À 17.ª epidemia de Ébola
registada desde 1976 as populações da República Democrática do Congo (RDC)
começam a perceber as melhores estratégias para combater a dispersão do vírus,
mas ainda falta muito caminho para aprender a combater a estigmatização social
daqueles que adoeceram e conseguiram recuperar da mais severa febre hemorrágica
que se conhece
Com
mais de 10.500
casos registados e cerca de 5400 mortos, num mapa de contágios que, desde 15 de
Maio, data oficial da detecção dos primeiros casos, embora se suspeite que já
em Fevereiro estavam a adoecer pessoas no leste congolês, chegou ao Quénia,
Uganda e Nigéria, esta epidemia pode estar a revelar-se diferente das outras.
Não
apenas porque a estirpe do vírus, a Bundibugyo, não tem nem vacina nem
tratamento conhecidos, ou porque está a preocupar as organizações
internacionais de uma forma só comparável com a epidemia de 2013-2015 na África
Ocidental, mas porque é aquela onde as questões de aceitação social dos doentes
recuperados mais se estão a colocar.
Mesmo
depois do sofrimento que a doença provoca em quem é contagiado, como veio agora
denunciar a ONG Médicos Sem Fronteiras (OMS), e consegue recuperar, depara-se
no regresso à "vida" com a resistência e estigmatização das suas
comunidades de origem, com múltiplos casos de exclusão social graves.
Os MSF
sugerem numa declaração pública que estão a verificar inúmeros casos de
rejeição social nos doentes que acompanham em processos de ressocialização e
acompanhamento psicológico, o que retarda muito o regresso à vida normal de
muitos destes doentes totalmente curados.
Para
ultrapassar este problema, os especialistas aconselham campanhas de
sensibilização de forma a deixar claro que se trata de pessoas normais sem
quaisquer sintomas da doença ou possibilidades de reinfecção além das que se
apresentam a quem nunca tenha contraído a infecção.
Além
desta barreira a ultrapassar após a cura são as sequelas emocionais que os
especialistas apontam como sendo agora mais evidentes que nas epidemias
anteriores porque as pessoas que passaram pelo problema falam agora mais dele,
especialmente pelo crescendo de uso das redes sociais, por exemplo.
E com
isso foi sendo claro que também neste campo é urgente investir em mecanismos de
resposta porque há casos graves de depressão que sem acompanhamento
especializado podem evoluir para situações mais complexas e até perigosas.
Isto
num contexto social de uma doença que já se apresenta com graves problemas
relacionados com a procura de soluções alternativas às unidades de saúde
oficiais que vão deste os curandeiros ao isolamento em pequenas comunidades de
origem onde o vírus continua a espalhar-se tendo como motorização a ignorância
e o crendismo ancestral. In “Novo Jornal” - Angola

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