Novas descobertas arqueológicas, no Vale do Côa, revelaram provas que podem mudar a narrativa sobre o relacionamento das populações do Paleolítico Superior com a arte rupestre e confirmam a presença humana na região além dos 27 mil anos, segundo o coordenador científico.
As
novas descobertas de materiais de pigmentação, em centenas de fragmentos, foram
efectuadas por arqueólogos da Fundação Côa Parque (FC-P), no decurso da
sondagem na Rocha 3 do sítio da Penascosa, que apontam para uma datação mais
antiga do que a conhecida até agora no Parque Arqueológico do Vale do Côa, o
maior santuário mundial da arte do Paleolítico, classificado como património
mundial da humanidade.
Em
declarações à agência Lusa, o coordenador científico da FC-P, Thierry Aubry,
disse que as escavações mais recentes no sítio da Penascosa demonstram que os
vestígios de presença humana no local podem ir além dos 27 mil anos,
ultrapassando a datação admitida até agora de 26 mil, e comprovam o uso de
pigmentos em actividades diárias.
“Pensamos
que estas descobertas são do fim do ‘gravetense’ [Paleolítico Superior] com
aparecimento da pedra lascada. Há indícios de que estes ocupantes curtiram
peles, fizeram armas para caça e fogueiras. Há elementos que encontramos na
camada mais antiga com mais de 27 mil anos. Temos pigmentos minerais como o
óxido de ferro [ocre], e cores naturais, como amarelo, vermelho, preto e
castanho, o que quer dizer que estes materiais podem ter sido utilizados” para
diversos fins, inclusive “para pintar as rochas”, explicou o também arqueólogo.
A
investigação exigiu vários meses de escavações, numa área de oito metros
quadrados, na Penascosa, um trabalho agora terminado, que contou com a
participação de alunos de Arqueologia da Universidade de Lisboa.
Segundo
Thierry Aubry, “estes pigmentos de cor poderiam ter sido utilizados para fazer
colas, curtir peles… Mas o mais surpreendente, é que poderiam ter uma
utilização mais artística, como a pintura de rochas, quando no Parque
Arqueológico do Côa, o visível é a técnica da picotagem”.
“Isto
quer dizer que as gravuras se conservaram melhor, mas que possivelmente estes
materiais estavam disponíveis para pintar e desenhar. Estas descobertas podem
mudar a nossa narrativa sobre a arte paleolítica no Vale do Côa. Já sabemos que
houve uma presença humana contínua no Côa, que tinha várias actividades”,
observou Thierry Aubry.
Para o
especialista, “este tipo de pinturas poderia estar nas rochas ou nas peles que
serviam de agasalhos e coberturas, mas que não se conservaram”, ao contrário do
que acontece em “sítios mais abrigados como as grutas”.
“As
duas técnicas, pintura e gravura estão muitas vezes associadas, e talvez no
Vale do Côa os homens do Paleolítico Superior utilizassem a pintura há 27 mil
anos. Neste caso concreto, temos material que poderia permitir a pintura, e
agora não é só imaginação. Isto muda toda a narrativa”, disse.
Segundo
a investigação, como as pinturas rupestres não se conservavam devido ao clima,
podem ter sido substituídas ou reforçadas pela técnica da picotagem para
mostrar o dia-a-dia das comunidades paleolíticas. “Podemos supor que a técnica
da pintura foi utilizada antes da gravura e assim [com a picotagem], conservada
mais tempo esta arte. Sabemos que tinham materiais para pintar. Ainda há, nesta
matéria, muitas respostas por obter e [muito para] estudar. Estes pigmentos são
comuns numa área de um raio de 60 quilómetros entre os dois extremos do
parque”, vincou.
O
investigador sublinha o “dado concreto” obtido com a investigação: “Eles tinham
o material que permitia pintar”, tinham cores, “tinham ocre, amarelo”. “Agora,
ainda não sabemos qual foi o suporte” em que foram usados. Mas a partir dos
próprios pigmentos, através da sua análise, poderá ser possível saber de onde
provêm, se de uma rocha, se de uma pele, porque diferentes suportes vão deixar
diferentes vestígios.
As
escavações vão continuar na Primavera, no sítio da Penascosa, dado os materiais
encontrados.
As
descobertas foram apresentadas recentemente num seminário na Argélia e, de
acordo com o investigador, surpreenderam a comunidade científica.
O
presidente do conselho directivo da FC-P, João Paulo Sousa, por seu lado,
defende que tem de se olhar com rigor para o Vale do Côa e apostar na
investigação científica, declarando que tem de haver reforço de meios humanos
especializados.
“O
mapa de pessoal da Fundação tem apenas três pessoas ligadas à investigação e é
preciso um reforço urgente de investigadores”, declarou à agência Lusa.
Segundo
João Paulo Sousa, até aqui tem havido a colaboração de várias Universidades
como as de Coimbra, Lisboa e do Minho, o que permite construir equipas, porque
“os arqueólogos e outros investigadores são verdadeiros apaixonados pela Arte
do Côa”. “O nosso corpo de arqueólogos começa a entrar numa determinada idade,
sendo necessário o seu reforço”, vincou.
Quando
da criação do Parque Arqueológico do Vale do Côa, em Agosto de 1996, foram
identificadas 190 rochas com arte rupestre com gravuras em picotado, agora a
evidência da presença de cor poderá dar um novo o rumo ao conhecimento da Arte
do Côa.
Actualmente
há 1600 rochas identificadas, repartidas por 104 sítios arqueológicos, num
total de mais de 15.650
motivos, sendo predominantes as gravuras paleolíticas, num ciclo artístico de
arte rupestre que nunca foi interrompido.
A Arte
do Côa foi classificada como Monumento Nacional em 1997 e, em 1998, como
Património Mundial pela UNESCO. Francisco Pinto – “Agência Lusa” in “Jornal
Tribuna de Macau”

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