Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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domingo, 12 de julho de 2020

No balanço dos três anos da elevação de Mbanza Kongo a património mundial da UNESCO, «chovem» críticas ao alegado fraco aproveitamento do potencial turístico da região. Responsável local minimiza estas análises e assegura que já se "notam, sim, algumas mudanças"



Na última quarta-feira, 8, assinalaram-se os três anos da elevação do Centro Histórico de Mbanza Kongo à categoria de património mundial da humanidade pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). No país, apesar dos «apertos» decorrentes da Covid-19, a efeméride não passou despercebida, resultando em debates em que predominam críticas ao alegado "mau aproveitamento" do potencial turístico daquele património por parte do Estado e do empresariado nacional.

Por exemplo, na noite de terça-feira, 7, a TV Zimbo organizou um debate em que alguns dos intervenientes teceram duras críticas ao Estado angolano, ironizando o facto de Angola estar a preparar a candidatura de Cuíto Cuanavale a património mundial da humanidade, quando o país "tem dificuldades de gerir" um património classificado há três anos.

Mas as críticas não se ficam pelos «ecrãs». Mwana Afrika, angolana destacada pela produção de conteúdos culturais, divulgou, num sítio com o seu próprio nome, um texto em que alerta para a "profunda" necessidade de o Estado angolano mostrar preocupação com "a verdadeira identidade".

Recordando que "são milhares de anos de história e acontecimentos", Mwana Afrika revelou a "preocupante" impressão com que ficou ao visitar o Centro Histórico de Mbanza Kongo, no ano passado, situação que a levou a deixar algumas sugestões com vista à valorização e preservação da "verdadeira identidade do Kongo".

Na lista de «dicas» e conselhos, Mwana Afrika destacou a necessidade de se respeitar a "autenticidade" dos monumentos por altura da reabilitação, a importância de se evitar o «aportuguesamento» de nomes originários do Kikongo, assim como a necessidade de se contar a história pré-colonial de Mbanza Kongo e a urgência em se prestar homenagem a figuras daquilo a que chamou de "resistência Kongo», como, por exemplo, Kimpa Vita.
"É necessário pegar nas histórias, mitos e lendas desta região e transformá-las em atracções turísticas, envolvendo a comunidade toda", concluiu Mwana Afrika. In “Novo Jornal” - Angola

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Angola – Mbanza Kongo recebe título de Património Mundial da UNESCO

Capital política e espiritual do antigo Reino do Kongo – região onde hoje estão localizados Gabão, República do Congo, Angola e República Democrática do Congo –, Mbanza Kongo representa a importância da tradição kongo e seus conflitos com a chegada dos portugueses e da religião católica na África Central, no final do século XV


No último sábado (8), o centro histórico de Mbanza Kongo, no norte de Angola, foi inscrito pela UNESCO na lista de Património Mundial.

Capital política e espiritual do antigo Reino do Kongo – região onde hoje estão localizados Gabão, República do Congo, Angola e República Democrática do Congo –, Mbanza Kongorepresenta a importância da tradição kongo e seus conflitos com a chegada dos portugueses e da religião católica na África Central, ao final do século XV.

Um reino que crescia e influenciava parte da África, no século XIII, representa uma civilização de riqueza cultural inestimável. Formado inicialmente por 144 tribos, esse Império construiu a história e cultura de países como Angola, Congo, República Democrática do Congo e Gabão e de seus descendentes em todo o mundo.

Com o compromisso de pesquisar e compartilhar a história e os símbolos da cidade, o arqueólogo Bruno Pastre Máximo lançou um sítio baseado com uma vasta pesquisa de campo, onde ele ressalta aspectos religiosos e culturais da região.

“Na cidade, existem 3 ‘lugares-chave’: Kulumbimbi, Yala-Nkuwu e Ntotila. O kulumbimbi é descrita pelas autoridades científicas angolanas como o vestígio material da primeira catedral construída na África Subsaariana pelos portugueses”, disse Bruno.

“Para diversos grupos locais, no entanto, a ruína não é visto como de origem portuguesa, sendo um legado pré-colonial; ela é um símbolo do passado ancestral e um legado dos ancestrais. A árvore Yala-Nkuwu é uma ligação com a ancestralidade mediada pela lei e ordem. Diante dela, foram feitos muitos julgamentos. O Ntotila é o ‘monarca’ que governa o Reino do Kongo. Somente o Ntotila, aquele que governa desde Mbanza-Kôngo, pode ter este título”, acrescentou o pesquisador.

O reconhecimento do Mbanza-Kongo é positivo para o mundo porque estimula a pesquisa e reflexão sobre a história – comum a africanos, portugueses e brasileiros.

Foi do Reino do Kongo de onde partiu a maioria dos africanos escravizados desembarcados nas Américas, foi de lá que saiu o primeiro embaixador africano enterrado no Vaticano, e também foi lá onde a primeira igreja católica (Kulumbimbi) da África Subsaariana foi erguida. Nações Unidas

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Angola – Mbanza Congo candidata a património mundial da humanidade

Mbanza Congo- Três anos depois do início do processo de escavações arqueológicas para a descoberta de vestígios históricos e culturais destinados a sustentar o dossier de candidatura a património mundial da humanidade, o projecto "Mbanza Congo: cidade a desenterrar para preservar" entrou em velocidade cruzeiro e com indicadores positivos para a sua concretização junto do Organismo das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

Escavações arqueológicas de Mbanza Congo Foto: Alberto Julião


Fruto do trabalho de 11 arqueólogos angolanos e estrangeiros, liderados pela angolana Sónia Domingos, quadro do Instituto Nacional do Património Cultural, instituição afecta ao Ministério da Cultura, o processo culmina, muito em breve, na inscrição da histórica e antiga capital do Reino do Congo na lista de bens sob a protecção da UNESCO, dotando, desta forma, Angola de um bem cultural com valor imensurável.

Numa corrida contra o tempo para cumprir os timings estabelecidos, a equipa aportou, na terceira fase do trabalho de escavações arqueológicas, na “velha” cidade de Mbanza Congo, onde, durante três meses (Abril, Maio e Junho) arregaçou as mangas e empenhou-se fundo nas escavações para encontrar vestígios enterrados há séculos.

Apostados em mostrar que o objetivo supremo "inscrição de Mbanza Congo" na lista do património mundial é alcançável, os especialistas "vasculharam" todos os cantos da cidade em busca de vestígios do passado que possam contribuir na conquista de vontades dentro das estruturas da UNESCO.

Sem olhar a meios e mesmo debaixo de um calor intenso, os especialistas não descuraram nenhuma hipótese encontrada no terreno das escavações, fazendo com que cada uma das peças (artefactos, ossadas humanas e outros utensílios) que apresentem vestígios de um passado longínquo mas histórico entre no baú das avaliações e catalogação para posterior análise em laboratórios norte-americanos, a fim de se comprovar o seu valor histórico cultural.

Surpreendidos em plena jornada laboral, depois de uma visita, 24 horas antes, da ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, por uma equipa de jornalistas provenientes de Luanda, os membros da equipa, que na véspera tinham ganho mais três reforços, nomeadamente a dupla de antropólogos John e Linda Trontom e da directora do Instituto Nacional do Patrimonio Cultural, Maria da Piedade, procuraram satisfazer a curiosidade dos profissionais de comunicação social ávidos por mais detalhes sobre o assunto.

Sempre disponível e com um sorriso nos lábios, a coordenadora do projecto, a arqueóloga angolana Sónia Domingos, recorreu ao seu manancial de informações para "matar" a curiosidade dos escribas angolanos, dando, ao pormenor, todos os detalhes sobre as três fases já executadas e a seguinte, que vai culminar com um atelier de fundamentação (última etapa de concepção do relatório, verificação das provas) que serão enviadas, numa primeira versão, em Setembro deste ano, à UNESCO, dando mostras do trabalho realizado até ao momento.

Esta etapa, segundo a ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, servirá de ensaio geral para o trabalho final, pois, a partir da resposta a ser dada pela UNESCO,  com indicações sobre as correcções a serem feitas, os técnicos vão então concentrar-se na versão final do texto de fundamentação para que, em Janeiro de 2015, seja enviada a versão definitiva, para se ficar  à espera dos resultados finais sobre a inclusão ou não de Mbanza Congo na lista de património mundial.

Etapas do projecto

O projecto para a inscrição de Mbanza Congo na lista do património mundial reserva, entre outras, a componente científica para a descoberta dos elementos materiais e imateriais que deverão fundamentar o valor excepcional e universal desta capital do antigo Reino do Congo.

A coordenadora do projecto, a arqueóloga angolana Sónia Domingos, enumerou as acções de pesquisa sobre o património imaterial, o levantamento arquitectónico dos edifícios mais emblemáticos e históricos da cidade, seu estudo e inventariação para posterior classificação.

As escavações arqueológicas em curso e já na sua terceira fase foram destacadas pela responsável, assim como o estudo documental que foi feito em vários países, como França, Bélgica, Alemanha, Portugal e no estado do Vaticano, que detêm vários documentos inéditos sobre o reino do Congo.

De acordo com a arqueóloga, os arquivos documentários são de grande valor porque servirão também de argumentação do dossier de candidatura a ser apresentado a UNESCO, que confirmará o valor extraordinário de Mbanza Congo.

Sónia Domingos realçou ainda as pesquisas sobre a tradição oral local que permitiram a delimitação do centro histórico de Mbanza Congo, através das conhecidas 12 fontes de água que circundam esta localidade e que estão ligadas ao momento da fundação do Reino do Congo.

“Todos os elementos que serviram para a fundação do Reino do Congo, que inclui a localização estratégica de Mbanza  Congo, os cursos de água, entre outros, servirão também para a elaboração da declaração a ser entregue à UNESCO“, frisou.

Fundamentou que, ao fazer a declaração do valor excepcional e universal de Mbanza Congo, a equipa científica pretende provar que todos os elementos que estiveram na base da fundação do Reino do Congo ainda estão patentes e bem visíveis nesta localidade.

As próximas etapas

Concluído a terceira fase dos trabalhos de escavações arqueológicas, os especialistas, a que se vão juntar em Agosto um antropólogo físico, estarão virados para mais duas etapas: fotografia aérea (retratos de vários ângulos da cidade de Mbanza Congo e das áreas de escavações) e o plano de gestão (tratamento do texto de fundamentação, inventariação e catalogação final das praças recolhidas e a serem enviadas para laboratórios internacionais ais para a sua comprovação científica).

Os planos da ministra da Cultura

Em função dos resultados alcançados com o processo de escavação arqueológica, a ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, manifestou a ambição da criação de uma escola de arqueologia e de um museu do Zaire. A escola, de acordo com a governante, terá como missão formar técnicos para esta área do saber que vão reforçar os quadros dos museus de Arqueologia de Benguela e do Zaire e surge na sequência dos resultados alcançados com a acção dos especialistas angolanos e estrangeiros que trabalham para a inscrição da cidade de Mbanza Congo como Património Mundial da Humanidade da UNESCO.

"Vamos, em colaboração com o Governo do Zaire, elaborar um plano para que, no âmbito do programa do Executivo, para o ano 2015, possa ser incluída verba para a edificação da escola e do museu, como forma de garantimos a formação de mais especialistas, bem como para acolher as peças recolhidas no processo de escavação arqueológica do dossier Mbanza Congo", disse a ministra.

Os resultados dos arqueólogos no terreno

Satisfeita com os resultados alcançados até ao momento pela equipa de arqueólogos no terreno, a ministra diz ser um trabalho de reconhecido valor, tendo em conta o alcance dos mesmos no trabalho final que se pretende enviar à UNESCO. "É um trabalho que começou em 2011 e até ao momento é bastante satisfatório, pois permitiu a recolha e descoberta de vários artefactos e locais de interesse histórico cultural, que reforçam a nossa convicção de que estamos no bom caminho", apontou a governante.

Nas escavações, estão envolvidos especialistas do Museu de Arqueologia, da Comissão Científica do Ministério da Cultura e das Universidades de Coimbra (Portugal) e Yaoundé (Camarões). Fruto das várias fases desenvolvidas, a equipa conseguiu reunir quatro mil peças resultantes das escavações efectuadas, que deverão se inventariadas, catalogadas e classificadas.

Entrega do dossier à UNESCO

O dossier relativo a candidatura da cidade de Mbanza Congo a património mundial da humanidade será entregue à UNESCO em Janeiro de 2015, após a conclusão das várias fases desenvolvidas pelo Governo angolano, através do Departamento Ministerial da Cultura.

No entanto, antes de Janeiro de 2015, o Governo fará chegar, em Setembro deste ano, o pré-dossier para que os peritos da UNESCO possam fazer uma avaliação e pronunciar-se sobre as correcções e alterações que serão feitas a fim de se melhorar o texto final.

O projecto de inscrição da cidade de Mbanza Congo na lista do Património Mundial da Humanidade da UNESCO foi lançado em 2007, com a realização de uma Mesa Redonda Internacional, denominada “Mbanza Congo, cidade a desenterrar para preservar”.

História da cidade de Mbanza Congo

M'Banza Congo é uma cidade e município da província do Zaire, e tem cerca de 68 mil habitantes. Foi a capital do antigo reino do Kongo e designou-se São Salvador do Congo até 1975. A cidade foi fundada antes da chegada dos portugueses e era a capital de uma dinastia que governava desde 1483. O local foi abandonado durante guerras civis que eclodiram no século XVII.

M'Banza Congo foi o lar dos Menekongo, monarcas que governavam o Reino do Congo. No ano de 1549, por influência dos missionários portugueses, foi construída a Sé Catedral de São Salvador do Congo, a mais antiga da África Sub-Sahariana, o nome da igreja no local é Nkulumbimbi. Foi elevada ao estatuto de catedral em 1596.

O papa João Paulo II visitou a catedral em 1992.

O nome São Salvador do Congo apareceu pela primeira vez em cartas enviadas por Álvaro I do Congo ou Álvaro II do Congo, entre os anos de 1568 e 1587. A cidade voltaria a chamar-se M'Banza Congo, após a Independência de Angola em 1975.

Quando os portugueses aí chegaram, ela já era uma grande cidade, a maior da África sub-equatorial. Durante o reinado de Afonso I, edificações de pedra foram criadas, incluindo o palácio e muitas igrejas.

Em 1630, foram relatados cerca de 4000 a 5000 baptismos na cidade com uma população de 100.000 pessoas. A cidade foi saqueada várias vezes durante as guerras civis do século XVII, principalmente na batalha de Mbwila e foi abandonada no ano de 1678, sendo reocupada em 1705 por seguidores de Dona Beatriz Kimpa Vita, a partir desta época a cidade não foi mais abandonada. Venceslau Mateus – Angola in “ANGOP”