Prefeitura de São Paulo. A vitória de um dos três primeiro-colocados dependerá, no segundo turno, da transferência de votos dos candidatos derrotados.

Até que ponto a Justiça Eleitoral pode intervir impedindo, até novembro, a participação de Pablo nas eleições municipais da maior cidade brasileira? Nos EUA, sem justiça eleitoral, o candidato Donald Trump prossegue candidato apesar de ser alvo de diversos processos. Terão algum resultado as acusações claras e precisas da candidata Tábata Amaral?

Provavelmente não. Em todo o caso, Pablo não cumpriu os 4 anos e cinco meses de prisão por furto qualificado, porque a Justiça Federal reconheceu já ter prescrito o crime. Isso lembra Paulo Roberto de Andrade, que deu o golpe do Boi Gordo, enganou mais de 30 mil investidores, mas saiu livre dos processos por prescrição do crime. Ou seja, a prescrição acaba valendo como declaração de não culpabilidade.

Se tiver assegurada sua impunidade, a presença de Pablo Marçal na campanha para a Prefeitura de São Paulo muda o quadro político por enfraquecer a imagem do governador paulista Tarcísio de Freitas e esvaziar a candidatura de Ricardo Nunes. Na hipótese de Pablo ir para o segundo turno com Boulos, é quase certo ter o voto dos bolsonaristas e ser eleito.

Se isso ocorrer, a vitória de Pablo poderá significar o fim definitivo para Bolsonaro e família, pois ficará difícil continuar a receber a totalidade dos votos dos evangélicos. Diante disso, Pablo já começa a negociar a possibilidade de receber um apoio do clã Bolsonaro, ofendendo e rejeitando o apoio de Joyce Hasselmann, chamando-a de traíra ou traiçoeira, enquanto acena aos evangélicos, declarando seu apoio à pauta de costumes por eles defendida. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.